Bocage - Biografia E Seleção De Alguns Sonetos Eróticos




Biografia e seleção feitos por minha amiga portuguesa Elektra


Nascido em Setúbal às três horas da tarde de 15 de Setembro de 1765, falecido em Lisboa na manhã de 21 de Dezembro de 1805, era filho do bacharel José Luís Soares de Barbosa, juiz de fora, ouvidor, e depois advogado, e de D. Mariana Joaquina Xavier l'Hedois Lustoff du Bocage.(filha de um afamado corsário francês ao serviço da coroa portuguesa).

De acordo com a tradição, Manuel Maria du Bocage terá nascido numa casa da Rua de S. Domingos (actual Rua Edmond Bartissol), em Setúbal, onde foi colocada uma placa evocativa. Na verdade, porém, a casa da família situava-se na Rua das Canas Verdes (hoje Rua António Joaquim Granjo), junto à igreja de Santa Maria da Graça. Este equívoco foi mantido, durante muito tempo, com a cumplicidade do seu irmão mais velho, Gil Francisco, que terá procurado ocultar um grave acontecimento da sua infância: a prisão do pai.Acusado de desviar o dizimo da cidade de Setúbal resultando na sua prisão e confisco de seus bens.

Admite-se que o desventurado pai de Bocage possa ter sido envolvido numa das muitas intrigas urdidas pelo Marquês de Pombal contra certos membros da Nobreza, tendo, de resto, acabado por ser perdoado, em 1777, após a subida ao trono de D. Maria I. Contudo, nunca chegou a ser oficialmente reabilitado, tendo o Estado mantido a confiscação dos seus bens.

Apesar da família ter sido autorizada a permanecer na casa de Setúbal (mediante o pagamento de uma renda), está visto que Manuel Maria não teve uma infância feliz.O pai foi preso , quando ele tinha seis anos e permaneceu na cadeia seis anos. A sua mãe faleceu quando tinha dez anos. facto que muito terá marcado aquele jovem franzino.

Quarto de cinco irmãos, na altura, mesmo as famílias mais abastadas raramente tinham possibilidades financeiras de dar estudos a mais do que um filho (geralmente o primogénito). Assim, enquanto Gil Francisco estava destinado a frequentar a Universidade de Coimbra, tal como seu pai o fizera antes, Manuel Maria teve de se contentar com as lições de Latim do Padre (talvez daí um certo ressentimento do seu discípulo para com os frades e clérigos em geral).

Apesar das numerosas biografias publicadas após a sua morte, boa parte da sua vida permanece um mistério. Não se sabe que estudos fez, embora se deduza da sua obra que estudou os clássicos e as mitologias grega e latina, que estudou francês e também latim. A identificação das mulheres que amou é duvidosa e discutível

Possivelmente ferido por um amor não correspondido, assentou praça como voluntário em 22 de Setembro de 1781 e permaneceu no Exército até 15 de Setembro de 1783. Nessa data, foi admitido na Escola da Marinha Real, onde fez estudos regulares para guarda-marinha. No final do curso desertou, mas, ainda assim, aparece nomeado guarda-marinha por D. Maria I.

Embora não tivesse carta de nobreza que lhe garantisse o acesso à carreira de Oficial, os seus antecedentes familiares, nomeadamente os serviços prestados pelo seu afamado avô materno, foram considerados suficientes para colmatar esta limitação.

Tal não o impede, dois anos mais tarde, de se oferecer como voluntário para embarcar, com destino à Índia, na nau “Nossa Senhora da Vida, Santo António e Madalena”. Talvez pretendesse obter experiência de feitos de armas nas mesmas paragens por onde errara o seu ídolo, Luís de Camões, com quem, aliás, parece, desde o princípio, querer forçar uma comparação. A verdade é que a Rainha assina a sua readmissão como Guarda-Marinha, não obstante a sua anterior baixa desonrosa, pois as colónias necessitavam desesperadamente de braços combatentes.

Desiludido com as gentes e com o que encontra , tal como Camões três séculos antes, volta a desertar.

A Lisboa que Bocage encontra, aquando do seu regresso, em finais de 1789 , é uma cidade que fervilha de notícias sobre a Revolução Francesa. Descobre, então que os seus conhecidos Café Nicola e Botequim das Parras (no Rossio) estão transformados em centros de discussão política, onde já começa a fazer-se sentir a presença dos espiões (entre os quais os famigerados “moscas”) do intendente Pina Manique.

