Sobre As Auroras Do Conhecimento - A Continuidade Do Conhecer


Johann Gottlieb Fichte 




Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

A este estudo não cabem ponderações acerca de se os filósofos posteriores a Immanuel Kant (1724-1804) concordaram ou discordaram de sua doutrina. Na Filosofia, no estudo crítico da Filosofia, melhor definindo o que agora se fala, estudo que leva à determinação do estudo filosófico como ciência acima de concordâncias e de discordâncias, a situação da capacidade cognitiva daquele que estuda sobre o filosofar exige uma cerebralidade e um raciocínio incondicionados do que se vem a situar como concordância e discordância. Necessita-se neste instante reiterar o que foi dito em O Inicio Do Conhecer acerca do papel da Filosofia em sua face verdadeira conforme aqueles que estudam-na, que é a de encontrar uma linha mestra de pensamentos aparentemente discordantes que possa vir a estabelecer um novo pensamento para uma nova teoria. Possível é em possíveis concordâncias adentradas na racionalidade estabelecer-se um novo pensamento para uma nova teoria; porém, tarefa de verdadeiro processo de incondicionamento é procurar nas discordâncias as ligações racionais para novos estudos. Não quer isto dizer que de discordâncias totais sejam moldadas concordâncias extremas, mas a ausência de discordância em uma nova teoria, alicerçada no visualizar de pontos daquelas das quais originou-se que possam possibilitá-la, é sinal claro do verbo sempre criador da Filosofia a expandir-se até onde múltiplas obscuridades encobrem novos múltiplos horizontes novos de conhecimentos revelando-os ao investigador capaz de erguer véus verdadeiros de desconhecimentos. Esta teoria das Auroras Do Conhecimento nasce e renasce de muitas diferentes visões versando sobre o poderio intrínseco ao conhecer que guia o homem a conceber cada vez mais e melhores conhecimentos ausentando-se dos improdutivos terrenos do Dogmatismo. Dogmatismo não é cabível ao fato de interligar pensamentos a fim de um propósito fundamentador de uma nova via de interpretação e revelação do processo cognitivo. Investigar cada pensamento é dotá-los de novas aparências e vidas em uma teoria anti-dogmática, analisando os seus pareceres e contribuições com relação à consciência investigativa que conhece o seu poder de analisar e conhecer sendo, antes de tudo, investigativa consciência no investigativo saber. A reflexão é sempre contínua a fim de que todo dogma nocivo ao estabelecer de um conhecimento não torne-se o grão-mestre das conclusões de todas as investigações conscientes da consciência de investigar para conhecer.
      
“A crítica não se opõe ao processo dogmático da razão no conhecimento puro enquanto ciência (...), mas ao Dogmatismo, quer dizer, à pretensão de proceder com a ajuda de um conhecimento puro extraído de simples conceitos (o conhecimento filosófico), apoiando-se sobre princípios tais que a razão os utiliza há muito tempo, sem investigar de que maneira e com que direito chegou ela à sua afirmação”,

Kant esclarece; e este esclarecimento pode ser utilizado para atestar o que foi dito acima sobre toda fundamentação dogmática teorética. A poderosíssima influência kantiana em todos os ramos do conhecimento, sendo contestada ou reafirmada pelos filósofos a ele posteriores, é em si uma ciência anti-dogmática determinante do anti-dogmatismo de ciências criticamente amadurecidas. Uma ciência pode ser livre do dogma quando a razão é utilizável na crítica à autoridade e plausibilidade do dogma no processo de um conhecimento puro. Amadurecimento intelectual também é uma forma de contestação do que a razão prescreve como conhecimento puro a fim de purificar-se das armadilhas dogmáticas a todo instante sobre um investigador. Amadurecer intelectualmente crítico não culmina apenas em dar-se definitivamente como um grande construto racional de alta base de indestrutibilidade existencial e constituído de amontoados de dados que, por serem maduros, dispensam o indagar crítico se realmente encontram-se na maturidade. Ser intelectualmente amadurecido não é dar-se como supremo detentor de supremo intelecto desvelador e revelador de todo conhecimento. O conceito de amadurecimento do senso comum, da grande massa humana que não é crítica em relação a tudo o que conhece, está fora desta teoria das Auroras Do Conhecimento. Continuar amadurecendo em sua objetividade e subjetividade com relação à intelectualidade que lhe ferve no ser, é a tarefa do homem que não abandona jamais o verdadeiro terreno do conhecer exercendo amadurecido o seu indagar crítico que leva a soluções criticamente aceitáveis de questões investigadas. Amadurecer intelectualmente indica ciência, ciência que é A Continuidade Do Conhecer porque o continuar a conhecer, de maneira criticamente amadurecida no ser intelectualmente amadurecido, é o método adotado por todo aquele que almeja o permanecer no que lhe é existencialmente agradável: o continuar conhecendo pelo amor, que palavras, proporcionado pelo ardor do conhecer. O ardor do conhecer é ciência quando praticada na ciência da razão que complementa-se mais amadurecida no continuar do conhecer. Ardor e amor em uma mente amadurecida solidificam engrandecedor o continuar do conhecer. O amadurecimento intelectivo, o intelecto amadurecido, é confirmado e  afirmado como realidade motora e motivadora do homem que quer continuadamente conhecer no continuar do conhecer.
      
