O Triste Homem Triste Da Silenciosa Casa Silenciosa

 

Photo by Sander Weeteling on Unsplash


Há um homem habitando certa casa, tendo como a mais frequente companheira uma tristeza incessante, amarga e indesejável. É uma tristeza que se prega às paredes da casa, sendo ainda mais possante na dimensão hexagonal do quarto onde ele pesadamente adormece e desperta. Cada adormecimento e cada despertar, para tal homem, dentro das seis dimensões possíveis de um quarto torturante, representa uma luta que não pode ser vencida. Luta contra uma solidão gloriosamente imperiosa sobre o Ser que ele é, ouvindo os sons da perturbada cidade em redor como sinos de um modo que não é para ele. Crônico solitário desta crônica sobre tristeza infindável, esse homem está todo vazio, todo estranho, todo desprovido de um sentimento além daquele que o acompanha junto com todos os saudosos fantasmas das lembranças do passado em um lamentável presente construtor de um imprevisível futuro. 


É o homem mais triste e solitário da Terra. Pelo menos, ele pensa que assim é, observando tanta gente alegre e acompanhada quando é obrigado a olhar para além dele mesmo. Cada olhar deste lhe dói, dando-lhe profunda inveja de quem consegue sorrir e gargalhar no meio de um mundo destruindo-se cada vez mais. O mundo deste homem já se destruiu há muito tempo e o mundo de todas os demais homens e das mulheres deste planeta caminha para o mesmo implacável destino. Há muitos outros homens como ele, mulheres também, os tristes e solitários da Terra em silenciosas casas que meditam solenes no meio das cinzas da Grande Cidade Humana. O homem que aqui é objetivo destas linhas, não tem escolha maior do que aceitar tudo que, implacável e dinâmico, se ergue como um todo deflagrador de uma cada vez maior solidão no interior de um silêncio avassalador. 


Ele mesmo construiu essa solidão. Ele mesmo conserva esse silêncio. Ele mesmo considera necessária a manutenção de cada mecanismo do solitário desenvolvimento da casa que habita. Ele mesmo revigora o denso silenciar de todas as áreas da casa como quem busca ser um eremita envolto por concreto, tijolos, azulejos, pisos, árvores e animais de estimação. Eremita da urbana caverna como Paulo, O Eremita, alimentando-se do vento das desenterradas memórias com a ajuda dos leões que lhe trazem a cada hora as refeições do Akasha. Leões que cavarão a sepultura dele, como aqueles que cavaram a de Paulo, diante do olhar de Santo Antônio, com a mesma tristeza pelo fim de um leão que há bastante tempo parou de alto rugir. Rugidos, sim, o homem já foi um leão em sua própria selva, com um Ego do tamanho da Criação, com uma Vaidade do tamanho do Absoluto, com uma Arrogância do tamanho do Infinito. E tudo foi embora, sobra hoje apenas um desesperador vazio, que não está conseguindo ser preenchido pelos prazeres visuais, carnais, religiosos e relaxantes que a Internet oferece. O homem mais vazio da Terra, ele passou a ultimamente considerar-se com bastante razão e certeza. O que sobre ele cai é sempre a incerteza do próximo passo no amanhã, este que é dentro da mente dele uma paisagem muito mais vazia do que ele. 


Paisagens sempre enganam os tristes homens tristes de sempre em todos os tempos. Passagens para outras paisagens sempre fazem estremecer silenciosas casas silenciosas acostumadas com o desencanto das que anteriormente os moradores delas percorreram. O homem que aqui é o narrativo personagem desta contemporânea história, inapreciada por aqueles que não mais se atentam a qualquer tipo de história, se tornou um iconoclasta de paisagens e um exímio niilista que picha os mitos sobre as visões de felicidade e prazer neste cinzento deserto planetário. Em redor de cada recanto da casa sem nenhum tipo maior de som do que a da voz de tudo que é nele silêncio, os cadáveres das ilusões, dos planos e das esperanças dele estão apodrecendo. Ratos são mortos por gatos e nenhum cadáver, assim, é incomodado, pois o homem quer continuar a observar cada um deles, estudando seus passos que ontem foram falhos. Estudos que hoje são árvores morrendo. Estudos que amanhã são incertos de se tornarem campos floridos. Desencantadas Princesas acompanham este homem no aplicado estudo. Princesas chamadas Angústias. Princesas batizadas como Torturas. Princesas companheiras como Assassinas Esposas Harpias. 


O homem pode ser, assim, amado por quem ele construiu como única companhia, mesmo sendo outros fantasmas a mais dentro da casa que nada está mais falando. O homem, deste modo drástico para quem foge do próprio encontro com a verdade d'alma, se contenta com a fantasia do próprio conto de Terror e Horror que nunca grita ou lhe faz gritar. O homem, negando tudo que sorri ou gargalha fora da casa dele, de uma maneira a abraçar as mentiras de algumas companhias que não estão de verdade com ele, afirma e reafirma a necessidade de seu total isolamento existencial. A reclusão para ele mais do que vital. A reclusão para ele mais do que fundamental. A reclusão para ele mais do que gratificante. A reclusão, nele, mais do que amiga para as muito silenciosas horas silenciosas de cada dia e de cada noite em sua casa que não emite nenhum som de fora. A reclusão, dele, que não é questionada como loucura ou covardia, insensatez ou fuga, desânimo ou egoísmo, exagero ou desprezo pelo restante das casas de toda a Humanidade. A reclusão é o verdadeiro pai do homem. A reclusão é a verdadeira mãe do homem. Deste homem aqui escrito nestas solitárias linhas solitários de tristes semblantes tristes. 


Homem que pode ser um vizinho seu, mas você não o vê, assim como não ouve. Homens como ele costumam ser tão invisíveis quanto os mendigos que seus olhos apagam logo que deixam de vislumbrá-los, sujos e esfomeados, jogados em uma praça ou calçada. Homens como ele podem até gritar em desespero pedindo por socorro de diversas maneiras, mas você nunca ouve porque está preocupado consigo mesmo ou com a mais recente novidade das cinzas midiáticas diárias. Homens assim estão por toda a Cinzenta Cidade, por toda a Humana Comunidade de cada cinzento pedacinho de solo de todas as humanas construções. E para todos são como para você, invisíveis; e, tentando falar algo que chame qualquer tipo de atenção, não são ouvidos. Por isso, eles se calam, se isolam, casam-se com a Deusa Tristeza e com a Deusa Solidão. Triângulo amoroso do clube de guerra da Deusa Depressão, a Afrodite Da Melancolia, nascida da espuma do mar tocada pelo sangue de todos os suicidas ao longo da História Terrestre. Ela é a Deusa que acompanha este homem e digo a você que nunca pense que Ela pode ficar longe da sua cinzenta vidinha de cinzentas passageiras estúpidas realizações e satisfações. A Deusa Dos Tristes Homens Tristes E Das Solitárias Casas Solitárias entra onde quer sem dar um aviso qualquer, é a mais incômoda dos invasores de nossa Realidade. Cuide-se para que Ela não invada a sua Essência, cinzento homem, cinzenta mulher. 


Cuide-se porque não é fácil para este homem que aqui foi revelado nesta crônica ser um objeto de culto e adoração de dita Obscura Deusa. A Depressão ama os tristes homens tristes, as tristes mulheres tristes. A Depressão habita as solitárias casas solitárias. Não queira ser amado por Ela. Não queira que Ela habite em sua casa. Ela já ama e reside demais em homens como este aqui. 


Inominável Ser 

O TRISTE

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TRISTE







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