Planetary - Adorável Mundo Estranho




Roteiro: Warren Ellis
Arte: John Cassaday
Cores: Laura Martin e David Baron
Tradução: Edu Tanaka
Letras: Daniel de Rosa
Editor Assistente: Daniel Lopes
Editor: Fabiano Denardin
Editora: Panini
Anos: 2013-2014
Edições:
Volume 1 - Pelo Mundo Todo
Volume 2 - O Quarto Homem
Volume 3 - Deixando O Século 20
Volume 4 - Arqueologia Espaço-Temporal
Sinopse: "Planetary é uma criação do aclamado roteirista Warren Ellis. A série conta uma história atemporal que vira as convenções do gênero moderno de super-heróis de cabeça para baixo. Elijah Snow – um homem de cem anos de idade –, Jakita Wagner – uma mulher extremamente poderosa, e O Baterista – um homem com a habilidade de se comunicar com máquinas. Juntos, eles formam o núcleo do grupo que busca evidências de atividades super-humanas; são arqueólogos dedicados a descobrir segredos e histórias paranormais, como a de um computador da 2ª Guerra capaz de acessar outros universos, um espírito fantasmagórico da vingança, uma ilha repleta de carcaças de monstros radioativos e muito mais!"



“(...) Pois verifiquei que essa rica ciência, em cujos feitos se associavam aventura e trabalho de gabinete, entusiasmo romântico e modéstia espiritual, na qual a profundeza de todos os tempos e a vastidão do espaço global foram medidas como que passo a passo, estava enterrada em publicações especializadas. Por mais elevado que fosse o valor dessas publicações, elas não haviam sido escritas, em absoluto, para serem ‘lidas’. E é digno de nota que até hoje não se tenham feito ao Todo mais de três ou quatro tentativas para transformar em excitantes aventuras essas viagens de pesquisas ao passado. Dizemos digno de nota porque, na realidade, dificilmente haverá aventura mais emocionante, desde que se esteja inclinado a ver sempre na aventura um misto de espírito e de ação. “

C. W. Ceram
in: Deuses, Túmulos E Sábios - O Romance Da Arqueologia
Pag. 13


Inomináveis Saudações a todos vós, estranhos leitores virtuais.

A Arqueologia é uma ciência que sobrevive ao tempo como a resgatadora de toda memória do Passado histórico humano, nos dizendo tudo ou quase tudo acerca de cada trâmite histórico que envolveram civilizações há muito extintas. Muito pouco conhecida e reconhecida pela população mundial cuja parcela maior sobrevive apenas pensando no Presente e no Futuro, ela é destinada aos poucos apreciadores do Deslizamento Temporal que os mesmos podem realizar com verdadeira nostalgia voltada para o Ontem. Por isso, Planetary, uma obra arqueológica de peso, feita para ser verdadeiramente apreciada por poucos, vai sempre figurar como obra-prima entre os buscadores dos tesouros do Passado Quadrinhístico. Warren Ellis e John Cassaday, os criadores de uma peculiar Arqueologia dos Quadrinhos, escavaram, escavaram e escavaram, bem fundo, encontrando artefatos esquecidos na longa história da Nona Arte. Amparados pelo minimalismo do que estava ocultado pelo Tempo, tanto no roteiro quanto na parte gráfica há a preocupação em ocupar espaços vazios de um modo produtivamente eficaz. É no microcosmo das idéias do Passado, no pequeno emaranhado de criações dos autores das Eras de Ouro, Prata e Bronze, que Ellis e Cassaday, tal qual Jean-François Champollion (1790-1832) e Dominique Vivant Denom (1747-1825), foram eficazes tradutores da antiga arte de contar e ilustrar fantásticas histórias. Tudo no mínimo, na captação das minúsculas nuances das HQ’s que muitos leitores, no Hoje, ainda deixam escapar por mero descuido e desatenção.

A certa altura de Planetary, a personagem Melanchta assim expressa-se:


“(...) Há cinquenta anos, Snow, o Físico Richard Feynman deu uma palestra chamada Há Muito Espaço No Fundo.

Numa época preocupada em Megaengenharia e Física de grandes escalas, a tese dele era de que não dávamos atenção a escalas minúsculas.

Nós contemos universos.

Existem vastidões em todo grão de areia.”


