Sobre As Auroras Do Conhecimento - Introdução



Raimundo de Farias Brito



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Conhecer é um ato maior natural do ser humano, ato que jamais pode ser moldado conforme as perspectivas comuns de um sistema específico. Afirmar que conhecer é sistematizar simplesmente implica mecanizar o pensamento, a este moldar como a um computador. A mente humana não é um programa de computador com funcionalidades específicas direcionadas a uma estruturação formalizadora do pensar. Pensamento computadorizado seria pensamento corrompido, pensamento absorto em negações objetivas e subjetivas da sua essência, da sua necessidade, da sua particularidade exponencialmente substancial ao propósito único do raciocínio. Autonegando-se, o pensamento seria o desconhecimento absoluto, um absurdismo como o é o conhecimento absoluto. Como a mente humana não é um computador com memória e dados centrados na frieza operacional do que se pode ser chamado de dialética mecanicista, um operar de conhecimentos à base de um diálogo mecanizado direcionado a um resultado pré-determinado, pode-se também visualizar o desconhecimento como relativo. Quanto ao pré-determinado, este limitaria o conhecer, já que conhecer pré-determinadamente algo é desfazer a naturalidade advinda do maior processo caracterizador do que seja a mente: o processo do investigar. A mente não é uma máquina fria, ela fervilha nos exatos momentos maiores do verdadeiro conhecer. A mente ocupada no conhecer primeiramente, posteriormente atenta-se ao verdadeiro conhecer, determina o seu exato verdadeiro conhecer.

Esclarecer o dito acima torna-se necessário para a melhor visualização do tema exposto aqui. Inicialmente falou-se da pré-determinação; o que garante uma pré-determinação e os seus resultados formais? Pode ser dado um exemplo: diante do meu entendimento pode surgir a sugestão positiva do existir de resultados matemáticos heterogêneos a simples cálculos de Aritmética; posso imaginar, apenas imaginar, que dois mais dois é igual a cinco; posso sugerir ao meu entendimento, apenas sugerir, que se efetue uma correta ação direcionante da minha imaginação ao investigar da veracidade de que dois mais dois é igual a cinco; ergo todo o meu saber investigativo assim pré-determinado, pois no mesmo instante em que eu sugiro ao meu entendimento que dois mais dois é igual a cinco, traço intelectivamente o caminho direcionado ao conhecimento completo do objeto que eu me propus a investigar; resulta, então, de todo esse mecanicismo intelectivo, algo que se distancia do verdadeiro conhecimento e do verdadeiro conhecer. Intelectivamente, mesmo o mais elevado dos mecanismos mentais não aceitaria nem mesmo especular sobre uma possível existência do juízo dois mais dois é igual a cinco sem uma prévia investigação que não pré-determinaria o seu resultado final. Deve-se sempre dar valor ao investigativo saber, isto é, ao ser investigador crítico, até de si mesmo com relação ao que se pode subjetiva e objetivamente saber intelectivamente; o mais correto é atentar-se ao que o saber propriamente considerado pode reconhecer como sendo de sua natural consistência exprimir. O “saber investigativo”, uma quase arrogância plena quando não se investiga o próprio saber, quando não se investiga o próprio investigar, pondo o saber acima do investigar, o ter certeza antes do avaliar, é o método dos ingênuos tanto nas ciências como nas filosofias.