É o retorno a uma vivência boémia e ociosa, na companhia do mundaníssimo frade José Agostinho de Macedo (um dos seus velhos conhecidos), a cuja casa se acolhe. Era este José Macedo um clérigo muito mal reputado entre as autoridades eclesiásticas e seculares, conquanto lhe bastasse a fama de talentoso poeta e de arrebatado orador. Este, porém, não tarda a entrar em despique com o seu protegido, que lhe começa a fazer sombra com as suas inspiradas – e tecnicamente perfeitas - glosas (improvisos construídos em torno de um mote), um género poético então muito em voga nas animadas “tertúlias” dos botequins.

Em 1790, por ocasião da morte do fidalgo D. José Tomás de Meneses, Bocage, já com nome feito (embora, na verdade, fosse, já, razoavelmente conhecido nos meios literários da Capital antes da sua partida para Goa), junta a sua pena à dos poetas que celebram o defunto e vê, pela primeira vez, os seus versos publicados em letra de imprensa. Embora não fosse, verdadeiramente, o seu forte, era o género panegírico que lhe ia garantindo a sobrevivência, graças aos generosos contributos dos seus protectores.

Nesse mesmo ano é admitido na Academia das Belas Letras (também conhecida como Nova Arcádia, por ter substituído a extinta Arcádia Lusitana) e, de acordo com a tradição da instituição, adopta um pseudónimo: Elmano Sadino (sendo “Elmano” um anagrama de Manuel e “Sadino” uma referência às suas origens setubalenses). Mas passado pouco tempo escrevia já ferozes sátiras contra os confrades.

A sua carreira de poeta sofre, então, um considerável impulso e em 1791 publica o 1º volume de Rimas, uma colectânea das suas melhores obras, cujo lançamento é um estrondoso sucesso.

No entanto, passado pouco tempo, a rivalidade com José Agostinho de Macedo e a sua própria vaidade envolvem-no em acesas disputas com os membros da Arcádia (episódio que ficou conhecido como a “Guerra dos Vates”), de onde acaba por ser expulso em 1793. Talvez o seu espírito indomável fosse pouco conforme com o carácter bajulador de grande parte dos árcades e mesmo do ponto de vista estético já se verificava uma certa ruptura com o estilo neoclássico “oficial” da Academia (os seus versos, profundamente fatalistas e propensos ao extremismo de sentimentos denotam, já, um pendor pré-romântico, conquanto, na forma, respeitassem os padrões clássicos).

São os membros da Arcádia quem sai pior do confronto (as simpatias populares inclinavam-se notoriamente a favor do bardo rebelde), embora, ao contrário do que é comummente aceite, não tenha daí resultado directamente a extinção da instituição.

Certo é que os árcades vão acabar por ser alvo de aliciamento por parte de Pina Manique,(Intendente da Policia) numa acção concertada que junta a repressão ao enquadramento paternalista dos grupos mais instáveis (mesmo as suas tão propaladas obras caritativas, como a Casa Pia, se destinam a fazer afrouxar o descontentamento popular para com os seus governantes), enquanto Bocage, isolado e sempre satírico, se torna, cada vez mais, suspeito aos olhos do Intendente. É que, além do seu feitio insubmisso e da sua vida desocupada, o seu apelido estrangeiro e as traduções que fazia de textos em Francês (entre os quais se incluíam obras de autores “perigosos” como Voltaire e Rousseau) rotulavam-no, automaticamente, como “afrancesado”. A tudo isto acresce o facto de não ocultar as suas simpatias em relação aos ideais da Revolução Francesa, não obstante a redacção de uma elegia lamentando a execução da Rainha Maria Antonieta. Fala-se, ainda, de uma suposta filiação na Maçonaria, sob o criptónimo “Lucrécio”, entre 1795 e 1797, o que carece de comprovativo, não obstante a existência de vários indícios apontando para essa possibilidade Pina Manique que decidiu pôr ordem na cidade, tendo em 7 de Agosto de 1797 dado ordem de prisão a Bocage por ser “desordenado nos costumes”.

