Sobre As Auroras Do Conhecimento - O Desenvolvimento Do Conhecer


George Berkeley



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

Nas sendas profundas do entendimento, entendimento capacitado a tornar o conhecer a fonte de todo poder desenvolvimentista maior humano, são notáveis as possibilidades de expansibilidade em seus conteúdos, os quais são proporcionados ao homem que quer conhecer. Após o nascer do desejo de conhecer, da vontade firme de querer conhecer, na totalidade intelectiva de seu ser, o homem é senhor da fervilhante corrente de chamados ao desenvolver de seu conhecer. Nenhum livro, por mais grandioso e excelso que seja no uso correto de toda teoria e doutrina nele inserido, orienta por si mesmo o desenvolvimento dos dados recebidos através da perceptibilidade de que na realidade do mundo há sempre muito a conhecer. Os maiores e melhores instrutores das maiores e melhores instituições de ensino, templos verdadeiros que cultivam os direcionamentos corretos do conhecimento como fontes essenciais da evolução intelectiva humana, não desenvolvem as faces do conhecer na face interior dos grandes centros da consciência daquele que quer conhecer. O externo pode ser fonte de conhecimentos; porém, no interno, na essência da consciência dotada pelas colunas inderrubáveis da inteligência, o homem que conhece desenvolve o seu poder de conhecer. Livros e instrutores, como as instituições de ensino, são fontes nas quais podem ser captados os elementares meios de como se fazer produtivo o mover ideal da capacidade desenvolvimentista do conhecer. Instrução advém, verdadeiramente, da leitura de livros e do ouvir corretas palavras que ensinam; conhecer o que se lê, conhecer o que se ouve, entretanto, é uma dádiva de poucos afortunados que concretamente sabem desenvolver o seu conhecer. O concreto, o entendimento concreto, entendimento participativo do conhecimento concreto, com as suas raízes inicialmente posicionadas no processo que desenvolve o conhecer, amplifica utilmente todas as possibilidades do desenvolver do conhecer. No concreto, no entendimento concreto, no conhecimento concreto, no desenvolvimento concreto do conhecer concreto, abrem-se todas as perspectivas fundamentadoras de uma excelentemente fundamentada individualidade que compreende o conhecer. Não se pode jamais admitir a certeza de que o conhecimento possua a plenitude de ser conhecimento concretamente verdadeiro antes do investigativo saber indagando acerca disto: se a certeza do concreto conhecer é concreta para desenvolver o conhecer em uma certeza concreta e se o conhecer da certeza concreta é concreto para desenvolver a certeza em um conhecer concreto.
      
A presença do investigativo saber no certificar-se de que se está concretamente conhecendo algo prontifica o homem que desenvolve o seu conhecer a afirmativa natureza real desta verdade, mais uma verdade relacionada ao conhecer: toda idéia concreta realiza-se realidade concretamente manifesta na objetividade do homem que conhece, sendo este ciente e consciente de que a partir da sua subjetividade foi modelada toda plausibilidade disponível ao exercício do desenvolver concreto do conhecer concreto amparado pela certeza concreta em seu todo que conhece. Sempre através das idéias concretas, idéias que, conseqüentemente, moldam-se reais, toda a panorâmica construtivista da certeza concreta de se estar conhecendo algo a fazer adquirir concretitude na subjetividade e na objetividade evolui. Idéias abstratas tidas como verdades em determinadas realidades de conhecimento levam ao falso conhecer, a realidades falsas, a realidades inexistentes, a um eterno exercer de moldes de inexistências eternas que se referem ao conhecer. George Berkeley (1685-1753), no Tratado Dos Princípios Do Conhecimento Humano (1710), negando a possibilidade de idéias abstratas, antepondo-se desta maneira a Locke, localiza-lhes a fonte de origem na linguagem, pois

“se não houvesse o discurso ou os sinais universais não teria havido idéia de abstração”.

