Sobre o Sublime Do Amor, Da Dor, Do Desespero E Da Morte Na Arte Poética A Partir De Safo De Lesbos E Florbela Espanca - Da Dor



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

José Ortega y Gasset (1883-1955), sobre o artista disse que

“o que todo artista deve propor a si mesmo é a ficção da totalidade; uma vez que não podemos obter todas e cada uma das coisas, logremos pelo menos a forma da totalidade. A materialidade da vida de cada coisa é inabordável; possuamos, ao menos, a forma da vida”.

A forma da vida explica ao artista o que é a vida das formas obtidas e não-obtidas presentes e ausentes, próximas e distantes, formadas e deterioradas. Artistas da arte poética, Safo e Florbela viveram como todo artista poético as suas respectivas formas de vida vasculhando a vida das formas, conforme o interpretar dos poemas analisados. Em Safo produziu-se a dor por não ter presente a amada junto a si. Em Florbela produziu-se uma dor eterna por causa dos vários sofrimentos que lhe afligiam. E com a Dor surgem as buscas pelo sentido desta implacavelmente a golpeá-las tão brutalmente. Nelas o Amor produziu a Dor, constantemente emergente nos versos dos poemas. Safo implora à Deusa do Amor, sua deusa, sua garantia de resolução do problema amoroso, por um auxílio que retire-a das mãos da Dor: “eu te imploro: a dores e mágoas não dobres, Soberana, o meu coração”. Florbela entrega-se à Dor, tanto que é nítida esta submissão neste trecho da terceira estrofe do seu poema, quando ela clama à Morte: “Fecha-me os olhos que já viram tudo!”. Safo, como já dito, resiste à falta da amada com a fé no retorno desta, simultaneamente vencendo a Dor. Florbela, submissa, enfraquecida, entregue ao flagelo da Dor, está como que adormecida e inerte frente ao desfecho do seu destino existencial. A angústia nascida da Dor consumiu-lhe e também a Safo, que  quando entregue àquela, foi consumida. A consumação de Safo pela angústia foi efêmera, desapareceu com o retorno da confiança no Amor. A consumação de Florbela pela angústia foi permanente, acumulando-se a cada doloroso fato de sua existência exposto totalmente em seu último poema.

Kierkegaard soluciona a problemática da angústia observada nos dois poemas, para o continuar deste estudo. Nos poemas vêem-se desejos: no de Safo o desejo pela amada; e no de Florbela, o desejo de morrer. Quanto à presença dessas tendências nas poetisas, o filósofo dinamarquês nestas palavras oferece um esclarecimento da problemática:

“Não se tem muitas vezes, na devida atenção, quando se fala de expressões como desejo, nostalgia, expectativa, etc., que estas implicam um estado anterior e por conseguinte atual, a fazer-se sentir ao mesmo tempo que alastre o desejo. Aquele que deseja não é por acaso que caiu nesse estado, sentindo-se aí como em terreno estrangeiro; pelo contrário, é ele próprio quem produz semelhante estado, no mesmo instante em que o experimenta. A expressão de um tal desejo é a angústia; pois, com efeito, é na angústia que se anuncia o estado no qual se deseja sair e é a angústia que proclama não bastar apenas o desejo para que daí se saia.”

Adicionando a Dor ao desejo, o instinto do querer algo torna-se mais propiciador da angústia. Produzidas em si mesmas, as angústias de Safo e Florbela desejaram as suas expressões externas e conseguiram-nas através dos poemas. Safo deseja sair da angústia e, crendo que a Dor não pode ser mais forte do que o Amor, daquela livra-se. Florbela não deseja sair, vive na angústia como se esta tivesse-a materialmente gerado, torna-se-lhe uma seguidora, uma morada acostumada com lamentos e dores demasiados.

Contudo, a angústia das duas é semelhante, é intensa, é sufocante. O fato da de Florbela parecer mais potente do que a de Safo não torna desproporcional o afeto, conforme Kierkegaard:

“Pode-se comparar a angústia à vertigem. Quando o olhar mergulha num abismo, há uma vertigem, que tanto nos vem do olhar como do abismo pois que nos seria impossível deixar de o encarar. Tal é a angústia, vertigem da liberdade, que nasce quando, ao querer o espírito instituir a síntese, a liberdade mergulha o olhar no abismo das suas possibilidades e se agarra à finitude para não cair.”

Safo apega-se em sua fé na deusa na qual crê e escapa da vertigem com um fervor todo explosivamente emotivo nesta súplica: “Vem outra vez – agora! Livra-me da angústia e alcança para mim, tu mesma, o que o coração mais deseja: sê minha Ajudante-em-Combates!”. Florbela apega-se à Dor, unicamente à Dor, cai na vertigem toda, absolutamente angustiante, pedindo à Morte: “quebra-me o encanto!”. A angústia é acompanhada pela melancolia, a qual Kierkegaard assim define:

“Que é então, melancolia? É a história do espírito. Na vida do homem chega um momento em que a imediateidade, por decidir assim, amadurece, em que o espírito aspira a uma forma superior na qual quer apoderar-se de si mesmo como espírito. O homem, enquanto espírito imediato, é função de toda vida terrestre e o espírito, concentrando-se sobre si mesmo, quer sair dessa dispersão e transfigurar-se em si mesmo em sua validez eterna. Se isto não ocorre o movimento cai detido, e se a personalidade é  reprimida, então aparece a melancolia.”

Melancólicas, Safo e Florbela souberam dar uma finalidade útil maior ao que sentiam com tal estado de espírito e o Sublime da Dor expandiu-se poeticamente. Imediatamente, o estado melancólico propiciou o estado poético e a verdade da Dor foi acolhida nos versos oriundos de espíritos que, mesmo na melancolia, puderam tocar no Sublime.

Como no Amor, a Dor possui também a sua versão no Sublime. Quanto à esfera estética deste, Adolfo Sanchez Vázquez (1915-2011) afirma:

“Ela nos eleva sobre nossos próprios limites, nos arrebata por sua grandiosidade ou infinitude, nos estremece; e tudo isso sem que essa elevação, arrebatamento ou estremecimento nos uma com o objeto, apague a distância necessária que, a partir de nossa afirmação e autonomia em relação à ele, permite sua contemplação prazerosa”.

Contemplar as grandiosidades filosóficas dos dois poemas aqui estudados é conquistar o prazer de saber compreender que o Sublime assume variadas modalidades, não apenas na arte poética, mas em todas as artes. Contemplar a Dor em Safo e em Florbela é compreender o aspecto do Sublime em duas poetisas que por amor padeceram dos maiores sofrimentos. Um poema fala acerca de toda uma existência. O Sublime da Dor pode ser poeticamente contemplado. Tudo do Sublime da dor de Safo e Florbela advém do amor pelo poetizar. Tudo na dor de Safo e Florbela é a Dor.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Søren Aabye Kierkegaard 





Adolfo Sanchez Vázquez 



José Ortega y Gasset




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