Sobre As Auroras Do Conhecimento - O Mundo Do Conhecer


Arthur Schopenhauer




Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

O mundo objetivo é, primeiramente, um desconhecido que todo homem, ao tomar consciência de si e de seu papel de ser um ser de papéis cognitivos necessários para o seu existir, tenta revelar sob toda forma de conhecimento. O mundo objetivo não faz parte do mundo subjetivo senão através dos dados colhidos nas cognições necessárias ao processo todo do conhecer. O mundo objetivo, o conhecer do mundo objetivo, é a tarefa desta teoria das Auroras Do Conhecimento. O mundo objetivo, o que a razão, os sentidos, todo o ser intelectivo percebe, faz parte do Início Do Conhecer, do Desenvolvimento Do Conhecer, do Amadurecimento Do Conhecer e da Continuidade Do Conhecer. O mundo objetivo, do qual fazem parte a natureza e os fatos corriqueiros do passar dos dias, é buscado em suas obscuridades que, até o momento, bem pouco foram reveladas ao Conhecimento Humano. O mundo objetivo é até hoje obra toda do mundo interno humano, captado pela razão humana, raptado pela razão humana, desenvolvido pela razão humana, existindo pela razão humana. O mundo objetivo é um mundo onde a razão maior domina, pois a irracionalidade dos julgamentos subjetivos do senso comum indetermina o seu existir e o transmuta em inanimado fim no qual tudo está mecanicamente a portar-se. O mundo objetivo é percebido pela razão maior apenas objetivamente válida nos pensadores, nos verdadeiros pensadores, e não nos pensadores que buscam mais a fama e a fortuna do que a verdade. O mundo objetivo, para o pensador que ama conhecê-lo em si, interpretá-lo em si, representá-lo em si, é o seu mundo. O mundo objetivo, para todo pensador de toda ciência, é o mundo conhecido em verdade, é o mundo interpretado em verdade, é o mundo representado em verdade, é o mundo de todos da imensa família humana.
      
Pelo muito que se fala comumente do ato de pensar, ato de pensar verdadeiramente amparado cientificamente em uma filosofia particular adotada ou moldada sempre a ser renovadora do espírito, acredita-se que ele seja uma obra de desocupados e loucos fora do mundo objetivo. Os desocupados e os loucos de quem se fala, os pensadores, estão fora de um mundo objetivo: o mundo objetivo do senso comum. Os pensadores conhecem o mundo objetivo do senso cientificamente investigador e o seu conhecer do mundo é eterno-mundo-a-conhecer. A tarefa dos pensadores, a tarefa dos homens que realizam objetivamente os conhecimentos gerados para a totalidade do mundo objetivo do senso cientificamente investigador pelas suas incomuns subjetividades, é ficar incansavelmente a buscar problemas a serem investigados e respostas a serem encontradas no que é investigável e no que é encontrável. O eterno-mundo-a-conhecer pede-lhes uma vida toda voltada e centrada para o conhecer, para a aurora das descobertas do conhecer que objetiva o mundo que observam. O Mundo Do Conhecer é a Aurora Do Conhecimento a tratar da descoberta do mundo objetivo a partir do mundo interno, que é o mundo do espírito apoiado em recursos intelectivos que elevam-se através de estudos elevados, a solidão frutífera das meditações e a felicidade nítida proporcionada pelo desejo de conhecer contínuo. Nas seguintes observações de Friedrich Wilhelm Nietzsche (1844-1900) em A Gaia Ciência (1882) vê-se o grande papel intelectivo missionário de todos os incansáveis pensadores verdadeiros:


“O pensador: eis agora o ser no qual a necessidade da verdade e os erros antigos que mantém a vida se dão o seu primeiro combate desde que a necessidade da verdade se afirmou também como uma força que conserva a vida. Dada a importância desta luta, tudo o mais é indiferente; ela enuncia a última pergunta sobre a condição da vida, e faz a primeira tentativa para lhe responder com a experiência. Até que ponto a verdade suporta a assimilação? Tal é esta pergunta, tal é esta experiência?”.


Pode-se responder que a assimilação da verdade doa ao pensador a missão de conhecer o mundo no qual vive. Pode-se responder que a  assimilação da verdade faz compreender-se O Mundo Do Conhecer. A verdade: meta do pensador. A verdade: missão do pensador. A verdade: o mundo do pensador. A verdade: o motivo para o pensador buscar o mundo objetivo e encontrar-se com a visão ao mesmo tempo do Mundo Do Conhecer.
      
