Sobre O Sublime Do Amor, Da Dor, Do Desespero E Da Morte Na Arte Poética A Partir De Safo De Lesbos E Florbela Espanca - Do Desespero



“O mais alto grau da dor e do sentimento do Sublime como mais alto grau da emoção estética, são extremos que se tocam. Quando a dor chega ao seu último limite ou o perigo se mostra de toda forma invencível, a emoção atinge o seu auge, e a alma fica como que suspensa no vácuo. É uma situação que nos põe em contato com o infinito. É o ponto em que a contemplação estética cede o passo à visão da Filosofia.”

Farias Brito separa em estágios diferenciados o contemplar estético e o contemplar filosófico. Porém, interpretar um poema desvendando-lhe os ditos nas entrelinhas, o que oculta-se em sua estrutura de versos organizados a um fim determinado, pode ser considerado simultaneamente um olhar filosófico. O que dizem Safo e Florbela é Filosofia, versos sobre modos existenciais de vida, que, como exposto anteriormente, não tiveram a intenção de serem assim realizados. Naturalmente, delas adveio o sentido filosófico da interpretação de suas existências e a noção de que deviam poetizar estas como viviam-nas. E o sentido filosófico foi espontâneo, não votado conscientemente a fazer-lhes dos poemas peças para interpretações filosóficas. Após essa exortação do sentido deste estudo, o continuar do mesmo tratará agora do que Farias Brito denominou como “o mais alto grau da dor”. Este, apresentando em si o Sublime, é o Desespero, a exaltação extrema da Dor, elevação superior da Dor, instante emocional que pode tornar-se permanente, mais terrível do que a Dor.

O Desespero, em Safo, a esta atingiu de maneira efêmera, perceptível apenas no clamor da poetisa no evocar da deusa. Desespero pela falta da companhia amada, rompante que finda-se com a fé gigantesca no Amor. Florbela sente o Desespero como algo essencial da sua existência e todo seu poema é um grito desesperado de um ser humano desesperançado, tristemente despedaçado. Agonias mórbidas dilaceram-na e a vontade de encontrar para isto um fim mais desespera-a. Esta sensação de desespero indica que todo o ser de Florbela estava nele absorto. Alexander Gottlieb Baumgarten (1714-1762), falando da sensibilidade:

“Eu penso meu estado presente. Em outras palavras, eu me represento meu estado presente, isto é, eu sinto. As representações de meu estado presente, ou sensações (aparições), são as representações do estado presente do mundo. Assim, minha sensação deve sua existência à força de representação de que dispõe minha alma em função da posição de meu corpo.”

Florbela sentia o mundo como um desesperado ambiente que a sufocava e em seu último poema sentiu maior em si o Desespero. Safo sentia o mundo como, no momento do escrever do seu poema, um desespero para si mesma, sendo ainda um ambiente agradável, como o comprova o enfoque dos “lindos pardais sobre a terra sombria”. Sombria, mas ainda o seu lar; para Florbela no mundo não há lar para a sua existência.

“O homem que desespera tem um motivo de desespero, é o que se pensa durante um momento, é só um momento, porque logo surge o verdadeiro desespero, o verdadeiro rosto do desespero. Desesperando duma coisa, o homem desespera de si, e logo em seguida quer libertar-se do seu eu.”

Desesperando de si na saudade pela sua amada, Safo liberta todo seu eu de modo amorosamente singelo, aliviando como pôde o seu desespero. Desesperando de si por causa de sonhos de amor não cumpridos e outras dores que lhe atingiam, Florbela sentencia-se no verdadeiro desespero de toda sua existência, libertando-se do seu eu de um modo tragicamente desesperado. Kierkegaard chega a postular ainda, um algo que supera o que ele denominou de “verdadeiro rosto do desespero”, como inserido na citação acima. Fala ele que

“o desespero é portanto a ‘doença mortal’, esse suplício contraditório, essa enfermidade do eu: eternamente morrer, morrer sem todavia morrer, morrer a morte. Porque morrer significa que tudo está acabado, mas morrer a morte significa viver a sua morte; e vivê-la um só instante é vivê-la eternamente. Para que se morresse do desespero como duma doença, o que há de eterno em nós, no eu, deveria poder morrer, como o corpo morre de doença. Ilusão! No desespero o morrer continuamente se transforma em viver”.

O desespero maximizado chega ao seu auge e ardentemente nasce o viver como um morto na morte diária a qual torna-se a vida. É é a partir da Morte, então, que agora deve-se observar os dois poemas.





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