Sobre o Sublime Do Amor, Da Dor, Do Desespero E Da Morte Na Arte Poética A Partir De Safo De Lesbos E Florbela Espanca - Do Amor




“Ao estremecimento da paixão que nasce de uma exigência profunda do organismo junta-se a curiosidade do desconhecido. É o que explica o poder irresistível e a fascinação do amor. Vem também daí o seu caráter de sentimento vago e indefinível, de visão transparente, sendo certo que não há apaixonado que não seja um visionário. Tudo isto quer dizer que não há amor sem poesia e sem sonho o que significa que talvez não há amor sem amargura, que não há amor sem sofrimento e sem luta.”

Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Raimundo de Farias Brito (1862-1917) esclarece, que o exigir orgânico aliado ao exigir que pode dizer-se do espírito alça o ser humano à busca do satisfazer-se no amor. O amor é vago por não ser algo dotado da explicação metódica de mistério desvendado. O amor é indefinível porque não encontra-se catalogado em sistemas de medidas da sua força, do seu início, do seu crescer, do seu findar (quando é apenas ilusão de que se ama) ou do seu eternizar (quando é completo e verdadeiramente amor). O amor é uma poesia interminável, verso de legítima corporeidade mediadora dos frêmitos da sensibilidade. O amor é um sonho caminhante na legítima intensificação de seu permanecer no ser que permanentemente encontra-se a algo amar. O amor é uma amargura se retido em um único ser, não sendo correspondido pelo objeto amado. O amor é um sofrimento quando possantemente elemento de um nada no qual encontra-se por não ter a resposta de outro amor. O amor é uma luta se aquele que ama, belicamente amando, procura fazer-se amado.


Safo luta. Ela fala do amor espiritualizado, quando a carne e o espírito, unos, são apenas amor. O apelo à Aphrodite é um apelo espiritual, uma voz clamando pelo amor como uma mão a auxiliar no carregar para junto de si o que se ama. O verso “lado a lado num bater de asas” confirma o que Farias Brito anunciou ao falar da presença do sonho no amor. As asas falam de um vôo dos sentidos em direção ao sentir da existência do ser amado, um captar deste similar ao da chegada de Aphrodite, quer dizer, a chegada do poder de saber que se ama, sorridente. Para Florbela não há sorrisos, mas há o pedido pelo aprisionamento das “asas que voaram tanto”. Este trecho revela o desencanto da poetisa com o sonho do amor, do sonhar amar e sonhar amando, sendo na realidade do mundo sensível não amada. “O sentimento vago e indefinível” tornou-se sentimento destruído e definível. Os sonhos de Florbela, o sonho de amor de Florbela, exposto ao não encontro com o amor. Em Safo, alçando toda a sua virtuosidade ao amor, a esperança de ter realizado a sua vontade de tocar naquela que ama é fortalecida e o Amor, como Aphrodite, é chamado para o lutar por esta realização: “sê minha Ajudante-em-Combates”. Em Florbela, inalcançado está todo o verbo do verbo amar, a desesperança é companhia de um espírito vencido na luta, espírito que apenas é amargura e sofrimento, fora de todo sonho, dentro de toda poesia. Inicialmente, as duas poetisas tiveram como o motivo determinante de seus respectivos poemas falar, conforme os seus respectivos estados de espírito, do amor como Amor, este grandioso sublime Amor por elas idealizado, por elas almejado. A fé de que voltará a ser amada, que terá consigo a sua amada, toda envolta pelos seus carinhos, eleva o espírito da poetisa grega. A descrença no realizar do amor em sua existência abisma em agonia o espírito da poetisa portuguesa. A fé de Safo é sublime. A agonia de Florbela é sublime.


