Crônicas Da Cinzenta Cidade - Vigésima Quarta Crônica

 

Foto de Taryn Elliott no Pexels



Na Cidade onde crianças são assassinadas e seu sangue oferece à Mídia uma chance de obter-se a mais carniceira das audiências, a prova de que chegou-se ao fim da História é nitidamente a parcela que define tudo. Tudo que tem a ver com o assassinato de nossa Espécie aclamada como supostamente racional e que bebe o sangue de crianças assassinadas em páginas de jornais, sites informativos e Redes Sociais. A Canibal Humanidade, A Vampira Humanidade, A Licantropa Humanidade. 


Pois, canibais jazem incorruptíveis nas atitudes mais banais. 


Pois, vampiros se tornam saudáveis à custa da desgraça de quem mais sofre. 


Pois, licantropos reais se libertam uivando acima das dores no palco onde cada uma é anunciada. 


Gostaria de poder escrever esta Cinzenta Crônica aqui falando do quanto estamos, nesta época de Crise Sanitária Mundial, sabendo remover muita cinza historicamente acumulada por cada um de nós. Poderia, mesmo, pesquisar sobre grandes atitudes e caminhos novos sendo tomados para que tudo do cinzento indesejável esteja sendo derrubado. Entretanto, seria eu um desonesto cronista fugindo do fato de que em um mundo onde crianças assassinadas atraem a fome e a sede de pessoas por calamidades das mais bárbaras não existe mais nenhum tipo de esperança ao longo da estrada dos atuais e vindouros dias terrestres. 


A estrada se torna dura demais para quem quer apenas dar um mínimo passo entre os urbanos desertos. Fica difícil até sair de casa, indo para o meio de toda uma turba de gente que devora densas cinzas do que um dia foi uma Humanidade quase digna. Quase porque no meio de tantas mulheres e homens formidáveis do Passado, houveram os mais atrozes instrumentos da decadência e da degeneração da Espécie Humana em cinzentas mulheres e cinzentos homens Abomináveis. Gente que hoje ainda nasce e continuará nascendo, a pequenez existencial acompanha cada cinzento nascimento dos que na Grande Cidade Humana transbordam ferozes e velozes além das ruas. 


O pessimismo deste cinzento cronista cada vez mais aumenta e os nomes vão desaparecendo cada vez que disparo aqui uma Cinzenta Crônica. Nomear a  beatitude de toda cadência da Civilização atual rumo ao abismo total tem sido um trabalho tirânico e titânico. Tirânico por me obrigar a guerrear com os termos corretos para não soar um estúpido escrevendo sobre a humana estupidez. Titânico por me fazer querer encontrar dentro destas cinzentas análises um erro meu acerca da observação que faço do que escorre pelas veias do organismo da Cinzenta Cidade. Talvez, eu seja mesmo um estúpido e tenha que conviver com a minha estupidez deitando casado com as minhas cinzas. Talvez, eu seja um errôneo analista tentado a emular os grandes analistas históricos que desfilaram em livros análises sobre o Cinzento Caminho Humano. Conviverei bem com isso tudo se um dia isto eu mesmo confirmar sem nenhuma dúvida em mim. 


Mas, não conseguirei jamais me acostumar com crianças assassinadas servindo aos sujos propósitos do capital, da busca pela audiência, da chegada a um tipo de nojenta exploração do sangue de cada uma derramado. Dentro disto, crianças violentadas e espancadas também são ótimos veículos para as fornalhas midiáticas queimarem ainda o resto de compostura que algum dia, possivelmente, já tiveram. A crueldade de um assassino, estuprador e espancador de uma criança perde para os que sobrevivem na Mídia através disto. E os consumidores de toda essa mercadológica crueldade, fingindo indignação e revolta, contribuem para o contínuo explorar dos frágeis corpos de crianças brutalizadas. Ele finge porque seria danoso para eles anunciarem publicamente o gosto pelo sangue presente nas histórias narradas no que lêem, ouvem ou assistem. Esta é parte da população de cada Cidade Terrestre, senhoras e senhores socialmente aceitáveis para o bom viver em comum nas ruas e fora das ruas. A parte mais cinzenta da Desumanidade. 


Uma parte que me faz querer me atirar do alto de um prédio. Porém, olho para toda uma cidade do alto de suas cinzas e digo que isso seria um ato de auto-martírio medíocre, desnecessário e desprezível. Meu cadáver seria apenas mais um a ser explorado pelos noticiários como um adulto que foi muito assassinado, violentado e espancado pela existência neste Cinzento Mundo. Eu seria mais um assunto do programa do Datena e mais um a ser chamado de covarde por ter desistido da cinzenta excrescência de uma cinzenta vida. 


Inominável Ser 

CINZENTO 

CRONISTA 

INOMINÁVEL





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