Spinoza E Sua Visão Acerca De Deus



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Ernest Renan, ao discursar sobre Baruch de Spinoza na inauguração de um monumento dedicado a este em Haia, disse que o pensador holandês foi o filósofo que mais aproximou-se de Deus em suas concepções. Elevado por altos sentidos do seu sentido de existir como um ente pensante, o solitário pensador e humilde polidor de lentes, com toda a sua humildade mais alta ainda por escolher viver uma vida simples, com toda a sua suave genialidade verdadeira, com toda sua sabedoria gigantesca, aproximou-se verdadeiramente do Verdadeiro Deus. Ele É a Substância e nós, humanos, somos como que modos de atributos condicionados por ela a nos expressarmos existentes. Imanente a nós Ele É, mas isso não significa que Deus seja igual a nós; pelo contrário, estando e sendo incondicionado vivente em tudo, a Natureza em seu Todo, Deus é uma essência única que não pode ser dividida em essências que por si mesmas são múltiplas. Acompanhando esta multiplicidade, advém finitude, outra característica inexistente em Deus, o qual é Uno, indivisível e infinito. É um erro pensar que Spinoza identifica diretamente o Verdadeiro Deus com tudo o que há, como se o mesmo fosse um ente comum passível de ser definido pelos termos comuns humanos.
       
Spinoza utilizou em sua obra, Ética, o método geométrico e este filósofo que vos fala utiliza o método aritmético para exemplificar explicativamente a visão filosófica do Verdadeiro Deus sob o ponto de vista dele. Têm-se dado sempre como incontestável e infalível a seguinte operação matemática de soma: 2+2=4. Digamos que o primeiro 2 seja a Substância e o segundo 2 os entes moldados a partir dela. São números visualmente homogêneos extrinsecamente e heterogêneos intrinsecamente, variando na qualidade, na quantidade e na potencialidade existencial. Como qualidade, quantidade e potencialidade, o primeiro 2 é eterno, infinito e capaz de toda realização fenomenal; e o segundo 2 é efêmero, finito e capaz de realizações possibilitadas pelas suas propriedades limitadas. Se os dois 2 forem somados, o resultado nunca seria 4 porque isto implicaria em erro grosseiro absoluto, que seria o de igualar a Substância com os entes moldados, o Eterno com o efêmero, o Infinito com o finito e a capacidade de efetuar todas as realizações fenomenais com a capacidade de efetuar algumas através de propriedades limitadas. Tanto geometrica como aritmeticamente é implausível essa identidade; se esta fosse possível, o termo panteísmo dado à filosofia de Spinoza estaria correto.
       
E tudo isso está contido no título dado ao livro maior de Spinoza, Ética, no qual, conforme o comentador da tradução portuguesa desta obra, Joaquim de Carvalho, diz na introdução: 


“O título que Spinoza deu à genial sistematização é de si suficientemente claro ―, e que não o fosse, a sucessão das partes que a compõem e o ritmo interno do pensamento mostram sem sombra de dúvida a prevalência da problemática ética sobre a problemática teorética."


E o ético, o moralmente ético, o que eleva e leva o Homem, como ente possível civilizado, ao cume de altas realizações, é o objetivo maior do genial filósofo holandês. 


“Ensinou-me a experiência que tudo o que ocorre freqüentemente na vida que habitualmente se leva é vão e fútil. Dei-me conta de que coisas que eram para mim objeto de temor nada tinham de bom e de mau, senão enquanto o ânimo era por elas excitado; por isso, resolvi investigar se existia algum objeto que fosse um verdadeiro bem, capaz de se comunicar, e pelo qual a alma, renunciando a tudo o mais, pudesse ser afetada exclusivamente ― um bem cujo descobrimento e alcance me dessem a fruição para sempre de uma alegria contínua e suprema.” 


E o objetivo ético maior desse bem, presente na Ética, é o do definidor termo lógico de presença da eticidade acima da teoreticidade; adotando uma moral livre de toda abordagem teórica limitadora do conhecimento, o ente humano alcança a Verdadeira Verdade acerca do Verdadeiro Deus.
       
Ética: 


“Para Spinoza: a Ética deve libertar o Homem de sua servidão no que respeita aos sentimentos e ensiná-lo a viver conduzido pela Razão; opondo-se aos preconceitos e às superstições, pressupõe o conhecimento especulativo de Deus, substância única que possui uma infinidade de atributos e conduz à beatitude”. 


E todo este conceito ético está poderosamente contido na obra e a esta rege com uma logicidade racional sensata envolta em criativa essencialidade. 


“A força do espinosismo é afirmar na Ética, demonstrada segundo a ordem dos geômetras, a inteligibilidade total do Ser. Deus é uma substância, ou seja, um ser causa de si e concebido por si próprio, dispondo de uma infinidade de atributos infinitos. O pensamento e a extensão são dois atributos de Deus, que não tem qualquer ação um sobre o outro, constituindo as idéias e os corpos os seus modos finitos. Tudo o que é em Deus, e nada pode sem Deus ser ou ser concebido. Sendo Deus, ou seja, a natureza, apenas uma causa imanente, o finito necessita, para existir ou produzir um efeito, da mediação de um outro finito: existe somente inserido numa ordem de causas que Spinoza é o primeiro a formular em termos mecanistas."