A linguagem levando à abstração se encarrega da limitação da visibilidade intelectiva, fazendo com que todo nome dado a algo especulado seja crido como válido. Nem tudo o que é especulado sequer passa pelo crivo de uma proximidade com uma verdade e nem no âmbito da relatividade uma abstração adentrada em puros absurdismos pode ser defendida pelos caracteres de uma validade que se lhes impõe por parte de um pensador disposto a tal defesa. Berkeley, examinando a idéia de abstração, a qual denomina como erro, referindo-se à linguagem, diz, utilizando como exemplo o triângulo, que este

“define-se ‘uma superfície limitada por três linhas retas’ e por este nome denota-se uma certa idéia e não outra. A isto respondo que na definição não se diz se a superfície é grande ou pequena, branca ou preta, se os lados são longos ou curtos, iguais ou desiguais, nem os ângulos segundo os quais se inclinam; em tudo pode haver grande variedade e, portanto, nenhuma idéia determinada limita a significação da palavra triângulo. Uma coisa é manter constante a definição de um nome, outra fazer que ele represente sempre a mesma idéia; uma é necessária, outra inútil e impraticável”.
      
Representar “sempre a mesma coisa” através da “definição de um nome” é inútil em sua natureza abstrata querendo fazer-se concreta e impraticável porque origina-se da abstração nascida do que a sua definição original sugestiona. Através das idéias abstratas, puras, não há a certeza do conhecer, a certeza do conhecer desenvolvendo-se, porque a razão de suas expressividades é centrada na impressão geradora de uma abstração proporcionada por uma especulação pura absurda a partir do que um nome sugere. Nomes nem sempre levam a idéias, a uma conexão direta com aquilo de verdadeiro que talvez possam significar, representar ou citar. Conhecer o que é um nome não significa necessariamente conhecer toda idéia que talvez se insira no mesmo. Berkeley, ponderando sobre isso, com as seguintes palavras, conforme a sua teoria, demonstra a impossibilidade das idéias abstratas surgidas a partir de sugestões dadas pelos nomes:

“Se alguém refletir um pouco sobre o que fica dito, creio ser-lhe-á evidente usarem-se muitas vezes nomes gerais na linguagem sem pensá-los como marcas de idéias de quem fala na intenção de levá-las ao espírito do ouvinte. Até os nomes próprios muitas vezes se pronunciam sem o intuito de chamar a nossa atenção para os indivíduos por eles designados. Por exemplo, se um escolástico me diz: ‘Aristóteles disse isto’, concebo que ele quer levar-me a aceitar a sua opinião pela deferência e respeito habitualmente ligados àquele nome. E esse efeito é com freqüência tão instantâneo nos habituados a submeterem o seu juízo à autoridade daquele filósofo como é impossível ter havido antes idéia de sua pessoa, obra ou reputação. Poderia dar inúmeros exemplos; mas para que insistir em coisas que a experiência de cada um pode sem dúvida sugerir-lhe claramente?”.

O exemplo dado por Berkeley pode ser extendido ao dito acerca das abstrações surgidas a partir das interpretações de nomes, os quais algumas vezes são falsamente produtores de idéias que primam pela falsidade de suas identificações com o que tentam concretizar. Idéias abstratas podem levar até idéias concretas falsas se a experiência da mente que conhece suas possibilidades de expansão, sabendo dividir em suas propriedades intrínsecas o que lhe parece verdadeiro e falso, não estiver no controle do que é adquirido, assimilado e utilizado através do conhecer. E a experiência de cada um, a experiência de cada um que verdadeiramente devota-se a desenvolver o que conhece, vem a ser a segura maneira de efetivar o seguir a concretitude da certeza concreta do concreto conhecer e a todo momento, a fim de desenvolver o conhecer, negar a autoridade da abstração. O que mais, ao lado da experiência, pode verificar-se como contribuição na desenvoltura da autoridade da concretitude na trama que desenvolve o conhecer?
      
