Dogma E Ritual Da Alta Magia - Eliphas Levi



“(...) Tudo está contido numa palavra, e numa palavra de quatro letras: é o Tetragrama dos Hebreus e o Azoth dos alquimistas, é o Thot dos Boêmios e o Taro dos Cabalistas. Esta palavra, expressa de tantos modos, quer dizer Deus para os profanos, significa o homem para os filósofos, e dá aos adeptos a última palavra das ciências humanas e a chave do poder divino; mas só sabe servir-se dela aquele que compreende a necessidade de a não revelar nunca. Se Édipo, em lugar de fazer morrer a esfinge, a tivesse dominado e atrelado ao seu carro para entrar em Tebas, teria sido rei sem incesto, sem calamidade e sem exílio. Se Psiquê, à força de submissão e carícias, tivesse induzido o Amor a revelar a si próprio, ela nunca o teria perdido. O Amor é uma das imagens mitológicas do grande segredo e do grande agente, porque exprime, ao mesmo tempo, uma ação e uma paixão, um vácuo e uma plenitude, uma flecha e uma ferida. Os iniciados devem compreender-me, e, por causa dos profanos, não devo dizer muito. (...)”


in: pag. 62


Autor: Eliphas Levi
Tradução: Rosabis Camaysar
Editora Pensamento
São Paulo
1974
470 pags.


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Este é um Absoluto e Supremo Clássico do Ocultismo que atravessa o Continuum Espaço/Temporal com uma incrível atualidade para os estudiosos, livro que todo espiritualista de verdade deve ler. Mas, isto não quer dizer seguir cegamente seus preceitos, nem fanaticamente exercer amparado nas palavras do mesmo uma crença fanaticamente capaz de cegar para outras visões dentro da Espiritualidade. Alphonse Louis Constant (1810-1875), mais conhecido como Eliphas Levi Zahed (transcrição de seu nome para o hebraico), autor de Dogma E Ritual Da Alta Magia (1854) não advoga o conteúdo de “Sagrado” para este livro ou qualquer outro que tenha escrito. Mesmo sem diretamente ter escrito algo acerca disso, deixa claro que o Adepto deve procurar acender a lâmpada de sua própria Câmara Interna e esclarecer cada ponto de sua jornada na Estrada Material. Os incautos, que buscam coisas fantásticas e soluções fáceis para tudo em suas respectivas existências, não devem nem folhear qualquer das páginas deste livro. Até porque este é destinado aos que estão abrindo os olhos d’alma ou já tem estes abertos há muito.


No Dogma: O Recipiendário, As Colunas Do Templo, O Triângulo de Salomão, O Tetragrama, O Pentagrama, O Equilíbrio Mágico, A Espada Flamejante, A Realização, A Iniciação, A Cabala, A Cadeia Mágica, A Grande Obra, A Necromancia, As Transmutações, A Magia Negra, Os Enfeitiçamentos, A Astrologia, Os Filtros e as Sortes, A Pedra dos Filósofos, A Medicina Universal, A Adivinhação e Resumo e Chave Geral das Quatro Ciências Ocultas.


No Ritual: As Preparações, O Equilíbrio Mágico, O Triângulo dos Pentáculos, A Conjuração dos Quatro, O Pentagrama Flamejante, O Médium e o Mediador, O Setenário dos Talismãs, Aviso aos Imprudentes, O Cerimonial dos Iniciados, A Chave do Ocultismo, A Tríplice Cadeia, A Grande Obra, A Necromancia, As Transmutações, O “Sabbat” dos Feiticeiros, Os Enfeitiçamentos e as Sortes, A Escritura das Estrelas, Filtros e Magnetismo, O Magistério do Sol, A Taumatúrgica, A Ciência dos Profetas e O Livro de Hermes.


Como Suplemento do Ritual: O “Nuctemeron” de Apolônio de Thyana, O “Nuctemeron” conforme os Hebreus, Da Magia dos Campos e da Feitiçaria dos Pastores e Respostas a algumas questões e críticas.


Além disso, o livro traz belíssimas ilustrações iniciáticas feitas pelo autor, algumas delas sendo apresentadas ao final desta resenha.