Apenas o talento define a capacidade de formar sublime um poema realmente nascido do ser daquele que o desenvolve e nutre de vida, pulsação, amor. Safo ama a sua fé e Florbela ama a sua agonia, poucos, com verdadeiro talento, conseguem exprimir tais verdades em obras, poéticas ou não. Referindo-se ao talento, Sören Aabye Kierkegaard (1813 - 1855) escreveu:


“Encontramos concepções da vida que ensinam que há que gozar-se dela, mas a condição deve encontrar-se fora do indivíduo mesmo, sem que ele a ponha. Nesse caso a personalidade está geralmente determinada no talento. Se trata de um talento prático, de um talento mercantil, um talento matemático, um talento poético, um talento artístico, um talento filosófico. Se busca a satisfação, o gozo da vida na expansão desses talentos. Não basta possuir o talento imediato, se trata de desenvolvê-lo em toda forma; mas a condição de satisfação na vida é o talento mesmo, condição que o indivíduo não determina.”


E ao talento, que, sim, determina o que o indivíduo é existencialmente, pode-se somar o amor àquilo que executa-se através dele. Kierkegaard objetivamente determina a essencialidade do individuo em procurar desenvolver-se como lapidador do seu talento obrando para dimensioná-lo conforme este exige que seja dimensionado. A arte poética, a arte de escrever um poema, necessita do amor ao talento e do talento do Amor, necessários ambos para a diluição material do primeiro verso poético que, primeiramente, advém de um eu capaz de ampliá-lo.
   
Para esta ampliação, a sensibilidade, a qualidade sensória propiciadora do amor, torna-se diretamente organizadora de todo e qualquer talento.


“Graças a esta sensibilidade que anima e embebe a totalidade, o artista faz do seu assunto e da forma com que o concebe algo que se confunde consigo próprio, que lhe pertence propriamente, que faz parte do seu mundo mais intimo e mais subjetivo”,


disse-o Hegel. Mundo no qual o amor mais sensível  possui a capacidade de moldar objetivamente as mais belas produções do talento amado subjetivamente. Igualmente deve ser também o talento amado objetivamente, pois está claramente definido nos dois poemas aqui estudados que o objetivo deles é transmitir mais do que simples palavras ordenadas poeticamente. O Amor emerge soberanamente nos dois poemas, apresentam-se sublimes como sublime deve ser a sua potencialidade existencial. Pelas palavras de Joaquim Brasil Fontes (1939-) vê-se como Safo compreendia o amor:


“Era comum, na lírica arcaica, apresentar o amor em contexto de oposições: quente e frio, bom e mau. Ele é assim em Teógnis; é assim, também, nos versos de  Anacreonte: o ferreiro batendo o apaixonado a megulhando-o, depois, na água gelada. Mas Safo de Lesbos conseguiu reunir os contrários e mantê-los suspensos no mesmo ato; e os antigos deviam ter sentido o epíteto: ele só voltaria a ser usado, segundo Bowra, no período helenístico”.


António Freire (1919-1997), pondo como base do poder criado de Florbela o Amor, assim define esta sua opinião:


“Dele brotam todas as qualidades e defeitos da poetisa; nele, até, mergulha raízes profundas a prodigiosa inspiração poética que a imortalizou como artista.”


Safo uniu a qualidade amorosa do prazer de amar ao realizado prazer amorosamente realizado. Florbela buscou em sua ânsia de amar a realizadora fundação dos seus poemas. E o talento, unido à sensibilidade, coroados pelo Amor, levam à glória que apenas aquilo que nasce sublime merece ter. Os dois poemas nascidos do Amor são eternamente sublimes, pois transcenderam as suas respectivas épocas e alcançaram posteriormente o reconhecimento como genuínas grandes criações do gênio humano como tantas outras. Arthur Schopenhauer (1788-1860) caracteriza os significados das palavras acima:


“A glória que se tornará postera se assemelha a um carvalho que cresce bem lentamente a partir de sua semente; a glória fácil, efêmera, assemelha-se às plantas anuais, que crescem rapidamente; e a glória falsa parece-se com erva-daninha, que nasce num piscar de olhos e que nos apressamos em arrancar.”


O Amor em toda obra humana, verdadeiramente esta sendo nativa de verdadeiros apaixonados pelo Amor, como Safo e Florbela, é o pai eterno de tudo o que é sublime. O Sublime da poesia delas sem o Amor é mera erva-daninha. Tudo no Sublime das poetisas é para o amar. Tudo no amor de Safo e Florbela é o Amor.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Arthur Schopenhauer 



Raimundo de Farias Brito 



António Freire




Sören Aabye Kierkegaard 




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