Excursão - William Wordsworth - Tradução: David Jardim




Artemis and Apollo - Barry Windsor-Smith


Nessa terra gentil, o pastor solitário,
Na maciez da relva, estendido, indolente,
Repousa, no verão, o dia quase inteiro.
Com música pastoril se embalando, na sombra
E aconteceu que, em pausa em que o simples ruído
Do próprio respirar calara-se de todo,
Ele escutar julgou, ao longe, melodia
Mais doce, muito mais, que os acordes da rude
Avena pastoril que ele próprio tocara.
A fantasia, então, foi procurar no carro,
No rico e flamejante carro do deus Sol,
Um jovem que, tangendo alaúde de ouro,
De harmonia e esplendor encheu o campo em torno,
Para a lua crescente o terno olhar erguendo,
A grande caçadora invoca, poderosa,
A linda divindade errante, que concede,
Sem relutância, a luz que os campos ilumina.
Uma deusa radiosa, então, com suas ninfas
Atravessando o prado e o bosque penumbroso
(Seguida pelos sons de notas melodiosas
Que o eco reproduz nos rochedos e grutas)
Correu a perseguir a caça, ao mesmo tempo
Que, no céu nebuloso, a lua e as estrelas
Corriam, enquanto o vento as nuvens agitava.
O viajante a sede ao saciar na fonte
De linfa cristalina, à náiade agradecendo,
Raios de sol brilhando em montanhas distantes
E, entre sombras, depois, o espaço percorrendo,
Com a ajuda sutil da leve fantasia
Transforma seu olhar em danças de oréades.
Os zéfiros que passam, abrindo as leves asas,
Não deixam de encontrar, em seu caminho,
Criaturas que escutam, ternas, complacentes,
As palavras de amor murmuradas no ouvido,
Troncos de árvores já secos e de grotesco
Aspecto e de suas folhas já despidos,
De um solitário val na profundez ocultos
Ou perdidos na verde encosta das montanhas,
E, às vezes, junto aos quais de um bode solitário
A barbicha se avista, ou de um veado os galhos,
Um bando folgazão de sátiros alegres
Ou o próprio Pã parecem, aos olhos do pastor.





William Wordsworth





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