Conhecer o mundo e conhecer O Mundo Do Conhecer são a mesma aurora nascente na intelectualidade do pensador. Conhecendo-se o mundo conhece-se O Mundo Do Conhecer. Para esta aurora o pensamento de Arthur Schopenhauer (1788-1860) mais do que o de Nietzsche, pode auxiliar no compreender da explanação desta quinta Aurora Do Conhecimento. A mais madura das observações filosóficas acerca do  conhecimento do mundo encontra-se no pensamento de Schopenhauer e em sua obra máxima, O Mundo Como Vontade E Representação (1819).


“O mundo é a minha representação. ― Esta proposição é uma verdade para todo ser vivo e pensante, embora só no homem chegue a transformar-se em conhecimento abstrato e refletido. A partir do momento em que é capaz de o levar a este estado, pode dizer-se que nasceu nele o espírito filosófico. Possui então a inteira certeza de não conhecer nem um sol nem uma terra, mas apenas olhos que vêem este sol, mãos que tocam esta terra; em uma palavra, ele sabe que o mundo que o cerca existe apenas como representação, na sua relação com um ser que percebe, que é o próprio homem. Se existe uma verdade que se possa afirmar a priori é esta, pois ela exprime o modo de toda experiência possível e imaginável, conceito muito mais geral que os de tempo, espaço e causalidade que o implicam. Com efeito, cada um destes conceitos, nos quais reconhecemos formas diversas do princípio da razão, apenas é aplicável a uma ordem determinada de representações; a distinção entre sujeito e objeto é, pelo contrário, o modo comum a todas, o único sob o qual se pode conceber uma representação qualquer, abstrata ou intuitiva, racional ou empírica. Nenhuma verdade é portanto mais certa, mais absoluta, mais evidente do que esta: tudo o que existe, existe para o pensamento, isto é, o universo inteiro apenas é objeto em relação a um sujeito, percepção apenas, em relação a um espírito que percebe. Em uma palavra, é pura representação. Esta lei aplica-se naturalmente a todo o presente, a todo o passado e a todo o futuro, àquilo que está longe, tal como àquilo que está perto de nós, visto que ela é verdadeira para o próprio tempo e o próprio espaço, graças aos quais as representações particulares se distinguem umas das outras. Tudo o que o mundo encerra ou pode encerrar está nesta dependência necessária perante o sujeito, e apenas existe para o sujeito. O mundo é portanto representação.”


Assim inicia-se a obra máxima de Schopenhauer, com as palavras maiores vívidas em todo pensador que sabe que é apenas um sujeito nadante no obscuro oceano das formas representáveis por toda palavra que alcança claros oceanos. Assim define-se todo o seu pensamento, em palavras a versarem sobre uma verdade apenas conhecida pelos pensadores mais argutos e desconhecida por aqueles que não sabem utilizar o poder do pensar verdadeiramente. Reflete-se no homem o objeto e o intuir deste objeto é conhecimento, é o continuar do conhecer. O mundo ao homem que intui o que este seja é o seu mundo, um mundo particular, um mundo fechado que é mundo aberto para variadas percepções, variadas observações, variadas conclusões. A verdade de um homem em seu mundo, representação do seu modo de interpretar a objetividade que com todo o seu ser observa, é apenas sua, não é universal, não pode ser defendida como universal, não pode ser considerada como universal.
      
O homem, ser que percebe e representa o mundo, o ser que com o seu pensamento percebe e representa o mundo, o ser que com o seu espírito dotado de razão percebe e representa o mundo, não passa de um sujeito, de uma subjetividade, a perceber o objeto, a objetividade. O raiar do sol é objeto que seu pensamento percebe e representa, que o seu espírito percebe e representa. Sóis de verdades puras abrem-se quando o sujeito, desfeito todo de sonhos pessoais de grandezas inúteis, de ideais que levem-no a desgostos sucessivos, de ambições que degenerem-lhe a personalidade, de ressentimentos que imprimam-lhe o decrescimento individual, percebe que nada mais é do que um sujeito perecível dotado de percepções dos objetos perecíveis. Em sua atividade intelectiva o espírito e o pensamento são imperecíveis; o homem, nem eterno em seu modo de perceber, nem eterno em seu modo de representar, suscetível ao seu limitador estado humano limitado, perece materialmente ao encontrar a morte física, perece espiritualmente ao não encontrar-se mais com a vontade de conhecer que faz-lhe tentar alcançar um estado além do seu limitador estado. Os pensadores, os filósofos verdadeiros, de toda ciência verdadeira, de todo conhecimento verdadeiro, encontram-se cientes de que este é o único modo do conhecer. Pensando, filosofando, investigando, conhecendo o mundo representado pelas conclusões intelectivas de seu pensamento, eles vivem infinitas vidas de não-ilusões e de não-erros cientes de que este é O Mundo Do Conhecer. Aos pensadores cabe a missão de abrir os olhos daqueles que filiam-se existencialmente às ilusões e aos erros, revelando com as suas palavras que toda a Humanidade nada mais é do que um todo objetivo menor do todo objetivo maior constituinte do Universo. Toda visão do universal, do que metafisicamente é considerado no além-do-humano-ser, é a visão do conteúdo humano limitado, conteúdo que representa, conteúdo que não alcança a verdade fora de todas as representações. A universalidade, referente aos problemas humanos e aos problemas que muitos humanos pensam que resolvem intelectivamente (problemas como o da origem da vida, o sentido da vida, o sentido da morte, o sentido da crença em um suposto Deus Único), é a ilusão eterna da Humanidade, é o erro eterno da Humanidade. Apenas uma individualidade permanece destinada por toda uma existência a resolver em si todos os problemas físicos e metafísicos que lhe são possíveis resolver.
      
