As Crônicas De Gelo E Fogo - Livro Um - A Guerra Dos Tronos



“Quando se joga o jogo dos tronos, ganha-se ou morre. Não existe meio-termo.”

Cersei Lannister




Título original: A Song of Ice and Fire - A Game of Thrones
Ano de lançamento do original: 1996
Autor: George R.R. Martin
Tradução: Jorge Candeias
São Paulo: Leya
2010
592 p.




Sinopse:

Em uma terra onde o verão pode durar décadas e o inverno toda uma vida, os problema estão apenas começando. O frio está de volta e, nas florestas ao norte de Winterfell, forças sobrenaturais se espalham por trás da Muralha que protege a região. No centro do conflito estão os Stark do reino de Winterfell, uma família tão áspera quanto as terras que lhe pertencem.

Dos lugares onde o frio é brutal, até os distantes reinos de plenitude e sol, George R. R. Martin narra uma história de lordes e damas, soldados e mercenários, assassinos e bastardos, que se juntam em tempos de presságios malignos. Entre disputas por reinos, tragédias e traições, vitória e terror, o destino dos Stark, seus aliados e seus inimigos é incerto. Mas cada um está se esforçando para ganhar este conflito mortal: a guerra dos tronos.



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Terminada a leitura do primeiro livro de As Crônicas de Gelo e Fogo e o impacto ainda abala-me. George R. R. Martin nos transporta, a cada página, a um mundo definido por estações que são mais internas do que externas. Estações onde reinam os nuances mais negados da alma humana. Estações onde os ventos trazem mudanças, estagnação e inércia. Estações onde os limites do Bem e do Mal inexistem. Estações onde o moralismo é um visitante temporário em todos os círculos. Estações onde os pequenos jogos assumem inegáveis grandiosas naturezas. Estações onde os médios jogos atingem patamares de obscuros labirintos incertos. Estações onde os grandes jogos fazem de tudo para ditarem os históricos rumos das sociedades de Westeros e Essos. Estações de gelo congelando os corações. Estações de fogo aquecendo as vontades.


Sob os olhos de Bran Stark, Daenerys Targaryen, Eddard Stark, Jon Snow, Catelyn Stark, Arya Stark, Tyrion Lannister e Sansa Stark somos conduzidos a um mundo onde, a todo momento, cada fato molda uma armadilha, uma teia de intrigas ou um outro mundo, este muito mais aterrador do que o primeiro. Um mundo onde as aparências são mais aceitáveis do que as essências. Um mundo onde as palavras precisam ser cuidadosamente pensadas antes de serem proferidas. Um mundo onde a única maior garantia de sobrevivência se encontra no quanto uma espada pode estar afiada. Um mundo onde todas as outras garantias de sobrevivência não são confiáveis e nem firmes. Um mundo onde os predadores de todos os tipos e naturezas proliferam-se com longevidade, amplitude e expressividade. Um mundo onde a racionalidade deve estar sempre à frente, sufocando emoções afloradas, exterminando intenções de intempestivos atos. Um mundo que, por exemplo, não poupa tanto Jon, que carrega o estigma de ser filho ilegítimo do suserano dos Stark quanto Sansa, filha legítima que vai do alto sonho de fadas aos campos infernais em curta passagem temporal. Um mundo que agride cada personagem do livro, cada um deles, sem exceções, sem pausas e sem misericórdia.

Para quem conhece a adaptação desta obra pela HBO, pensa que o livro que inspirou a série é apenas putaria e violência do começo ao fim. Mas, enganados estão os que assim pensam, a obra, tal como Battle Royale, é um tratado filosófico completo sobre uma Humanidade que é muitíssimo parecida com a nossa. Uma Humanidade determinada por estações longuíssimas, atuando na Natureza e no Inconsciente Coletivo de modo a jogar todas as peças de um Xadrez Existencial de modo aleatório. Vencedores e perdedores, assim, nunca o são por completo nos diversos jogos de tronos jogados por cada personagem. Estes, nas mãos de Martin, se encontram tecidos como cinzentos, o correto tom que é impresso na alma e não são nem bons nem maus. O jogo de interesses mescla-se ao jogo dos tronos como gerador de caminhos acompanhados pelas asas da ambição, do crime, da dissimulação e da mentira. Martin não concede sofrimentos e desgraças a seus personagens à toa; o início da queda da Casa Stark neste livro é construído a partir do exato momento em que certas peças do jogo começam a se mover de modo contrário ao pré-estabelecido pela grande peça principal iniciadora de todo o jogo. Esta peça tem a ver com forças que há muito povoam Westeros, suas Casas Nobres e os plebeus. Uma peça cujos efeitos se fazem sentir Além da Muralha e da Muralha até Dorne, passando por todos os horizontes do continente. Uma peça que apenas a atenta leitura concentrada e meditada no que Martin deixa por dizer pode identificar.

