Autenticidade & Dignidade Na Arte


Charles Bukowski


então, queres ser escritor?


Charles Bukowski

Tradução de Manuel A. Domingos


se não sai de ti a explodir
apesar de tudo,
não o faças.
a menos que saia sem perguntar do teu
coração, da tua cabeça, da tua boca
das tuas entranhas,
não o faças.
se tens que estar horas sentado
a olhar para um ecrã de computador
ou curvado sobre a tua
máquina de escrever
procurando as palavras,
não o faças.
se o fazes por dinheiro ou
fama,
não o faças.
se o fazes para teres
mulheres na tua cama,
não o faças.
se tens que te sentar e
reescrever uma e outra vez,
não o faças.
se dá trabalho só pensar em fazê-lo,
não o faças.
se tentas escrever como outros escreveram,
não o faças.

se tens que esperar para que saia de ti
a gritar,
então espera pacientemente.
se nunca sair de ti a gritar,
faz outra coisa.

se tens que o ler primeiro à tua mulher
ou namorada ou namorado
ou pais ou a quem quer que seja,
não estás preparado.

não sejas como muitos escritores,
não sejas como milhares de
pessoas que se consideram escritores,
não sejas chato nem aborrecido e
pedante, não te consumas com auto-devoção.
as bibliotecas de todo o mundo têm
bocejado até
adormecer
com os da tua espécie.
não sejas mais um.
não o faças.
a menos que saia da
tua alma como um míssil,
a menos que o estar parado
te leve à loucura ou
ao suicídio ou homicídio,
não o faças.
a menos que o sol dentro de ti
te queime as tripas,
não o faças.

quando chegar mesmo a altura,
e se foste escolhido,
vai acontecer
por si só e continuará a acontecer
até que tu morras ou morra em ti.

não há outra alternativa.

e nunca houve.




Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

então, queres ser um artista?


então, queres ser um artista de verdade?


então, queres viver de sua arte?


sabeis, no entanto, o que é autenticidade?


sabeis, no entanto, o que é dignidade?


No contemporâneo mundo das redes sociais, contatos superficiais e rapidez de toda e qualquer informação, onde fica a sutileza da autenticidade no ser humano?


Em meio a tantos métodos de se chegar a um alto patamar social, dos mais honestos aos mais condenáveis, alimentados, de uma maneira ou de outra, pela mídia, onde podemos encontrar a dignidade no meio humano?


Creio responder as duas indagações acima afirmando que entre os artistas é muito mais fácil encontrar autenticidade e dignidade. Falo dos artistas orgânicos, os de verdadeiro talento, que exercitam o desenvolvimento cada vez mais novas formas de evolução em concepções artísticas com o passar do tempo. Os artistas artificiais, os fabricados pela mídia em laboratórios apropriados, voltados para o vazio da Contemporaneidade e a febre da vulgarização cada vez maior da denominada “arte popular”, são produtos esquecíveis feitos para durarem por um determinado tempo e se apagarem depois deste mesmo.


E o que faz um artista em sua arte ser autêntico? Nunca querer tentar explicar o sentido de sua arte como voltado para um determinado público. Nunca tomar para si a apropriação de um movimento dentro de sua arte que sirva para todos. Nunca dar um sentido determinado à sua arte, esta diz por si mesma sobre o que significa ter sido ao mundo trazida. Nunca querer pertencer a grupinhos com a finalidade de ser aceito no meio artístico. Nunca querer formar um grupo porque toda arte é, primeiramente, subjetiva, e deve continuar assim sendo por toda a extensão da vida de um artista. Nunca direcionar a sua arte para algum sentido além dos seus parâmetros, como político ou religioso. Nunca se afastar de sua arte e querer ser maior do que esta.


E o que faz um artista em sua arte ter dignidade? Nunca se vender ou alterar a objetividade sem objetivos determinados de sua arte. Nunca querer agradar alguém ou a um grupo, arte não é para ser agradável, simpática ou sorridente para ninguém. Nunca se sentir o maior e melhor artista de seu tempo, a arte, na verdade, molda intérpretes de Realidades além do Humano e, não, superstars egocêntricos e interiormente apodrecidos. Nunca desistir de sua arte, mesmo que ninguém valorize, ovacione ou admire a mesma com ardor e sinceridade.


Autênticos e dignos na Arte, na Verdadeira Arte, são muitos, devo dizer. Pela Internet e fora da Internet, eles são identificáveis, mesmo que para as massas teleguiadas pelo que a grande mídia vomita todos sejam completos d desconhecidos. Mas, nenhum artista de verdade em sua verdade de artista deixou de criar por causa da falta de reconhecimento da parte do público, este que é formado por pessoas das mais diversas intelectivas capacidades. Artisticamente criar não é entrar em guerra com outros artistas para saber-se quem pinta melhor, desenha melhor, escreve melhor, canta melhor…


Enfim, se você aí possui pretensões artísticas, é melhor saber que não se deve entrar na Arte ou fazer de sua arte um campo de batalha contra outros artistas. A tolice de um artista começa quando ele se julga superior aos outros de seu campo de atuação e, a partir deste erro, encaminha-se para o desencontro de si mesmo como criador. Quer incomodar? Quer fazer pensar? Naturalmente crie, com autenticidade. Naturalmente crie, com dignidade.


E O Tempo dirá se você foi ou não um artista de verdade em sua verdade de artista.

então, ainda queres ser um artista?

então, ainda queres ser um artista de verdade?

um autêntico artista?

um digno artista?


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!






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