As Crônicas De Gelo E Fogo - Livro Três - A Tormenta De Espadas




“E quem é você, disse o altivo senhor,
para que a vênia seja profunda?
Só um gato com um manto diferente,
essa é a verdade fecunda.
Num manto de ouro ou num manto vermelho,
suas garras um leão mantém.
E as minhas são longas e afiadas, senhor,
como o senhor as tem também.
E assim falou, e assim conversou,
o senhor de Castamere.
Mas agora a chuva chora no seu salão,
e ninguém está lá para a ver.
Sim, agora a chuva chora no seu salão,
e ninguém está lá para ver.”



Título do original: A Song Of Ice And Fire - A Storm of Swords
Ano de lançamento do original: 2000
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Preparação de texto: André Albert
Revisão: Vivian Miwa Matsushita, Suria Scapin e Margô Negro
Diagramação: Página Escrita Editorial
Adaptação de capa: Osmane Garcia Filho
Ilustração de capa: Marc Simonetti
São Paulo: Leya
2011
884 p.



Sinopse:

Enquanto os Sete Reinos estremecem com a chegada dos temíveis selvagens, que atravessam a Muralha numa maré interminável de homens, gigantes e terríveis bestas, Jon Snow, o Bastardo de Winterfell, que se encontra entre eles, divide-se entre sua consciência e o papel que é forçado a desempenhar.

Robb Stark, o Jovem Lobo, vence todas as suas batalhas, mas será que conseguirá vencer os desafios que não se resolvem apenas com a espada? Arya continua a caminho de Correrrio, mas mesmo uma garota tão destemida como ela terá grande dificuldade em ultrapassar os obstáculos que surgem em seu caminho.

Na corte de Joffrey, em Porto Real, Tyrion luta pela vida, depois de ter sido gravemente ferido na Batalha da Água Negra; e Sansa, livre do compromisso com o homem que agora ocupa o Trono de Ferro, precisa lidar com as consequências de ser a segunda na linha de sucessão de Winterfell, uma vez que Bran e Rickon foram dados como mortos.

No Leste, Daenerys Targaryen navega em direção às terras de sua infância, mas antes ela precisará aportar nas desprezíveis cidades dos escravagistas. Porém a menina indefesa agora é uma mulher poderosa. Quem sabe quanto tempo falta para se transformar em uma conquistadora impiedosa?



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Aqui nesta tormenta se encontram elementos que se configuram a realidade que fundamenta a escrita de George R. R. Martin como a mais fascinante dos últimos cinquenta anos na Literatura Mundial. Nenhum leitor, por mais racional, frio e metódico que seja, sai incólume após o fechamento do livro quando do término da grande batalha. Sim, é uma batalha a leitura de A Tormenta de Espadas, o enfrentamento de diversas situações e reviravoltas que posicionam aquele que lê como ativo participante da trama. O Casamento Vermelho, O Casamento Púrpura, A Morte de Tywin Lannister, Oberyn Martell Versus Gregor Clegane, Stannis Baratheon na Muralha, Beric Dondarrion, Daenerys Libertadora, A Mutilação do Regicida e as implicações de tudo que foi sendo construído nos Livros anteriores parece ser o clímax de toda a história. Cinzas ao final deste livro, mas ainda não são as definitivas cinzas desta canção de gelo e fogo. As diversas letras de músicas cantadas durante o livro, se bem interpretadas sob um olhar que decapite a superfície das frases exteriores, estão a favor da cinzenta continuidade desta canção de gelo e fogo. As Chuvas de Castamere, mais do que qualquer outra, comprova que TODOS não estão livres das cinzas nesta sinistrissima canção de gelo e fogo.