E o indivíduo que intui todas as suas respostas, buscando-as em sua individualidade intuitiva, procurando não dar-lhes um sentido de universalidade, o sentido de uma verdade universalmente válida, compreende o mundo objetivo no mundo da sua intuição. Os pensadores verdadeiros são indivíduos de tal natureza intuitiva, compreendem intuitivamente o mundo objetivo que representam, rejeitam o gritar pelos quatro cantos do mundo que as suas verdades individuais são verdades universais. O compreender, o entender, é o mundo da intuição, mundo fora das ilusões, fora dos erros. O cuidado máximo para não cair-se em ilusões, até mesmo na intuição imediata, deve ser bem distinto, já que não se pode, em qualquer teoria que priorize o tema do método intuitivo de conhecer, dizer que a faculdade de intuir é universalmente infalível. Depende do indivíduo que intui a tarefa de verificação da veracidade do seu intuir, tarefa que nenhuma teoria jamais poderá prescrever em suas determinações e aplicações. Schopenhauer alerta para o perigo das ilusões, após uma explanação acerca das “aparências ou ilusões do entendimento”:


“Todas estas aparências ilusórias se nos apresentam como resultado da intuição imediata, e não é nenhuma operação da razão que as pode dissipar: esta apenas tem poder contra o erro; a um juízo que não está suficientemente justificado ela oporá um contrário e verdadeiro; reconhecerá, por exemplo, in abstracto, que o que diminui o brilho da lua e das estrelas não é o afastamento, mas a existência de vapores mais espessos no horizonte; mas, apesar deste conhecimento completamente abstrato, a ilusão permanecerá idêntica em todos os casos acima citados, visto que o entendimento, que é absolutamente distinto da razão ― faculdade de supererrogação no homem ― , pode afetar, mesmo neste, um caráter irracional. Saber é a única função da razão; só ao entendimento, fora de toda a influência da razão, pertence a intuição”.


A abstração pode se transfigurar em concretitude, conforme visto em O Desenvolvimento Do Conhecer, eliminando as cadeias das ilusões que transportam as intelecções para as ladeiras do abismo do não-conhecimento. A razão sabe, conhece, mas também, unificada à intuição, conforme visto em A Continuidade Do Conhecer, é capaz de ser toda participativa na obra do entender, na obra do compreender. É de objetos concretos que advém toda representação do mundo e a mera sugestão de um objeto abstrato, dando-lhe significação maior, é uma aberrante insinuação coroada pela mentira que é a mãe de toda a ilusão. Os juízos, na concretitude das representações concretas, sob aparências reveladas ao pensamento, representadas pelo pensamento, intuídas pelo pensamento, compartilhando do olhar do espírito em sua construtividade toda na verdade, construtividade toda livre do erro, construtividade toda construtora do mundo, apresentam-se ao intelecto na maior das purezas pensáveis.
      
Verdade mais alta no conhecer, verdade que não se limita à relação objeto do conhecimento-sujeito-representação, é totalmente possível ao único modo do conhecer, pois


“... a possibilidade de conhecimento mais perfeita, a maior claridade pertence necessariamente àquilo que é próprio do conhecimento como tal, isto é, à forma do conhecimento, mas não àquilo que não é em si nem representação nem objeto, e que apenas se tornou conhecível ao entrar nessas formas a priori, ao tornar-se representação e objeto”.


