As Crônicas De Gelo E Fogo - Livro Dois - A Fúria Dos Reis



“— Corrupção! — o homem gritou estridentemente. — Ali está o aviso! Admirem o flagelo do Pai! — apontou para a esfiapada ferida vermelha no céu. De onde estava, o castelo distante na Colina de Aegon ficava diretamente por trás dele, com o cometa agourentamente pendurado por cima das suas torres. Uma escolha de palco inteligente, refletiu Tyrion. — Tornamo-nos inchados, intumecidos, impuros. Irmão copula com irmã na cama de reis, e o fruto do seu incesto faz piruetas no seu palácio ao som da flauta de um retorcido macaquinho demoníaco. Senhoras de alto nascimento fornicam com bobos e dão à luz monstros! Até o Alto Septão esqueceu os deuses! Banha-se em águas perfumadas e engorda com cotovias e lampreias, enquanto seu povo passa fome! O orgulho vem antes da oração, vermes governam nossos castelos e o ouro é tudo… Mas basta! O verão putrefato chegou ao fim e o Rei Devasso foi derrubado! Quando o javali o abriu, um grande fedor subiu ao céu, e mil serpentes deslizaram da sua barriga, silvando e mordendo! — ele voltou a balançar o dedo ossudo na direção do cometa e do castelo. — Ali vem o Mensageiro! Purifiquem-se a si mesmos, gritam os deuses, para que não tenham que ser purificados! Banhem-se no vinho da probidade ou serão banhados em fogo! Fogo!”


Um Irmão Mendicante



Título do original: A Song Of Ice And Fire - Book Two - A Clash Of Kings
Ano de lançamento do original: 1998
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
Preparação de texto: André Albert e Suria Scapin
Revisão: Bel Ribeiro, Margô Negro e Vivian Miwa Matsushita
Diagramação: Ricardo Machamiti
Adaptação de capa: Osmane Garcia Filho
Ilustração de capa: Marc Simonetti
São Paulo: Leya
2011
656 p.





Sinopse:

Quando um cometa vermelho cruza os céus de Westeros, os Sete Reinos estão em plena guerra civil. Os exércitos dos Stark e dos Lannister estão se preparando para o confronto final, e Stannis — irmão do falecido Rei Robert —, desejoso de possuir um exército que lute pela sua reivindicação ao trono, alia-se a uma misteriosa religião oriental. Porém, seu irmão mais novo também se proclama rei. E, enquanto isso, os Greyjoy planejam vingança contra todos os que os humilharam dez anos atrás.

Ainda, no distante Leste, poderosos dragões estão prestes a chegar aos Sete Reinos, trazendo fogo e morte… Um perigo de proporções gigantescas, muito maior do que as grandes guerras!

Nesta tão esperada sequência de A Guerra dos Tronos, George R. R. Martin cria uma obra de incrível poder e imaginação. A Fúria dos Reis nos transporta até um mundo de glória e vingança, de guerras e magia, onde poder e miséria podem se alterar no virar de uma página. Uma obra singular da Literatura Fantástica.



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Canções De Derrotas E Vitórias: a definição correta, a meu ver, de A Fúria dos Reis, uma obra onde a predominância do Ego realiza toda a estrutura dos acontecimentos. Ego. O Ego. Tudo que a civilização atual possui, bem transcrito por George R. R. Martin nesta saga como um todo, nasceu do Ego. Pelo Ego, governantes foram erguidos como tais para as glorificações de seus próprios nomes. Pelo Ego, religiões foram erguidas como tais para a escravização das vontades das massas. Pelo Ego, a honra foi posta sempre em primeiro lugar, mesmo que muitas vezes fosse duvidosa ou de nada valesse. Pelo Ego, a vida prosseguiu furiosamente avançando através da História, por caóticos e desestruturantes caminhos. Pelo Ego, Joffrey Baratheon ordenou a execução de Eddard Stark, que culminou em cada um dos atos vistos neste livro. Pelo Ego, Robb Stark, Balon Greyjoy, Stannis Baratheon e Renly Baratheon foram proclamados ou se proclamaram reis. Pelo Ego, Daenerys Targaryen começa sua marcha em busca de recursos para a futura retomada do Trono de Ferro. Pelo Ego, se formos bem analisar a essência de cada personagem, nos situaremos nas camadas mais perceptíveis do que em realidade Martin quer nos transmitir.

Um Rei, Sem Rainha, Sem Coroa, Sem Trono, Sem Súditos, Sem Herdeiros; Uma Rainha, Sem Rei, Sem Coroa, Sem Trono, Sem Súditos, Sem Herdeiros: o que cada homem e cada mulher neste livro é sob a ótica da quebra de valores e fantasias acerca do caminho a ser seguido segundo as escolhas que no curso existencial são feitas. O livro se inicia com a apresentação de uma das mais interessantes personagens da saga, Melisandre de Asshai, A Mulher Vermelha, aludindo tanto à passagem do cometa vermelho sobre Westeros quanto ao fanatismo da crença em R’hllor. A faceta religiosa da crença nos Sete também é explorada, assim como as crenças nos Deuses Antigos do Norte. Enfim, a Religião se mistura à Política na trama, abrindo espaço para o desfile de diversas crenças sempre atreladas ao caráter político de manipulação das massas. E a Guerra Dos Cinco Reis toma corpo com uma insana fúria, sendo que os plebeus são os mais atingidos pelas forças em conflito. Sem moderação no teor realista dos relatos da brutalidade imposta pelo conflito, Martin não nos poupa de relatos sobre massacres, estupros, torturas e diversas outras crueldades, até mesmo as proferidas através dos lábios de diversos personagens. Vivo, o pulsar das tensões explode visceralmente nas páginas, como o voar de infindos corvos famintos em busca de campos repletos de cadáveres.