René Descartes (1596-1650) e a sua famosíssima “prova da existência de Deus” padecem do excesso de saber investigativo que leva à ingenuidade. O “Deus” de Descartes, o “Deus” moldado de Descartes, antes mesmo de ser “provado ontologicamente”, já estava definido como existente no pensamento de seu moldador. Discernir longa e prolongadamente sobre isto seria superficial, já que, às vezes, até uma única palavra pode verdadeiramente provar o erro de um determinado sistema de pensamento filosófico. Escrever um livro, então, criticando a fraca metodologia cartesiana da “prova da existência de Deus”, seria uma obra que denunciaria a extrema vaidade de qualquer pensador que se dispusesse a tal. Provar algo não é verdadeiramente conhecer algo; há, no entanto, uma exceção: não se provou até hoje se existe uma única Verdade, uma Verdadeira Verdade, A Verdade, A Verdadeira Verdade, confiável; e nem se conhece o que seja uma única Verdade, uma Verdadeira Verdade, A Verdade, A Verdadeira Verdade, confiável. Pode-se extender esta discussão acerca de Descartes dizendo-se que mesmo aproximando-se do seu “Deus”, cientificamente metódico em sua ontologia de evidências simples baseada no cogito, ele, para um observador bem atento ao que toda teoria e prática metodológicas ocultamente dizem, concluiu platonicamente cada passo de sua investigação idealizando seu “Deus”. O “Deus” de Descartes é uma idéia que ele “provou” como existente; o “Deus” de Descartes é um “Deus” útil, uma “entidade” útil que existe porque ele “provou” que existe em seu pensamento, como resultado de um cálculo todo mecanicamente metódico, artificialmente metódico, matematicamente metódico, pré-determinadamente metódico. Tecnicamente matematizar o caminho do conhecer é designar como fria máquina menor a naturalidade que advém do prazer verdadeiro do verdadeiro conhecer. As seguintes palavras de Gaston Bachelard (1884-1962) em Ensaio Sobre O Conhecimento Aproximado (1928) podem resumir tudo dito até aqui neste texto:

“À progressiva matematização da técnica corresponde assim uma estética ocasional cuja força verdadeira reside nas formas cada vez mais racionalmente apropriadas à matéria e à ação. É explicável que essa conquista racional do útil siga o obscuro e lento método da geometria e da mecânica e que ela não conheça os êxitos individuais da arte”.

A atividade artística, natural atividade natural do ser que comporta em si altos poderes do verdadeiro criar, elevada atividade elevada de muitos que sabem sentir o natural verdadeiramente, conhece-se com o propósito de dizer uma verdade concernente a si mesma e conhece-se como atividade propiciadora da sua atitude de ter um propósito determinado pelo autoconhecimento do artista que cria. Todo investigador, antes do critério científico, critério sempre metodicamente frio, sempre atado ao cogito cartesiano, deve ter o seu próprio ato consciente de conhecer, deve procurar ver algo a mais além do cogito, deve ser um artista que autoconhece o seu poder de criar posicionado no seu saber verdadeiramente criar, buscando com a mais pura naturalidade de sua arte investigativa verdadeiramente conhecer as faces da realidade objetiva que propõe-se a investigar.
André Lalande (1867-1963) assim define a Teoria Do Conhecimento:

“Estudo da relação que o sujeito e o objeto mantém entre si no ato de conhecer.”

Portanto, o sujeito determina o objeto de uma maneira na qual os dois estejam em contato, contato desvelador das propriedade do posicionamento do objeto no entendimento do investigador e do direcionamento do conhecer a essencialidade do objeto. Lalande também diz, em uma nota no seu Vocabulário Técnico E Crítico Da Filosofia (1926), que

“A noção de ‘teoria do conhecimento’ é considerada como ilusória por vários filósofos.”

Tal consideração atenta-se ao sentido pejorativo do termo teoria, como Lalande descreve no mesmo livro:

“Qualifica-se como ‘teoria’ quer uma concepção do espírito artificialmente simples, que representa os fatos de uma maneira demasiado esquemática para que se possa tirar daí conclusões aplicáveis ao real, quer uma concepção individual e arriscada, devida mais à imaginação ou ao preconceito do que à razão”.