E a possibilidade desse conhecimento Schopenhauer encontra na intuição, mas com ressalvas:


“Assim, pois, a única coisa que pode fazer-nos adquirir um conhecimento, sem reserva, de uma clareza perfeita, sem deixar nenhum resíduo inexplicado, será unicamente aquilo que apenas depende da faculdade de intuição, de percepção em geral, enquanto faculdade de percepção (e não aquilo que constitui o objeto do conhecimento para se tornar em seguida representação); por conseqüência, será aquilo que é o atributo de todo conhecimento sem distinção, e que pode, assim, ser obtido tanto partindo do sujeito como do objeto. Ora, tudo isto se compõe apenas da forma de todo fenômeno que conhecemos a priori, formas enunciadas na sua generalidade pelo princípio da razão, e cujas modalidades que dizem respeito ao conhecimento intuitivo são o tempo, o espaço, a causalidade. As matemáticas repousam inteiramente nelas, do mesmo modo que todas as ciências naturais puras e a priori. Só nestas ciências o conhecimento não vai de encontro a nada de obscuro, a nada de inexplicável (o inexplicável é a vontade), a nada, em uma palavra, que não se possa deduzir de outra coisa; sob este ponto de vista, são esses, principalmente e mesmo exclusivamente, os únicos conhecimentos, além da lógica, aos quais Kant concedia o nome de ciências. Mas, por outro lado, estas ciências apenas nos ensinam a conhecer relações, relações entre uma representação e uma outra, formas sem nenhuma substância. Todo conteúdo que se lhes der, todo fenômeno que preencha estas formas, contém já qualquer coisa que já não é perfeitamente conhecível na sua essência, não é inteiramente explicável por outra coisa, que é pois sem fundamento (grundios); assim, a ciência perde imediatamente a sua evidência e a sua verdadeira clareza”.


Não apenas as matemáticas e as ciências naturais possuem essa chegada ao  resultado do conhecimento intuitivo aprioristicamente, mas toda ciência na qual se forma a utilização da intuição para intelecções diretas. As intelecções a priori de todas as ciências, no sentido que estas neste estudo, nesta teoria das Auroras Do Conhecimento, lhe dão, como nascidas da Filosofia, A Ciência, sempre remeterão a “conhecer relações, relações entre uma representação e uma outra, formas sem nenhuma substância”. Mesmo incondicionando-se,  o processo cognitivo, alcançando o termo de uma investigação, termo incondicionado, estará sempre relacionado ao termo condicionado do qual originou-se. Apenas a névoa das coisas, a superfície mais penetrável das coisas, é possível à mente humana conhecer. A essência dos objetos, a essência de todas as coisas objetivas cognitivamente percebidas, permanece afastada do conhecer. A coisa-em-si, tratada por Kant, Schopenhauer e outros tantos filósofos, permanece no longínquo, no inalcançável, no desconhecido horizonte onde a intelecção humana não pode entrar em atividade.
      
Toda ciência representa. A Filosofia, A Ciência, representa. Toda teoria científica representa. Toda teoria filosófica, toda teoria da Ciência, representa. Mas, o papel do conhecimento não é esclarecer sem que haja a incerteza de que tudo não passa de uma ilusão que a capacidade intelectiva de conhecer toma como real? O conhecimento esclarece, mas é sempre representação. Mas, o esclarecer do conhecer não é a forma de fuga da ilusão toda das mentiras que podem enganar uma mente perspicaz de tendências críticas-analíticas? Toda mente representa e todo conhecimento refletido a partir do pensamento na realização externa, no mundo objetivo, será na prática de seu expandir-se mera representação.  Se fosse possível o conhecimento da coisa-em-si, tal conhecimento seria a não-coisa-em-si, resultado de uma representação abarrotada de visões pessoais que não seriam a visão impessoal da essência real de um objeto. Aniquilamento das percepções baixas do mundo e o ritmo de uma contemplação para chegar-se à verdade da coisa-em-si em todas as coisas, seria um improdutivo incondicionamento para aquele que conhece. É no mundo, participando de todas as sensações do mundo, sensações altas, sensações baixas, sensações que são aprendizados importantes para a cognição,  dançando ao ritmo evolutivo das coisas do mundo, que o homem que quer conhecer o mundo deve permanecer. Toda intuição do mundo objetivo no mundo subjetivo apenas ocorre no mundo e não fora deste, em um mundo que a consciência possa tornar afastado da objetividade observável. A vontade de conhecer ele a possui representando-a em seu investigar isento de cansaço. O poder de conhecer revela-lhe o incansável mundo interno seu que a cada intelecção abandona seu horizonte original e vai em busca de outros horizontes no mundo objetivo. A vontade de conhecer e o poder de conhecer, formando um único poder, não condizem com a fuga do mundo, o isolamento do mundo, a tentativa insana de autoinstituir-se liberto do mundo. Todo aquele que se diz liberto do mundo, que passa a negá-lo, que passa a não querer mais profundamente seguir a melhor conhecê-lo,  que passa volitivamente a negar acompanhar-lhe o eterno transbordar em mutações das suas manifestações no tempo/espaço, é um covarde maior, é mais escravo do mundo do que aqueles que aceitam o conhecer o mundo. Mais escravo porque, em sua pseudoaniquilação, pseudocontemplação, acorrenta-se ao mundo sentindo a dor, a tristeza, a desgraça, de ter que continuar a caminhar no mundo.
      