Não é um livro atrelado a dogmas, apesar do título, examinando a experiência do mito e da realidade dentro de todas as cadeias iniciáticas até então conhecidas à época de sua escrita com a minúcia de um pesquisador que provoca nos leitores aos quais destinam seus escritos o sentimento da busca pessoal pelas respostas.  O objeto do livro é estabelecer na primeira parte “o dogma cabalístico e mágico na sua totalidade” e na segunda destina-se “ao culto, isto é, magia cerimonial”, nas palavras do autor. Como dito acima neste parágrafo, Levi não se apoia fixamente na profundidade dos dogmas apresentados aos leitores e abre espaço para um campo maior de estudos com uma instigante linguagem.


Um exemplo do que quero explicar:


“(...) Todo entusiamo propagado numa sociedade, por uma continuidade de comunicações e práticas firmes, produz uma corrente magnética e se conserva ou aumenta pela corrente. A ação da corrente é arrastar e, muitas vezes, exaltar fora da medida as pessoas impressionáveis e fracas, as organizações nervosas, os temperamentos dispostos ao histerismo ou às alucinações. Estas pessoas logo se tornam veículos da força mágica e projetam com força a luz astral na própria direção da corrente; opor-se, então, às manifestações de força, seria, de algum modo, combater a fatalidade. (...)”


A flexibilidade da linguagem em Levi é extraordinariamente executora dos mais belos aspectos das questões que ele analisa, responde e impulsiona para que nós também possamos questionar. Pois, do que adianta expor como “absolutíssima verdade” conteúdos que são em si mesmos flexíveis para quem tem os modos corretos de fazer fluir a mensagem? Muito do que se diz contra Levi é que sua linguagem hermética é intraduzível, confusa e arcaica. Mas, zelando pelo aspecto do ocultamento aos olhos profanos muito que não pode ser dito, a proposta dele é falar aos que, mesmo ainda cegos, possam por si mesmos atentar-se ao luzidio caminho do Conhecimento Interno e Externo.


Assim sendo, ele adverte aos leitores à página 77:


“(...) Vós, pois, que começastes a leitura deste livro, se vós o compreendeis e o quereis ler até o fim, ele fará de vós um monarca ou um insensato. Quanto a vós, fazei deste volume o que quiserdes, não podereis desprezá-lo nem desprezá-lo nem esquecê-lo. Se sois puro, este livro será para vós uma luz; se sois forte, ele será vossa arma; se sois santo, será vossa religião; se sois sábio, ele regulará a vossa sabedoria.


Mas, se sois malvado, este livro será para vós como que uma tocha infernal; ele despedaçará vosso peito, rasgando-o como um punhal; ficará na vossa memória como um remorso; ele encherá vosso imaginação de quimeras e vos levará pela loucura ao desespero. Procurareis rir dele e só podereis ranger os dentes, porque este livro é para vós como a lima da fábula que uma serpente tentou morder e que lhe quebrou todos os dentes. (...)”


Volto a tocar no assunto da importância de localizar o exato público deste livro. Em uma época onde a velocidade das informações não está acompanhada pela maturidade da grande maioria daqueles que recebem-nas, torna-se muito fácil a dispersão, a confusão, a distração e o esvaziamento da mente. Consequentemente, os sentimentos são neutralizados pouco a pouco e toda a reação passa a basear-se mais no instinto do que na racionalidade. Nada contra quem se encarrega de aprofundar-se na caça de Pokémons, torcer em competições das Olimpíadas e ter várias outras distrações que se referem à superfície e não à interioridade. O supérfluo é dominante até mesmo nos meios religiosos, meios estes que Levi respeitava com reverência, condenando apenas os desvios e excessos. Nos dias contemporâneos, o exercício do aprofundamento em si mesmo é bastante raro, não há tempo para muitos, estes que precisam de diversão, de embriaguez, de atualizações no Facebook, twittadas no Twitter, vídeos no YouTube, vídeos no Xvideos, fotos no Instagram… E tudo passa longe da descoberta de si mesmo, muito mais do que na época onde este livro foi escrito.


Melhor do que entregar o conteúdo completo desta obra nesta resenha é avisar a determinados visitantes eventuais deste blog que o mesmo não lhes servirá de nada se for lido como um best-seller. Nem pode ser lido para que haja um tipo qualquer de intelectiva arrogância a ser despejada em discussões em grupos virtuais pela Internet. Muito menos é para ser parte de uma biblioteca apenas para que a vaidade de possuir um livro desta riqueza infinita possa ser alimentada. O saber contigo no todo do que muitos consideram como a maior das obras escritas por Levi não é para levianos, gozadores, esnobes e pretensos seres elevados que se sentem melhores do que os demais apenas por lerem determinados livros. O charlatanismo não reside apenas no meio espiritualista, podemos considerar como visíveis os charlatães intelectuais que povoam o ciberespaço e o mundo fora deste. Eles serão emudecidos, cegados, confundidos e abafados sempre que tentarem impor em diversos meios seus infindáveis sofismas. É a eles que a passagem transcrita acima refere-se; nas mãos deles, então, o livro aqui resenhado não terá nenhum uso útil e frutificante.