Ficou preso no Limoeiro até 14 de Novembro de 1797, tendo depois dado entrada no calabouço da Inquisição, no Rossio. Aí ficou até 17 de Fevereiro de 1798, tendo ido depois para o Real Hospício das Necessidades, dirigido pelos Padres Oratorianos de São Filipe Neri, depois de uma breve passagem pelo Convento dos Beneditinos. Durante este longo período de detenção, Bocage mudou o seu comportamento e começou a trabalhar seriamente como redactor e tradutor.Só saiu em liberdade no último dia de 1798 aparentemente “reeducado” ,passou pelo menos a mostrar-se mais cauteloso.

Pouco tempo depois consegue um emprego fixo, fazendo revisões de texto e traduções na prestigiada Oficina Tipográfica e Literária do Arco do Cego. É-lhe atribuído um vencimento mensal de vinte e quatro mil réis, que se pode considerar um salário bastante elevado para a época.

De 1799 a 1801 trabalhou sobretudo com Frei José Mariano da Conceição Veloso, um frade brasileiro, politicamente bem situado e nas boas graças de Pina Manique que lhe deu muitos trabalhos para traduzir.

Nesse mesmo ano (1799) dá ao prelo o segundo tomo de Rimas, que inclui traduções de algumas obras estrangeiras e de autores clássicos da Antiguidade (através da sua pena chegaram aos leitores portugueses grandes obras da literatura internacional). A Censura mostra-se bastante tolerante. É que o Poeta passara a ser uma personalidade prestigiada e bem vista pelo Governo, chegando a dedicar poemas à Rainha e ao Príncipe Regente. Não é, assim, de estranhar que em 1801 se junte aos árcades e à sua conterrânea Luísa Todi numa sessão cultural organizada por Pina Manique no castelo de S. Jorge para comemorar a Paz de Badajoz celebrada entre Portugal e a Espanha.

Ainda em 1801 é novamente convidado pelo Intendente, desta vez para participar numa festa comemorativa da paz com a França no Teatro de S. Carlos. Ao ver ameaçada a sua posição de poeta favorito da Corte, José
Agostinho de Macedo destila em verso toda a sua raiva. Bocage responde-lhe à letra no poema satírico “Pena de Talião”, que, apesar de não ser dado à estampa, circula nos meios literários da Capital.

Mas a boa estrela do vate sadino começava, definitivamente, a declinar: no final do ano a Oficina Tipográfica do Arco do Cego encerra as suas portas, deixando-o sem um meio de subsistência. É, então, forçado a mudar-se para uma habitação mais modesta, na Travessa de André Valente nº 25, no Bairro Alto, onde dá guarida à sua irmã Maria Francisca, mãe solteira de uma menina, que ficara desamparada depois da morte do pai.

No ano seguinte é denunciado à Inquisição como pedreiro-livre, denúncia essa que acaba por não ter consequências de maior, pois devido à crescente pressão da França sobre o Governo Português a influência de Pina Manique estava cada vez mais esbatida. Este episódio parece, porém, demonstrar que, não obstante a “conversão” exterior, Bocage mantinha intactas as suas ideias liberais.

Depois de um ano praticamente sem produção literária digna de registo, publica, em 1804, o terceiro tomo de Rimas, reunindo alguns dos seus trabalhos dispersos. O parecer da Comissão de Censura é altamente favorável (apesar de ter demorado nove meses a sair) e as críticas recebidas consagram o autor como um dos maiores poetas portugueses. Entre as que mais o sensibilizam está a do Padre Francisco Manuel do Nascimento (conhecido na Arcádia como Filinto Elíseo), poeta de renome, exilado em França por ser considerado subversivo. O regozijo então sentido levam-no a exclamar “Posteridade! És minha!"

Mas o êxito não o impede de começar a sentir problemas financeiros, que o levam a recorrer aos préstimos dos amigos. Para agravar a situação, manifestam-se os primeiros sintomas da doença que lhe viria a ser fatal: fortes cefaleias e uma acentuada fadiga indiciando um grave aneurisma (provavelmente localizado na aorta) com incidência nas carótidas. Admite-se que esta doença possa ter tido origem venérea, sinal inequívoco de uma vida desregrada.

Em 1805, por acção do álcool e do tabaco, aliados a um rigorosíssimo Inverno (em que chega a nevar em Lisboa), o estado de saúde do Poeta agrava-se consideravelmente. O falecimento precoce da sua sobrinha, então com cinco anos, vem deixá-lo ainda mais abalado. Não é, assim, de admirar que em Março comecem a circular rumores sobre a sua morte. A comoção geral é tamanha que o leva a comentar ironicamente a hipocrisia dos que o carpiam em “morto” sem jamais o terem chorado em vida.