Os pensadores verdadeiros são os verdadeiros aniquilados em matéria de pensarem em aniquilamento para as suas existências voltadas para o conhecer, verdadeiros aniquilados do que as suas representações podem dizer-lhes a fim de iludi-los, passando a verem nelas as verdades de sua verdade interna. Os pensadores verdadeiros são, em sintonia com o grande ir e vir do transcorrer de todas as coisas do mundo, os verdadeiros seguidores da verdadeira contemplação, a contemplação que guia-se pelo conhecer do mundo. Os pensadores verdadeiros são silenciosos ante o barulho ensurdecedor das ilusões do mundo, som muito ouvido pelos que não sabem verdadeiramente pensar. Os pensadores verdadeiros são os verdadeiros gênios, não se julgando gênios, mas se jogando ao mundo genialmente como investigadores de envergadura primorosa logo reconhecida em sua aparência externa e interna. Os pensadores verdadeiros estão além do senso comum, de todos os homens comuns, mas nem por isso deixam de ser homens, tornando-se máquinas que apenas trabalham ao nível do pensamento concreto que manifesta-se em conhecimentos concretos.


“Para os homens comuns, a faculdade de conhecer é a lanterna que ilumina o caminho; para o homem de gênio, é o sol que revela o mundo. Esta maneira tão diferente de encarar o mundo manifestou-se bem depressa, mesmo fisicamente. O homem em que o gênio respira e trabalha distingue-se facilmente, pelo seu olhar que é igualmente vivo e firme, que traz a marca da intuição, da contemplação; é o que podemos constatar pelos retratos dos poucos homens de gênio que a natureza produz de tempos em tempos entre inumeráveis milhões de indivíduos: pelo contrário, no olhar dos outros, se não é insignificante ou átono, vê-se facilmente um caráter completamente oposto ao da contemplação, quero dizer, a curiosidade, a investigação. Conseqüentemente, a expressão genial de uma cabeça consiste, portanto, em que aí se pode ver uma preponderância marcada do conhecimento sobre a vontade, em que aí se encontra a expressão de um conhecimento isento de qualquer relação com uma vontade, isto é, expressão de um conhecimento puro. Ao contrário, nas fisionomias comuns, a expressão da vontade é preponderante e vê-se que o conhecimento só se exerce nelas através de um impulso da vontade, isto é, que só se guia segundo motivos.”


Os pensadores verdadeiros posicionam o conhecer acima da vontade de viver a vida sem procurar mais conhecer sem nenhum motivo carregado por alguma tentativa de chegada a uma posição no mundo que se crê como importante. Os pensadores verdadeiros são os senhores das ciências. Os pensadores verdadeiros são A Ciência. Os pensadores verdadeiros sabem iniciar o seu conhecer. Os pensadores verdadeiros sabem desenvolver o seu conhecer. Os pensadores verdadeiros sabem amadurecer o seu conhecer. Os pensadores verdadeiros sabem continuar a conhecer. Os pensadores verdadeiros sabem ao mundo conhecer.
      
Schopenhauer referiu-se à exterioridade existencial do gênio, e ao mesmo tempo à interioridade, acima, e sabia que a todo pensador verdadeiro a entrega total ao conhecer apenas a eles concerne. Entrega total sem ausentar-se do viver total no mundo objetivo. Os pensadores verdadeiros, os gênios verdadeiros, os intelectuais verdadeiros, são os diretores únicos de toda ação do conhecer no Conhecimento Humano, o qual renovam e evoluem a cada era do mundo. Este estudo trata das Auroras Do Conhecimento e os mais próximos de auroras intelectivas saídas esplendorosas do conhecer são os pensadores verdadeiros. Aos pensadores verdadeiros do mundo, aos gênios verdadeiros do mundo, aos intelectuais verdadeiros do mundo, O Objetivo Do Conhecer, a sexta Aurora Do Conhecimento, se dedicará.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!



Arthur Schopenhauer





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