Uma Segunda Leitura De Clube Da Luta



Capa  do meu exemplar de Clube Da Luta - Foto por Inominável Ser 



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Uma Esquizofrênica Resenha Para Os Vinte Anos Do Clube Da Luta De Chuck Palahniuk



Inomináveis Saudações a todos vós, Seres Do Mundo!


Após quatro anos da leitura da versão em PDF de Clube Da Luta, de Chuck Palahniuk, eu tive a oportunidade de adquirir no ano de 2020 a versão impressa a um modesto preço de R$ 10,00. Foi comprada em um quiosque no meio do corredor de um shopping junto com uma edição de Assim Falava Zaratustra, de Friedrich Nietzsche, cuja leitura já estou terminando (e em breve haverá publicada aqui uma resenha do mesmo), pelo mesmo preço. Em uma época de livros custando de R$ 100,00 a R$ 150,00 ou mais, adquirir um exemplar de dois Clássicos Literários a tal preço, bem abaixo da atual faixa do mercado, é uma grandiosíssima vantagem. 


Afora o custo que não dói no bolso, falando exclusivamente de Clube Da Luta, a experiência visceral e hipnótica da leitura anterior foi a mesma, com a novidade de que sentir o cheiro do livro, literalmente, tornou o contato com o texto ainda melhor. Esta é a segunda edição via Editora Casa da Palavra/Leya, também nomeada agora como a Editora Casa dos Mundos/Leya, lançada no ano passado, oito anos após a primeira, de 2012. O trabalho gráfico é de diagramação impecável da Moré Designer torna o exemplar bem adequado para a manipulação e leitura. O papel de miolo Offset 75 g/m², e o da capa, Supremo 250 g/m² são suaves nas mãos, não dando a noção de que se está folheando algo com grosseira constituição. Não costumo me atentar a estes detalhes gráficos dos exemplares que possuo de obras impressas nas Resenhas publicadas aqui no Mundo Inominável, mas percebi realmente a diferença de se ter em mãos algo que lido em PDF parece relativamente frio. Apesar da facilidade da leitura em um Scan e da importância do livro em sua essência para mim, faltava sentir o exemplar físico em mãos, ter o peso e a energia do mesmo perto da minha pele. 


(Mas, este assunto sobre a energia que um livro carrega beira o Ocultismo, referente às Formas-Pensamentos do Autor ou Autora de uma obra literária ou de qualquer outro Gênero de escrita. Um assunto, leitores virtuais, para um outro tipo de texto, a versar especificamente sobre o Tema. Aqui, me concentro no detalhamento da segunda experiência de leitura deste livro, apenas.)


Agradou da mesma maneira anterior a Tradução de Cassius Medauar, com Revisão de Margô Negro, adaptação perfeita do texto original que em nada retira do impacto que Palahniuk quer proporcionar. Porque, como bem escreveu Vasco Graça Moura no início da Introdução da edição de A Divina Comédia, que a traduzir com base no Idioma Italiano dos Séculos XIII/XIV para o Português Contemporâneo de Portugal, pela Editora Landmark:


“Traduzir é, antes de mais, uma luta corpo a corpo com dois adversários principais e vários outros, de toda a ordem e de importância muito diversa. Os principais são a própria língua do tradutor, com a especial mobilização de recursos que implica para o fim em vista, e a língua do texto original, na específica configuração e concreção literária do texto sobre que se opera. Entre os restantes, conta-se a série de disciplinas, de fontes e de informações díspares que, muitas vezes, se tornam indispensáveis à interpretação. Nesse corpo a corpo, o autor da tradução tem de conseguir penetrar nas veias do discurso a traduzir, compreender-lhe a lógica e as articulações Interiores, encontrar a relação interativa de equivalentes que se permita se fale transposição da língua original para a de acolhimento, no conjunto de circunstâncias concretas que, naquela, a tornaram numa específica obra literária e, nesta, aspiram a sê-lo também.”


E, como acréscimo, reproduzo o que Rejane Dias, no pequeno Texto Introdutório da Ética de Baruch de Spinoza, pela Autêntica Editora, traduzida por Tomaz Tadeu a partir do original em Latim, escreveu:


“Toda tradução, como se sabe, implica escolhas, que dependem, em certa medida, das preferências e do entendimento do tradutor. Se foram as melhores ou não é algo que apenas os leitores e a crítica poderão nos dizer.”