Mecanicamente, a ordem de todas as coisas moldadas pela Substância segue um propósito por esta delineado, um curso lógico absorto em fenômenos que complementem-se. Dessa mecânica universal do Todo, condicionada pela incondicionada Substância, nascem os atributos divinos que condicionam o existir e o subsistir da fenomenalidade.
       
Deus, a Natureza naturante (natura naturans), os atributos; e os seus modos de ser, a Natureza naturada (natura naturata): 


“O entendimento em ato, quer ele seja finito quer infinito, assim como a vontade, a apetição, o amor, etc., devem ser referidos à Natureza naturada e não à Natureza naturante."


E esta mesma Natureza naturante é um eterno criar, um eterno movimentar de si mesma em todos os seus modos fenomenais de existencialidade: 


“A potência de Deus é a sua própria essência (I, XVI, cor.2; XXXIV), pelo que se não pode entender a afirmação de que ‘Deus, ou por outras palavras, todos os atributos de Deus são imutáveis’ (I, XX, cor.2) no sentido de Deus ser inerte. Pelo contrário; a produtividade é coessencial ao ser divino, de tal maneira que não pode dizer-se que Deus existe e cria, senão que é o próprio criar. Conseqüentemente, Deus não é concebível independentemente da sua atividade, sendo em virtude dela, ou por outras palavras, das leis da sua própria natureza, a causa eficiente da essência e da existência de tudo o que existe (I, XVI, cor 1; XVII, XXIV,cor., e XXV), por forma que coisa alguma tem em si mesma o poder de agir, isto é, fora de Deus não existe nenhuma causa eficiente (I, XXVI e XXVII). Deus é , pois, a ‘causa única’ (Ét, II, X, esc.)”.

       
E a causa única encontra-se acima da modulação humana inerente ao procurar causas diretamente ligada a fatos: 


“‘Estabeleço em primeiro lugar’, escreveu Spinoza numa carta (Ep. 23) a Guilherme de Blyenbergh, em 13 de março de 1665, ‘que Deus é, absoluta e efetivamente, causa de tudo, seja o que for, que tem uma essência. Se puderdes demonstrar que o mal, o erro, o crime, etc., exprimem uma essência, concordarei inteiramente que Deus é causa dos crimes, do mal, do erro, etc. Creio, porém, ter demonstrado suficientemente que o que dá forma ao mal, ao erro, ao crime, não consiste em algo que exprima uma essência, pelo que se não pode dizer que Deus seja a causa de tais coisas...’; ‘...Tudo o que existe flui necessariamente das leis eternas e dos decretos de Deus e dele depende continuamente, mas as coisas diferem mutuamente em grau e na essência. Assim, embora o rato como o anjo, a tristeza como a alegria, dependam de Deus, nem por isso o rato é uma espécie de anjo e a tristeza uma espécie de alegria...’”  


Aqui está presente a diferenciação elementar de características existenciais entre os seres moldados e entre as afecções. Claramente não se pode querer ver em um rato as capacidades de um anjo, mesmo que dito rato falasse, voasse e possuísse superpoderes, como vê-se ocorrer com o personagem de desenhos animados Super Mouse. E não se pode confundir a alegria com a tristeza, mesmo que esta seja negada; um indivíduo pode aparentar alegria imensa externamente, mas interiormente assola-o uma tristeza intensa; ele procura sorrir e divertir-se para esquecer por alguns instantes a sua tristeza, contudo esta vive nele como tristeza e não como uma alegria transmutada em pouca alegria, mínima alegria. A diferenciação Spinoza via como essencial para compreender-se a totalidade que jaz na Substância, esta que move o rato, o anjo, a alegria e a tristeza.
         
Spinoza via igualmente a diferença ontológica entre Deus e as coisas moldadas apesar de sua unicidade substancial. Confundi-lo com um reles panteísta é irracionalmente considerá-lo, é dar-lhe um valor impregnado de desconhecimento sobre a sua filosofia. Spinoza não é um panteísta, mas um narrador cósmico do grande movimentar cósmico de todas as coisas no Verdadeiro Deus. Fora deste não há libertação existencial possível no mecanicismo cósmico universal da realidade e da idealidade. Findo os meus estudos com esta última observação: 


“Nascendo ignorantes das causas do acontecer e com a tendência a apetecer o que parece ser-lhes útil, os seres humanos imaginam-se livres no exercício da vontade e crêem que a atividade humana tem por fim a utilidade e que a própria Natureza foi disposta por um ou alguns Entes transcendentes e onipotentes a agir em ordem e determinados fins."


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!


                     A Substância determina
                     E jamais
                     É determinada
                     No Kosmos,
                     Na Verdade,
                     No Ser,
                     No Ver,
                     No Ter,
                     No Sentir,
                     No Pensar,
                     No Termo
                     De Ser
                     Substância!



BIBLIOGRAFIA

Auroux, Silvain e Weil, Yvonne. Dicionário De Filosofia ― Temas E Autores.

Clément, Elizabeth; Demonque, Chantal; Hansen-Love, Laurence; e Kahn, Pierre. Dicionário Prático De Filosofia.

Spinoza, Baruch de. Ética.




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