Contudo, apesar da falsidade da notícia, era inegável que a sua hora se aproximava a passos largos. Acaba, assim, por admitir que os amigos lhe enviem o pintor Henrique José da Silva para lhe pintar o retrato, o terceiro com carácter oficial (os outros dois tinham sido pintados, respectivamente, em 1797 – pouco antes da sua prisão – e em 1801).

Nesse período reconcilia-se com antigos inimigos e rivais, entre os quais José Agostinho de Macedo. Este, porém, ter-se-á aproveitado da debilidade do moribundo para se apoderar de vários manuscritos, sob o pretexto de promover a sua publicação, acabando por destruí-los ou fazê-los sair como sendo de sua autoria.

São também os seus amigos que se empenham em garantir-lhe a subsistência nos seus momentos finais, recolhendo os seus manuscritos e pondo à venda folhetos com as suas poesias, o primeiro dos quais se intitula Improvisos. E apesar de enfermo prossegue a sua actividade poética até ao fim, embora o desencorajem de improvisar, devido ao intenso desgaste físico e mental que tal actividade lhe provoca.

Bocage passa o final do Outono já acamado, quando se prenuncia mais um rigoroso Inverno. Numa suposta atitude de êxtase e de penitência final terá composto, de uma assentada, o célebre soneto “Já Bocage não sou”, onde se arrepende da sua irreverência passada e da sua vida dissoluta, embora haja dúvidas de que se trate, efectivamente, de um improviso, devido à perfeição da sua construção. Na verdade, podemos, mesmo, admitir a hipótese de se tratar da obra de alguém que terá pretendido fazer passar a imagem de um pecador arrependido.

No horizonte pairavam já as nuvens da invasão francesa. Tal como Camões, o grande Vate via chegar o seu fim num momento de grave perigo para a Pátria.

Morre a 21 de Dezembro, um Sábado frio e chuvoso que, ao estilo romântico, parece associar-se ao sombrio evento. Chegava ao fim uma existência atormentada, não tanto pelo modo de vida que conscientemente escolhera, mas pela incansável e sempre insatisfeita busca da Perfeição. No dia seguinte era sepultado no cemitério das Mercês (este cemitério viria a ser desactivado em 1834, daí vindo a resultar a perda definitiva dos restos mortais do insigne Bardo).

Logo em 1806 seria escrita a sua primeira biografia, por António Maria do Couto. A característica mais marcante desta obra é a sua gritante falta de rigor, nela abundando erros crassos e profundas inexactidões.

Num clima de grande hipocrisia, muitos viriam a tirar proveito da morte de Bocage. Já a sua irmã Maria Francisca nada lucrou, acabando por acolher-se sob o tecto de uma outra irmã e de um cunhado.

Quanto ao seu velho rival, José Agostinho de Macedo, parece ter esquecido rapidamente a sua “sentida” reconciliação, pois não tardou a entrar em acesas polémicas com os partidários (e herdeiros espirituais) do Poeta, os chamados “elmanistas”.

Entre 1812 e 1813 saem os terceiro e quarto volumes da obra poética de Bocage (mais uma vez sem qualquer proveito para a sua família) e no período de 1849-50 são publicadas as suas obras completas. Em 1865 a sua cidade natal promoveu grandiosas celebrações por ocasião do primeiro centenário do seu nascimento.

A 15 de Setembro, data de nascimento do poeta, é feriado municipal em Setúbal.




NOVA ARCÁDIA


Entre os principais ideais da Nova Arcádia estão a Inutilia truncat, cortar o inútil; a retomada da concisão e clareza que foi desprezada pelo Barroco; valorização da paisagem campestre, considerada ideal para a realização do amor (locus amenus); a busca da harmonia entre a razão e o sentimento. Os integrantes da Nova Arcádia se reuniam todas às quartas-feiras para a leitura e declamações de poemas. Por isso, essa reuniões ficaram conhecidas como "quarta-feiras de Lereno".
Reuniam-se no Palácio dos Condes de Pombeiro(hoje embaixada da Itália).

As sessões, presididas pelo padre mulato Domingos Caldas Barbosa (o "Lereno"), cantor de lânguidas modinhas brasileiras acompanhadas à guitarra ou à viola, muito em voga nos salões da época.

