Meditações Metafísicas - René Descartes



“(...) Mas talvez também eu seja algo mais do que me imagino e todas as perfeições que atribuo à natureza de um Deus estejam de alguma forma em mim em potência, conquanto ainda não se produzam, e não se façam aparecer por suas ações. Com efeito, já experimento que meu conhecimento aumenta e se aperfeiçoa aos poucos, e nada vejo que possa impedi-li de aumentar cada vez mais até o infinito; depois, estando assim aumentado e aperfeiçoado, nada vejo que me impeça de adquirir por meio dele todas as outras perfeições da natureza divina; e, enfim, parece que a potência que tenho para a aquisição dessas perfeições, se ela está em mim, pode ser capaz de lhe imprimir e de lhe introduzir suas idéias. Todavia, olhando um pouco mais de perto, reconheço que não pode ser assim; pois, primeiramente, ainda que fosse verdadeiro que meu conhecimento adquirisse todos os dias novos graus de perfeição, e que houvesse em minha natureza muitas coisas em potência, que nela ainda não existem atualmente, todavia todas essas vantagens de modo algum pertencem e se aproximam da ideia que tenho da Divindade na qual nada se encontra somente em potência, mas tudo existe atual e efetivamente. E, até mesmo, não será um argumento infalível e muito certo de imperfeição em meu conhecimento o fato fato de ele crescer aos poucos e de aumentar por graus? Mais ainda, embora meu conhecimento aumentasse cada vez mais, mesmo assim não deixo de conceber que ele não poderia ser atualmente infinito, uma vez que jamais chegará a um ponto tão alto de perfeição que ainda não seja capaz de adquirir algum maior crescimento. Mas concebo Deus atualmente infinito em tão alto grau quenão se pode acrescentar nada à soberana perfeição que ele possui. E, enfim, compreendo muito bem que o ser objetivo de uma ideia não pode ser produzido por um ser que existe somente em potência, o qual, para falar propriamente, não é nada, mas somente por somente por um ser formal ou atual. (...)”


in: pags. 74-75




Título original: Méditations Métaphisiques
Ano de publicação do original: 1641
Introdução e notas: Homero Santiago
Tradução: Maria Ermantina Galvão
Tradução dos textos introdutórios: Homero Santiago
2ª Edição
Martins Fontes: São Paulo
2005
196 pags.




Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Considerada a obra fundadora da Filosofia Moderna, um contraponto à Escolástica e um postulado da História do Livre-Pensamento que até hoje é altamente considerada, Meditações Metafísicas encarregou-se de iniciar um novo modo de pensar. Exposto à maneira dos geômetras, definido por René Descartes (1596-1650) como uma maneira onde “as coisas que são propostas como primeiras devem ser conhecidas sem a ajuda das seguintes, e as seguintes devem depois ser dispostas de tal forma que sejam demonstradas só pelas coisas que os precedem”, o livro se configura em exposições de idéias a priori e a posteriori. Famoso pelas provas demonstrativas da existência de Deus e pelo cogito, ergo sum (penso, logo existo), é uma obra que ainda hoje é para muitos importante. Para alguns pensadores e estudantes da atualidade, o Cartesianismo por ele inaugurado já fora ultrapassado e superado por muitos outros pensamentos filosóficos posteriores. No entanto, não cabe a esta resenha aqui discutir se a obra e o pensamento de Descartes cheiram a mofo, sendo arcaica sua linguagem. O que cabe aqui é a centralização da análise da essência fundamental das Meditações em si mesmas.


Havia uma grande necessidade de se provar a existência de Deus em provas intelectivas no século XVII, mas, nenhuma delas sobreviveu ao tempo como suprema e absoluta no campo do Pensamento Humano quanto as expostas neste livro. Como todos os pensadores daquele século, Descartes sentia a necessidade constante, intrínseca e inescapável de transcender a Materialidade, alcançando as vias do Infinito. Provar a existência do Incognoscível, Inconcebivel, Inominável, Supremo e Absoluto com meras humanas palavras? Provar a existência de Algo que toda e qualquer humana experiência torna impossível de ser classificada e rotulada em termos apequenantes do mesmo? Ao olhar dos que crêem no Deus que Descartes provou existir nas Meditações, tal tentativa é de uma infinita arrogância, petulância e ousadia passíveis de serem, à época, punidas com uma das fogueiras inquisitórias da Santa Igreja Católica Apostólica Romana. Ao olhar de um racionalista iluminista ou pós-iluminista, muito influenciado por Baruch de Spinoza (um admirador de Descartes que elevou ao máximo o método geométrico de demonstração de argumentos lógicos na Ética), tal tentativa se mostra infrutífera porque tal experiência cognitiva está além dos sentidos humanos. Kantianos e ateus, claro, argumentariam de modos contrários quanto à autenticidade primordial dos argumentos apresentados, determinando os mesmos como ineficientes e precários.