Nos parâmetros deste estudo, o enfoque desse sentido pejorativo relacionado à Teoria Do Conhecimento e das teorias do conhecimento estaria na explanação dedicada à concepção individualista do que é o conhecer, concepção inerente a cada filósofo. No conhecer individual de cada filósofo reinaria uma conceituação do que seria o conhecimento, o que implicaria na eliminação de uma verdadeira tentativa de conhecer o mecanismo do conhecimento. Não está se teorizando o conhecer ao considerar o investigar do dito mecanismo na Filosofia, mecanismo que não é mecanicista por ser natural o desejo de conhecer. A Teoria Do Conhecimento, as teorias do conhecimento, são tentativas práticas, verdadeiramente práticas, do conhecer todo do conhecimento em suas manifestações, aparições e complicações. Considerando-se unicamente esta face da Filosofia como Teoria Do Conhecimento, a envolver todo o conjunto das teorias do conhecimento, têm-se em vista construir a formação do teor de uma forte elaboração do sentido das finalidades de dita face.
Errôneo é criticar a Teoria Do Conhecimento, já que todo crítico desta, se filósofo, tem a consciência de si, o que é fundamental para o filosofar e o conhecer. Se o filósofo conhece algo de um objeto a partir da consciência que tem de si é porque este algo lhe foi desvelado, revelado e interpretado pelo seu olhar atento, de maneira a dizer-lhe tudo, ou relativamente tudo, que envolve-lhe o existir subjetivo. Visualmente focar a sua inteligência em uma crítica da Teoria Do Conhecimento, esta que é a da prática do investigativo saber como vital para o verdadeiro conhecer, é negar a Filosofia como a possibilitadora, dentro dos limites do conhecimento humano, infelizmente, do estudo da revelação do que diz um objeto a uma mente adequada ao processo investigativo. De todo esse processo pode-se conceber uma teoria do conhecimento individual, a qual enriquece toda a Teoria Do Conhecimento porque permite aos demais filósofos estudarem como o conhecer automanifesta-se no ser de cada um dos seus irmãos em Filosofia. E se a Teoria Do Conhecimento em sua finalidade extrema é o conhecimento das verdades e da Verdade através do interpretar do que venha a ser o conhecer sob diversas visões filosóficas, não se pode criticar a sua importância, mesmo porque quem a critica não deve achar que todas as respostas advenham inteiramente de regiões elevadas desconhecidas, de uma voz que advém do alto. Raimundo de Farias Brito (1862-1917) referiu-se em sua obra inacabada Ensaio Sobre O Conhecimento (1917) a essa idéia de acreditar-se que algo, alguma resposta maior, alguma resposta definitiva, para todo o compreender da vida, advenha do alto. Negando tal idéia, Farias Brito pôs a consciência e a razão como os únicos possíveis meios de conhecer a Verdade:

“Sou, contudo, uma consciência. E se a consciência, como já disse, tem por objetivo a verdade, é meu dever procurar a verdade. Trabalhar, pois, neste sentido, trabalhar, trabalhar sempre ― tal é o meu destino. Nem o devo, nem o posso compreender por outra forma. E se para dar cumprimento a esse destino, a razão é a única luz que me foi dada, claro se faz que devo tomar por guia a razão. E devo assim proceder, certo de que a razão não poderá enganar-me, pois o contrário disto seria acreditar que a natureza não passa de um tecido de contradições e monstruosidades inextrincáveis. Nem devo temer que seja ineficaz o meu esforço, porque nenhum esforço do pensamento é ineficaz, quando se trabalha de boa fé.”

Trabalhar, trabalhar, trabalhar: o único meio de um filósofo conhecer o que lhe impulsiona o investigar de toda a fenomenalidade que lhe interessa como o propulsor máximo de sua existência. Trabalhar, trabalhar, trabalhar infinitamente, como Farias Brito diz que ocorre com todo investigador verdadeiro em A Filosofia Como Atividade Permanente Do Espírito (1894):

“Sempre que qualquer conhecimento chega a ser organizado e verificado, é ciência. Mas o espírito nunca se dá por satisfeito: não se contenta com o conhecimento adquirido; prossegue sempre em sua exploração da natureza; e esta não diminui no que dela ignoramos, não se oferece menos obscura e menos cheia de mistério, porque a conhecemos em alguns dos seus caracteres: pelo contrário parece que aumenta de proporção à medida que se vai revelando à consciência humana.”
      
Como um complemento ao pensamento de Farias Brito, as seguintes palavras de Karl Raimund Popper (1902-1994) em Conhecimento Objetivo: Uma Abordagem Evolucionária (1972) definem o que significa tal infinito aumento do que a natureza oferece aos estudiosos para investigações que revelem-na ao mesmo tempo que aumentam-lhe os mistérios a cada nova descoberta; e definem simultaneamente o objetivo da Teoria Do Conhecimento que se encontra pelas teorias do conhecimento:

“nenhuma teoria do conhecimento deve tentar explicar os motivos de termos êxito em nossas tentativas de explicar as coisas.”