"O Inverno Está Chegando", o lema dos Stark, define a natureza do que o autor diz nas entrelinhas da obra. A Primavera traz o desabrochar de esperançosas flores n'alma; o Verão transborda em chamas que aquecem os mais obscuros recantos d'alma; o Outono é a moderação dos maiores rompantes expansivos d'alma; e O Inverno é a parada, a estagnação, o atraso, a frieza de todo acontecer e Ser dentro d'alma. A Alma Mater. A Alma Humana. O Inverno na mitologia da saga iniciou-se na Rebelião de Robert Baratheon, que causou a derrocada da Casa Targaryen e a tomada do poder por um rei que no livro nos é apresentado como decadente, rude, devasso e atormentado pelo peso que é ocupar o Trono de Ferro. O Inverno tomou forma a partir daquele momento, levando ao estabelecimento de uma tensão que permeia cada forma de situações e diálogos no livro entre aqueles que vivenciaram ou lutaram na Rebelião. O Inverno, um demônio a pairar acima dos que se posicionaram a favor de Robert, dando uma noção de que aqueles personagens se encontram como deslocados, não se sentindo como exatamente posicionados naturalmente no lugar onde estão. O Inverno, cujas garras aterradoras se apresentam do Prefácio ao Epilogo desta obra tradutora dos mais sinistros meandros da Política, da Moral e dos Costumes como um todo. O Inverno, quebrando máscaras, enfeites e adereços a fim da demonstração de como os seres humanos são em verdade.

O Inverno pode durar apenas uma estação, fisicamente falando, de três meses; ou permanecer por toda a vida ou metade desta n'alma daqueles que sentem-no como as pesadas Mãos de Cronos castrando todas as empreitadas, sonhos e metas. Mãos que envolvem os pescoços de todos os personagens, tendo sua nota de percepção no texto na silenciosa e terrível figura de Sor Ilyn Payne, Magistrado do Rei, sob as percepções de vários daqueles. É tudo que cada personagem, à sua maneira, sente, desde o frio e cruel Tywin Lannister ao sensato e honrado Eddard; da dissimulada Cersei à determinada Catelyn; do melancólico Jon à irrequieta draconiana Daenerys; do brutal Sandor Clegane, o Cão de Caça, ao nobre Barristan Selmy, O Ousado; do dissimulado Petyr Baelish, o Mindinho, ao ardiloso Lorde Varys; do astuto Tyrion à sonhadora Sansa; todos, enfim, sentem a pesadíssima mão do Senhor Do Tempo em suas almas, a aproximação do período mais obscuro de suas vidas, a exalação de todos os odores da desesperança, do medo, da incerteza e do Caos. Todo o peso da lâmina da Guilhotina Temporal ameaça-lhes as cabeças; e a execução de Eddard, famosa por ser a de um dos personagens-chave da saga logo no início desta, simboliza que não há segurança ou porto seguro nem mesmo para os que, aos olhos dos leitores, possam parecer os mais invulneráveis, inderrubáveis e intocáveis personagens.

A Guerra dos Tronos é um livro pessimista, sombrio, triste, pesado e carregado de uma lúgubre atmosfera que anuncia tudo o que os próximos livros desta saga trazem. Tronos de pó lançados ao Nada, ambições esvaindo-se como vento, um banho de sangue anunciando-se tremendo... É o nosso mundo atual que Martin faz nitidamente apresentar-se neste livro? Ironicamente, se pensarmos bem, a resposta será sim...

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!



George R. R. Martin




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