Poemas De Florbela Espanca





Estudo introdutório, organização e notas: Maria Lúcia dal Farra
São Paulo: Martins Fontes
1° Edição
1996
340 páginas



“Bíblia de iniciação amorosa, dicionário das vicissitudes da mulher, livro-de-horas da dor — assim é a poesia de Florbela Espanca. Dela emana um feitio insurrecto que tem escandalizado e encantado, desde 1930, seus leitores, quando, apenas depois de morta, a poetisa se torna (afinal) conhecida.”


Maria Lúcia dal Farra



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Poemas De Florbela Espanca é a compilação de toda a obra em Poesia de uma das maiores autoras em Língua Portuguesa de todos os tempos. Contando com um estudo  introdutório (Florbela: um caso feminino e poético), organização e notas de Maria Lúcia dal Farra; uma biografia resumida; uma bibliografia; e um acabamento gráfico que torna atraente ao olhar a simplicidade da poética presente no conteúdo do mesmo, condensa uma alma transcendentalmente rica entre Abismos e Paraísos, sorrisos e lágrimas. Transcendência e riqueza incorporadas nos versos de Trocando Olhares (1915-1917), Livro de Mágoas (1919), Livro de Sóror Saudade (1923), Charneca em Flor (1931, póstuma) e Relíquia (1931, póstuma). O livro contém ainda a Esparsa Seleta (1917-1930), poemas retirados pela Organizadora da obra de Primeiros Versos, seleção realizada pela própria Florbela em 1917; de Poetas do Sul — Bernardo de Passos e Florbela Espanca (Lisboa, Portugália, s/d); do artigo Algumas poesias juvenis de Florbela Espanca (A Cidade de Évora, n° 19/20, janeiro-dezembro de 1962, pags. 235-243); de dois manuscritos autógrafos depositados na Biblioteca Nacional de Lisboa (Claustro das Quimeras e Livro do nosso amor); de manuscritos autógrafos pertencentes ao Grupo Amigos de Vila Viçosa e herdeiros de Ângelo César, datados de 1930; e de Juvenília, que apresentou um soneto incompleto que não foi introduzido em Trocando Olhares, publicado postumamente por Guido Battelli. Trata-se de um riquíssimo documento artístico de grandiosíssimo valor para todos os Filhos Da Deusa Poesia.


O meu Destino disse-me a chorar:
“Pela estrada da Vida vai andando;
E, aos que vires passar, interrogando
Acerca do Amor que hás de encontrar.”


Filha Maior de Sublime Deusa, Florbela (1894-1930) alcança uma imortalidade e importância cada vez maiores com o passar do tempo. Muito avançado o seu talento instintivamente delicado, absoluta sensibilidade apurada em visões absorvidas no mais puro sonho, no mais puro desejo, no mais puro erotismo, no mais puro amor.


As tuas mãos tateiam-me a tremer…
Meu corpo de âmbar, harmonioso e moço
É como um jasmineiro em alvoroço
Ébrio de sol, de aroma, de prazer!


Embebida na mais pura Inspiração Maior, a leitura de cada verso inebria, encanta, ilumina e nos faz compreender uma das mais belas almas que já encarnaram nesta Terra. É uma dádiva ter em mãos tamanha riqueza e grandiosidade. É um tesouro para a vida interior tocar no Ser de uma mulher que sensorialmente teceu cada trâmite da vida dela poetizando toda tristeza e os poucos momentos de paz e harmonia que teve em vida.


Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem eu sou? Um fogo-fátuo, uma miragem…
Sou um reflexo… um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém


Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem eu sou? Sei lá! Sou a roupagem
Dum doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...


Transbordamentos ecoando em um essencial existencialismo que aprofunda nossa consciência das indagadoras perspectivas de Florbela: os efeitos da leitura dos versos desta. Mas, a poetisa jamais se encerra em um parâmetro e nem se enquadra em uma precisa definição de si mesma. Tal como a Virgem Maria em um estado de pureza absolutíssima ou Lilith em um delírio de suave estonteante luxúria, ela nunca entrega por completo a fascinante essência.


É triste, diz a gente, a vastidão
Do Mar imenso! E aquela voz fatal
Com que ele fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema-Unção!


A viagem é longa e os Caminhos nunca são totalmente percorridos ao final de cada poema. A leitura não se finda no ponto final, ela continua nos pontos iniciais de nossa jornada como leitores. Nunca se processa em Florbela uma definidora chama a acender a fogueira de uma resposta sobre os temas tratados em seus versos. Como a Esfinge do Mito Grego, cabe a cada leitor o processo elaborador de qualquer tipo de resposta. Porém, uma pergunta a todo aquele que se arriscar em tentar decifrar a alma de uma mulher-poesia como Florbela Espanca: você não teme ser devorado pela poesia dela com a resposta que pode encontrar?


Anda um triste fantasma atrás de mim
Segue-me os passos sempre! Aonde eu for,
Lá vai comigo… E é sempre, sempre assim
Como um fiel cão seguindo o seu Senhor!


Qualquer que seja uma possível resposta definidora acerca do Mistério que é Florbela, não é iniciando uma busca pela mesma que se compreenderá uma alma atemporal como a dela. Simplesmente ler sua poesia, sem as peças de um jogo investigativo a tramar o alcance da tradução de uma autora essencial para os que sentem tudo como tempestades advindas de todos os lados, é o melhor a se fazer. A poesia dela é simples, no Sagrado e no Profano, no dolorido e no ameno, na objetividade e na subjetividade. Paradoxalmente, no entanto, possui intrinsecamente uma ímpar complexidade que apenas os Verdadeiros Gênios são capazes ds imprimir em suas obras. Por isso mesmo, autenticidade e atualidade sempre serão companhias agradáveis junto a todos os poemas da Grande Florbela.


Vejo-te só a ti no azul dos céus,
Olhando a nuvem de oiro que flutua…
Ó minha perfeição que criou Deus
E que um dia lindo me fez sua!


Grande na exaltação da Divindade das Divindades.


És pequenina e ris… A boca breve
É um pequeno lírio cor-de-rosa…
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho é neve!


Grande na exaltação ao próximo.


O lindo azul do céu
E a amargura infinita
Casaram. Deles nasceu
A tua boca bendita!


Grande na exaltação da Carne.


Há uma palavra na terra
Que tem encanto do céu;
Não é amor, nem esperança,
Nem sequer o nome teu.


Essa palavra tão doce,
De tanta suavidade,
Que me faz chorar de dor
Quando a murmuro: é saudade!


Grande na exaltação das pequenas coisas que ganham divina importância.


Até agora eu não me conhecia,
Julgava que era Eu e eu não era
Aquela que em meus versos descrevera
Tão clara como a fonte é como o dia.


Grande na exaltação da misteriosa poética aura de si mesma.


Se é sempre outono o rir das primaveras,
Castelos, um a um, deixa-os cair…
Que a vida é um constante derruir
De palácios do Reino das Quimeras!


Grande na exaltação da Grande inexplicável loucura que é a Existência Eterna.


Ó rosas que baixais as castas frontes
Quando, à tarde, vos beija o sol poente,
Dizei-me que murmúrios vos segreda
O sol que vos beija docemente?...


Esta é A Grande Florbela.


Flor Que Bela Espanca.


Flor Bela Espanca.


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!









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