Sobre O Sublime Do Amor, Da Dor, Do Desespero E Da Morte Na Arte Poética A Partir De Safo De Lesbos E Florbela Espanca - Da Morte E Conclusão



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Kierkegaard fala de um morrer continuamente, que é um morrer para todas as coisas em redor, querendo verdadeiramente morrer para tudo em redor. Mas, o morrer ocorre na vida, ocorre na existência humana vivida, no ambiente humano todo disponível ao desenvolver dos modos daquela.


“O presente ilude-nos muitas vezes e, nem sempre, sabemos gozar os bens da vida; nem sempre o que mais nos agrada e seduz é o que mais nos convém, e há prazeres que matam, como há fortunas que são o começo de nossa ruína.”


Nestas palavras, Farias Brito alude à ilusão proporcionada aos sentidos pelos fatos que ocorrem de maneira a dotar o ser humano de alegria ou de tristeza, de satisfação ou de insatisfação, de ganho ou de perda. Tal estado devia ter se apoderado de Safo e de Florbela, prestes a verem em suas respectivas dores e sofrimentos a Morte. Prestes ou já vendo esta em seus semblantes, mas de maneiras diferentes: em Safo o morrer não é de modo crônico como o é em Florbela, pois o morrer daquela é um morrer definido pela separatividade da amada que deseja. O próprio apelo de Safo à sua deusa apresenta essa sensação de morrer diariamente, por causa da distância a separá-la do que mais deseja. Nela, presente no poema, está a imaginação de uma grande desgraça caso prolongue-se demasiadamente o afastamento de sua amada, um sentimento que quase imperceptivelmente percorre cada verso. Nos de Florbela encontra-se a desgraça como algo pulsante, vivo, todo construído no chamado da Morte, esta que a libertaria da vida que já não lhe dava nenhuma razão para preservar. No morrer diário de Safo há a desgraça. No morrer existencial de Florbela há a desgraça. O morrer da Morte polariza-se todo na visão da desgraça. Schopenhauer afirmou:


“A principal razão pela qual é menos difícil suportar uma desgraça quando a consideramos de antemão como possível e, como se diz, nos preparamos para ir de encontro a ela, é o fato de que, ao pensarmos calmamente no caso antes da sua ocorrência, como uma mera possibilidade, percebemos nitidamente e em todos os seus aspectos a extensão da desgraça, reconhecendo-a pelo menos como finita e vislumbrável.”


No caso de Safo, a desgraça do morrer diário foi finita, vislumbrável, desaparecendo por causa de sua fé e esperança no Amor. No caso de Florbela, a extensão da desgraça era infinita, vislumbrável profundamente a cada verso que descreve esse estado de desgraçado morrer diário. Florbela viu na Morte a sua salvação:


“Não há mal que não sare ou não conforte tua mão que nos guia passo a passo.”


Farias Brito fala deste sentimento de adoração pela Morte:


“Há, então, na morte uma nova vida. A morte é o maior dos temores; mas também é a porta da felicidade, o triunfo muito esperado.”


Florbela faz da Morte a sua deusa, venerada deusa, a lhe abençoar com o toque definitivo que a libertará do abismo existencial que arruína-lhe em vida: “Morte, minha Senhora dona Morte.” Se antes haviam certas semelhanças entre os poemas de Safo e de Florbela no Sublime que ambos exibem no Amor, na Dor e no Desespero, no da Morte a desproporção entre aqueles é tremenda. No poema de Safo há apenas a leve idéia de um morrer, mas no de Florbela é o peso todo da expressão poética dos versos. Possuída pelo “terror sagrado que a morte nos inspira”, a poetisa portuguesa lança-se toda ao procurar da verdadeira anulação de sua vida, da sua verdadeira morte, da sua deusa Morte. A procura de Florbela tem um sentido, que condiciona-se definido neste trecho de Farias Brito:


“Com o último soluço da vida, que se vai, termina a última nota sonora. Com o último grito da dor que se extingue, termina o último ruído do mundo...Segue-se o vácuo e o império absoluto do silêncio, segue-se a noite ilimitada e o domínio das trevas eternas.”


