Um Noturno Viajante



Passo do Malandro - Lia Sanders



Parece até que o sono vai vir agora, mas não vem. Estou aceso e acompanhado... Não é uma mulher de vida fácil, não é um homem de falsa estampa e nem um gato ou gata ronronando em meu colo. Aaron Stainhorpe emite sua sombria voz em minha cova e um Noturno Viajante está ao meu lado.

Ele vem de muito longe, mas sempre está perto. Fuma um delirante cigarro, usa chapéu e sempre está impecável em seu terno e gravata. Ginga para lá e para cá, fala pouco e tem muito a dizer.

Como eu, é um agregado à noite, vive na sombra e dialoga com as Trevas. Não sei o nome dele, nomes não são mesmo necessários na Névoa, nós aqui na Lama é que gostamos de tudo nomear. Eu somente sei que ele sabe muito bem gingar.

Como muitos, perambula com sentido para realizar determinadas obras. Está no limite e é infinitamente sabedor de que não há limites na Eternidade. Vibra gingando, saboreando das energias que emite em furacões e vendavais.

A mim, o Noturno Viajante chega como sempre chegou. Eu nunca percebi Sua Presença ao meu lado, mas agora já começo a sentir. É a ginga de um Malandro que é bem mais velho do que toda Malandragem e até anterior a esta.

A todos que ele ajuda, uma palavra de conforto. A todos que precisa, um abraço caloroso. Contra rebeldes insensatos, uma gingada em uma luta que é Capoeira e outras coisas além da Capoeira.

O cigarro Ele fuma, o uísque ele bebe e me oferece agora. Uma tragada, três goles e começo a gingar. E percebo o que Ele percebe. E vejo o que Ele vê. E sinto o que ele sente. Ele ginga e eu não percebo nada. Ele ginga e eu não vejo nada. Ele ginga e eu não sinto nada...

Ele ginga amanhã, ainda ginga ontem e ginga agora. É fumaça lá, aqui e além. Gargalha sinistro e se cala. Eu me silencio em respeito, para aprender a ginga de um Malandro é necessário primeiro aprender a de verdade caminhar. Ainda sou criança, deixo o Malandro me ensinar.

Inominável Ser
APRENDIZ
DE MALANDRO




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