Eram essas as famosas "quartas feiras de Lereno", preenchidas com chá, torradas e bolinhos, canto, recitação e doses maciças de elogio mútuo, no meio de muita mesquinhez e artifício. Bocage, que adoptara o sobrenome poético de Elmano Sadino, retratou essas reuniões insípidas com a ironia e a graça de que tão bem conhecia o segredo e foi implacável nos seus ataques aos sócios da Arcádia. Um soneto contra ela, sobretudo, agita-a internamente, fazendo rir os botequins:


Preside o neto da rainha Ginga
A corja vil, aduladora insana;
Traz sujo moço amostras de chanfana;
Em copos desiguais se esgota a pinga.
Vem pão, manteiga e chá, tudo à catinga,
Massa, farinha e turba americana
E o orangotango a corda à banza abana,
Com gestos e vibagens de mendiga.
Um bando de comparsas logo acode,
Do fofo Condo ao novo Talaveiras;
Improvisa, berrando, o rouco bode.
Aplaudem de contínuo as frioleiras
Belmiro em ditirambo, o ex-frade em ode
- Eis aqui do Lereno as quartas-feiras.



Tal sátira explodiu como uma bomba e muitas se lhe seguiram atingindo contundentemente alguns dos membros da Arcádia entre eles o Padre Caldas, Curvo Semedo, o abade de Almoster e outros que também não o poupam às mais violentas críticas.

Elmano acabou por se saturar daquela atmosfera de mediocridade e devido às suas sátiras mordazes aos membros da Arcádia, acabou por dela ser expulso. A guerra verbal, de enorme violência, continuou impiedosa por algum tempo, para grande gáudio do público, ávido de sensacionalismo.

Bocage foi vítima de sua própria fama e dos preconceitos que despertou, passando a vida sendo perseguido pela censura de um país de aristocracia decadente, aliada a um clero corrupto. Muitos versos foram cortados, outros ostensivamente alterados. Em um de seus versos, o poeta mostra seu anseio desesperado: "Liberdade, onde estás? Quem te demora?".

Em meio a versos coloquiais, Bocage mostra seu individualismo, seu conflito entre o amor físico e a morte, sua morbidez e atração pelo horror. Evitando as imagens estereotipadas dos arcádicos e o rebuscamento dos barrocos, consegue formalizar suas vivências numa linguagem concisa e equilibrada, logrando um estilo bem pessoal que o torna verdadeiramente um "clássico" da língua portuguesa. Esse caráter subjetivo da poesia de Bocage, que faz do próprio "eu" o centro do universo poético, torna-o um precursor das tendências românticas, que - embora já contagiassem o resto da Europa - mal se esboçavam no seu tempo em Portugal.

Como satírico, expôs as mazelas de seu tempo em uma linguagem quase sempre pesada. Os seus alvos preferidos eram os poderosos, mas também não poupou seus colegas de Academia. Mas sua produção satírica foi marcada principalmente, pela temática sexual.

Diante disso tudo, Bocage se tornou um dos poetas mais importantes do século XVIII e, apesar de ter deixado fama de grande satírico e improvisador, sua obra o coloca como um dos melhores sonetistas líricos de toda a literatura portuguesa.




Ana Júlia



Soneto da amada gabada


Se tu visses, Josino, a minha amada,
Havias de louvar o meu bom gosto;
Pois seu nevado, rubicundo rosto,
Às mais formosas não inveja nada:


Na sua boca Vénus faz morada:
Nos olhos Cupido as setas posto;
Nas mamas faz Lascívia o seu encosto,
Nela enfim tudo encanta, tudo agrada:


Se a Ásia visse coisa tão bonita
Talvez lhe levantasse algum pagode
A gente, que na foda se exercita!


Beleza mais completa haver não pode:
Pois mesmo o cono seu, quando palpita,
Parece estar dizendo: "Fode, fode!"

                                                                     

Lisa Ann

   
Soneto do prazer efémero


Dizem que o rei cruel do Averno imundo
Tem entre as pernas caralhaz lanceta,
Para meter do cu na aberta greta
A quem não foder bem cá neste mundo:


Tremei, humanos, deste mal profundo,
Deixai essas lições, sabida peta,
Foda-se a salvo, coma-se a punheta:
Este prazer da vida mais jucundo.