Mas:


“Se uma nova revelação, porém, se faz pela morte, até onde se deve estender a perspectiva do espírito? Vê-se que a morte nos põe em face dessa terrível alternativa: o nada ou a visão do infinito.”


O poema À Morte, supõem, precedeu ao suicídio de Florbela. Caso este tenha sido efetuado, ela cumpriu o destino de uma heroína trágica: vivendo muito, sofrendo muito, chorando muito, morrendo muito, finalmente morrendo verdadeiramente. A indagação de Farias Brito pode-se ter como resposta estas palavras de Kierkegaard:


“O herói trágico realiza o seu ato num momento preciso do tempo, mas no decurso do tempo realiza também uma outra ação de não menos valor: visita aquele cujo peito oprimido não pode respirar nem abafar os suspiros, aquele cuja alma se verga ao peso da tristeza, acabrunhado pelos pensamentos alimentados de lágrimas; aparece-lhe, liberta-a do triste sortilégio, corta os laços, seca as lágrimas, porque se esquece de seus próprios sofrimentos ao pensar nos alheios”.


Aqui está o Sublime de todo poema carregado de sentimentos que comumente são considerados apenas danosos e destrutivos. Sim, Florbela danificou a si mesma, destruiu-se, mas o sentido maior dado ao seu último poema imortalizou-o como sublime. Há um pouco do trágico em Safo, mas este é abrandado pela jovial crença em um caminho possível do solucionar do imenso problema motivador da escrita do poema da poetisa grega. O Trágico uniu-se ao Sublime da Morte, fugaz em Safo, tempestuoso em Florbela. Vázquez diz, referindo-se ao Sublime e ao Trágico, que


“o sentimento do Sublime surge na relação entre a grandiosidade e a infinitude de um fenômeno e as limitadas forças humanas, ou quando estas alcançam um poder que ultrapassa desmesuradamente o cotidiano ou o normal. Na natureza, seu poder desmesurado ameaça esmagar o homem. Mas, onde existe esmagamento, já não estamos perante o Sublime, mas sim diante do Trágico.”


E diante deste, Florbela esmagou-se. Safo preservou-se do esmagamento. Os poemas, sublimes, esmagam e preservam-se como suas respectivas autoras.


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“A originalidade revela-se em ser a obra de arte criação própria de um espírito que não procura os elementos da sua obra no exterior para depois os reunir de qualquer modo, mas que, por assim dizer, elabora de um só jato, e num só tom, um conjunto cujos elementos realizaram a sua inteira fusão nas profundidades do eu criador.”


Por estas palavras de Hegel inicio as palavras finais deste estudo que pretendeu filosoficamente falar de quatro aspectos da arte poética através das análises que expressam-lhes os essenciais elementos existenciais. Safo de Lesbos e Florbela Espanca foram melhor compreendidas através do pensamento filosófico de Kierkegaard, que, afinal, adequou-se aos analíticos pormenores do estudo em questão. O Sublime, em completo alinhamento, nos aspectos de sua existencialidade nos poemas, pôde, nas formas do Amor, da Dor, do Desespero e da Morte, ser filosoficamente visualizado. Dentro de cada verso, ecoa o Sublime, este que aproximou-se do Trágico quando tocou na essencialidade  dada à Morte.


“Onde está o Paraíso? A paisagem do norte ou do meio-dia? Não importa: é o ubíquo cenário para a tragédia imensa de viver, onde o homem luta e se reconforta para voltar a lutar”:


palavras de Ortega y Gasset. Safo voltou a lutar. Florbela não voltaria a lutar, partiu para o seu Paraíso desejado. Os dois poemas, aqui estudados analiticamente, são as suas autoras. Estas, são sublimes como aqueles. Safo e Florbela atingiram o Sublime, legado em seus poemas para a eternidade.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais.





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