“... no sentido restrito, a palavra ciência implica, com efeito, o conhecimento de leis gerais aplicáveis àquilo que é o seu objeto, e, por conseqüência, da ligação causal entre fatos; porém, admite-se geralmente que existem também ‘ciências reconstrutivas’, tais como a História e a Geologia, nas quais um procedimento metódico e objetivamente válido leva à determinação de fatos singulares”,

Andre Lalande (1867-1963) observa com estas palavras um sentido da ciência que cabe a esta Aurora Do Conhecimento, a qual é uma ciência devido somente ao Amadurecimento Do Conhecer que lhe antecede. A Continuidade do Conhecer é uma ciência reconstrutiva do Amadurecimento Do Conhecer que age elevando a produtividade do amadurecer na produtividade do continuar do amadurecer no continuar do conhecer. Johann Gottlieb Fichte (1762-1814) atenta-se ao sentido do continuar do conhecer, sentido todo científico no reconstruir mesmo de sua funcionalidade e finalidade, neste trecho de O Conceito Da Doutrina-Da-Ciência (1834):

“Não se deve inferir a partir de definições: isto só pode significar que, a partir da possibilidade de pensar sem contradição um certo atributo, na descrição de uma coisa que existe independentemente de nossa descrição, não se deve, sem mais nenhuma razão, inferir que por isso ele tem de ser encontrado na coisa efetiva; ou então que, em se tratando de uma coisa que possa ser produzida apenas por nós, segundo um conceito que formamos dela e que exprime seu fim, não se deva inferir, da pensabilidade desse fim, ainda a possibilidade de executá-lo na efetividade; mas jamais pode querer dizer que não se deve, em seus trabalhos espirituais ou corporais, propor nenhum fim nem procurar torná-los claros para si, antes mesmo de começar a trabalhar, e abandonar então ao jogo de sua imaginação ou de seus dedos aquilo que eventualmente pode resultar deles.”

Fichte chama a atenção para as tarefas resultantes do investigar naquele que deve primeiramente “começar a trabalhar” para bem fundamentar as suas descobertas antes de dar-se ao ocaso de utilizar a imaginação para poder ampliar um determinado ou determinativo conhecimento. São raros os homens intelectualmente amadurecidos que não se iludem com relação a quererem alcançar alturas elevadíssimas se ainda nem solidificaram-se intelectivamente no solo elevadíssimo de seus conhecimentos cientificamente amadurecidos, procurando inicialmente “torná-los claros”.
      
