A Fruta Que Sempre Estará Madura



Toda fruta que me oferecem é sempre a de um laço com o que há de melhor no mundo, mas eu como apenas uma fruta que caiu aos meus pés do galho de uma árvore por mim venerada. Toda manhã como de tal fruta junto com o café mais quente e o pão mais macio. Todo meio-dia como de tal fruta junto com o arroz e o feijão da diária labuta. Toda tarde como de tal fruta junto com o biscoito e o chá oferecidos pela chegada da brisa trazendo certa melancolia. Toda noite como de tal fruta junto com a sopa de letras que infindavelmente chegam até mim como um turbilhão de vozes e presenças. E a fruta nunca me deixa satisfeito, sempre quero saborear mais dela até mesmo nos Braços do Sonhar.

E eu tenho que escrever. E eu preciso escrever. Mais do que nunca, eu vivo da escrita que é múltipla em tormento, benção, maldição, loucura, desespero, companhia e salvação para mim. Minhas alegrias não são as que se podem encontrar na carreira de cocaína, no cigarro de maconha, na bola de futebol, na cerveja da sexta-feira, no bordel de sábado ou na igreja de domingo. Minhas alegrias estão em meu ato de ser, simplesmente, uma porta de uma casa onde as palavras são escritas do solo ao teto e acima do telhado até o infindo espaço. São desejos nascidos da fruta que sempre estou devorando ao norte, ao sul, ao leste e a oeste deste mundo. Desejos compostos de uma mistura de fúria, tristeza, luxúria e silêncio. Desejos que ponho na escrita como a forma de expressão que me garante ainda vivo aqui e longe do alto de um prédio ou do cano de um revólver em qualquer uma de minhas têmporas.

Eu não sou o único a saborear tal tipo de fruta. Eu não sou o primeiro a preservar sempre intacta tal fruta. Eu não sou o último que exercerá um ritual acerca de tal fruta. Há quarenta anos nasci, mas há milênios essa fruta a mim oferecida pela Natureza tem feito as palavras fruirem com precisão através dos livros. E continuará sendo o alimento de muitos outros quando minhas cinzas nem mais existirem após o abandono desta minha efêmera veste. Não importa se há mentiras ou verdades ou apenas mentiras ou apenas verdades em cada livro que já foi e será escrito no mundo. O que importa é que são frutos da fruta oferecida a cada um que os escreveu, escreve ou escreverá. O que importa é que são raízes onde outras frutas são colhidas por aqueles que tiveram, tem e terão fome. O que importa é que realmente foram, são e serão apenas o que são: pedaços de almas alimentadas com A Fruta Da Inspiração.

A Fruta toma várias formas para cada artista (sim, quem escreve é artista e todos os artistas comem da mesma Fruta). A Fruta é diferente de artista para artista, indefinível por ser mutável, arisca por ser indecifrável ao outro e doce por perfeitamente dar-se ao eu de quem se inspira a partir dela. A Fruta não se oferece a quem nada cria ou transforma, ela é Musa Secreta do artista, escondida em lugar mais secreto ainda no artista. Para mim, A Fruta assume a veste de sensual mulher, verdadeira fêmea, livre por ser atemporal, lívida por ser fluente e imperial por ser indomável. A Mulher é o meu Paraíso Encontrável cada vez que escrevo, minha inspiração total é da Grande Fêmea Geradora, A Mãe Da Criação, Deusa que não se explica muito, apenas se dá a mim. Não sou, repito, o único a fazer do Feminino sua única fonte inspiradora, houveram, há e haverão outros a terem-no como Princípio Criador e Recriador de si mesmo. Há infinita arte na Mulher. Há infinita obra na Mulher. Há infinitas palavras, cores, imagens e formas na Mulher.

Este é um mundo onde me sinto absorvido cada vez mais. Não é o mundo de um feministo e nem de um escravoceta. É o mundo de um artista, o mundo inominável de um poeta, escritor, blogueiro e livre pensador. E como é o seu mundo? Como se constituem as vielas, favelas, vilas, cidades, municípios, estados e países de seu mundo? Como se chama o seu mundo? Como não se chama o seu mundo? Já comestes da Fruta ou vives a vomitar o caroço da mediocridade da humana maioria? Desculpe a direta, mundana leitora, mundano leitor, mas são perguntas necessárias nestes tempos necessários para encontros com alguma coisa. Que, pelo menos, vocês não possam encontrar frutas podres no meio da estrada e não venham a comê-las pensando serem verdadeiramente saudáveis…

Comam bem A Fruta se Ela se oferecer a vocês.

quarta-feira
03 de maio de 2017
12:20 h

Inominável Ser
COMENDO
A FRUTA
E AINDA
COM FOME




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