As Crônicas De Gelo E Fogo - Livro Cinco - A Dança Dos Dragões



“(...) Os homens vivem as suas vidas presos a um eterno presente, entre as brumas da memória e o mar de sombras que é tudo o que sabemos dos dias vindouros. Certas mariposas vivem suas vidas inteiras em um dia e, mesmo assim, para elas esse pequeno espaço de tempo deve ser tão longo quanto anos e décadas para nós. Um carvalho vive trezentos anos, uma sequóia, três mil. Um represeiro viverá para sempre, se não for perturbado. Para eles, as estações passam nas vibrações das asas de uma mariposa e passado, presente e futuro são um só. (...)”

Lorde Brynden



Titulo do Original: A Song Of Ice And Fire - A Dance With Dragons
Ano de lançamento do original:
Autor: George R. R. Martin
Tradução: Márcia Blasques
Coordenação Editorial: Estúdio Sabiá
Preparação de Texto: Rosane Albert
Revisão: Leandro Morita, Valéria Sanalios, Bruno SR
Diagramação: Carochinha Editorial
Ilustração da Capa: Marc Simonetti
Capa: Scintilla Lima
São Paulo: Leya
2012
872 p.



Sinopse:

O futuro dos Sete Reinos ainda é incerto — novas ameaças pairam e novos inimigos surgem a cada momento.

Além do Mar Estreito, Daenerys Targaryen, a última herdeira da Casa Targaryen, governa uma cidade construída sobre o pó e a morte. Mas seus inimigos são cada vez mais numerosos e farão de tudo para destruí-la. Enquanto isso, dois jovens embarcam em missões distintas, mas que podem mudar o destino da Mãe dos Dragões. No Norte, Jon Snow — 998º Senhor Comandante da Patrulha da Noite — fará de tudo para garantir a segurança da Muralha. Para isso, não hesitará em transformar amigos em inimigos e vice-versa.

Traições, revelações e um fantasma do passado que volta para assombrar quando menos se espera: em todos os cantos de Westeros e de Essos, mercadores, fora da lei, meistres, reis, nobres, escravos, soldados e troca-peles estão prestes a encarar fatos inesperados. Alguns fracassarão, outros se aproveitarão das forças sombrias que crescem cada vez mais. Mas, neste momento de inquietude crescente, as marés da Política e do destino levarão inevitavelmente à maior dança de todas.



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

E aqui dançamos com os Dragões, anúncio da chegada do Inverno Sangrento que tomará conta de Westeros e do Grande Incêndio que se expandirá por todo o mundo de As Crônicas De Gelo E Fogo. Os personagens não enfocados em O Festim Dos Corvos aqui ressurgem e, em determinado ponto da leitura, se unem aos que acompanhamos no livro anterior. George R. R. Martin nos prepara para Os Ventos Do Inverno, o sexto livro onde, mais do que nunca, todas as movimentações do jogo dos tronos selarão o derradeiro destino destas Crônicas. Uma dança onde míseros peões perdem muito mais do que as próprias vidas. Uma dança onde altíssimas peças controlam muitas vidas e são, por outro lado, controladas por outras peças muito mais elevadas.

A densidade psicológica da saga aqui é tremendamente aprofundante nos internos labirintos dos pontos de vista que narram cada capítulo deste livro. Tyrion Lannister é atormentado pelo assassinato do pai por ele cometido, indo por caminhos que acabam por levá-lo aos portões de Meereen; Daenerys Targaryen cada vez mais engolfada no meio de sua proposta de ser uma libertadora, governante e futura conquistadora do que lhe é de natural direito; Jon Snow encarando na Muralha todo o peso de ser o Senhor Comandante, entre os Selvagens que decide abrigar, os seus Irmãos na Patrulha Da Noite e os Outros e as Criaturas; Bran Stark, ao lado de Hodor, Meera e Jojen, guiados pelo enigmático Mãos Frias ao encontro do Corvo de Três Olhos; Quentyn Martell, filho e herdeiro de sua Doran Martell enviado por este ao encontro de Daenerys, e seu trágico destino ao tentar dançar com Dragões; Davos Seaworth em sua fidelidade por Stannis Baratheon indo até o impossível e inimaginável por conta da mesma em nome de sua honra; Fedor, aka Theon Greyjoy, mutilado, arrasado, tornado menos do que um homem nas bárbaras mãos do monstruoso psicopata Ramsay Bolton (antes um Snow e legitimado como filho herdeiro de Roose Bolton pelo Rei Menino Tommen Baratheon); Jon Connington, o melhor amigo de Rhaegar Targaryen, em sua importantíssima missão de preparar o terreno para a retomada do Trono De Ferro; Asha Greyjoy lutando pelo que as Ilhas De Ferro conseguiram conquistar no Norte e se tornando uma prisioneira de Stannis; Melisandre de Asshai em suas tramas, chamas e luzes através das quais exerce sua governante feitiçaria; Aéreo Hotah em sua silenciosa observação dos acontecimentos em redor do Príncipe Doran; Arya Stark continuando seu treinamento com os Homens Sem Rosto; Jaime Lannister reparando em nome do Rei Tommen as arestas deixadas soltas pela Guerra Dos Cinco Reis, ainda deixando-se estar entre os Frey e ex-aliados do Jovem Lobo que não estiveram presentes no Casamento Vermelho, tem apenas um capítulo e, ao final, parte com Brienne de Tarth para uma perigosa missão; Cersei Lannister, engolida pelos próprios erros políticos que cometera no livro anterior, é obrigada pelo Alto Septão à frente da corrente fundamentalista dos Pardais a fazer uma certa caminhada “nua diante dos Deuses e dos homens para expiar seus pecados”; Barristan Selmy como um leal e profundamente servo de Daenerys, com imaculada serenidade defendendo os direitos da legítima herdeira do Trono De Ferro; Victarion Greyjoy em sua viagem rumo ao encontro de Daenerys e dos dragões desta; e o Epílogo desta Dança erguendo fantasmas como anunciantes do Inverno que poderosamente chegou em Westeros…

