Fora Da Violência - Jiddu Krishnamurti



“(...) Há inúmeras variedades de violência. Que devemos fazer: examinar cada uma dessas variedades, separadamente, ou considerar, no seu todo, a estrutura da violência? Podemos olhar a violência em seu aspecto total, em vez de observarmos apenas uma de suas partes?

A fonte da violência é o 'eu’, o 'ego’, que se expressa de muitos e vários modos — dividindo, lutando para tornar-se ou ser importante, etc.; que divide em 'eu’ e 'não eu’, em consciente e inconsciente; que se identifica, ou não, com a família, a comunidade, etc. Ele é como uma pedra lançada num lago tranquilo, a qual forma ondas que se vão estendendo mais e mais — no centro fica o 'eu’. Enquanto subsistir o 'eu’, em qualquer forma que seja, sutil ou grosseira, haverá inevitavelmente violência.

Mas, indagar a causa fundamental da violência, descobri-la, não significa necessariamente libertar-se da violência.

Penso que, sabendo por que sou brutal, deixo de ser brutal. Assim levo semanas, meses, anos a indagar a causa da violência ou lendo as explicações dadas pelos especialistas sobre suas diferentes causas, e, no fim — continuo violento. Qual a correta maneira de proceder: investigar a questão da violência mediante o descobrimento da causa e do efeito, ou tomar a violência em seu todo e observá-la? Não há distinção notável entre a causa e o efeito; constituem uma cadeia, em que a causa se torna efeito e o efeito se torna causa — um processo contínuo. Mas, se olharmos como um todo o problema da violência, poderemos compreendê-lo tão fundamentalmente que ela cessará definitivamente.

Construímos uma sociedade violenta e, como entes humanos, somos violentos: o ambiente, a cultura em que vivemos são produto de nossos esforços, de nossas lutas e dores, de nossas horrendas brutalidades. Portanto, a questão mais importante é esta: temos possibilidade de pôr fim à tremenda violência em nós existente? Eis a verdadeira questão. (...)”

in: pags. 67/68


Título do original: Beyond Violence
Ano lançamento do original: 1973
Tradução: Hugo Veloso
Editora Cultrix
1976
162 pags.


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

A edição original deste livro foi publicada há quarenta e três anos pela Victor Gollanz Ltd., de Londres, com a permissão da Krishnamurti Foundation Trust Ltd., tratando-se de um amplo estudo sobre o Homo Violens. Como na imensa maioria dos livros tributados nominalmente a Jiddu Krishnamurti, trata-se de uma transcrição integral de palestras que foram dadas em Santa Mônica (A Existência, Liberdade, A Revolução Interior e Religião), San Diego (O Medo, Violência e Meditação), Londres (Controle E Ordem, A Verdade e A Mente Religiosa), Brockwood Park (A Mente Descondicionada e Fragmentação E Unidade) e Roma (A Revolução Psicológica). Quarenta e três anos e a Humanidade ainda se enquadra na problemática da violência, em suas diversas maneiras e manifestações, como um câncer eterno. Os temas de cada palestra são diferentes, mas conduzem à conclusão de que nesta Desgraça Contemporânea na qual nos encontramos somos seres fragmentados em toda nossa expressão existencial e de vida social dentro e fora da Internet. Esta apenas demonstra abertamente os fragmentos de todos nós, sem exceções, uma Torre de Babel onde ninguém verdadeiramente compreende o que é dito uns pelos outros. Isso gera divisão, guerra, improdutividade e a mediocrização de um contingente cada vez maior de pessoas. E é neste momento da História do mundo, onde não é possível procrastinar ou se afastar das ruínas da nossa civilização indo buscar respostas fora de todos nós, que precisamos refletir sobre as falhas que possuímos dentro de nossa suposta racionalidade. As respostas e as perguntas devem ser realizadas dentro de nós, sendo esta a principal delas: Por que sou violento e não consigo me livrar da tendência natural à violência que com vigor se afirma a todo momento em meu Ser?

O caso da menina estuprada por trinta homens semana passada, um caso que horroriza todo o mundo (ou parcela deste onde pessoas verdadeiramente sensíveis existam) não é o único motivo da urgência desta resenha aqui no blog. A violência é uma mancha na História desta Humanidade muito antiga, advinda de civilizações anteriores, até mesmo as esquecidas e encobertas pelas cidades de pedra contemporâneas. Escravidão, guerras, crimes, roubos, insensibilidade, egoísmo… Toda violência externa é um reflexo da violência interna, a que ruge em nossa mente, ficando submersa no inconsciente (no caso dos que dominam seus baixíssimos instintos) ou vindo à superfície material através de uma mente consciente (no caso de todos os tipos de criminosos). E, durante as palestras, atemporais e a ficarem sempre no enfoque de que o problema está em nós mesmos, criadores do mundo contemporâneo, tudo vem a girar em torno do que nos leva a sermos incompletos, vazios e inconsistentes como seres racionais. O observador diante da coisa observada; esta se jogando à frente daquele; mas, sempre há separação entre os dois, impedindo o alcance da de possíveis soluções e respostas. Há quarenta e três anos era assim. Há quatrocentos e quarenta e três anos era assim. Há quatro mil e quarenta e três anos era assim. Será que há quarenta e três, quatrocentos e quarenta e três ou quatro mil e quarenta e três anos à frente ainda será assim?