O continuar do conhecer em contínuo amadurecimento no conteúdo intelectivo todo amadurecido, enquanto ciência reconstrutiva do próprio amadurecimento intelectivo, torna-se a tonalidade e a probabilidade de esclarecer um homem acerca de seus conhecimentos, acerca de seu conhecer. Tudo no Conhecimento Humano é ciência, pois tudo que leva a conhecimentos possui caráter científico naturalmente modelado e modelador de inúmeras obras humanas para o avanço da civilização. Toda ciência, particular ou geral, para ser produtiva com relação ao mundo, com relação ao desenvolvimento do mundo, desenvolvimento de todos os ramos de conhecimentos do mundo, deve ser o espírito dominante naqueles a elas dedicados. Engenheiros não constroem prédios se eles não possuem esclarecidos em si os seus conhecimentos na ciência da Engenharia; cirurgiões neurologistas não realizam operações delicadas no cérebro de seus pacientes se não possuem esclarecidos em si os seus conhecimentos na ciência da Neurologia; advogados não defendem os seus clientes se não possuem esclarecidos em si os seus conhecimentos na ciência da Advocacia; lutadores de artes marciais não se digladiam com os seus oponentes se não possuem esclarecidos em si os seus conhecimentos na ciência das Artes Marciais; filósofos e estudantes de Filosofia não podem falar ou escrever sobre problemas tratados pelos estudos filosóficos se não possuem esclarecidos em si os seus conhecimentos na ciência da Filosofia. Cada papel dos ramos de conhecimentos do Conhecimento Humano no mundo depende da automanifestante intrinsecabilidade da utilização dos conhecimentos adquiridos sem que estes, através da escapabilidade que é gerada pelo não continuar a amadurecer o conhecer, se tornem inúteis, inutilizáveis, inadequados e inexistentes quando chamados à aplicação objetiva. Vale para todos os ramos de conhecimentos do Conhecimento Humano o que Fichte chama de “o conhecimento da própria razão por si mesma”, pois é unicamente a razão que pode dar a um homem continuamente a conhecer o esclarecimento em si acerca de seus próprios conhecimentos. Em O Programa Da Doutrina-Da-Ciência (1800), Fichte comenta:

“Desde que se começou a falar de uma crítica da razão, de um conhecimento da razão, como conhecida, e tornou-se tarefa da razão conhecer em primeiro lugar a si mesma, e somente a partir disso deduzir como pode conhecer algo fora de si mesma, deveria ter-se tornado claro que essa razão, para apreender-se e captar-se, não poderia fazê-lo em algo derivado, que não tem seu fundamento em si mesmo, como o conceito, mas teria de fazê-lo no único imediato, na intuição; que, portanto, se de agora em diante só se deve chamar de filosofia o conhecimento da própria razão por si mesma, a filosofia não pode absolutamente ser um conhecimento por conceitos, mas tem de ser um conhecimento por intuição.”

Intuição, “visão direta e imediata de um objeto de pensamento atualmente presente ao espírito e apreendido na sua realidade individual”, nesta definição de Lalande mais próxima ao assunto deste estudo, aniquila a falta de esclarecimento porque o espírito contendo o dado imediatamente realiza na mente a definição do mesmo dado. Intuição amadurecida, no apreender dos objetos do pensamento facultados pelos dados dos objetos do conhecimento, expande o amadurecimento intelectivo e é participante do continuar do conhecer.
      
Dedução apenas, deduzir tudo na investigação, não faz conhecer. Intuição no apreender ou do transcendente ou dos objetos a partir da experiência é o princípio majoritariamente definidor da ciência do continuar do conhecer. Intuição verdadeiramente conhecedora dos objetos é o segundo princípio majoritariamente definidor da ciência do continuar do conhecer. Intuição agitante verdadeira de conhecimentos é o terceiro princípio majoritariamente definidor da ciência do conhecer. Dedução, “operação pela qual se conclui rigorosamente de uma ou de várias proposições tomadas como premissas uma proposição que é a sua conclusão necessária em virtude das regras lógicas”, como Lalande define, não pode constituir unicamente um meio de conhecimento porque algumas proposições, analisadas criticamente, podem apresentar falhas lógicas. É possível uma lógica intuitiva que, analisando criticamente as proposições que lhe são apreendidas, na mente do lógico intuitivo formule uma proposição na qual caberia mais veracidade do que se advinda de uma lógica dedutiva. Há lógica intuitiva nos três processos intuitivos acima descritos, lógica intuitiva elevando-se em suas potencialidades à medida que aplicáveis ao largo da razão e não de uma fútil exaltação intelectiva qualquer que a tudo pretende imediatamente apreender. O processo lógico intuitivo da razão, processo próprio de ciência lógica intuitiva racional, estabelecendo em toda conduta investigativa a permanência de fixa visão verdadeira dos problemas analisados, é sempre incondicionado em seus três princípios. O mesmo não ocorre com as ciências cujos princípios estão condicionados, como Fichte observa:

“O princípio de qualquer ciência não pode estar condicionado, por sua vez, pela ciência mesma, mas tem que ser incondicionado em relação com ela. Precisamente por isto, dito princípio tem que ser uno. Se a ciência estivera condicionada por dois princípios, ou bem não havia um terceiro pelo qual estariam vinculados, ou bem o havia. No primeiro caso, ambos seriam distintos princípios e, por conseguinte, condições de distintas ciências; no segundo caso, estariam subordinados a ele, excluindo-se um ao outro reciprocamente, de tal maneira que nenhum poderá ser um princípio. Ambos pressupõem um terceiro mais alto pelo qual estariam condicionados de maneira comum.”

