Considerações Sobre Clube Da Luta

 




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Uma Esquizofrênica Resenha Para Os Vinte Anos Do Clube Da Luta De Chuck Palahniuk


Uma Segunda Leitura De Clube Da Luta 




Estados Unidos

1999

Cor 

139 min 


Direção

David Fincher


Produção

Art Linson

Ceán Chaffin

Ross Grayson Bell


Produção executiva

Arnon Milchan


Roteiro

Jim Uhls


Baseado em

Clube Da Luta, de Chuck Palahniuk


Narração

Edward Norton


Elenco

Brad Pitt

Edward Norton

Helena Bonham Carter

Meat Loaf

Jared Leto


Música

Dust Brothers


Direção de fotografia

Jeff Cronenweth


Direção de arte

Chris Gorak


Figurino

Michael Kaplan


Edição

James Haygood


Companhia(s) produtora(s)

Regency Enterprises


Distribuição

20th Century Fox


Lançamento


Estados Unidos 

15 de outubro de 1999


Brasil 

29 de outubro de 1999


Idioma

inglês


Orçamento

US$ 63 milhões


Receita

US$ 101 milhões




Sinopse


Um explosivo sofredor de insônia (Edward Norton) e um carismático vendedor de sabonete (Brad Pitt) canalizam agressão primitiva masculina transformando-a em uma nova e chocante forma de terapia. Seu conceito pega, e formam-se diversos clubes da luta clandestinos em cada cidade, até que uma mulher sensual e excêntrica (Helena Bonham Carter) entra na jogada e desencadeia uma situação fora de controle rumo ao caos. O New York Times declarou que O CLUBE DA LUTA talvez precise ser assistido mais de uma vez. Aqui está sua chance. Prepare-se para o impacto.




Inomináveis Saudações a todos vós, Seres Do Mundo! 


Na transposição de uma obra literária para outra Mídia Cultural, o peso daquele que é o principal responsável pela sua transposição é o que mais conta. Peso demais torna a experiência enfadonha, monótona, pesada e arrastada. Peso de menos constitui-se em algo fraco, covarde, sem vida e sem alma. E o que ocorre quando a mão é amputada e o que passa a valer é o livre exercício de uma obra falar por si mesma sem ser triturada por dedos gordurosos de sabão derretido em uma frigideira? Ocorrem adaptações cinematográficas como as de Clube Da Luta, um filme que investe na captura de tudo o que está no livro e insere mais camadas de densidades narrativas à obra original de Chuck Palahniuk com uma originalidade incrível. David Fincher amputou as mãos e, apesar do final do filme ser diferente do final do livro, o resultado se configura em um dos filmes mais geniais, estranhos, esquizofrênicos, loucos, subversivos, explosivos, atraentes e viscerais dos últimos trinta anos da História Do Cinema Mundial


Ao amputar as mãos e dirigir o filme como se estivesse sendo um outsider entre os diretores de sua época, Fincher preencheu todos os requisitos de um verdadeiro fabricantes de linguagens imagéticas das mais poderosas. A ousadia interpretativa se faz presente da mesma maneira que no original. As perspectivas dos imprevisíveis momentos se moldam assim como estão moldados no original. Não há expectativas e nem obviedades, tempo para pieguice ou sentimentalismo barato, romance vazio ou lágrimas baratas, tempo para respirar ou para refletir, exatamente como no original. Porque Clube Da Luta, O Filme, é uma sessão de porradaria natural ultraviolenta narrativa visual que funciona de uma vez só, como diretos de esquerda na garganta, chutes nas bolas, cotoveladas na boca e empurrões para cima da linha de um trem que está chegando a uma estação. Filme-porrada cuja única regra é não ter regras. Filme-porrada para as massas cansada de filmes-cagados. Filme-porrada para poucos que conseguem vê-lo como um filme-laboratório. 


E essa falta de regras seria um insosso nada sem a contribuição do suado e vertiginoso trabalho selvagem do trio de atores trazendo para o Live Action os momentos, movimentos e espíritos dos personagens no livro retratados. Brad Pitt é o Tyler Durden que foca em agredir o espectador como o insultuoso e provocador monstro cheio de revolução a cada palavra. Edward Norton é o sentimento depravado de deslocamento do Joe se situando como um zumbi em busca de um preenchimento que nunca chega. Helena Bornham Carter é a Marla Singer passageira tresloucada de um caminhão desgovernado pronto para bater em um muro e explodir. Dois incomuns e invulgares atores em dois personagens que comandam o começo, o meio e o fim de uma Ilíada Dos Descamisados Revolucionários Revoltados De Olhos Roxos E Costelas Quebradas repleta de Cavalos De Tróia recheados de mortais armadilhas. Uma incomum e invulgar atriz em uma personagem que demanda ser uma Helena de Troia Distorcida Que Não É A Mais Agradável E Bela Das Mulheres, pela qual homens não entrariam em guerra. No meio, as lutas. Entre os meios, as contravenções. Fora dos meios, as bombas e tudo o mais da anarquia que fratura as estruturas da realidade social. 