David Hume (1711-1776), neste trecho de Tratado Da Natureza Humana (1739-1740), pode precisamente à precisa indagação acima responder:

“Embora o espírito, nos seus raciocínios a partir das causas ou dos efeitos, estenda o olhar para além daqueles objetos que vê ou de que se lembra, nunca deve perdê-los completamente de vista, nem raciocinar unicamente sobre as suas próprias idéias, sem alguma mistura de impressões, ou pelo menos de idéias da memória, as quais equivalem a impressões. Quando inferimos efeitos a partir de causas, devemos estabelecer a existência destas causas; ora, temos apenas dois modos de fazer isto: ou por uma percepção imediata da nossa memória ou dos sentidos, ou por uma impressão presente, ou por uma inferência a partir de suas causas, e assim por diante, até chegarmos a um objeto que vemos ou de que nos lembramos. É-nos impossível prolongar as inferências até o infinito; e a única coisa que pode por-lhes termo é uma impressão da memória ou dos sentidos, depois da qual já não há lugar para dúvidas ou indagações”.

Afastada toda tendência à abstração que tenda ao patamar do absurdo, posicionando a mente preparada para o obter de maior número de conhecimentos possíveis, o homem que quer desenvolver o seu conhecimento investiga toda causa e todo efeito da experiência a partir dos seus contatos com os objetos que lhe proporcionam dados possíveis de serem conhecidos. Cada dado possível de ser conhecido acumula-se em sua mente positivamente, é assimilado pela mente positivamente, é utilizado na objetividade positivamente. Os dados assim organizados, aprimorados e difundidos nos alicerces da positividade, fazem de cada característica dos objetos observados e conhecidos um pequeno todo do grande todo do entendimento concreto, do conhecimento concreto e da certeza concreta do entender concreto, do conhecer concreto. As impressões adquiridas com o desenvolver da experiência através da objetividade proporcionante de conhecimento nas causas reconhece todos os efeitos que, agora antepondo-se ao pensamento de Hume, adquirem a infinitude além de toda inferência, as quais apenas são limitações que podem ser dispensadas. O investigar das causas e dos efeitos dos objetos percebidos no mar da fenomenalidade objetiva, investigar que é propiciador mesmo desta Aurora Do Conhecimento que é O Desenvolvimento Do Conhecer, absolutamente potencializa os sentidos intelectivos na direção infinita da dúvida e da indagação. O processo da dúvida e da indagação, com forças infinitas, leva até o real conhecimento subjetivo e objetivo, já que acintosamente afirmar tudo como verdadeiro e definido é afirmar tremenda inverdade destruidora do conhecer concreto.
      
O infinito aqui considerado é o da direção da vontade de conhecer e não uma alusão fantasiosa a uma possibilidade de conhecimento infinito que possa ser adquirido pelos seres humanos, os quais por todas as suas limitações advindas da inexistência de um potencial de infinitude, que abarque-lhes todo o Ser como pensantes subjetiva e objetivamente, não podem chegar além do que todo mais alto pensador pode chegar. Nas lembranças da experiência como memórias, no colher de cada fator destas que gere um desenvolvimento no poder conhecer, a infinitude, infelizmente, não é completamente percebida e conhecida. Os chamados gênios, os considerados como tais apenas porque possuem uma mente limitada que melhor capta a direção da vontade de conhecer em sua rítmica infinita, são humanos limitados; jamais algum “gênio” ou milhares de “gênios”, por todo o mundo, unidos ou não, conseguiriam solucionar todos os problemas do mundo a fim de dinamizarem a evolução dos conhecimentos humanos a níveis inimagináveis e nem os resolverão porque o conhecimento infinito não é o todo de suas subjetividades e objetividades. A idéia de conhecimento infinito é uma abstração, um objeto impossível de ser concreto nos limitados seres humanos, os quais devem desenvolver os seus conhecimentos dentro das barreiras impostas pelas suas naturezas na subjetividade e na objetividade.