Isso tudo ocorre com princípios condicionados de uma ciência que prima pelo método dedutivo e não em uma ciência, como a do continuar do conhecer, como a da Continuidade Do Conhecer, incondicionada porque próxima ao modelo verdadeiro da veracidade.
      
Veracidade no conhecer formaliza-se em um espírito que se encontra livre dos condicionamentos nos princípios de sua ciência particular, ciência de seu método de utilizar na prática do viver para desenvolver os seus conhecimentos a atitude de quem sabe o que realiza. Se não há veracidade em todo princípio, em qualquer ciência, o ato de transmitir e executar a mesma torna-se transmissor de erros. Se na veracidade de uma dedução, e até na veracidade de uma intuição, pode ser encontrado um erro, o método de conter e assimilar a transmissão de um conhecimento com base na veracidade deste conhecimento foi errôneo em todos os seus princípios. Se houve o erro, o método esteve condicionado por alguma expressão dos princípios constituintes de sua utilização mediata ou imediatamente pelo investigador. Se o erro persiste em todo investigar, a ciência adotada como critério de incondicionamentos para a chegada de uma veracidade cognitiva é ciência vazia planificada por quem não sabe o que é cientificamente agir cognitivamente, seja qual for o ramo de conhecimento no qual atua para o continuar de seu conhecer. Se os três princípios da lógica intuitiva da razão não correspondem ao atuar dos pensamentos na resolução de problemas na ordem dos conhecimentos que apreendem, o erro maior está na ausência de método racional para o continuar do conhecer. Como foi dito, apenas a emotividade que leva muitos a elevarem seus pensamentos a níveis superiores aos níveis da orbe humana comum que não possui maiores interesses intelectuais, devido a variadas condições, não é o mais preciso caminho para se continuar a conhecer. A ciência deve ser séria em todo homem disposto a continuar a conhecer. O método incondicionado das diversas versões do senso comum acerca dos conhecimentos deve ser parte de todo crítico proceder cognitivo. Em O Desenvolvimento Do Conhecer foi dito que a direção da vontade de conhecer é infinita; toda a vontade de conhecer nasce do espírito, o espírito dotado de razão para ser a fonte de poder do intelecto humano mais primoroso, o intelecto próprio do tipo especial de homem aqui neste estudo considerado. Tipo de homem que parece travar uma batalha contra todo erro intelectivo, tipo de homem que consciente de si pratica toda a aurora de seu conhecer na seriedade de seu ser. Não há Aurora Do Conhecimento distante da realidade interna do que sente renovado para novos dias de intelectivas descobertas a cada findar de uma investigação. A investigação continua sempre nos verdadeiros conhecedores de si mesmos que sentem, pela razão e pelo sentimento de conhecer realmente temperado pela razão, a amplitude das cognições disponíveis ao seu intelecto.
      
Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831) entendia a ciência como um sistema total de saber que é a própria Filosofia assim desenvolvida. As Auroras Do Conhecimento são um único sistema teórico anti-dogmático que refere-se a uma única aurora, que é a aurora da ciência do conhecer. Tudo no conhecer, se não for considerado como fruto de uma segura ciência praticável, é um todo de erros. A ciência do conhecer é A Ciência, a Filosofia tratada como a força de todo conhecimento verdadeiro, a Filosofia que é a absoluta matriz de todo conhecimento verdadeiro. Mas, como saber se A Ciência assim automanifestando a sua forma é realmente A Ciência? Como saber se o conhecimento verdadeiro não é um conhecimento não-verdadeiro?