Mas, qual Deus é provado existir por Descartes? O Deus Hebraico do Antigo Testamento? O Deus Cristianizado do Novo Testamento? O Deus Delineado pelo Catolicismo? O Deus que a cognição intelectiva de Descartes advoga como existente? Para muitos caminhos se voltam as indagações para o tipo de Deus que o filósofo francês provou como existente e cada uma delas, em si mesma, gera dúvidas completamente profundas. Ingenuamente, o que ainda ocorre atualmente, o Catolicismo e o Protestantismo advogam que na Bíblia está provada a existência de Deus apenas porque na mesma se encontra “A Palavra Dele”. Mas, tal “Palavra” não foram diretamente escritas pelo Ente Absoluto crido como o Deus Único, passíveis de serem alteradas, manipuladas e interpretadas de modos diversos a bel prazer dos operadores daquela dentro e fora dos templos religiosos. Isso, no entanto, para quem pensa, para quem faz uso do intelecto como a norma reguladora de atos interpretativos e demonstrativos de toda experiência fenomênica, não é o suficiente. É necessário todo um profundíssimo mergulho da mente em agudas e precisas movimentações do raciocínio, o que a formidável escrita de Descartes, coesa e inteligível ao extremo, apresenta nas páginas das Meditações. Não é um perfeito pensamento e nem nele reside um onipresente sentido de incontestabilidade eterna que o arvore como inderrubável.


O método geométrico, o pensamento matematizado, é algumas vezes enfadonho no livro, um dos pontos negativos que não deve deixar de ser ressaltado. A frieza do raciocínio 100% científico, exigindo o aborto de toda uma condutiva emotiva ou embasada em qualquer resquício de pieguismo idolátrico religioso, encaminha muitas vezes a leitura para uma análise desprovida de paixão. Pensando, porém, na necessidade obrigatória de ser objetivo na construção de seus argumentos, a matematização sistemática desenvolvida por Descartes serve ao propósito único de não tornar uma homérica fantasia nascida de uma imaginativa mente todo o conteúdo do livro. Pondo-se como um atento cientista no exame da questão principal que constitui o objeto de seu estudo, Descartes assim desenvolveu as seis Meditações conforme o Índice Analítico desta edição (sendo os números entre parênteses os que numeram os parágrafos):




Meditação Primeira
Das coisas que se podem colocar em dúvida


[1] Justificativa da dúvida.
[2] Condição da dúvida e seu caráter radical.
[3-5] Dúvida concernente aos conhecimentos sensíveis.
[6-8] Dúvida concernente aos conhecimentos racionais.
[9-13] Dúvida metafísica: Deus enganador ou gênio maligno.




Meditação Segunda
Da natureza do espírito humano e que ele é mais fácil de conhecer que o corpo


[1-4] A primeira certeza: o cogito.
[5-9] Da certeza de ser à certeza de ser pensamento.
[10-18] Pelo entendimento conhecemos mais claramente as coisas; o pensamento é mais fácil de conhecer do que o corpo.




Meditação Terceira
De Deus; que ele existe


[1-5] Exame do eu pensante por sí mesmo; inventário dos conhecimentos certos adquiridos.
[6-9] Há em nós três tipos de pensamentos: idéias, vontades, juízos.
[10-18] Para saber se há coisas exteriores a nós é preciso estudar a origem de nossas idéias.
[19-22] A ideia de Deus: única de que não posso ser causa. Primeira prova da existência de Deus.
[23-27] A ideia de Deus é a mais clara de todas as nossas idéias.
[28-37] O eu pensante não existe por sí mesmo. Segunda prova da existência de Deus.
[38-42] A contemplação da ideia de Deus em nós.





