The Fade Out - Ed Brubaker & Sean Philips

 




Roteiro: Ed Brubaker 

Arte: Sean Philips

Anos de lançamento dos originais: 2014-2015

Número de edições: 12

Editora: Image Comics 

Tradução: zealfie27

Diagramação: monstroX

Créditos dos Scans: Guardiões do Globo



Sinopse


Valeria Sommers, uma estrela em ascensão na Hollywood dos anos 40, é assassinada. Charlie Parish, roteirista de Cinema e um amigo íntimo dela, é o primeiro a encontrar o cadáver. Inicia-se, assim, um complexo e tenso jogo de acobertamentos, traições, mentiras, verdades, sexo, violência e uma verdadeira aula sobre um tipo de filme raramente visto na Realidade Humana. Um filme a narrar toda a cadeia do organismo fantasioso, ilusório e enganador dos holofotes, do glamour e da fama. 



Este é o meu primeiríssimo contato com uma obra da dupla Ed Brubaker & Sean Philips, parceria de longuíssima data no Mundo Dos Quadrinhos. Para ser mais preciso, eles são dois Gênios que na Image Comics constroem em conjunto uma herança quadrinhística que entra no patamar das grandes duplas criativas de todos os tempos dentro da Nona Arte. Assim como Jack Kirby & Stan Lee, John Byrne & Chris Claremont e Bill Mantlo & Sal Buscema, Brubaker & Philips são capazes de compor universos poderosamente viscerais, realistas e de cores das mais diversas. A diferença deles para os citados é que as cores são poluídas pelo cinza da Existencialidade, tanto nos humanos comportamentos quanto nas sequências e consequências destes no cotidiano comum. O Noir tem neles dois Mestres que, idênticos aos melhores criadores dos filmes de tal Gênero e dos Pulps, autorizam-se a mergulhar totalmente no centro das podridões e escuridões humanas. E nos Quadrinhos tais composições ocorrem, um estilo de Arte que muitas pessoas ainda tendem a menosprezar por considerarem como infantil, ingênuo e dispensável. 


Não há nada de infantilidade, ingenuidade e dispensabilidade na Hollywood de 1948 retratada em The Fade Out. Guiando uma câmera narrativa que não se desvia do objetivo de contextualizar toda a história de uma impecável autenticidade em sua própria força, há autoridade a cada página. Autoridade nascida do conhecimento de perfeccionistas que se utilizam da câmera paisagística para mostrar a atmosfera e o semblante únicos de uma época conhecida como a de Ouro da Indústria Cinematográfica Norte-Americana. Os ângulos das câmeras, no entanto, mostram os lados que não queremos ver, nunca, retratando os que idolatramos nos filmes que assistimos. Seja nos anos 40, nos anos 2000 ou daqui a 800 anos, os Seres Humanos que se deslumbram e de deixam carregar para dentro de um filme sempre desejarão desviar os olhos dos reais aspectos em torno do Mundo Do Cinema. Segue-se a isto, a tendência igualmente negacionista de fechar os olhos também para o que é errôneo dentro do âmbito da Sociedade Humana, sentados todos em confortáveis poltronas para fantasiarem o máximo que for possível a nossa Realidade. Eu sou assim. Você é assim. Todos os cinéfilos são assim. E afirmo que todos os quadrinholátras são assim. 


Fantasiar em seus takes, entretanto, não está dentro do roteiro desta história sequenciando com suas câmeras o dentro e o fora do habitat de um Estúdio Cinematográfico. Esta obra aqui se situa dentro do contexto histórico dos anos 40 nos Estados Unidos e os mais bem informados dos meus leitores sabem o que foram tais anos pertencentes ao início do Século 20 naquele país. O Racismo, o Anti-Semitismo, o Sexismo, o Machismo, a Misoginia, a Xenofobia e todas as mais extremas tendências radicais de parcelas da Sociedade Estadounidense fizeram parte, explosivamente, da História daquele período. Hoje, ainda fazem, com muito barulho e a sensação de que a intolerância e a incapacidade de respeito às diferenças não foram removidas da parte radical daquela Sociedade. Somado a isto, o Anti-Comunismo e a Caça Às Bruxas em Hollywood, que condenou muitos ao esquecimento e ostracismo, movido pelo FBI e que teve sua máxima representatividade no Macarthismo, ecoa como célula primordial de grande parte do organismo narrativo daqui. Brubaker & Philips, os cineastas responsáveis pela produção de uma história que não se negou a cavar as mais subterrâneas cavernas e covas e abismos, expõem tudo que fora das salas cinematográficas daquela época era bastante comum. Não há hipocrisia ou maquiagem ou tentativas de maquiar o que aquela época foi, tudo da mesma foi condensado e aplicado para submeter aqueles(as) que lerem a obra possam se situar dentro do olhar da câmera histórica. Eu costumo me transportar para dentro de todo filme que assisto e o que podemos chamar de Quadrinho Cinematográfico, tendo em vista minha experiência de leitura descrita nesta resenha da obra aqui observada, me transportou para dentro de cada frame da narrativa. Tudo que leio e assisto, a bem da verdade, me transporta para dentro do que essencialmente são. 


