Além - Christmas Humphreys - Tradução: Gilberto Bernardes de Oliveira


Além do âmbito do dia, além
Da vaga infrene do pensamento que,
Jubilosa, brame e canta, cheia
De benfajeza consciência; ainda além
Do alcance de toda imaginação
Que coisa existe? Dilata-se a mente, arredia
Da ignorância, constrói e sonha nobres
Sonhos de infância suprema;
Tudo em vão. O pensamento baqueia, desespera-se,
Mãos vazias confessam impotência.

Ciência: palavra cheia de arrogância.
Poder da mente: eis o pensamento enlouquecido de si.
Coração: eis a barreira
Ideal para a Realidade. A água mole
Derrui aos poucos a rocha forte e
Viva. O infatigável coração derruirá as
Muralhas graníticas do eu, do louco eu? Eis uma esperança vã;
Pois pensamento e sentimento, gêmeos da razão,
Geram-se no ventre da tosca dualidade.
Não é assim, não é de arma na mão,
Não é através de uma luta dura a dois
Que se ganha a batalha.
Súbito, porém, feito inimigo o amigo, e cada
Qual reduzido a pó
                               Que acontece?

Que degraus, que aclives levam
A uma nova consciência? Como saber mais
Que tudo, acima de tudo?
A palavra impressa é já um fardo;
A fala, um som sem significado.
Nem cá nem lá; algures, enconchada,
Está a Verdade que o homem busca,
Imutável e ilimitada...
Ela é interior. Ali, o cerne de toda investigação.
Ali, não na mira da distante aventura;
Agora, não na extensão remota do tempo;
Tal é a Verdade, por mais estéril
Que aos homens se afigure. Ela chameja, reluz,
Qual um facho que nas mãos da vontade
Arde conscientemente...
                         Tal é também a fantasia;

Imagem projetada em tela projetada;
Nada há aqui da verdadeira experiência.
A máquina do pensamento prossegue;
Sem nada de valor registrar; as páginas 
Do saber estralejam. Que função, pois,
Que imediato processo consciente
Irá arrancar a máscara da aparência, quebrar os simulacros,
Deixando assim fluir livremente a vida?

É a voz da Verdade invisível,
Uma luz em cada inteligência, uma luz
Que brilha na sombria estrada do paraíso.
Mostra ela a substância do além e brilha
Na escuridão para iluminar a triste
Arena de nossa orgulhosa consciência;
Bem como a claridade solar, com raios
De experiência pura. Somente assim
Conhecemos diretamente, como quem súbito
Depara com Deus e perde a consciência própria. Então
A razão, privada de visão final, poderá ainda
Criar um aflito trampolim para as alturas,
E, mesmo quando os pés fraquejarem
Em sua caminhada, o pensamento
Se manterá cativo de uma faculdade mais nobre
E de difícil acesso. Caminhemos, pois.

Essa é a vida — Não a conhecemos nem a iremos conhecer.
O Anônimo, o Vazio, o Deus-Pai. Já os homens
Lhe deram um milhar de nomes, macularam-no com sons.
Vemos a roupagem que lhe envolve o exterior, atributos de força
E dimensão sensível à empertigada mente. Mãos postas,
Choramos, imploramos com fervor
E desespero. Sabemos contudo —
E, aí está uma primeira luz nas trevas
Da Ignorância — que tudo aquilo que respira
É filho dessa magnificência. Se, então,
(intervém argumentando a voz da razão)
O Absoluto se conhece como Uno
E nesse se desdobra sem cessar,
Não deverá a menor partícula do Todo
Identificar-se, fundir-se com a Divindade?

Infelizmente não sabe tanto o pensamento. O pensamento,
Que alivia, despetala a rosa
Cuja beleza, intangível como a aurora,
Escarnece o escalpelo da investigação. O pensamento
Proclama com alarde que sois ISSO;
Contudo, não enxerga a Luz-escuridão
Tornada visível. Sede humildes, o olho
Da intuição não tem dimensão, sabe,
E sem dúvida vê instantaneamente
Com sua visão sem olhos — súbito vê,
Diretamente, sem ver, totalmente cônscio.

Além — a palavra fraqueja. Já a Verdade,.
Esfuziante como um raio, admira os portais
Do pasmo. Outro céu não há senão
O céu daqui; não há inferno senão
A maldade humana. Não existe além!

Assim a Sabedoria entronizada na auto-identidade,
Na não-dualidade de terra e céu,
Arde, mescla e fundo tudo aquilo que é dois,
E, com isso, tudo vê
A um só tempo cindido e indiviso.
Cresce a Sabedoria; a compreensão, qual
Rosa que, despertando suavemente, de botão se
Converte em flor ao ar tépido do dia,
Com destra e consumada habilidade
Subjuga um milhar de desesperos. Sabedoria — 
— Compaixão, cada qual com a sua majestade.
Palpitações gêmeas do coração do ser, fundem-se
Numa única comunhão.
Onde vacila a razão, a discórdia num acordo
Rompe a quietude total,
Estabelecendo-se a alegria. Então a Verdade
Explode, espalhando no ar
Mil pétalas e ribombando
Nos corredores da nossa ilusão.
Ruge a tempestade. A luz é máxima.
O silêncio, visível. Um vasto conteúdo
Luminoso consome a consciência. O pensamento,
Falto de propósito, sem luz, impotente,
Abandona o esforço.
A busca terminou; não existe o Além
Senão na vastidão imensurável da bem-aventurança,
Depois do presente, depois do imediato.



Christmas Humphreys




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