As Crônicas De Gelo E Fogo - Livro Quatro - O Festim Dos Corvos



“(...) Irmãos marcham com irmãos, filhos com pais, amigos com amigos. Ouviram as canções e as histórias, e por isso vão se embora de coração ansioso, sonhando com as maravilhas que verão, com as riquezas e as glórias que conquistarão. A guerra parece uma bela aventura, a maior que a maioria deles alguma vez conhecerá. Então experimentam o sabor da batalha. Para alguns, essa única experiência é suficiente para quebrá-los. Outros resistem durante anos, até perderem a conta de todas as batalhas em que lutaram, mas mesmo um homem que sobreviveu a cem combates pode fugir no centésimo primeiro. Irmãos vêem os irmãos morrer, pais perdem os filhos, amigos vêem os amigos tentando manter as entranhas dentro do corpo depois de serem rasgados por um machado. Vêem o senhor que os levou para aquele lugar abatido, e outro senhor qualquer grita que agora pertencem a ele. São feridos, e quando a ferida ainda está apenas meio cicatrizada, sofrem outro ferimento. Nunca há o suficiente para comer, os sapatos se desfazem devido às marchas, as roupas estão rasgadas e apodrecendo, e metade deles anda caçando nos calções por beber água ruim. Se quiserem botas novas ou um manto mais quente ou talvez um meio-elmo de ferro enferrujado, têm de tirá-los de um cadáver, e não demora muito para que comecem também a roubar dos vivos, do povo em cujas terras combatem, homens muito parecidos com os que eram. Matam suas ovelhas e roubam suas galinhas, e daí é um pequeno passo até levarem também suas filhas. (...)”

Septão Meribald


Título do original: A Song Of Ice And Fire - A Feast For Crows
Ano de lançamento do original: 2005
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Preparação de Texto: Vivian Miwa Matsushita
Revisão: Márcia Duarte, Bel Ribeiro, Juliana Caldas e Fernanda Umile
Diagramação: Página Escrita
Ilustração da capa: Marc Simonetti
São Paulo: Leya
2012
648 p.


Sinopse:

Dan continuidade à saga mais ambiciosa e imaginativa desde O Senhor dos Anéis, As Crônicas de Gelo e Fogo prosseguem após o violento triunfo dos traidores. Enquanto os senhores do Norte lutam incessantemente uns contra os outros e os Homens de Ferro estão prestes a emergir como uma força implacável, a rainha regente Cersei tenta manter intacta a força dos leões em Porto Real. Os jovens lobos, sedentos por vingança, estão dispersos pela terra, cada um envolvido à sua maneira no perigoso jogo dos tronos. Arya abandonou Westeros rumo a Bravos, Bran desapareceu na vastidão enigmática para além da Muralha, Sansa está nas mãos do ambicioso e maquiavélico Mindinho, Jon Snow foi proclamado comandante da Muralha, mas tem que enfrentar a vontade férrea do Rei Stannis. No meio de toda a intriga, do outro lado do mar começam a surgir histórias sobre dragões e fogo… Quando os habitantes das Ilhas de Ferro se reúnem em Assembléia para escolher seu novo Rei, não é apenas o destino dessas ilhas que está em jogo. O novo Rei tem como objetivo declarado conquistar Westeros. E seu povo parece acreditar nele. Mas,  conseguirá esse Rei cumprir seu objetivo? Em Porto Real, Cersei enreda-se cada vez mais nas teias da Corte. Desprovida do apoio da família e cercada por um conselho que ela mesma considera incapaz, precisa lidar ainda com a ameaçadora presença de uma nova corre militante da Fé. Como se desvencilhará de tal enredo? A guerra está prestes a terminar, mas as terras fluviais continuam assoladas por bandos de salteadores. Apesar da morte do Jovem Lobo, Correrrio ainda resiste ao poderio dos Lannister e Jaime parte para conquistar o baluarte dos Tully. O mesmo Jaime que jurara solenemente a Catelyn Stark não voltar a pegar em armas contra os Tully ou os Stark. Mas, todos sabem que o Regicida é um homem sem honra. Ou será que estão todos errados?



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Os corvos saboreiam os cadáveres que a Guerra Dos Cinco Reis legou a Westeros. A ruína é completa, tanto no terreno físico quanto no espiritual e mental. Uma ruína acompanhando a decadência de todo um continente e de cada homem e cada mulher do mesmo. Festim Dos Corvos é um livro bastante diferente dos três anteriores de As Cronicas De Gelo E Fogo por ser participante da ambientação da narrativa em novas vertentes do jogo dos tronos. Abordando personagens de Dorne e das Ilhas de Ferro, assim como o estranho e curioso caminho de Arya Stark em Bravos iniciando seu treinamento na Ordem dos Homens Sem Rosto; a viagem de Samwell Tarly com o Meistre Aemon Targaryen, o cantor Dareon e Goiva com seu “filho”; e o crescimento dos Pardais como uma vertente da um tanto quanto extremista, é um exótico mapa da contundente diversidade desta saga. Uma diversidade acompanhada pelo faminto voar dos corvos acima de si. “Asas escuras, palavras escuras”...