No deserto que hoje os Quadrinhos Mainstream encontram-se, os infindos grãos de areia onde foram colhidas as referências de Planetary tornam-se preciosos. Dentro desses grãos, há maiores verdades ainda sobre a História de uma Arte que, a partir de sua leitura, abre um leque de possibilidades para que outros autores sigam as marcas dos passos deixados por Ellis e Cassaday, estes dois arqueólogos do possível renascimento das HQ’s como um todo. Em outras mãos, Planetary apenas estaria inserida no macrocosmo infantil de idéias desperdiçadas dos autores e desenhistas atuais, ávidos pelo barulho bem alto e, não, pelo sussurro das Eras anteriores nas quais os universos contidos em todas as histórias eram melhor explorados. Não estou exagerando ao afirmar que a obra máxima dos últimos vinte anos na Nona Arte é uma reconstrução arqueológica nunca antes tentada de toda uma estrutura narrativa/visual dinamicamente atrativa. Nenhum detalhe, sempre no âmbito do micro, do mínimo, foi abandonado ou desprezado, há nesta obra o ressoar de várias vozes ao mesmo tempo, como se Stan Lee, Jack Kirby, Frank Miller, Alan Moore, Dave Gibbons, Alex Ross, Grant Morrison, Frank Quitely, Neal Adams, John Buscema, Bill Mantlo, Chris Claremont, John Byrne, Gil Kane, Garth Ennis e todos os maiores Gênios Quadrinhísticos do Passado, do Presente e do Futuro (quanticamente viajemos pelo Tempo, estranhos leitores virtuais) falassem uma voz, um idioma e infindas palavras comuns nas vinte e sete histórias da série.

Grãos de areia contendo muitos universos a mais em infinitas dimensões interpretativas, conforme o olhar do mais atento leitor, podem ser catalogados neste diálogo entre o Dr. Dilworth e a criatura trazida de um mundo ficcional artificialmente moldado em Planeta Ficção (história que este Inominável Ser que vos fala considera a melhor da série):


"- Por que vocês me inventaram?
- Pois bem, não é uma pergunta simples. Vocês tem cinema, lá de onde você veio? Imagens em movimento? Entenda, hoje mantemos uma relação estranha com nossa ficção. Às vezes receamos que ela venha nos dominando, às vezes imploramos que domine, às  vezes queremos ver o que ela tem dentro."


Dentro desta ficção absurda e incoerente, doce e amarga, brutal e delicada, boa e má, que é a Internet, decidi escrever este artigo montado sobre os grãos de areia de tudo que a Ficção me transmitiu desde criança. Obra de um estranho chamado Warren Ellis; desenhada por outro estranho chamado John Cassaday; e colorizada por uma estranha chamada Laura Martin, Planetary é o oásis mais do que perfeito para os que tem sede de conhecimento acerca das profundezas ficcionais. As premissas, isso falando factualmente da obra em si, é uma ode ao estranho mundo ficcional que nos encanta por fora e por dentro, nos arremesando contra realidades dentro da caixa do Gato de Schrodinger. Mundo estranho esse da Ficção...

Os contos que ouvimos, as paisagens filmadas que vemos, as leituras que temos, os poemas que recitamos, os desenhos que apreciamos, os gibis que lemos... Tudo é uma rede informacional captada pela nossa mente de modos diferenciados, cabendo-nos julgar, diferenciar e conferir ou não algum tipo de valor. Vocês aí mesmo, lendo este artigo, estranhos leitores virtuais, estão dando um valor ou não ao mesmo, saindo de si mesmos, entrando em si mesmos, realizando suas próprias maneiras de transitarem entre a subjetividade e a objetividade. Mas, vocês já pararam para pensar que suas mentes a todo momento possam estar a escrever ficções, criando e destruindo mundos, mudando e modelando cenários, gerando e abortando fatos, de modo coerente ou não? Mundo estranho, não?

