Agostinho - Um Drama De Humana Miséria E Divina Misericórdia - Huberto Rohden



“(...) É este um dos traços mais típicos no caráter do filho de Mônica: a seriedade com que encara a vida cristã. Adia por longos anos a sua conversão porque não se sente com forças para cumprir o que esta conversão lhe exige. Mas, uma vez convertido, quer ser cristão integral, e não apenas pagão batizado, um homem qualquer envernizado de Cristianismo, como tantos cristãos de nossos dias. (...)”


in: pag. 149

Huberto Rohden
4ª Edição
Fundação Alvorada
São Paulo
1976
226 pags.

Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Friedrich Nietzsche (1844-1900) escrevera em um de seus livros que o único cristão que houve na Terra, Jesus de Nazaré, morrera na cruz. Entre saber se na Bíblia estão as verdadeiras palavras do denominado “Salvador do Mundo” ou se as palavras originais do mesmo foram alteradas sob intenções nada salutares relacionadas ao esclarecimento sobre a Natureza de sua mensagem, fica-se sempre a impressão da aceitação ou não da mesma. Entre todos os considerados Doutores da Igreja Católica Apostólica Romana, Agostinho (354-430) conseguiu traduzir à perfeição o fundamental significado do Cristo e do Evangelho deste, muito diferente do Cristianismo praticado na época dele e, até, o Cristianismo Mercadológico de hoje. Huberto Rohden (1893-1981), para elaborar esta biografia, leu todas as 103 obras em Latim escritas por um dos maiores Gênios que este mundo já teve. A leitura resultou em uma fluente e respeitosa leitura da existência de “um dos homens mais humanos e mais divinos que a história conhece”, conforme escrito à página 19. Eu ousaria acrescentar que Agostinho foi, após Jesus, o único verdadeiro cristão que já caminhou na face da Terra.


As angústias, medos e sonhos do biografado são tratadas pelo biógrafo em um ritmo elaborador de uma agradável sucessão de relatos simples moldados com uma linguagem de fácil acesso a todo e qualquer interessado. A linguagem é o foco da interpretação do pensamento agostiniano, sempre este sendo centrado nas perspectivas de um alcance do que a crença possa desvelar e elevar em uma humana alma. Sendo parcial em muitos momentos, de um modo que revela   sem condenar ou exaltar em demasia determinadas passagens da caminhada material de Agostinho, Rohden se põe e nos põe dentro da mente e da vida daquele. As descrições e o empenho em movimentar cada passagem dão uma noção de que também estamos à vivenciar em nós os acontecimentos que são descritos na narrativa. Transportados para esta, fluentemente durante a leitura sentimos e tocamos em tudo que o biografado sentiu e tocou.

“(...) Agostinho é um verdadeiro nômade do espírito e do coração. Não é amigo de residência fixa e definitiva. Não simpatiza com rotinas e tradições. Péssimo pai de família teria sido ele, provavelmente, se chegasse a fundar um lar propriamente dito. Não tolerava barreira de espécie alguma. Assim como abraçou sucessivamente diversas ideologias filosóficas e religiosas, antes de arribar ao porto seguro do Cristianismo, assim também, durante a sua longa vida de apóstolo e apologista, modificou repetidas vezes a sua tática é estratégia, e ainda no fim da existência escreve um livro chamado 'Retractationes’, obra em que revoga e corrige muitas das suas idéias e opiniões expostas nos primeiros tempos de convertido. (...)”


in: pag. 72

O “porto seguro do Cristianismo” se refere a uma adequação de Agostinho aos ideais de humildade e entrega ao Deus crido pelos cristãos através do Cristo. Hoje em dia, parece bastante anacrônico falar em “humildade cristã” e “entrega ao Deus Cristão” diante de tantos cristianismos vigentes a cada esquina. E para melhor ainda amparar-se em sua crença e obter conhecimentos que ampliassem a mesma através de um estudo sério e profundo de tudo do campo da Ciência, Arte e da Filosofia produzidas, até então, naquele tempo. E a Tradição Filosófica Neo-Platônica tornou-se sua grande paixão, adequada ao intenso clamor de sua crença em seu coração, este ainda confuso com a dualidade proporcionada pelo Maniqueísmo, crença que abraçara em seu início como cristão.