Daenerys dançou perdida neste livro inteiro e sua chama se apagou um pouco como personagem, a meu ver. Presa em Meereen e tendo que lidar com os desagradáveis pontos do ato de governar uma cidade atrelada a cruéis costumes como a Escravidão, foi rapidamente perdendo o interesse para este que vos escreve. Nem mesmo podemos afirmar que ela poderá reconquistar o Trono De Ferro, pois seria bastante previsível e sabemos que Martin não é um medíocre escritor previsível. Aegon Targaryen, julgado morto por Gregor Clegane durante o Saque De Porto Real, fora preparado por Connington secretamente durante anos e marchou em direção a Westeros com a Companhia Dourada. Daenerys, enquanto isso, sufocou-se na própria armadilha de tentar ser muitas coisas ao mesmo tempo, demonstrando uma nítida arrogância que lhe custou bem caro. Igualmente arrogante, Cersei, a meu ver, se tornou uma personagem bem mais interessante do que ela, mesmo tendo errado tanto por inocência e falta de bom senso. Sua caminhada pela cidade lhe ensinou uma lição e a quebrou por inteiro, de um modo completamente visível. Mas, o Epílogo trará consequências que tornarão o jogo dos tronos muito mais fervilhantes e, talvez, Cersei retorne ao alto escalão do Poderia com fúria e fogo na alma mais do nunca.

Perseguido pela culpa por ter matado o pai, Tyrion aqui é castigado pela indagação “Para onde as putas vão?” referente a Tysha, o grande amor da sua vida. Tywin Lannister, morto por ele na privada com uma flecha saída de uma besta, está mais do que nunca presente ao lado dele, dentro dele e em tudo que consegue lembrar ou imaginar. Pulsante e, até certo ponto, comovente, é também o trajeto de Theon, que, de arrogante refém de Winterfell, se tornou o responsável pela queda deste e menos do que um animal nas mãos de Ramsay. Deste monstro aqui sabemos um pouco mais através de relatos de alguns outros personagens, um bizarro homem que Roose Bolton não condena e pune por ser o seu filho, mesmo que bastardo. Aliás, nitidamente, tanto Roose quanto Bolton são “farinha do mesmo saco”, como vulgarmente é dito de pessoas do mundo real ou imaginário que compartilham de diversos pensamentos em comum. No caso dos dois Bolton, ambição e manipulação é o que une os dois, o que uma reveladora conversa entre eles diante de Theon deixa transparecer. Quanto ao Greyjoy, por mais que ele tenha gerado ódio em A Fúria Dos Reis e esteja destruído neste livro após os esfolamentos e mutilações de Ramsay, é difícil nutrir alguma simpatia ou piedade por ele. É daqueles personagens feitos para que repugne o leitor, em diversos níveis, já que fora o principal responsável pelo fim da liderança dos Stark no Norte ao trair a confiança de seu amigo Robb Stark ao tomar Winterfell à força. Não há como sentir piedade de um personagem como este, mental, espiritual e fisicamente destroçado merecedor de toda tortura a qual foi submetido.

Este é um livro de transições necessárias para os dois últimos desta saga (se é que, realmente, Martin encerrará com sete livros a mesma…). Rhaegal, Drogon e Viserion, os incontroláveis dragões de Daenerys, furiosamente dançam descontrolados e imprevisíveis. Se Daenerys pode se reencontrar e retomar a linha central de sua marcha rumo ao seu continente natal, somente saberemos disto nos próximos livros. Victarion, orientado por um Sacerdote Vermelho, Moqoro, se aproxima como um aliado ou inimigo, possuindo a pretensão de domar os dragões com um berrante moldado segundo as antigas tradições de Valíria, a terra natal dos Senhores Dos Dragões. Atualmente destroçada, o simbolismo de uma civilização outrora gloriosa aponta para o possível futuro de destroços para toda Westeros. Sabemos que Martin põe pistas sobre os futuros livros da saga ou de capítulos à frente no mesmo livro de modo sutil e imperceptível aos olhares de leitores desatentos. Muito está em jogo dentro do jogo dos tronos e Tyrion, mais do que todos, parece pressentir em si que os presságios sobre sangue e fogo se referem ao que poderá ocorrer em um mundo onde dragões estão a dançar.

E os ventos invernais chegaram ao final do livro.

O Inverno Chegou.

O Inverno Sempre Chega.

O Inverno Sempre Chegará.

E o sangue irá correr.

E o fogo irá pulverizar.

E os Dragões continuarão a dançar.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




George R. R. Martin




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