Uma Esquizofrênica Resenha Para Os Vinte Anos Do Clube Da Luta De Chuck Palahniuk




Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Falar do Clube Da Luta, o livro lançado no ano de 1996 no qual a essência do filme de 1999 dirigido por David Fincher  foi retirada, é como esquizofrenicamente navegar por mares de um humanismo seco, direto e ultraviolentíssimo. Ultraviolentíssimo em uma caótica iniciativa épica de fatos emoldurada por danos que propõem revisões existencialistas de nossas posições no mundo. Ultraviolentíssimo na disposição em arrancar nossas jugulares  tocando nos pontos certos do incômodo que sentimos neste embrutecido mundo. Ultraviolentíssimo no dinamismo das porradas que levamos n'alma a cada ponto da leitura.

Tyler Durden te provoca para uma briga!

Tyler Durden te quebra os dentes!

Tyler Durden te morde na cara!

Tyler Durden te arranca os olhos!

Tyler Durden te quebra os braços!

Tyler Durden te dá uma rasteira!

Tyler Durden te finaliza com um mata-leão!

Tyler Durden quebra seu pescoço!

Tyler Durden chuta seu pau!

Tyler Durden chuta sua buceta!

Tyler Durden te deixa em coma!

Tyler Durden te mata na porrada!

Ultraviolentíssimo na narrativa, como um lutador sedento pelo nocaute, Chuck Palahniuk transborda através das páginas uma estranhíssima filosofia marcial para o dia-a-dia em uma caótica civilização. É um livro viril em 100% de sua corporeidade, um tomo de sentenças lançadas na cara, na alma e na mente do leitor como diretos de esquerda e direita fulminantes. É também como transar direto, sob o efeito de ecstasy e outros estimulantes, durante três meses, a curiosíssima experiência de leitura de suas nocauteantes páginas. Transar enlouquecidamente com enlouquecida mente nas colchas das palavras atropelando as vastas paragens das barreiras da linguagem sendo constantemente quebradas.

E assim nos tornamos o sentimento de absurdo do Joe...

E assim nos situamos no instante de reflexos inúteis do Joe...

E assim nos abortamos no útero de inseguranças do Joe...

E assim arruinamos o sentido de nossos passos na tortuosa estrada do Joe...

E assim tocamos nas abertíssimas feridas do Joe...

E assim lançamos ácido nas parcas esperanças do Joe...

E assim somos o próprio Joe...

Joe/Tyler Durden é um misto de todos os transviados e abortados sonhadores da face da Terra. Falando várias linguagens em uma só linguagem; abrindo e fechando várias portas em uma só porta; varrendo várias moradas em uma só morada; socando várias existências em uma só existência: a simbiose de uma essência em duas personalidades e de uma personalidade em duas essências. A idiossincrasia vívida de uma destrutiva atitude para com o ato mesmo da vida. Um niilismo desesperador alimentado por um particular mundo onde ele pode ser o dono de todo poder possível e impossível.

Você não é mais um leitor durante o trajeto do livro.

Você não é mais um quando abre a primeira página do livro.

Você é o livro que lê.

Você não é o leitor do livro.

Você não é você.

Você não é o livro.

Você é um instável paradoxo.

Você é um inimitável anacronismo.

Você é um aborrecimento lido.

Você é um detrito lido.

Você é um ridículo lido.

Marla Singer é apenas uma âncora e um elo de ligação com a bipartida fração de vida que é Joe/Tyler. Ela e os demais personagens são vistos como fora do ringue da luta pela Existência, uma Existência mais pura, puta, livre, libertina, anárquica e isenta de virulentos ismos. Ismos estes atacados com jabs e uppercuts acompanhados de chutes cruzados e chaves-de-braço, pelo Assim Fala Tyler Durden, o livro dentro do clube que está dentro de um livro. Assim Fala Tyler Durden: você não está vivendo da forma que deve viver a sua vida. Assim Fala Tyler Durden: você está deixando ser dominado pelo que a mídia inventa como um roteiro facilitador para tudo na vida. Assim Fala Tyler Durden: você não está questionando, está a tudo aceitando sem o filtro da razão crítica. Assim Fala Tyler Durden: você não se move, o que se move não é você.

É necessário reduzir.

É necessário renascer.

É necessário regurgitar.

É necessário abandonar.

É necessário buscar.

É necessário revoltar-se.

É necessário afligir.

É necessário parar de fingir.

É necessário revolucionar.

É necessário começar a viver.

Clube Da Luta é porradaria pura: estética, literária e filosoficamente falando. A impressão que dá é a de que Nietzsche esteja a falar através de Tyler Durden nas marteladas providenciais de discursos diretamente direcionados ao Ser dos leitores. É, também, um livro para transgressores, revolucionários, ativistas dos humanos direitos, arautos dos humanos deveres, cicerones da humana liberdade, armadores da humana igualdade, formalizadores da humana fraternidade, revoltados, antenados e (FALA AÍ, NIETZSCHE!!!) demasiadamente humanos. E, como "a primeira regra do Clube Da Luta é não falar no Clube Da Luta", paro por aqui a fim de não entregar spoilers. Comprem-no ou baixem-no em PDF, lendo-o, esquecendo-o, rasgando-o ou queimando-o depois, tanto faz; mas, faça algo ao invés de apenas ficar aí com o rabo colado na cadeira vendo o mundo inteiro cada vez mais se deteriorar nesta Era Da Desgraça Contemporânea. Pare de ser um reclamão desgraçado, lute; pare de ser um crônico perdedor desgraçado; pare de ser um antagonista de si mesmo na história moldada pelo roteiro de sua ainda medíocre vida: eis o recado central desta graça contemporânea de obra-prima!

Sintam-se vivos.

Sintam-se mais vivos.

Sintam-se muito vivos.

Sintam-se verdadeiramente vivos.

E valorizem cada hematoma adquirido após a leitura desta obra e da obra de sua própria vida.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Chuck Palahniuk





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