Popper diz ainda que todo êxito é improvável, “infinitamente improvável”, justificando tal conclusão ao dizer que

“nossas teorias nos dizem que o mundo é quase completamente vazio e que o espaço vazio está repleto de radiação caótica (...) Em suma, há muitos mundos, mundos possíveis e reais, nos quais falharia uma busca de conhecimentos e de regularidades. E mesmo no mundo que efetivamente conhecemos segundo as ciências, a ocorrência de condições em que a vida e uma busca de conhecimentos possam surgir ― e ter êxito ― parece ser quase infinitamente impossível.”

É próprio da Teoria Do Conhecimento, de toda teoria do conhecimento, possuir uma total humildade em sua essencialidade, total humildade intrínseca à sua estrutura organizacional. Ela, não, elas, que levam apenas a uma, todas as teorias do conhecimento na Teoria Do Conhecimento, exercem o papel de sempre reconhecerem, em seu caráter humilde, a finitude, a limitação, um relativo estagnar em algum ponto de investigação, do conhecimento humano. Criticar simploriamente tal relíquia da Filosofia, relíquia que sinceramente revela a pobreza ocasionada pelas limitadas capacidades do conhecer, é atestar a arrogância de um deus supremo e absoluto que tudo sabe. Se os seres humanos fossem deuses supremos e absolutos que tudo soubessem do fluir do organismo da realidade, que tudo conhecessem verdadeiramente puro em demasiada elevação que até estaria além do infinito por tratar-se de seres ilimitados que em si mesmos seriam inúmeros infinitos, o mundo seria uma unidade pura de sabedoria eterna estagnada. Sempre ficando algo a conhecer, algo a ser explorado, algo a ser investigado, algo que à consciência humana seja revelado, como o disse Farias Brito, o mundo é um paraíso de conhecimentos completos e definitivos negado a todos por oferecer a todos sempre o conhecer, que, porém, como afirmam as palavras de Popper, é limitado. Paraíso afirmado, onde tudo é conhecido, seria monotonia sem nexo, infrutífera região de campos todos colhidos que já não oferecessem mais todas as preciosidades alimentícias que comportavam, negação pura automanifestante de nadas eternos em negações eternas.
      
Isto não é um dogma, não é um sofisma, mas é uma verdade vívida: todo conhecimento limita-se ao reconhecimento do próprio limitado conhecer e sempre haverá algo a ser conhecido limitado ao próprio limitado conhecer daquele que investiga para poder saber mais reconhecendo-se sempre limitado. Neste estudo, servindo-se do reconhecimento de tal limitação, mas recorrendo a um espírito crítico profundamente observador, se explanará uma teoria sobre cada caminho formador do conhecimento humano. Cada caminho formador é uma aurora, uma aurora conhecedora do conhecimento, uma Aurora Do Conhecimento, na qual se pode efetivamente fundar-se a verdade de todo conhecimento. O Início Do Conhecer é a primeira aurora; O Desenvolvimento Do Conhecer é a segunda aurora; O Amadurecimento Do Conhecer é a terceira aurora; A Continuidade Do Conhecer é a quarta aurora; O Mundo Do Conhecer é a quinta aurora; e O Objetivo Do Conhecer, elevando este tópico além da definição acima de Popper, é a sexta aurora. Para essas auroras, os pensamentos de outros filósofos que em cada uma delas pousou o seu desejo de conhecer serão a essência deste estudo. As Auroras Do Conhecimento apresentam-se em todo pensamento que investiga sabendo investigar e sabendo saber o que seja o investigar. As Auroras Do Conhecimento propõem a cada passo de suas evoluções outros passos além rumo ao que ainda resta conhecer no mundo objetivo e no mundo subjetivo. As Auroras Do Conhecimento na Teoria Do Conhecimento são os fundamentos do fverdadeiramente conhecer.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!



Karl Raimund Popper




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