E transportado para a história de Valeria Sommers fui com o decorrer da leitura. Consequentemente, na pele do personagem principal, Charlie Parish, transportei-me para outras histórias. Tudo a favor da trama central, não deixando brechas ou pontos em aberto da primeira à última página em relação ao que é considerado de modo direto. Sommers/Parish são um elo que exibe a estrutura real da Imagem Humana por trás da Imagem Cinematográfica, separando-se do conto-de-fadas que a Mídia Mainstream da época (e ainda hoje) evoca e invoca como a Verdadeira Imagem. Sommers, onipresente mesmo quando não surge em flashbacks, é a plena soma das sonhadoras que partem para Hollywood em busca do sonho de serem estrelas de um firmamento sempre em constante crescimento. Parish, roteirista com crise de criatividade, autor de histórias que modelam todas as fábricas de sonhos distribuídos na tela grande, é um sonhador como muitos que através das Letras pretendem fazer parte da mesma constelação. Uma atriz e um roteirista, a Deusa que trabalhada é por um Estúdio a ser venerada e o Pai de Deusas & Deuses como ela através do impacto de roteiros por eles escritos nos espectadores elevando a aura dos intérpretes, não poderiam deixar de ser os ideais veículos através dos quais o olhar para dentro do lado obscuro de Hollywood seria mais adequado. Um proprietário de Estúdio, um produtor ou um diretor seriam completamente inadequados, estão muito distantes do grande público consumidor de filmes, o que eternamente valerá para todas as épocas. Atrizes, atores e roteiristas, assim como os cinegrafistas e maquiadores e Agentes Cinematográficos, são os que estão mais próximos de citado público porque explicitamente encarnam cinematograficamente todas as tramas do panteão dos sonhos da Humanidade. Um filme é um Olimpo onde todos querem fugir de um Hades. Porém, os Quadrinhos não tem necessariamente de ser uma fuga para as fornalhas que questionam e demonstram que sonhar demais é ser cego ao Real. The Fade Out aborda que, junto ao Néctar Dos Deuses Do Cinema, há o odor de enxofre dos Lagos Infernais. E um necessita do outro, o que os personagens desta desventura cinematográfica em banda desenhada, inconscientemente, parecem de alguma forma compreender. 


E todos os personagens coadjuvantes desta saga, como os protagonistas, dentro da alma real da vida hollywoodiana fora dos filmes são intensos, transitando em seus paraísos e infernos pessoais, encarando seus anjos e demônios abissais, sem serem piegas, monótonos e iguais. A maior das características do roteiro de Fade Out foi ter dado a cada personagem uma personalidade e uma oportunidade de espalharem os focos das dinâmicas da narrativa sem arrastarem o filme (realmente, eu não li uma História Em Quadrinhos, assisti a um Verdadeiro Filme dos mais autênticos) para os famosos preenchimentos de vácuos narrativos que assassinam uma produção. Nas mãos do hábil diretor Brubaker, a condução de todos eles é legítima dando uma liberdade visível que dá a impressão de estar se ouvindo as batidas do coração de cada um. Nas mãos do igualmente hábil diretor Philips, expressões e cenários dominados por muitas sombras que mostram mais do que deveriam mostrar, metaforicamente falando, há a possibilidade de sentir a presença física de cada um deles. O Amor dos criadores por sua obra tem expressividade a cada passagem, apreciação de página e acomodação do olhar leitor a toda condição das nuances narrativas. É o aspecto intrigante desse mesmo Amor que não leva esta história para um Final Feliz, uma babaquice que os grandes diretores de grandes histórias como esta há milênios abandonaram. Nunca haveria a possibilidade de um Final assim aqui, todo o peso da sujeira e do lixo, um mix de todos os filmes da Realidade Terrestre de A a Z, condenam o fechamento da história para algo poderosamente coerente com sua própria natureza e desenvolvimento. Muito do que não é explicado, se a sua leitura for como a minha (a de um cinéfilo contemplando um filme quadro a quadro), ficará bem claro em suas meditações acerca do que contemplou. E tudo que não pôde ser explicado, leitores virtuais, é deixado pela dupla criativa para que cada leitor, por si mesmo, possa ter a porta aberta da mente para o alcance de muitas e todas as explicações. Assim agem todos os maiores e melhores Autores de Quadrinhos atuais. Na minha inominável opinião, quem entrega muito ou tudo aos leitores não pode ser considerado um Autor ou Autora de verdade. 


Completando cada uma das doze edições, há pequenos artigos sobre algumas Estrelas Cinematográficas do Passado, de um ponto narrativo que não as glorifica ou condena, expondo apenas a verdade quando todas as câmeras estão desligadas. Cada artigo é a própria afirmação da essência de The Fade Out por si mesmo, aplicável ao senso de respeito e responsabilidade dos Autores para com a necessidade de Ser da obra em seu todo. Algo que a esta intrinsecamente complementa e nada tem em suas linhas de sublime, belo e desejável. 


Saudações Inomináveis a todos vós, Seres Do Mundo!

















Ed Brubaker & Sean Philips 



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