É exatamente de concepções ficcionais internas que Planetary trata. Defensores ocultos do mundo, agindo nos subterrâneos da História, desconhecidos, apagados, ignorados e esquecidos; Ultraman, Spectreman, Changeman, Flashman e seus monstros, assim como toda a mitologia dos Tokusatsus; John Woo, Tsui Hark, Ringo Lam, Chow Yun Fat e uma pistola automática em cada mão; a densidade do Herói Oriental contra as forças obscuras que oprimem sua sociedade em uma referência elogiosa e respeitável aos Épicos Clássicos do Kung Fu do Cinema de Hong Kong;  Tarzan e suas aventuras; Sherlock Holmes e seus intrincados casos; aborígenes, nativos africanos e suas lendas; anti-heróis, ex-heróis e personagens decadentes dos Quadrinhos; o Cinema B de Terror, Fantasia e Ficção Científica dos anos 50 em uma abordagem que nos assusta, surpreende e emociona; a Literatura Pulp;os heróis e vilões dos Quadrinhos Pulp; John Constantine, Nick Fury e James Bond; Drácula, Frankenstein e H.G. Wells; Liga da Justiça, Sociedade da Justiça e Quarteto Fantástico; os ícones da Vertigo; Linhas Temporais, Terras Paralelas e o Grande Jogo Cósmico; Ficções que são escritas, vividas e alimentadas, que ganham vida é, depois, retornam ao Mundo Da Imaginação para deslizarem incólumes por todas as histórias já realizadas, sendo realizadas e que serão realizadas dentro da Ficção: a cultural visão de todo o século vinte em vinte e sete extraordinárias estranhas histórias! Uma estranha salada que deve ser degustada pela capacidade individual de cada um saber se está vivo ou morto dentro da caixa de suas respectivas mentes. Leitura estranha... Mundo estranho com leituras assim…

Por mais que gostamos de Elijah Snow, Jakita Wagner e O Baterista, eles não são os personagens principais de Planetary. As referências acima citadas, assim como outras que apenas um extremo especialista na Cultura Artística Mundial poderia infindavelmente catalogar por completo, são o mote de toda a série. Cada referência presente registra um importante achado arqueológico do que foi deixado no Passado pelos geradores de histórias; poetas, escritores, cineastas, pintores, desenhistas, escultores, artistas digitais, filósofos, físicos quânticos, matemáticos, enfim, cada artista de uma Arte do Conhecimento Humano está presente nesta obra, basta abrir os olhos, a mente e o coração para tal conhecimento. E, mesmo com tanta informação para os mais intelectualizados, Planetary pode ser igualmente lido por aqueles que buscam apenas um bom entretenimento ou uma boa história. Para um nerd como eu ou você a ler este artigo, é inescapável o desejo de pesquisar e descobrir, deliciosamente, cada referência neste livro de uma Arqueologia de Possibilidades Quadrinhísticas. Sim, a Arqueologia do Impossível, do Improvável, e, diríamos até mesmo do Impronunciável, retratada por Ellis e Cassaday, também não é uma HQ, e, sim, um verdadeiro livro contendo toda a História da Nona Arte a partir da simbiose da mesma com toda a Cultura da Imaginação do século vinte. O estranhamento inicial, em tudo isso, é bem natural; porém, a aceitação tende a ser crucial para o nosso interno desenvolvimento como leitores.

Compreendem o que é Planetary? Mais do que "obra em Quadrinhos para intelectuais e pseudointelectuais", como já li pelo mundo ficcional internético, é uma obra que chama a atenção para cada ser humano que pensa de maneira bem estranha... Maneira assassina do convencional, do senso comum, transparente e capaz de captar cada influência e citação contidas nas páginas da série. Mantenhamos estranho este nosso mundo de leitores que fazem da Ficção uma forma plausível de encarar a piada ficcional de que somos alguma realidade. O quê? Você nunca se perguntou se talvez todos nós sejamos ficções elaboradas por algum Roteirista Cósmico auxiliado por uma Equipe Cósmica que arte-finalize nossas histórias? Mundo estranho, mesmo…

E tal estranheza molda a fascinação absoluta proporcionada por esta obra, que comprova que nós realmente, bem no interior de nossas almas, desejamos que a Ficção nos domine. E quem não desejaria estar em um mundo mais estranho do que o nosso, vivendo fantásticas aventuras em exuberantes exóticos mundos ao lado de Superseres, mulheres e homens excepcionais, desbravadores de novos estranhos mundos a cada milionésimos de segundos?

Eu desejaria.

Você desejaria.

Todos nós desejaríamos.

Somos muito estranhos...

Saudações Inomináveis a todos vós, estranhos leitores virtuais.




Volume 1: Pelo Mundo Todo



Volume 2: O Quarto Homem



Volume 3: Deixando O Século 20




Volume 4: Arqueologia Espaço-Temporal



Mosaico de Cenas






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