Sobre o Sublime Do Amor, Da Dor, Do Desespero E Da Morte Na Arte Poética A Partir De Safo De Lesbos E Florbela Espanca - Introdução



Ode à Aphrodite - Safo de Lesbos

Aphrodite em trono de cores e brilhos,
Imortal filho de Zeus, urdidora de tramas!,
Eu te imploro: a dores e mágoas não dobres,
Soberana, o meu coração,

Mas vem até mim, se jamais no passado,
Ouviste ao longe meu grito, e atendeste,
E o palácio do pai deixando,
Áureo, tu vieste,

No carro atrelado: conduziam-te, rápidos,
Lindos pardais sobre a terra sombria,
Lado a lado num bater de asas, do céu,
através dos ares,

E pronto chegaram; e tu, Bem aventurada,
Com um sorriso no teu rosto imortal, perguntaste por que de novo eu sofria,
E por que de novo eu suplicava,

E o que para mim eu mais quero,
No coração delirante. Quem de novo, a Persuasiva
Deve convencer para o teu amor? Quem,
Ó Psappha, te contraria?

Pois, ela, que foge, em breve te seguirá;
Ela que os recusa, presentes vai fazer;
Ela que não te ama, vai te amar em breve,
Ainda que não querendo

Vem, outra vez – agora! Livra-me
Desta angústia e alcança para mim,
Tu mesma, o que o coração mais deseja:
Sê minha Ajudante - em - Combates!


À Morte - Florbela Espanca

Morte, minha Senhora Dona Morte,
Tão bom que deve ser o teu abraço!
Lânguido e doce como um doce laço
E como uma raiz, sereno e forte.

Não há mal que não sare ou não conforte
Tua mão que nos guia passo a passo,
Em ti, dentro de ti, no teu regaço
Não há triste destino nem má sorte.

Dona Morte dos dedos de veludo,
Fecha-me os olhos que já viram tudo!
Prende-me as asas que voaram tanto!

Vim da Moirama, sou filha de rei,
Má fada me encantou e aqui fiquei
À tua espera... quebra-me o encanto!



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Safo de Lesbos (c. 625-580 a.c) e Florbela Espanca (1894-1930): mulheres, poetisas, criadoras dentre inúmeros criadores na arte do falar verdadeiro dos sentimentos. Safo, misteriosa poetisa nascida em Mytilene, na Ilha de Lesbos, cuja obra na Antiguidade contava nove livros, dos quais atualmente restam apenas três ou quatro poemas intactos e um amontoado de fragmentos, somando seiscentos; a maioria de suas obras fora destruída pela Igreja Católica por, na opinião desta, ser obscena demais. Florbela, igualmente misteriosa poetisa, nascida em Vila Viçosa (Alentejo), em Portugal, não reconhecida em vida como criadora genial de versos dotados de toda a força do seu ser. Safo e Florbela: na alma de cada uma delas arde, imortalmente nos poemas que inserem-se antes do início desta introdução neste estudo, o Amor, a Dor, o Desespero e a Morte. Sim, sendo sentimentos maiores, devem ter suas letras iniciais maiúsculas; A Morte, o estado último da existência humana e animal, o término da trajetória existencial de uma personalidade e individualidade, foi nelas, como em muitos poetas, sentimento pulsante. Segundo a Carta XV de Ovídio, Safo, por amor, sacrifica-se, no que ficou conhecido como O salto de Lêucade. Florbela , após trinta e seis anos de sofrimentos, desilusões e mágoas, em profunda amargura, conforme estudiosos seus, suicidou-se. O “sacrifício” de Safo também foi um suicídio, muito em comum possuem essas duas poetisas, comum que não é simplório, comum que não é simplista.

Ode À Aphrodite foi escrita por Safo quando Átis, uma de suas preferidas iniciadas nas artes poéticas, musical e amorosa em Lesbos, aparentava desinteresse pelos seus carinhos. À Morte foi escrita por Florbela na madrugada do dia 8 de dezembro de 1930, sua última noite de vida, também sua última data de aniversário, pois nascera naquela mesma data trinta e seis anos antes. Poemas belos, possuem em si mesmos a ultrapassagem do Belo: são parte do Sublime em tudo o que lhes constitui as verdades que dizem, a mentira que não nasce. Segundo Ariano Suassuna (1927- 2014), examinando Immanuel Kant (1724 - 1804), a partir da obra Crítica Do Juízo De Gosto, para este filósofo,

“o Belo era uma sensação desinteressada, serena e pura. O Sublime, diferentemente, seria um sentimento estético misturado sensações agradáveis e de terror, e experimentado, portanto, contra o interesse dos sentidos”.

Diríamos que Safo horroriza-se diante da solidão e apela à sua adorada deusa pelo amor de sua adorável amada; e Florbela horroriza-se diante da sua vida sofrida, apelando à morte para definitivamente abandonar este mundo. Suassuna, analisando o conceito do Sublime em Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), a partir da obra Estética deste, interpretando-lhe as palavras:

“O Belo consiste numa espécie de unidade entre Idéia e a aparência sensível. O Sublime, porém, consiste antes num rebaixamento da aparência sensível para glorificação da idéia.”

Agora diríamos que Safo idealizou toda a sua sentimentalidade ao nível da criação de uma glória toda perdurável; e que Florbela idealizou a sua vontade de morrer como uma glória para si mesma, que assim a libertaria do sofrimento. O Sublime do Amor, da Dor, do Desespero e da Morte é, ao mesmo tempo, tanto a definição de Kant como a de Hegel, agradável e terrível, glorioso e idealizado como Idéia Suprema Realizada.
   
É dita Idéia a contida nos dois poemas, escritos em momentos verdadeiros, de modos verdadeiros, com vontades verdadeiras de serem expressões artisticamente poéticas dos sublimes interiores de suas autoras. É à Idéia do Sublime naqueles e nestas que se desenvolverá este estudo, dividido em quatro explicações sobre o contido nesta introdução: a do Amor, a da Dor, a do Desespero e da Morte. Semelhanças e diferenças nas formas de sentido sublime aos poemas serão analisadas para uma melhor obtenção da captação real do sublime nos versos poéticos. Safo e Florbela assemelham-se no Sublime, mas, através de um estudo estético, diferenciam-se.E a Filosofia pode ser uma base de estudo compatível com a tarefa de análise da profundidade do Sublime nos versos das duas poetisas. Estas, quando escreveram-nos, não imaginavam-se filosofando acerca de seus respectivos estados existenciais.

“O artista não precisa da Filosofia, e se pensar como filósofo, entrega-se a um trabalho que é oposto à forma de saber próprio da arte”:



Hegel assim afirmou. Safo e Florbela não construíram deliberadamente versos filosóficos. Porem, suas intenções, tão sinceras de exporem o seu sentir através do papel, revelam filosofias distintas. Distintas e sublimes.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Ariano Suassuna



George Wilhelm Friedrich Hegel - Mitchell Nolte




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