Como o próprio George R. R. Martin expressou após o último capítulo deste livro, o mesmo se concentra em Porto Real e não temos a presença de Daenerys Targaryen, Jon Snow, Tyrion Lannister, Stannis Baratheon,Melisandre de Asshai, Bran Stark e a ampla gama de personagens atrelados a seus respectivos núcleos. O autor conta no esclarecimento ao final do livro que este ficaria absurdamente grande e resolveu dividi-lo em dois. Em um primeiro momento, a falta daqueles personagens acima mencionados pode parecer de uma peculiar estranheza. No entanto, diferente da maioria das resenhas que apontam um desapontamento e fraqueza na narrativa deste tomo da saga, vejo a ausência daqueles personagens como a possibilidade de expandirmos nosso olhar sob diversos ângulos que a concentração apenas em poucos núcleos não seria permitida. Há resenhistas que consideram “fraco” e o “pior” dos cinco livros lançados até agora das Crônicas este Festim. Nada tenho contra essas opiniões, mas asseguro aos que ainda não leram-no que a compra do mesmo vale cada centavo gasto.


Aeron Greyjoy, aka Aeron Cabelo Molhado, e seu fervor religioso extremo concernente à crença no Deus Afogado; Areo Hotah, o Capitão dos Guardas do Príncipe Doran Martell, em sua silenciosa e reflexiva fidelidade para com este; Cersei Lannister, Rainha Regente dos Sete Reinos de Westeros até a maioridade de Tommen Baratheon ser alcançada, mostrando seus rugidos mortais e cruéis; Brienne de Tarth em sua busca por Sansa Stark, cumprindo a promessa que fizera à Catelyn Stark de a esta entregar-lhe a filha viva e intacta; Jaime Lannister, cada vez mais a mostrar-se um homem corroído pelos muitos erros que cometera durante toda sua existência; Sansa Stark, aka Alayne Stone, aprendendo com Mindinho a arte do jogo dos tronos; Asha Greyjoy, filha de Balon Greyjoy, em sua luta solitária para impor-se como herdeira do Reino de seu falecido pai; Arys Oakheart, Cavaleiro da Guarda Real responsável pela guarda da Princesa Myrcella Baratheon em Lançassolar, um pequeno alvo peão no meio de uma das movimentações do jogo maior; Victarion Greyjoy, irmão de Balon, pretendente à Cadeira de Pedra do Mar, um brutal Capitão de Ferro perseguido por seus demônios, muitos destes referentes ao seu passado; e Ariane Martell, filha de Doran, tentando ser uma eficiente jogadora, algo totalmente fora de sua natureza e ofuscado por suas limitações.


E desta vez, quem roubou todas as atenções no livro foi Cersei. Um dos motivos pelos quais a cruel e tresloucada filha de Tywin Lannister praticasse cada erro visto no livro está no fato de ter sido apenas uma mulher utilizada como arma, brinquedo e enfeite. Uma arma pelo pai, que casou-a com Robert Baratheon, que usurpou o Trono de Ferro; um brinquedo sexual do devasso Rei, que lhe deixou profundas feridas na mente e na alma; e um enfeite para toda a Corte, alguém feito para brilhar como ouro cuja única função é ser admirado em todo seu esplendor. De Jaime recebeu amor, o único amor que conheceu, com o qual concebera os três filhos; mas, o irmão, amigo e amante mudara muito desde que retornou à Corte após passar um período como prisioneiro de Robb Stark em Correrio e ter sido mutilado pelos Bravos Companheiros. Na posse da Regência dos Sete Reinos, sua paranóia em relação à Casa Tyrell e a silenciosa e incômoda inveja que sente por Margaery cegaram-lhe por completo. Vendo inimigos por todos os lados e obecada por querer se afirmar cada vez mais como uma filha feroz da Casa Lannister, Cersei cavou a própria sepultura política com decisões totalmente feitas por impulso, sem o peso dos prós e dos contras. Uma pequena tirana se formava, mas o assobio de pardais fez com que suas asas fossem quebradas antes do alcance de qualquer tirânico vôo maior…


Este é o livro de Cersei, mas outras mulheres também se destacaram como Brienne, Arianne e As Serpentes de Areia (Obara, Nymeria e Tyene Sand). No geral, as mulheres de Martin apresentadas neste livro, tanto as participantes da trama como as mencionadas, superficialmente ou não, possuem seu valor e peso proporcionais aos seus respectivos históricos. A aproximação maior da trama para com os Homens de Ferro mostrou o Costume Antigo dos mesmos em sua grande maioria constituindo uma agressão à condição feminina. Há bastante repugnância em Euron Greyjoy, que se tornou o sucessor de Balon após prometer na Assembléia que o elegeu como tal conquistar toda Westeros com a ajuda dos Dragões de Daenerys. Também conhecido como Olho de Corvo, é um personagem que vê a Targaryen apenas mais um prêmio, tanto quanto todas as mulheres que sequestrou, violou e usou de diversas maneiras em sua trajetória como corsário. E para ter perto de si esse prêmio como seu plano para conquistar os Sete Reinos, enviou o atormentado irmão Victarion em busca da “mulher mais bela do mundo” que será a chave da conquista total. Esta trama, então, faz parte de um todo maior correspondente a importantes linhas narrativas da saga, como bem deixou nas entrelinhas exposto o autor da mesma. Tudo não sairá tão de acordo assim com os planos de Euron…


Dragões dançam por conta própria.


E dançaremos junto com eles na resenha do quinto livro destas Crônicas.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!








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