Assim pode-se sentir este filme: um experimento social para loucos de um grande hospício chamado Civilização. Porque não somos o que nós desejamos ser. Porque não temos o que nós desejamos ter. Porque não criamos o que nos desejamos criar. Porque não trepamos com quem queremos trepar. Porque não agredimos quem queremos agredir. Porque não expulsamos quem queremos expulsar. Porque não ignoramos o que queremos ignorar. Porque não matamos o que queremos matar. Porque não somos o que pensamos ser. E, não sendo o que nossos belos e caprichosos desejos obscuros alimentam, criamos seres imaginários. Somos, em diferentes graus, esquizofrênicos. Todos nós, esquizofrênicos educados pelo lixo pseudocultural dos nossos contemporâneos dias da infância à velhice e ao leito de morte. Nós, esquizofrênicos crônicos correndo atrás do bom e do melhor quando nem procuramos ser bons e melhores para nós mesmos ou para quem nos cerca. Temos, em diferentes graus, um Tyler Durden dentro de nós. Uma entidade bélica. Uma entidade autêntica. Uma entidade sincera. Uma entidade hiperatica. Uma entidade incisiva. Uma entidade contundente. Uma entidade indagadora. Uma entidade sussurando contra as mentiras do mundo. Uma entidade gritando contra as misérias do mundo. Uma entidade poetizando com os punhos o sangue, o suor e as feridas que nunca cicatrizam dos combatentes nas arenas das lutas clandestinas dentro de nós mesmos. 


Na transposição para um filme, o texto de Palahniuk adquiriu mesmo, aos meus olhos de admirador da obra, novas facetas interpretativas como as mencionadas no parágrafo acima. Pois, vejamos bem: e se Clube Da Luta puder ser levado para um caminho que o traduza como uma alusão direta aos nossos combates internos nos porões dos sujos bares da nossa consciência, esta enviando imperceptíveis mensagens sobre o querer extinguir tudo que sabemos e herdamos dos nossos ancestrais e tudo que nos obrigam a aceitar como incontestáveis verdades existenciais? Depois de assistir o filme algumas vezes, chego a ver com um olhar mais calmo que esta interpretação aqui nestas Considerações é das mais válidas. Os Seres Humanos criam caros e vários Seres Imaginários Superpoderosos se espelhando em ídolos musicais, atores, atrizes, políticos, pensadores, influenciadores digitais, psicopatas, sociopatas, mentirosos, ladrões, escrotos e escroques. Necessário se faz, como no filme, que tudo isso possa ser demolido com belas doses de porradas, sabões, beijos na mão, depredações, bombas e explosões. Ele incomoda para que desse incômodo todo possamos ver as pornografias de uma realidade onde nossa Humanidade está toda fodida, sendo fodida e para sempre será fodida. Sempre se não encaramos este buraco onde estamos como um adversário a ser esmurrado, sangrado e vencido com insana satisfação, pondo tudo sufocado em nós diante da sala de estar de nossas verdadeiras realidades. Terapia de choque única apresentada aqui como lutas organizadas por um esquizofrênico que consegue ser mais lúcido do que os que se consideram desprovidos de distúrbios mentais. 


Mas, todos nós somos loucos, perturbados, doentes mentalmente, em diferentes níveis. Nossa doença criou Deus e os Deuses, que devemos chamar para cair na porrada conosco de vez em quando. Nossa doença criou Tronos e Governos, que deveríamos destruir na porrada de tempos em tempos. Nossa doença criou senhores e servos, que devemos derrubar na porrada de hora em hora. Nossa doença criou ideias e ideais, que deveríamos violentar na porrada todo dia. Os socos, as falas, os feitos, os fatos, os quadros, as sequências, tudo neste filme é um alerta para que EU, para que VOCÊ, para que todos NÓS, deixemos de levar porrada na porra da cara, na porra da mente e na porra da alma e passemos a tecer um combo de porradas nos lugares, perspectivas, pessoas e assuntos certos. Há muito mais nele do que a superfície geral dele. Assistam-no várias vezes sem julgar, sem ordenar, sem classificar, sem nomear. Como Durden queimando as costas de suas mãos. Como o passageiro sem nome de Durden se golpeando diante do chefe. Como Singer quase morrendo e sendo trazida de volta à vida. É este o filme que estou começando a ver com os olhos de um homem de meia-idade, não um garotinho de 14 anos louco por lutas, o qual um dia já fui. 


Não apenas assistam Clube Da Luta, OLHEM para dentro das correntes narrativas de uma das Ficções Mais Reais já escritas na Literatura e transcritas para o Cinema. O que tem dentro deste Clássico Cinematógrafico seduz e muitas outras coisas tem a dizer para todas as pessoas de um mundo quebrado como o nosso. Ele é um Vírus mais mortal do que o Coronavírus porque infecta o Ser e não mata. Ao invés disso, liberta como um tiro na boca para que vejamos do alto de um arranha-céu tudo que já foi destruído sendo implodido quando verdadeiramente abrimos os nossos olhos e despertamos. 


Saudações Inomináveis a todos vós, Seres Do Mundo! 


 

07/03/2021 





























































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