“O pensar num objeto qualquer facilmente transporta a mente para os objetos contíguos; mas é apenas a presença efetiva de um objeto que a transporta com vivacidade superior”:

diz Hume no supracitado livro. Em nenhum ser humano há a possibilidade de desenvolvimento intelectivo ao nível incalculável do infinito e todo aquele que aprimora-se intelectivamente para atingir altas posições de autoridade intelectual sempre será limitado. A aurora, esta Aurora Do Conhecimento, sempre lhe será clara, clara aurora possibilitando novos conhecimentos que ao seu conhecimento como ser racionalmente dotado pela vontade de conhecer, pelo poder de conhecer, são necessidades de sua existencialidade totalmente indispensáveis. Unidos, a vontade de conhecer e o poder de conhecer formam um único poder que é necessário ao Desenvolvimento Do Conhecer, um único poder que escapa a toda classificação completa.
      
Esse único poder, grandioso poder, é um tipo de poder que excede toda e qualquer tenaz tentativa de explicação a partir de relativas classificações. Estas palavras de Hume em Investigação Sobre O Entendimento Humano (1748) talvez cheguem perto de uma definição desse tipo de poder:

“quando conhecemos um poder, conhecemos a própria circunstância na causa através da qual ela é capaz de produzir o efeito, pois esse poder e essa circunstância são considerados sinônimos. Devemos portanto conhecer tanto a causa como o efeito, bem como a relação entre eles. Mas podemos pretender estar familiarizados com a natureza da alma humana e com a natureza de uma idéia, ou com a capacidade de uma para produzir a outra? O que temos aqui é uma criação real, a produção de alguma coisa a partir do nada; o que implica um poder tão grande que pode parecer, à primeira vista, fora do alcance de qualquer ser que não seja infinito. Deve-se pelo menos reconhecer que um poder como esse não é sentido, nem conhecido, e nem sequer pode ser concebido pelo espírito humano. Tudo o que sentimos é o evento, ou seja, a existência de uma idéia conseqüente ao comando da vontade. Mas a maneira pela qual se realiza essa operação, o poder pelo qual ela é produzida, fica inteiramente fora do alcance da nossa compreensão”.

Aproximando em uma livre interpretação as citadas palavras acima de Hume do assunto tratado nesta seção deste estudo, pode-se ver que o evento da segunda aurora das Auroras Do Conhecimento, O Desenvolvimento Do Conhecer, é idéia concreta realizada realidade concreta que foi obtida pelos ditames concretos da vontade de conhecer unida ao poder de conhecer, gerando um único inexplicável poder fora de toda compreensão. Cabe exclusivamente agora aqui iluminar-se o caminho da continuidade deste estudo negando plenamente este “fora de toda compreensão”. O único inexplicável poder que fortalece toda elevação do conhecer encontra-se fora de toda compreensão que não está amadurecida em ponto seguro de estabilidade que adjudica a posse da fundação do conhecer em completa senda reconhecível exatamente como a direcionadora maior da racionalidade. Se o poder de conhecer unido à vontade de conhecer em um único poder não amadurecem, no processo mesmo de sua unificação e no do amadurecer do conhecer, todo o conteúdo intelectual que um homem comporta é o nada realizado em vazios concretos que incapacitam-lhe o compreender, o conhecer, o buscar compreender, o buscar conhecer.
      
Quando amadurecem, o único poder que formam é compreendido e posto em um patamar onde toda falha intelectiva tende a sumariamente ser extinta, tornando o conhecer todo verdadeiro em seu terreno amadurecido. A terceira aurora é O Amadurecimento Do Conhecer, aurora manifestada no pensamento do mais maduro em assuntos do Conhecimento Humano dentre os filósofos: Immanuel Kant (1724-1804).

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!



David Hume




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