Acompanhamos tudo, nesta obra-prima (quem duvida que não seja?), sob as óticas de Jaime Lannister, Catelyn Stark, Arya Stark, Tyrion Lannister, Davos Seaworth, Sansa Stark, Jon Snow, Daenerys Targaryen, Bran Stark e Samwell Tarly mergulhamos em trajetos cada vez mais obscuros nas tortas estradas existenciais de todos os personagens. Como já dito em resenhas anteriores da saga As Crônicas de Gelo e Fogo, o cinza em tons cada vez mais escuros é a características de cada um nas tortas vias de Westeros e Essos cada vez mais desequilibradas. Os jogos de poder se tornam mais claros e sujos conforme somos apresentados a novos jogadores dentro do jogo dos tronos. A Casa Tyrell mostra suas facetas na mais inteligente e astuta de seus integrantes, a matriarca Olenna Tyrell, A Rainha dos Espinhos, bem à frente de Mace Tyrell. Por outro lado, vemos Tywin Lannister com mais freqüência e acompanhamos mais de perto os movimentos que o tão temido Mão do Rei faz para que sua própria Casa não seja ofuscada por aquela. Interessante o modo como os Tyrell e os Lannister se digladiam, mantendo uma certa cortesia que lhes é devida, mas cada um deles, da parte dos grandes jogadores das duas Casas, querendo esmagar politicamente um ao outro. Meros peões de seus respectivos avô e avó, Joffrey Baratheon e Margaery Tyrrell protagonizam uma inesperada (ou esperada?) movimentação que duramente os atinge.

Há um paralelo interessante entre os dois Casamentos, o Vermelho e o Púrpura: ambos anunciam bodas de sangue para o todo o Inverno que chegará. Muitos que resenham este livro, em particular, se atentam apenas às obviedades concernentes às implicações a curto prazo das duas ocorrências. É claro que a Casa Frey passará a ser a mais repugnante de todas nos Sete Reinos após a infinda covardia realizada contra Robb Stark e os nortenhos presentes ao casamento de Edmure Tully e Roslin Frey. É claro que Tyrion e Sansa seriam os culpados pelo envenenamento de Joffrey devido ao que ocorreu no passado relacionado ao imprevisível comportamento do famigerado Rei. O que escapa ao entendimento de muitos é que o futuro depende do que é no hoje moldado, de toda e qualquer maneira, exclusivamente. Por mais que Martin fuja de toda obviedade, é necessário pensar em termos de que não há esperança de paz, harmonia e felicidade enquanto as divisões imperarem em um Reino. O futuro de Westeros foi totalmente definido neste fulminante livro, pois as decisões e situações nele contidas anunciam o que virá nos próximos. Aqui há ensinamentos riquíssimos por dentro do que se lê, na interna estrutura das formas que se erguem no texto conforme o mesmo dança de um lado para o outro na leitura mais aplicada e atenta. Reparem muito bem na destruição de Vidas de Quatro Reis, escrita pelo Grande Meistre Kaeth, raríssimo livro westerosi, efetuada por Joffrey usando uma espada cuja lâmina é de aço valiriano; no diálogo travado entre Tyrion, que presenteou o sobrinho pelo casamento do mesmo com Margaery, com Oberyn; e nas reflexões daquele, posteriormente acerca da estupidez do tresloucado e mimado sobrinho. Liguem os pontos, o simbolismo contido em um dos últimos atos dementes do Rei que morreu envenenado e adicionem a imaginação para chegarem ao alcance de nada precipitadas conclusões. É o que Martin quer. É o que Martin leva a seguir.

Bem de perto, imergimos em diversos aspectos e cenários de um mundo em chamas, passamos a conhecer diversos outros aspectos da multiculturalidade intrínseca à obra. Os horrores da escravidão em Astapor, Meereen e Yunkai vistos por Daenerys; os destroços das vilas e das pessoas mais humildes atingidas pela Guerra dos Cinco Reis na visão da cada vez mais amadurecida e forte Arya; as equivocadas decisões de Robb, um mero adolescente coroado rei, um mero adolescente liderando tropas, um mero adolescente que agiu como um adolescente, sob os olhos da aflita mãe Catelyn; as artimanhas realizadas no alto escalão do poder e as entranhas mais obscuras dos Lannister sob a ótica do politicamente diminuído Tyrion; os sonhos infantis de uma menina entre leões e roseirais, ambos repletos de venenosos espinhos, os sonhos da loba mais delicada de todos os lobos, Sansa; a loucura do fanatismo religioso e a subjugação de Stannis nas mãos de Melisandre de Asshai na sinceridade e lealdade de Davos, cuja ação ocasiona o surgimento de outra inesperada reviravolta no enredo; o peso da responsabilidade em manter a defesa dos Sete Reinos perante a ameaça da invasão dos Selvagens e dos Outros, esta sendo uma ameaça muito pior do que as já conhecidas, no cada vez mais seguro Jon; os Mistérios Mais Antigos da Historia Westerosi no caminho de Bran, acompanhado por Hodor, Jojen Reed e  Meera Reed no que há de mais desconhecido por olhos humanos Além da Muralha; uma pequena história de construção de força e coragem no ainda inseguro Samwell, protegendo Goiva e o bebê desta no caminho de volta até a Muralha; e o caso do Regicida, Jaime, o mais ignóbil dos Lannister, revelado, enfim, como tão humano quanto eu ou você.