Nenhum plenamente desequilibrado existencialmente retirará bons frutos desta obra-prima ocultista. Equilíbrio é o fundamento universal maior que ampara toda autêntica expansão. Seja está consciencial, existencial ou iniciática, Equilíbrio é A Chave Maior:


“(...) O equilíbrio é a resultante de duas forças.


Se as duas forças são absolutamente e sempre iguais, o equilíbrio será a imobilidade, e, por conseguinte, a negação da vida. O movimento é o resultado de uma preponderância alternada.


O impulso dado a um dos pratos de uma balança determina necessariamente o movimento do outro. Os contrários agem, assim, sobre os contrários, em toda a natureza, por correspondência e por conexão analógica. (...)”


in: pag. 247


O Equilíbrio Magico, tanto no Dogma quanto no Ritual, recomendo como os capítulos do livro que primeiro devem ser lidos. Tudo está no Equilíbrio para O Mago:


“(...) É importante que o mago saiba os segredos da ciência; mas pode conhecê-los por intuição e sem os ter aprendido. Os solitários que vivem na contemplação habitual da natureza, adivinham, muitas vezes, as suas harmonias e são mais instruídos, no seu simples bom senso, do que os doutores, cujo sentido natural é falseado pelos sofismas das escolas. Os verdadeiros magos práticos se acham quase sempre no sertão e são, muitas vezes, pessoas sem instrução ou simples pastores. (...)”


in: pags. 243/244


Igualmente, a questão do Equilíbrio deve se manter altíssima no terceiro capítulo a ser lido primeiramente após os dois acima recomendados. Trata-se de Aviso Aos Imprudentes no Ritual, com este fundamental trecho a ser apontado como muitíssimo primordial:


“(...) Será preciso falar mais claramente? Quanto mais fortes brando e calmo, tanto mais a vossa cólera terá força; quanto mais fordes enérgico, mais a vossa brandura terá preço; quanto mais hábil fordes, tanto mais aproveitareis da vossa inteligência e até das vossas virtudes; quanto mais fordes indiferente, tanto mais fácil vos será fazer-vos amar. Isto é de experiência na ordem moral e se realiza rigorosamente na esfera da ação. As paixões humanas produzem fatalmente, quando não são dirigidas, os efeitos contrários ao seu desejo desenfreado. O amor excessivo produz a antipatia; o ódio cego anula-se e pune-se a si próprio; a vaidade leva ao rebaixamento e às mais cruéis humilhações. O grande mestre revelava, pois, um mistério da ciência mágica positiva, quando disse: 'Se quiserdes acumular carvões em brasa na cabeça daquele que vos fez mal, perdoai-lhe e fazei-lhe o bem’. Dirão, talvez, que semelhante perdão é uma hipocrisia e parece muito uma vingança refinada. Mas é preciso lembrar que o mago é soberano. Ora, um soberano nunca se vinga, porque tem o direito de punir. Quando excede este direito, faz o seu dever, e é implacável como a justiça. Notemos bem, aliás, para que ninguém entenda mal o sentido das minhas palavras, que se trata de castigar o mal pelo bem e de opor a bondade à violência. Se o exercício da virtude é um flagelo para o vício, ninguém tem o direito de pedir que lhe perdoem ou que tenham piedade das suas fraquezas e dores. (...)”


in: pag. 297


Com o Equilíbrio em todo o Ser, leiam este livro que se eterniza cada vez mais com o passar dos anos. Toda cuidadosa leitura meditativa, como a que hoje recomendo aqui no blog, deve atingir o ponto exato da balança da seriedade e da contundência no desejo de estudar, aprender e equilibradamente exercer o desenvolvimento do Conhecimento adquirido.


“(...) O homem é filho das suas obras: é o que quer ser; é a imagem do Deus que fez para si; é a realização do seu ideal. Se o seu ideal não tem base, todo o edifício da sua imortalidade se desmorona. (...)”


in: pag. 429


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Esoterismo Sacerdotal



O Grande Símbolo de Salomão 



Adda-Nari



Baphomet



O Carro de Hermes



Eliphas Levi Zahed




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