Neste livro, somos guiados pelas visões de Arya Stark, Sansa Stark, Tyrion Lannister, Bran Stark, Jon Snow, Catelyn Stark, Davos Seaworth, Theon Greyjoy e Daenerys Targaryen. O personagem que mais tem destaque dentre todos é o Tyrion, o gênio que se antecipa a todos os que tramam contra seus próprios planos. Agindo como a Mão do Rei e tendo como fiéis escudeiros Bronn e os Selvagens com os quais havia se encontrado, arquitetou planos que mantiveram Joffrey e Cersei parcialmente controlados. E na Batalha da Água Negra, a forma como pensou na contenção da frota de diversas Stannis Baratheon, foi o auge de sua brilhante trilha nas páginas desta obra. Por mais que se tenha admiração por outros personagens da saga, é difícil não ficar admirado e fascinado por Tyrion, que é o mais carismático de todos. Enquanto Daenerys anda em círculos; Jon começa a se mover Além da Muralha; Sansa continua com seus contos de fadas; Bran segue com seus sonhos e premonições, até a chegada de Jojen e Meera Reed; Catelyn anda de um lado para o outro atrás de alianças políticas para o auxílio ao filho, Robb Stark; e Arya percorre uma estrada infernal de terrores pulsantes até seu curioso encontro com Jaqen H’gar, Tyrion se impõe como personagem a olhos vistos. Este é o livro dele em todo o âmbito que compõe esta afirmação.

No entanto, Tyrion é tão megalômano quanto diversos outros personagens, cada um destes sendo-o em diversificados níveis. A megalomania nasce dos furores insanos do Ego. Sonhamos que podemos ser muito poderosos. Sonhamos que somos algo mais do que realmente somos. Sonhamos que podemos tocar as estrelas sem nenhum esforço. Sonhamos que tudo devemos ter, ignorando todas as leis da natureza. Sonhamos que o ouro que nos espera é sempre o melhor que a nossa vida tem a nos oferecer.Ególatras. Megalomaníacos. O segundo livro de As Crônicas de Gelo e Fogo, versa primordialmente sobre os ególatras e megalomaníacos excêntricos que na realidade somos. O mundo inteiro no Caos, o mundo de Westeros, e cada personagem do livro pensa apenas no próprio interesse, em honras e lealdades, em coroas e títulos, em meras posições abaixo do sol. Seja religioso, político ou desprovido de crença ou ideologia, cada personagem fielmente retrata as humanas personalidades falhas de todos nós como os objetos atingidos por suas diretrizes. A certa altura da leitura, na caminhada das pretensões de cada Rei nascido de um dia para o outro, vê-se o inchado sentimento de autoritarismo e prepotência grassar vigorosamente por toda parte. Um jogo sujo expondo as entranhas da podridão que é palpável no mundo de gelo e fogo onde não se pode confiar nem mesmo na própria família e, até, em si mesmo.

Martin expõe cruamente nas páginas deste livro, através de cada personagem, a verdade humana. Sim, não seja hipócrita você que me lê, VOCÊ É UM EGÓLATRA, VOCÊ É UM MEGALOMANÍACO! Não? Não é? Não é mesmo? Não? Então, tens um coração puro, incorruptível, decente, nobre, imaculado... Ora, então tenho santas e santos aqui lendo esta resenha? Santas e santos desprovidos de maldade, malícia, crueldade, egoísmo… Santas e santos lendo estas palavras? Não é bem assim e vocês sabem a verdade… Das resenhas que leio dos livros desta série, todos reclamam do tamanho volumoso daqueles; no entanto, na verdade, é a leitura que incomoda, o conteúdo, um espelho no qual nos sentimos refletidos. Somos cada personagem ali representado, nem bons e nem maus; em cada um de nós, ressoa uma Cersei Lannister, um Theon Greyjoy, uma Arya Stark, um Jon Snow, um Tyrion Lannister, um Stannis Baratheon, um Gregor Clegane, um Sandor Clegane, um plebeu revoltado com a crise econômica causada pela guerra, um camponês que teve sua família devastada, um mercenário cumprindo as partes mais tenebrosas de seu contrato... Enfim, a identificação com cada personagem é muito mais clara e profunda neste segundo livro da série, uma obra-prima nascida d'alma de um grande conhecedor das humanas almas.Estas que, a todo custo, tentam esconder as rachaduras, a lama e o lixo contidos em seus mais negados recônditos.

E eu, o Inominável Ser que vos escreve, sou um ególatra e um megalomaníaco, minha gente, e como sou! A leitura deste livro arrasa a mente, o corpo e a alma, pois, acima de tudo, é parte de uma obra feita para incomodar, fazer refletir e confirmar a nossa própria incapacidade em sermos mais do que nobres plebeus que se acham eternos reis. Não recomendo a leitura deste livro aos otimistas, preguiçosos e risonhos; é um livro para gente tão realista, sombria e pessimista quanto eu. É um livro que marca. E assombra. E intimida.

Ao fim, um livro perfeito para os ególatras e megalomaníacos que nós somos, um sinistro relato de um mundo tão em chamas quanto o nosso.

Saudações Inomináveis a todos, leitores virtuais!



George R. R. Martin




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