O assunto aqui desta postagem é o do título da mesma, não quero torná-la outra coisa de natureza diferente. Apenas estou citando elementos textuais introdutórios de duas outras Obras Clássicas que possuo para corroborar o quanto me agrada a eficiência a Tradução no livro aqui resenhado. O que falta na segunda edição de Clube Da Luta é um texto do Tradutor do original no qual seja especificada a configuração da condução do trabalho feito para a adaptação do livro para o nosso hoje tão combalido Português (escrevo assim porque, após vários Acordos Ortográficos o nosso Idioma foi se empobrecendo e mediocrizando a níveis estratosféricos). Não posso aqui especular sobre o trabalho de Medauar, a falta mesmo de um texto que fale do método de tradução dele, escrito pelo mesmo, é algo que a própria Leya deveria pensar a respeito para a próxima edição da obra no Brasil. No entanto, pelo meu olhar de leitor, lhes afirmo que ele venceu a luta corpo a corpo com as palavras originais e suas versões em nosso Idioma, fazendo as escolhas corretas nos momentos corretos onde termos especificamente naturais aos Estados Unidos da América seriam intraduzíveis. Muito que há no texto de Clube Da Luta não é da realidade cotidiana brasileira em termos de referências culturais e o Tradutor dele merece todo reconhecimento possível por ter sido feliz na aproximação do mesmo para o entendimento do leitor brasileiro. 


E, afora os termos da Cultura Contemporânea do país de Palahniuk, a própria linguagem narrativa, com mescla de muito delírio e ilusões psíquicas, se fosse traduzida por alguém sem o menor talento para o ofício de Tradutor, redundaria em um tremendo fracasso. Quase não me toquei em muitos detalhes aqui descritos na leitura anterior, narrada na primeira Resenha (o link da mesma está lá acima, antes do texto em si, caso algum de vocês tenha passado direto por ele) porque me liguei mais no impacto direto em minha mente da narrativa do que no escopo tradutório. Este, que conseguiu fazer com que a densidade do texto, sob a ótica de um esquizofrênico (cujo nome nunca sabemos, Joe é apenas um apelido dado por ele a si mesmo; a certa altura perto do final do livro, ele mostra a Marla Singer que o nome dele não é Tyler Durden; mas, Palahniuk mantém o mistério sobre o real nome do fascinante e perturbado narrador da história, mais um detalhe que deixei passar em branco na minha primeira leitura), se tornasse plausível e de fácil leitura para todos os tipos de leitores brasileiros com diversos graus de entendimento, é de uma eficácia rara entre os livros traduzidos que já li. Todo o roteiro da insanidade especificamente peculiar do personagem que se apresenta como Joe ecoa como se, tirando toda referência à realidade estadounidense, pudesse ser uma história bem próxima a todos nós. 


Qualquer Idioma para onde Clube Da Luta seja transposto, de modo tecnicamente respeitoso dos recursos da Linguagem utilizados na transposição do original para aqueles, vai fazer com que o livro possa ser interpretado como algo que pode ocorrer bem perto de cada leitor. Atualíssimo e atemporal, ele é muito mais do que uma "ode ao macho alfa contemporâneo”, como muitos ainda tendem a defini-lo. Trata-se, a bem da verdade, de um Verdadeiro Manifesto a favor da Revolução que devemos buscar contestando tudo o que fomos obrigados a nos tornar através da Escravidão proporcionada pelos Véus de Maya da Mídia e os Bezerros de Ouro dos Governos Estatais. Tyler Durden é o símbolo de uma ainda tímida resistência a tudo que oprime o Ser Humano, vindo de cima, de outros Seres Humanos que se julgam “Autoridades Superiores” apenas porque exercem algum tipo de Poder, porque somos ainda uma Espécie covarde, tola, fraca e medrosa. Cada ato de rebeldia e de combate ao Sistema, presentes na fala de Tyler, a melhor faceta que qualquer um de nós deveria pôr à tona de vez em quando ou de modo permanente, é a mais visceral composição de um terrorista que se advoga com o direito de destruir toda a Civilização e seus alicerces. Com atos materialmente violentos e ideologicamente agressivos, como certeiras porradas n'alma do leitor, a subversão da personalidade subterrânea do narrador da obra é uma proposta que, se seguida do modo correto em termos de pormos nossa agressividade para realmente mudar este mundo que hoje está sendo destruído por uma tenebrosa Crise Sanitária Mundial, proporcionaria verdadeiras radicais mudanças na Sociedade Humana