Se pois guardar devemos castidade,
Para que nos deu Deus porras leiteiras,
Senão para foder com liberdade?


Fodam-se, pois, casadas e solteiras,
E seja isto já; que é curta a idade,
E as horas do prazer voam ligeiras!





Darlene Amaro



Num capote embrulhado, ao pé de Armia,
Que tinha perto a mãe o chá fazendo,
Na linda mão lhe fui (oh céus) metendo
O meu caralho, que de amor fervia:


Entre o susto, entre o pejo a moça ardia;
E eu solapado os beijos remordendo,
Pela fisga da saia a mão crescendo
A chamada sacana lhe fazia:


Entra a vir-se a menina... Ah! que vergonha!
"Que tens?" — lhe diz a mãe sobressaltada:
Não pode ela encobrir na mão langonha:


Sufocada ficou, a mãe corada:
Finda a partida, e mais do que medonha
A noite começou de bofetada.




Layton Benton



Soneto da donzela ansiosa


Arreitada donzela em fofo leito,
Deixando erguer a virginal camisa,
Sobre as roliças coxas se divisa
Entre sombras subtis pachocho estreito.


De louro pêlo um círculo imperfeito
Os papudos beicinhos lhe matiza;
E a branda crica nacarada e lisa,
Em pingos verte alvo licor desfeito.


A voraz porra, as guelras encrespando,
Arruma a focinheira, e entre gemidos
A moça treme, os olhos requebrando.


Como é inda boçal, perder os sentidos;
Porém vai com tal ânsia trabalhando,
Que os homens é que vêm a ser fodidos.




Remy Lacroix


Soneto do prazer maior

Amar dentro do peito uma donzela;
Jurar-lhe pelos céus a fé mais pura;
Falar-lhe, conseguindo alta ventura,
Depois da meia-noite na janela:


Fazê-la vir abaixo, e com cautela
Sentir abrir a porta, que murmura;
Entrar pé ante pé, e com ternura
Apertá-la nos braços casta e bela:


Beijar-lhe os vergonhosos, lindos olhos,
E a boca, com prazer o mais jucundo,
Apalpar-lhe de leve os dois pimpolhos:


Vê-la rendida enfim a Amor fecundo;
Ditoso levantar-lhe os brancos folhos;
É este o maior gosto que há no mundo.



Angela White



Soneto do mouro desmoralizado


Veio Muley — Achmet marroquino
Com duros trigos entulhar Lisboa;
Pagava bem, não houve moça boa
Que não provasse o casco adamantino:


Passou a um seminário feminino,
Dos que mais bem providos se apregoa,
Onde a um frade bem fornida ilhoa
Dava d'esmola cada dia um pino:


Tinha o mouro fodido largamente,
E já bazofiando com desdouro
Tratava a nação lusa d'impotente:


Entra o frade, e ao ouvi-lo, como um touro
Passou tudo a caralho novamente,
E o triunfo acabou no cu do mouro.




Sasha Cane


Soneto da puta novata


Dizendo que a costura não dá nada,
Que não sabe servir quem foi senhora,
A impulsos da paixão fornicadora
Sobe d'alcoviteira a moça a escada.


Seus desejos lhe pinta a malfadada,
E a tabaquanta velha sedutora
Diz-lhe: "Veio menina, em bela hora,
Que essas, que aí tenho, já não ganham nada".


Matricula-se aqui a tal pateta,
Em punhetas e fodas se industria,
Enquanto a mestra lhe não rifa a greta:


Chega, por fim, o fornicário dia;
E em pouco a menina de muleta
Passeia do hospital na enfermaria.




Layla Monroe


Nesta, cuja memória esquece à Fama,
Feira, que de Santarém vem de ano em ano,
Jazia co'uma freira um franciscano;
Eram de barro os dois, de barro a cama:


Co'a mão, que à virgindade injúrias trama,
Pretendia o cabrão ferrar-lhe o pano;
Eis que um negro barrasco, um Frei Tutano
O espetáculo vê, que os rins lhe inflama:


"Irra! Vens me atiçar, gente danada!
Não basta a felpa dos buréis opacos,
Com que a carne rebelde anda ralada?"


"Fora, vis tentações, fora, velhacos!..."
Disse, e ao ríspido som de atroz patada
O escandaloso par converte em cacos.




Kiara Mia





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