“(...) Todo homem deve ser sério, porque só os sérios são capazes de ter uma vida completa, total. Essa seriedade não exclui a alegria, a jovialidade; mas, enquanto existe medo, não há possibilidade de saber-se o que significa ter uma grande alegria. O medo parece ser uma das coisas mais comuns da vida; e, inexplicavelmente, nós o aceitamos como 'norma’ da vida — assim como aceitamos a violência, em suas variadas formas, como norma da vida. Acostumamo-nos a viver, psicologicamente, amedrontados. (...)”

in: pag. 57


A mente séria, séria no sentido religioso (este sentido nada tem a ver com religiosidade dogmática e, sim, com uma religação consigo mesma) é capaz de produzir a mais necessária conduta meditativa para a busca de qualquer resposta em qualquer questionamento. No entanto, existe tal mente assim concentrada em busca de verdadeiras respostas? Existe uma mente totalmente unificada na finalidade inerente de uma seriedade completa?


“(...) Cumpre-nos, pois, observar a nós mesmos — que fazemos parte da violência — , observar esta infinita busca de prazer, com os concomitantes temores e frustrações, a agonia da solidão, a falta de amor, o desespero. Observar integralmente, sem o observador, esta nossa estrutura, vê-la tal como é, sem nenhuma deformação, nenhum julgamento, condenação ou comparação — pois tudo isso representa o movimento do observador, do 'eu’ e do 'não eu' — observar tudo isso exige a mais alta forma de disciplina. Não estamos empregando a palavra 'disciplina’ no sentido de ajustamento ou coerção, nem tampouco a entendemos como aquela disciplina que se cria mediante a promessa de recompensa ou a ameaça da punição. Para se observar qualquer coisa — a esposa, o vizinho, uma nuvem — requer-se uma mente sobremodo sensível; essa mesma observação cria sua disciplina própria, de não-ajustamento. Por conseguinte, a disciplina em sua forma mais elevada não é disciplina. (...)”

in: pags. 104/105


A mente completa, para ser eficiente em seu todo, requer uma atitude formalizadora do próprio ato de observar sem observador a coisa observada. A fragmentação, no entanto, é transbordante no meio humano, em uma sociedade notavelmente abstraída de qualquer solução para o menor tipo de problema. Mas, como Krishnamurti diz sempre a cada palestra e pelo que este que vos escreve disse acima, nós mesmos somos o real problema. Demonstramos ineficácia quanto à afirmação de nossas limitações interiores, nem mesmo sendo uma básica ou profunda fonte de conhecimentos a garantia da anulação dessa ineficácia. Uma revolução interior é necessária; mas, como ela poderia ocorrer?


“(...) A compreensão desses problemas exigirá tempo? É a transformação imediata, ou só pode ocorrer através da evolução, através do tempo? Se se requer tempo — quer dizer, no fim da vida alcançaremos o esclarecimento — então, dentro desse tempo, continuaremos a semear os germes da corrupção, da guerra, do ódio. Pode, pois, essa revolução radical, interior, suceder instantaneamente? Ela pode ocorrer imediatamente se vemos os perigos que nos cercam. É o mesmo que se ver o perigo de um precipício, de um animal feroz, de uma serpente; há então ação instantânea. Mas, nós não percebemos o perigo da fragmentação que se verifica quando o 'eu’, o 'ego', se torna importante — e da fragmentação em 'eu’ e 'não eu'. Se em nós existe essa fragmentação, é inevitável o conflito; e o conflito é a raiz mesma da corrupção. Assim, cabe-nos descobrir, por nós mesmos, a beleza da meditação, porque então a mente, achando-se livre e descondicionada, percebe o verdadeiro. (...)”

in: pag. 152


Fragmentação é sempre a chave da dissolução de qualquer tentativa de aplicação de alguma verdadeira evolução no seio humano. Dispersão para tudo que é inessencial e a falta de atenção para o que importa, simplesmente. Essência é solucionar os casos de assassinatos diários; impedir miríades de assaltos; apagar os altos índices de estupros; policiar as ruas com mais ênfase; enfim, tecer um plano que diminua toda e qualquer estatística de criminalidade. Porém, o maior dos crimes que todos podem cometer é ignorar a incapacidade humana na busca da solução de todo labirinto de violência onde nos perdemos.


“(...) Volumes já se escreveram para explicar por que o homem é agressivo. Os antropologistas dão-nos suas explicações, e cada especialista o explica à sua maneira, contradizendo ou exagerando este fato que quase todos nós conhecemos racionalmente, ou seja, que os entes humanos são violentos. Pensamos que a violência seja um mero ato físico — ir para a guerra matar gente. Aceitamos a guerra como norma da vida. E, aceitando-a, nada fazemos em relação a ela. Superficialmente ou entusiasticamente, podemos tornar-nos pacifistas num dos setores de nossa vida, enquanto, nos restantes setores, vivemos em conflito — somos ambiciosos, competimos uns com os outros, esforçamo-nos em todos os sentidos; esse esforço implica conflito e, por conseguinte, violência. Toda forma de ajustamento, toda forma de desfiguração — deliberada ou inconsciente — é violência. Disciplinar-se a si próprio de acordo com um padrão, um ideal, um princípio, é uma forma de violência. Toda desfiguração, decorrente de não compreendermos e ultrapassarmos efetivamente 'o que é’, é uma forma de violência. E, todavia, existe alguma possibilidade de, sem nenhum conflito, nenhuma oposição, pormos fim à violência em nós existente?”

in: pag. 101


E eu vos pergunto: importa em ti saber que é possível existir sem os conflitos e os caminhos proporcionais à violência corrente em teu interior ou tu negas toda violência a vociferar dentro de ti?

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!







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