“O fazer-se presente da Ciência não é ainda a Ciência mesma levada a cabo e desenvolvida na sua verdade. Aqui é irrelevante representar a Ciência como aparência pelo fato de que ela parece ao lado de outros conhecimentos ou então chamar de manifestações da ciência a esses outros conhecimentos não-verdadeiros. Mas a Ciência deve libertar-se dessa aparência e somente pode fazê-lo voltando-se contra ela. Pois, em se tratando de um saber que não é verdadeiro nem pode a Ciência apenas rejeitá-lo como uma visão vulgar das coisas asseverando ser ela um conhecimento totalmente diverso em face do qual aquele outro saber nada é, nem busca nele a indicação de um saber melhor. Por meio dessa asserção a Ciência explica o seu ser pela sua força. Mas igualmente o saber não-verdadeiro apela para o fato de que também ele existe e assegura que, para ele, a Ciência nada é. Ora, uma seca asserção vale tanto quanto outra qualquer. Com menos razão pode a Ciência apelar para o pressentimento de algo melhor que acaso se encontrasse no conhecimento não-verdadeiro e fosse, nele, uma indicação a seu respeito: por um lado, ela apelaria ainda para um ser e, por outro, apelaria para si mesma segundo o modo como se encontra no conhecimento não-verdadeiro. Apelaria, em suma, para um modo deficiente do seu próprio ser, ou seja, para a sua própria aparência mais do que para si mesma tal como é em si e para si”,

afirma Hegel em A Fenomenologia Do Espírito (1806-1807). Todo o dever-ser do homem que conhece, dever-ser fora dos parâmetros dogmáticos científicos gerais ou particulares, é o anunciante do conhecimento verdadeiro. Todo o dever-ser do homem que conhece por conduta intelectiva dogmática é o denunciante do conhecimento não-verdadeiro. Em si e para si A Ciência incondiciona-se dos dogmas e permite ao possuidor de sua força, da maneira desta força automanifestar-se no intelecto, arregimentar todos os conhecimentos verdadeiros que lhe são indicados no processo investigativo intelectivo. A Ciência, “explicando o seu ser pela sua força”, dota toda ciência intelectiva particular, a ciência do homem que quer continuar a conhecer, da incondicionada capacidade de não se deixar iludir pelos negativismos explícitos do não-conhecimento, abortando erros, abandonando erros, fugindo dos erros.
      
“Um sistema que rejeite os sentimentos mais sagrados, a alma e a consciência moral, não pode qualificar-se nunca, pelo menos nesta propriedade, de sistema da razão, mas somente de anti-razão. Em troca, um sistema em que a razão se reconheça realmente, teria que trocar todas as exigências do espírito ou mesmo do coração, do sentimento moral ou mesmo do entendimento mais estrito. A polêmica contra a razão e a ciência permite, a dizer a verdade, certa generalidade elegante, que alude a conceitos exatos, de sorte que podemos adivinhar mais facilmente suas intenções do que o seu sentido concreto; entretanto, ainda escrutando-o a fundo, tememos não falar nada extraordinário, posto que por alta que coloquemos a razão, não cremos, por exemplo, que nada por pura razão seja virtuoso, ou herói ou o general um grande homem; mais ainda, segundo o conhecido dito, nem sequer que graças a ela se propague o gênero humano.”

No trecho acima de A Essência Da Liberdade Humana (1809), Friedrich Wilhelm Joseph Von Schelling (1775-1854) alude ao questionamento que é feito acerca das propriedades da razão e da ciência. Certamente, questionamentos como esses nascem de desconhecedores dos fatos da razão humana consistente em uma conduta científica intelectiva. Podem ser mesclados racionalmente a uma personalidade que prioriza a sua intelectualidade o que Schelling chama de “sentimentos mais sagrados”, aqueles sentimentos que fazem um homem ser parte do Homem, do Gênero Humano. A razão pode ser reconhecida à vista de uma ciência adotada como potência da intelectualidade que permite, sem trocas descaracterizantes de uma personalidade, as exigências do espírito, as do coração (entendidas como sendo os sentimentos), o sentimento moral e o entendimento mais estrito. Não se deve temer falar nada quando a razão domina a intelectualidade e a questão da dignidade da razão por si mesma pode ser conferida em todo trabalho verdadeiramente coroado de verdades nos ramos de conhecimentos do Conhecimento Humano. O papel da intuição é importante nesse procedimento porque é nele que a razão se transporta para a dignidade que tanto lhe é facultadora de reconhecimento. Não há uma ciência fora da razão, pois esta é aquela que soma todos os dados cientificamente analisados nos resultados cientificamente obtidos. Mais uma vez é importante chamar a atenção para o dever de se tratar todo tipo de conhecer, todo tipo de método do conhecer, como uma ciência. Se nada referente ao Conhecimento Humano estivesse sob a égide de uma personalização científica, então, toda tentativa de alcance de cada vez mais elevados conhecimentos percorreria os meandros tenebrosos dos erros. Toda personalização intelectiva incondicionada se identifica através da intuição, intuição fundada em lógica racionalidade, racionalidade determinada por ciência que canaliza toda a sua dignidade.
      