Porém, como dito acima, nossa covardia, tolice, fraqueza e medo nos proíbem de sermos criativamente agressivos em busca do ideal da mais anárquica libertação para uma forma de existência radical onde nós mesmos possamos ser os senhores de nossos destinos, caminhos e escolhas. Os clubes clandestinos de luta fundados por Tyler usando a pele de sua casca física funcionam como catarses para as explosões de todas as insatisfações de seus usuários. Regras específicas para evitar a descoberta da natureza e existência dos mesmos ou mortes na arena  são detalhes dentro da mentalidade de que cada ação catártica leva a um momento de êxtase quase nirvânico. Há referências a mantras e meditação guiada nas descrições de Joe de suas aventuras por grupos de auto-ajuda de diversas naturezas. As noites de combate nos clubes da luta são muito mais eficientes, liberando toda a carga de violência e insatisfação dos homens neles envolvidos por terem levado uma vida inteira cegados pela Tradição Familiar e a Institucional. A única mulher ativa no livro, Marla, não é comum à primeira vista, mas se revela uma espectadora bem próxima de uma realidade que se pretende revolucionar o mundo. E a ausência de outras mulheres não é uma referência, a meu ver, a uma completa Misoginia que alguns vêem no texto. Troquem os homens se esmurrando por mulheres, ponha uma narradora feminina e uma Tara Durden como a personalidade mais intensa e visceral do livro e vocês, leitores virtuais, alcançariam as mesmas visões pessoais sobre ele que agora possuem, por influência do filme (que podem ter assistido antes de lê-lo) ou do mesmo em si. Preparadas e preparados para este exercício imaginativo bem simples para que o nascer de até novas opiniões sobre Clube Da Luta surjam em vocês? O foco sempre será o mesmo, homens e mulheres neste mundo que não é ainda verdadeiramente nosso, porque não o conquistamos de verdade e somos apenas ocupantes dele, bêbados, drogados e feridos pelos dias e noites nas quais nada muda em nossa realidade exterior ou interior, se tornariam tais quais os Macacos Espaciais do Esquadrão Revolucionário criado por Tyler. Sabonetes artesanais fabricados com gordura humana. Beijos nas costas das mãos de todos e de todas. Olhos roxos e costelas quebradas em todos e todas. 


O que há de diferente nesta segunda edição é um Posfácio escrito por Palahniuk, apresentando o processo da escrita, o caminho até a publicação e as consequências da influência do mesmo na Cultura Mundial mais por força do filme dirigido por David Fincher e estrelado por Edward Norton, Brad Pitt e Helena Bornham Carter em 1999. Foi a partir deste filme que o livro se tornou mais conhecido, famoso e vendeu muito mais do que quando lançado três anos antes do Cult Movie. Destaco, próximo ao final do Posfácio, este trecho que expõe exatamente a maneira como o livro foi reconhecido depois do filme:


“(...) Desde então milhares de pessoas escreveram, a maioria dizendo 'obrigado'. Por escrever algo que fez o filho deles ler de novo. Ou o marido. Ou seus estudantes. Outras pessoas escreviam cartas, um pouco bravas, dizendo que elas tinham inventado a ideia dos clubes da luta. Em acampamentos militares. Ou campos de trabalho na era da Depressão. Eles ficavam bêbados e pediam um ao outro: 'Acerte-me. O mais forte que puder…'. 


Os clubes da luta sempre existiram, eles diziam. E sempre existirão os clubes da luta. 


Os garçons continuarão mijando na sopa. As pessoas continuarão se apaixonando. 


Agora, sete livros depois, os homens continuam me perguntando onde podem encontrar um clube da luta na região onde moram. 


E as mulheres ainda perguntam se há um clube onde elas possam lutar umas com as outras. 


Agora, esta é a primeira regra do clube da luta: Não há nada que um zé-ninguém do Oregon com uma educação de escola pública possa imaginar que um bilhão de pessoas já não tenham feito… (...)”


Verdadeiros livros que se dignam a ser bombas derrubadoras de todos os alicerces que tolhem e podam a autenticidade humana possuem essa natureza de serem para todas as culturas, épocas, mentes, gêneros e etnias. Esta pode até não ter sido a intenção de Palahniuk ao escrevê-lo, mas uma obra, quando publicada, passa a pertencer ao mundo, não a seu Autor e Autora, adquirindo uma Essência e Existência próprias. Outras leituras de Clube Da Luta farei, por mais que o tempo passe, o livro é um dos melhores e maiores que já li em todos estes meus 44 anos de atual Existência Física. Talvez, até um dia eu participe de um clube assim, porradaria faria bem para o descarregar de todas as marcas subterrâneas da personalidade de um depressivo crônico grave como eu… Ou crie o meu clube, O Inominável Templo Da Porrada, para homens e mulheres se digladiarem em uma arena clandestina ou em praça pública mesmo (antes da chegada da Polícia) a fim de se sentirem e situarem aqui neste mundo Verdadeiramente Vivos…  E se não houver nenhum acidente ou inconveniente nas próximas horas, amanhã publico aqui a Crítica Livre do filme que o adaptou. Um filme que há tempos já deveria ter aqui comentado. 


Saudações Inomináveis a todos vós, Seres Do Mundo! 






Contracapa do meu exemplar de Clube Da Luta - Foto por Inominável Ser 



Chuck Palahniuk 




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