Muitos apenas viam Jaime como assassino de um Rei que jurou defender até a morte e o causador da quase morte de Bran ao empurrar este de uma janela por causa do menino tê-lo visto com Cersei em momento inadequado. Incestuoso e tendo merda no lugar da honra, é sob sua visão que passamos a conhecer o outro lado da história referente ao assassinato de Aerys II Targaryen, O Rei Louco; fatos que a sua condição como Cavaleiro da Guarda Real impediam-no de falar. Sua relação com Brienne de Tarth, que a mando de Catelyn o escoltava até Porto Real a fim de trocá-lo por Sansa, se constrói de um modo rude e bastante violento. A presença de Cleos Frey como acompanhante antepõe o comportamento de dois homens completamente diferentes, possuidores do mesmo sangue (são primos). À polidez de Cleos corresponde o sarcasmo e arrogância de Jaime, sempre provocativo e impertinente; mas, todo o ar sarcástico, arrogante, provocativo e impertinente se extinguiu após ser capturado pelos Bravos Companheiros, aka Saltimbancos Sangrentos, e ocorrer o que ocorreu… E no lugar do asqueroso personagem incestuoso, assassino de crianças e desonrado de antes, passamos a ver apenas mais um homem quebrado e mutilado na alma como todos os outros homens e mulheres destas Crônicas. E a destruição da Cavalaria, no que esta no Imaginário Popular tem de belissimamente mágico, toma um vulto muitíssimo maior na pele de um homem maculado essencial e existencialmente pelo maior dos acertos que um ser humano pode realizar: ser ele mesmo.

O objetivo de Martin com esta Tormenta é quebrar tudo o que foi antes fora estabelecido nos livros anteriores. Mas, tudo antes estabelecido não era quebradiço em si mesmo? Era, mas foi neste livro que as rachaduras se romperam e o grotesco interior da trama foi exibido de um modo absolutamente bizarro de todas as maneiras. Torcer ou admirar qualquer personagem; odiar ou repugnar outro personagem: aqui, isto não tem qualquer importância. Não tem porque este jogo dos tronos não é qualquer disputazinha entre pessoas boazinhas e pessoas malignas pela vitória de seus medíocres apequenantes pontos de vista. Não estamos falando do torpe dualismo da Luta Do Bem Contra O Mal, mas de uma abordagem expondo todas as diversificadas camadas de profundidades do interior humano sem julgamentos das mesmas como boas ou más. Em cada situação, leitores de gelo e fogo, se ponha no lugar de cada personagem; sintam toda a dor de Tyrion por ter sido a vida inteira ultrajado e humilhado pelo simples fato de ser um anão; sintam todo o ódio de Sandor Clegane por tudo que lhe ocorreu ainda na infância, o inferno que visitou e que viveu; sintam toda a ambição de Daenerys, que teve toda a família massacrada por muitos que agora se encontram em redor do Trono que era para ser dela; sintam todo o sentido de busca por justiça de Beric, que viu aldeias queimadas com homens, mulheres e crianças de todas as idades violados, mutilados e assassinados; sintam todo o desespero de Catelyn, o desespero de uma mãe para salvar os filhos que ainda lhe restam; sintam cada personagem, sintam e sejam cada um destes, transfiram-se para dentro de cada um dos peões e grandes peças deste jogo onde inocentes perdem literalmente as cabeças; sintam tudo, tudo mesmo, de cada página a congelar e incinerar até a morte de ideais e ideologias particulares, comportamentos e sentimentos fúteis, transbordante em tempestuosos turbilhões… Sintam tudo… Sintam tudo… Sintam tudo…

O que cada um faria no meio de dita Tormenta?

Enfrentariam tudo?

Se esconderiam debaixo de uma pedra qualquer?

Defenderiam os seus?

Defenderiam apenas a si mesmos?

Fugiriam para um lugar onde não houvesse guerra?

Continuariam vivendo normalmente em meio à fúria de todos os acontecimentos em redor?

Jogariam o mais perigoso de todos os jogos no coração da Tormenta?

Ou, simplesmente, tombariam diante de qualquer lâmina de aço em todas as regiões atingidas pela Tormenta?

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!







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