O Esoterismo Como Princípio E Como Caminho - Frithjof Schuon




“(...) O esoterista vê as coisas não como surgem, segundo determinada perspectiva, mas como são: considera o que é essencial e, portanto, invariável sob o véu de diversas formulações religiosas, tendo necessariamente como ponto de partida uma determinada formulação. Temos aí pelo menos a posição de princípio e a razão de ser do esoterismo; é realmente necessário que ele seja de fato sempre conseqüente consigo mesmo, visto que as soluções intermediárias são humanamente inevitáveis.(...)”


in: pags. 12 e 13


Título do original: L’Esoterisme comme principe et comme voie
Ano de lançamento do original: 1978
Tradução: Setsuko Ono
Editora Pensamento
São Paulo
1ª Edição
1985
232 pags.


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


Como bem é dito na contracapa desta obra de Frithjof  Schuon (1907-1998), o conteúdo da mesma é “composto de ensaios relativamente independentes uns dos outros, pois de conteúdo bem diversificado, este livro contém os elementos necessários para uma possível definição do esoterismo no sentido mais amplo do termo, ou seja, o esoterismo aplicado aos diferentes aspectos da existência humana”. Utilizando a terminologia sânscrita e árabe, pode parecer, à vista de um leitor desavisado, que é uma obra escrita unica e exclusivamente sob o ponto de vista oriental. No entanto, o Esoterismo é um caminho de universalidade, uma linguagem apenas, uma paragem onde o ponto de vista sobre as Coisas Essenciais deve velar sobre todo e qualquer termo da existencialidade humana. E as duas correntes tradicionalistas, a dos Upanishads e a do Islamismo, possuem significados esotéricos simbólicos que uma leitura profunda é capaz de captar. Portanto, a leitura não é um adentrar em temáticas orientalistas nos campo da Espiritualidade e Metafísica, mas uma visão ampla do Oculto, do Sagrado e do Religare amparados em termos da mais antiga Doutrina Metafísica Terrestre (Upanishads) e da Última Revelação Terrestre (Islamismo). E há em alguns ensaios um interessante paralelo com o Cristianismo montado dinamicamente pelo autor.


Vinte e um ensaios divididos em quatro seções específicas estão organizados da seguinte maneira:


Sophia Perennis


Compreender O Esoterismo
O Mistério do Véu
Números Hipostáticos e Cósmicos
A Árvore Primordial


Vida Espiritual e Moral


A Tríplice Natureza do Homem
As Virtudes no Caminho
Natureza e Papel do Sentimento
O que é e o que não é a Sinceridade
O Problema da Sexualidade
Dimensões da Vocação Humana
O Mandamento Supremo
A Verdadeira Solução
Critérios de Valor


Fenomenologia Estética e Teúrgica


Fundamentos de uma Estética Integral
Os Graus da Arte
O Papel das Aparências
A Função das Relíquias
Criteriologia Elementar das Aparições Celestes
A Dança do Sol


Sufismo


A Religião do Coração
O Caminho da Unidade


Em todos os aspectos, o assunto abordado é de uma expansão infinda, dependendo do tipo de leitor que se deixa mover pelas entrelinhas das palavras de Schuon. Este, falando de uma maneira clara e simples, explicando os significados de muitos termos que usa e, sem mascarar os conceitos como se fossem apenas para “encher o espaço de um ensaio para esconder falhas lógicas dialéticas”, evoca um envolvimento muito maior do que o esperado no enredo mesmo da leitura. Como falei da universalidade acima, a mesma é aplicável na escrita de um modo total, pois, continuando à página 13:


“(...) Tudo aquilo que em metafísica ou em espiritualidade é universalmente verdadeiro torna-se 'esotérico’ na medida em que isto não combina, ou parece não combinar, com tal sistema formalista, mais precisamente com tal “exoterismo”. Mas toda verdade deve ser citada em qualquer religião, já que toda religião é constituída pela verdade. Isto significa que o esoterismo é possível e mesmo necessário; a questão toda é saber em que nível e em que contexto ele se manifesta, pois a verdade relativa e limitativa tem os seus direitos, assim como a verdade total. Ela os tem sob o aspecto preciso, que é o pela natureza das coisas e que é o da oportunidade psicológica ou moral e do equilíbrio tradicional. (...)”


Complementando, logo após as palavras acima, há uma definição compreensivelmente sincera do Esoterismo:


“(...) O paradoxo do esoterismo é que, por um lado, 'ninguém oculta a verdade’ e, por outro lado, 'não se deve dar aos cães o que é sagrado’; entre as duas imagens situa-se a 'luz que brilha nas trevas, mas que as trevas não compreenderam’. Existem aí flutuações que ninguém pode evitar e é o que se paga pela contingência. (...)”


Falando agora como um leitor, esse paradoxo se confirma durante cada virada de página e encontra sua positiva consequência nos ensaios dedicados ao Sufismo que encerram o livro. Belissimamente, à página 218, o mesmo assim chega a ser definido:


“(...) Todavia, a prática religiosa daquele que se encontra integrado de fato na 'religião do Coração’ difere necessariamente da prática do homem médio, totalmente fechado no formalismo da Lei comum. Ao passo que o ponto de vista deste implica inevitavelmente um voluntarismo individualista e sentimental, sem esquecer a uma epistemologia sensualista, que acaba com toda 'concorrência’ do ponto de vista da intelecção, a perspectiva da religião do Coração ou do Amor é, acima de tudo, intelectiva e por isso mesmo universal. Sua dimensão musical está na dependência, não de um sentimentalismo ideológico e moral, mas da Beleza e do Amor que, por um lado, habitam Deus e, por outro, Resplandece através da Sua Manifestação simultaneamente cósmica e humana.


Se o adepto do Coração ou do Amor não cogita em abandonar a prática religiosa, o princípio da transcendência esotérica pode, no entanto, manifestar-se com certa liberdade em relação a essa prática, sobretudo com tendência à simplificação, sendo dada toda ênfase à contemplação e seus suportes diretos. Mas essa liberdade, ou objetividade, jamais se manifestará como uma desumanização do humano com pretexto de sublimidade metafísica, pois a Verdade transcendente põe cada coisa em seu lugar é não mistura os planos. A sabedoria suprema é solidária com a infância santa. (...)”


A leitura flui dentro do interesse na pluralidade de significados e significantes das matérias esotéricas tratadas. Não sendo um livro que se vale de uma escrita excessivamente acadêmica e recheada de termos técnicos, que fariam o mesmo pesar de um modo amplamente negativo, vale cada segundo de atenção. Atenção dada pontualmente por cada horizonte do coração e este liga-se ao Caminho da Unidade, o Objetivo Final de toda Alma Eterna Moldada.


“(...) Inteiramente: deve-se acreditar não só que Deus é uno, mas também que essa Unicidade implica consequências para o mundo, visto que o mundo existe. E existe em função da resplandecência que resulta da própria Unidade. Consequentemente, deve-se acreditar em tudo o que a Realidade divina implica, ou seja: na causação do mundo por Deus; portanto, no vínculo do mundo com Deus; portanto, na natureza e na vocação do homem; portanto, na Revelação e, consequentemente, no Caminho. Crer no Uno é acreditar nas consequências da Unidade, como enuncia um célebre hadîth: 'Eu era um tesouro oculto e Eu quis ser conhecido; portanto, Eu criei o mundo.’ (...)”


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Frithjof Schuon






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