Sobre a intuição, Schelling diz o seguinte em Experiência E História – Escritos De Juventude (1794-1803):

“Em nosso conhecimento não há nada imediato (e precisamente por isto nada certo), a não ser que a representação seja ao mesmo tempo original e cópia, e nosso saber seja originariamente e ao mesmo tempo ideal e real. O objeto não é outra coisa que nossa própria síntese, e o espírito não intui no nada sem o seu próprio produto. A intuição é completamente ativa, e precisamente por isto é produtiva e imediata. A pergunta é agora: Como se pode pensar em uma intuição imediata e absolutamente ativa? É fácil encontrar o seguinte: Podemos analisar até o infinito e dividir mecanica ou quimicamente o que é matéria, isto é, objeto da intuição externa, e nunca chegaremos senão à superfície dos corpos. O único indestrutível na matéria é a força que habita nela e que se anuncia ao sentimento mediante a impenetrabilidade. Mas esta força se dirige somente para fora, somente reage ao choque externo e, portanto, não é força que se reflita em si mesma. Somente em uma força que se refletiria em si mesma se criaria um âmbito interior a ela. Daí que à matéria não lhe pertença a interioridade. Mas o ser que representa intui um mundo interno. Este somente é possível por uma atividade que dê a si mesma sua esfera ou, com outras palavras, que se recolha em si mesma. Mas nenhuma atividade volta a si sem ir justamente pelo mesmo e simultaneamente em direção ao exterior. Não há nenhuma esfera sem limitação, nem tampouco há limitação alguma sem um espaço limitado. Por conseguinte, aquela propriedade da alma pela qual é capaz de um conhecimento imediato (de uma autointuição) é a duplicidade de sua tendência em direção ao exterior e em direção ao interior.”

No exterior e no interior encontram-se as faculdades da intuição, pois os objetos apreendidos na objetividade são intuitivamente revelados à consciência na subjetividade. Neste sentido está a intuição: é uma atividade que recolhe em si mesma os dados subjetivamente acumulados a partir da objetividade e que recolhendo em sua esfera as características do apreendido gera o intuir deste. Neste sentido, Schelling aborda a intuição como uma particularidade de um mundo interno no qual o espírito representa subjetivamente e apresenta objetivamente o que intui. A esfera limitada pelos dados apreendidos é a esfera limitada das respostas da investigação destes dados, onde reflete-se a natureza desta na natureza daquela. A intuição lógica da razão, para melhor identificá-la conforme as palavras de Schelling, é a intuição de um mundo particular, sempre um mundo particular a intuir, demonstrando a visão individualizada da objetividade observável. Exterior e interior refletem-se nessa esfera e o intuir compreende o que o mundo interno daquele que conhece compreende dessa reflexão. Sendo assim, os conhecimentos alcançados subjetivamente são condicionados pela objetividade e, portanto, são erros? Não, o mundo interno é capaz de incondicionar-se e de fazer vir aos pensamentos intelectivos de seu portador a visão verdadeira da resposta a um problema. Mas, um mundo cognitivo limitado, uma esfera cognitiva limitada, não indica que ela está condicionada pela corporalidade e não faz parte da consciência do espírito em sua infinitude de continuar a conhecer? Não, a corporalidade participa do processo cognitivo apenas transmitindo as respostas pelo pensamento geradas em ações no mundo externo e a consciência do espírito possui o domínio total sobre a corporalidade quando desperta em si, assumindo toda representação, resumindo toda representação, sendo toda representação.
      
Como é o mundo interno que apresenta-se como o representante das cognições do contínuo conhecer, respondendo a todas as respostas, compreendendo a todo problema que lhe é possível solucionar, recebendo todo dado que lhe faculta o seu ser como o modelador dos conhecimentos verdadeiros na Continuidade Do Conhecer? O mundo interno adiante será examinado em O Mundo Do Conhecer, a quinta aurora das Auroras Do Conhecimento.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Georg Wilhelm Friedrich Hegel



 Friedrich Wilhelm Joseph Von Schelling




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