“(...) A par do estudo intenso da filosofia helênica continuava Agostinho a investigar a verdade religiosa, pesquisando nas páginas da Bíblia e procurando a justificativa do seu confuso maniqueísmo. Entretanto, como mais tarde confessa, nunca a sua alma encontrou quietação no sistema religioso que abraçara.(...)”


in: pag. 90

Há determinadas passagens do livro bastante esclarecedoras para o estabelecimento de uma profunda compreensão do caminho de Agostinho até sua plena conversão como cristão. Sua mãe, Mônica, é uma presença fundamental nas páginas desta biografia, em sua total  dedicação ao filho quanto ao correto caminho que ele deveria seguir. Também as necessidades carnais pulsam como obstáculos visíveis ao pleno alcance da entrega total a Cristo, encarnado pela “fenícia anônima” pela qual se apaixonara e com a qual teve um filho, Adeodato; e demais outras carnalidades que fizeram-no ter uma vida dissoluta antes da mulher (cujo nome nenhum biógrafo de Agostinho ainda não descobriu) que amou e depois dela.


Por causa da pressão da carne a sua completa conversão foi bastante dolorosa…

“(...) A conversão de Agostinho, porém, é um drama que se desenrola paulatinamente, ato por ato, cena por cena. Podemos acompanhar cada uma das fases evolutivas dessa epopéia das trevas à luz. E, por fim, nos vemos em face desta grande verdade: O homem que uma vez  em sua vida sentiu dentro de si as saudades de Deus — seja mesmo do Deus desconhecido — acabará finalmente aos pés do Cristo. A maior desgraça é não ter nunca sentido esse tormento da Divindade. Por mais que a força centrífuga dos seus erros e desvarios o arremesse à periferia dum mundo sem Deus, esse homem acabará por ser atraído pela força centrípeta da sua imanente nostalgia para o invisível foco dinâmico: 'Deus’. (...)”


in: pags. 133/134

E a partir de seu mundo interior, nasceu uma regeneração que externamente o converteu em um Verdadeiro Cristão. Este termo, ultimamente, está bastante deturpado, mas Rohden percebeu o Verdadeiro Sentido do mesmo conforme esta afirmação que agora faço: Agostinho escolheu O Cristo e, não, O Cristianismo; A Fonte Original e, não, sua Degenerada Consequência Material. Não recomendo a leitura deste livro aos que se dizem atualmente “cristãos” ou “filhos de Deus”; na grande maioria das vezes, os que carregam uma Bíblia na mão pelas ruas, gritam nos púlpitos, oram publicamente ajoelhados, se intrometem na Política, dão palpites sobre as opções sexuais de outros indivíduos, pregam absurdos travestidos como “verdades religiosas” e se transformam em estrelas midiáticas são mais Carnavalizados e Filhos Do Diabo do que aqueles que condenam como “ímpios”. A leitura dos 103 livros escritos por Agostinho também não é recomendável a tais mercadores do Templo contemporâneos, seria imensa perda de tempo que algum deles lesse qualquer obra do hoje Santo Católico. Alguns devem ter lido, mas as palavras desapareceram e se pulverizaram na presença da ignorância e cegueira espirituais dentro de suas almas supostamente “evangélicas, evangelizadoras e livres dos prazeres mundanos arraigados nos ímpios corações”.


Este livro é para os que são estudiosos da religiosidade humana de um modo geral, sem dogmas ou ismos, proibições e condenações. Em suas páginas, Rohden construiu uma belissima síntese da existência material de um CRISTÃO DE VERDADE, do tempo antigo, vivente na época do início da Decadência Romana e da derrocada do Paganismo. Pois Agostinho reconhecia suas humanas fraquezas e a pequenez diante do Deus no qual acreditava, deixando as mesmas transparecerem em seus livros, sem máscaras ou fugas para um transcendentalismo amorfo e infértil. Pensador de primeiríssimo porte para a História Da Humanidade, também é recomendável aos intelectuais formados pela Educação Superior de qualquer parte do mundo e aos livres-pensadores formados pela Educação Da Vida Humana. Aos interessados, peço que iniciem sua trajetória de relacionamento com Agostinho através desta biografia de Huberto Rohden, seja qual for sua religião. Recomendo aos ateus, igualmente, apenas como meio de obterem melhores fundamentos para combaterem a ideia cristã de um Creador responsável por suas creaturas. É um livro, enfim, para tudo e para todos que necessitem conhecer uma alma ligada ao que ele acreditava como seu Ponto De Equilíbrio Existencial sem deixar de olhar para a Terra. Um Buscador, Verdadeiro E Completo Buscador, definitivamente.

“Fizeste-nos para ti, Senhor — e inquieto está o nosso coração até que ache quietação em ti.”


Agostinho

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!



Huberto Rohden 





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