Meditação Quarta
Do verdadeiro e do falso


[1-2] Contemplando a ideia de Deus, descobre-se a possibilidade de uma ciência certa.
[3-5] Problema: se Deus não é enganador, como pode ele permitir que nos enganemos?
[6-8] O erro não é pura negação.
[9] O mecanismo do erro. Entendimento e vontade.
[10-14] A causa do erro está no mau uso do nosso livre-arbítrio.
[15-17] Nossos erros revelam nossa liberdade.





Meditação Quinta
Da essência das coisas materiais e, mais uma vez, de Deus, que ele existe


[1-6] As essências racionais.
[7-10] Coincidência de existência e essência no ser de Deus. Terceira prova da existência de Deus.
[11-15] A vitória sobre a dúvida metafísica torna possível uma ciência perfeita.




Meditação Sexta
Da existência das coisas materiais e da distinção real entre a alma e o corpo do homem


[1-6] Como assegurar-se da existência das coisas materiais? A imaginação nos apresenta coisas existentes?
[7-12] É no campo das sensações que se enraíza nossa crença na existência de corpos materiais.
[13-16] Dificuldade para vencer completamente a dúvida natural.
[17-20] As coisas materiais são distintas de nós. É confiável o sentimento que nos faz crer na existência delas.
[21-25] Os ensinamentos da natureza.
[26-30] O que nos ensina a natureza é verdadeiro ou falso? Solução do problema.
[31-41] Há erros na natureza?
[42-43] A dúvida pode ser integralmente vencida.




Compõe ainda esta edição a primeira parte de Princípios da filosofia de René Descartes demonstrados à maneira geométrica, da autoria de Espinosa.



Das nítidas argumentações advém a seguridade das provas apresentadas. Destas provas desenvolvidas advém certezas que derrubam as dúvidas. Destas dúvidas advém pensamentos seguramente concretizadores do alcance de certezas que extingue cada uma delas. O pensamento não pode enganar, nem mesmo quando se trata de provar a Deus, o qual se encontra além, muito além, daquele. Pensar, duvidar, chegar a uma certeza e concluir sem névoas ou barreiras a certeza do alcance de uma visão sem impurezas obriga a um lance acurado na premissa realizadora de um atestado da verdade. Ao somar, dividir, multiplicar e subtrair as variações do cogito, na contundência geométrica construtiva cabível ao lógico mundo investigativo, Descartes legou ao mundo um intelectivo registro de como é proceder investigativamente em uma grande causa a ser buscada. E a grande causa por ele buscada foi Deus, Grande Causa, Grande Objetivo, Grande Meta, que em determinada época da História do Pensamento Ocidental foi determinante de sistemas preocupados com as origens essenciais de todas as coisas materiais e imateriais. Poucos se dignam a buscas assim atualmente e a sobrevivência de Meditações Metafísicas se explica pelo interesse que o mesmo ainda causa nesses raros buscadores de Deus na contemporaneidade. Não é um livro de todo atual e nem se encontra entre os livros clássicos da Humanidade mais vendidos nesta cibernética era. O que explica também sua procura por quem se interessa no tema que o mesmo contém é uma necessidade pela verdade.


A Verdade, sim. A Verdade de um Deus que não seja enganador. A Verdade de um Deus que não seja uma ficção. A Verdade de um Deus que não contrarie o próprio ato de pensar. A Verdade de um Deus que não seja gerador de dúvidas, erros e contradições.


Mas, qual Deus é provado existir por Descartes?: repito a pergunta acima feita.


A resposta, leitores virtuais, tentem encontrar após a conclusão da leitura desta obra.


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




"(...) E, primeiramente, não há dúvida de que tudo o que a natureza me ensina contém alguma verdade. Pois, pela natureza, considerada em geral, agora não entendo outra coisa a não ser o próprio Deus, ou então a ordem e a disposição que Deus estabeleceu nas coisas criadas. E, por minha natureza em particular, não entendo outra coisa a não ser a complexão ou a reunião de todas as coisas que Deus me deu."

in: pag. 121





René Descartes - Maria Platt Evans





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