Sobre As Auroras Do Conhecimento - O Amadurecimento Do Conhecer



Immanuel Kant




Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

A atitude de todo homem que quer conhecer algo e continuar a desenvolver o seu conhecer relativo aos demais objetos que percebe, a atitude que o amadurece como senhor de seus conhecimentos, é a atitude crítica com relação ao que se pode determinar conhecido no processo do conhecer. Immanuel Kant (1724-1804) fundamentou a sua filosofia e o criticismo que fundou baseado em quatro questões primordiais inerentes à critica do processo do conhecer: O Que Posso Saber?; O Que Devo Saber; O Que É Lícito Esperar?; e O Que É O Homem?. Em suas três obras maiores, a Crítica Da Razão Pura (1781), a Crítica Da Razão Prática (1788) e a Crítica Da Faculdade Do Juízo (1790), assim como em todas as suas demais obras, Kant expande maximizadamente os conteúdos contidos nessas quatro questões. Tendo tido como precursores David Hume (1711-1776), que examinou a Metafísica e os fenômenos, e Christian Von Wolff (1679-1754), metafísico que admitia o objeto em si mesmo ou o ser enquanto ser tratado por Aristóteles (384-322 a.c.), Kant superou-os tanto na forma de trabalhar em sua obra intelectual como em sua contribuição para a Filosofia, passando a exercer grandiosa influência em diversos outros meios de conhecimento. Ele define  a Crítica da  razão pura como uma ciência e


“tal ciência teria que se denominar não doutrina, mas somente Crítica da razão pura, e sua utilidade seria realmente apenas negativa com respeito à especulação, servindo não para a ampliação, mas apenas para a purificação da nossa razão e para mantê-la livre de erros, o que já significaria um ganho notável”;


e diz na introdução da Crítica Da Razão Prática que


“A razão pura, se preliminarmente se demonstrou que existe, não necessita de crítica alguma. Ela mesma contém a regra para a crítica de todo o seu uso. A Crítica da razão prática em geral tem, pois, a obrigação de tirar à razão empiricamente condicionada a pretensão de querer proporcionar por si só, de modo exclusivo, o fundamento da determinação da vontade. Somente o uso da razão pura, quando ficar estabelecido que há razão pura, é imanente; o que for condicionado empiricamente, arrogando-se o domínio exclusivo, é, por outro lado, transcendente, manifestando-se em exigências e mandatos que excedem totalmente à sua esfera, o que constitui precisamente a relação inversa da que poderíamos dizer da razão pura no uso especulativo”.


A razão pura e a razão prática manifestam-se no homem conforme esta interpretação de Huberto Rohden (1893-1982) em Filosofia Universal  (1955):


“Pela ‘razão pura’, baseada nos dados empíricos dos sentidos, adquire o homem noção do mundo externo, fenomenal, concreto, individual, finito, relativo ― e isto é ‘ciência’; pela ‘razão prática’ entra o homem em contato com o mundo interno, numenal, abstrato, universal, infinito, absoluto ― e isto é ‘sapiência’ ou sabedoria, no mais alto sentido do termo”.


Ao homem que também assim interpreta-as basta saber dirigi-las e dimensioná-las em sua consciência para poder realizar-se em seus alicerces intelectivos e nos alicerces delas. Ao homem disponível a investigar o que os dados empíricos dizem-lhe, não somente aos sentidos como também à sua consciência, e o que o seu mundo interno pode realizar manifesto no mundo externo, cada alicerce intelectivo é uma Aurora Do Conhecimento. Ao homem conhecendo-se como descobridor de mundos intelectivos maiores em seu mundo intelectivo, os alicerces da razão pura e da razão prática são-lhe indicadores de muitos outros mundos intelectivos a permanecerem prontos para serem captados nas várias e diversificadas fontes de conhecimentos nas quais pode aprofundar-se.      
      
Sobre a faculdade do juízo, Kant diz quanto à ocupação desta:


“Ora, saber se a faculdade do juízo, que na ordem das nossas faculdades de conhecimento constitui um termo médio entre o entendimento e a razão, também tem por si princípios a priori; se estes são constitutivos ou simplesmente regulativos (e por isso não provam nenhum domínio próprio), e se ela fornece a priori a regra ao sentimento de prazer e desprazer enquanto termo médio entre a faculdade do conhecimento e a faculdade de apetição (do mesmo modo como o entendimento prescreve a priori leis à primeira, a razão, porém, à segunda): eis com o que se ocupa a presente crítica da faculdade do juízo.”


A importância da faculdade do juízo é requerida tanto nos conhecimentos adquiridos a priori, “conhecimento independente da experiência e mesmo de todas as impressões dos sentidos”, como nos conhecimentos adquiridos a posteriori, na experiência. A faculdade de emitir juízos a priori e a posteriori envolve em si as medidas racionais que levam aos estabelecimentos realizáveis de todo seguro conhecimento. A priori é assim dito de algo relativo ao estudo da Matemática: o ângulo central é aquele que possui o vértice no centro da circunferência; não há como contestar tal afirmação dada sem o recurso da experiência exatamente porque apenas a simples visualização mental de uma figura geométrica que possua o ângulo central atesta a veracidade do termo apriorístico. A posteriori é assim dito de algo relativo ao estudo da Medicina: a artéria torácica é a parte da aorta que se estende da terceira vértebra dorsal ao orifício diafragmático; apenas na experiência de observação da estrutura da aorta, grande artéria do corpo humano que parte do ventrículo esquerdo do coração, os estudiosos da Medicina chegaram a tal conclusão de um dado de sua ciência, conclusão esta que se fosse aprioristicamente afirmada seria extremamente ridícula e inútil por não possuir as provas da existência da artéria torácica, da terceira vértebra dorsal, do orifício diafragmático e da própria aorta. A diferenciação acima entre o a priori e o a posteriori, com todos os ditames dos juízos que constituem os seus respectivos conceitos conseqüentemente, deve estar vivamente atuante no investigar de todo homem que atua para conhecer, tão poderosamente desperta e consciente na meta do amadurecer  deve solidificar-se a faculdade do juízo.


“A faculdade do juízo em geral é a faculdade de pensar o particular como o contido no universal. No caso deste (a regra, o princípio, a lei) ser dado, a faculdade do juízo que nele subsume o particular, é determinante (o mesmo acontece se ela, enquanto faculdade de juízo transcendental, indica a priori as condições de acordo com as quais apenas aquele universal é possível subsumir). Porém, se só o particular for dado, para o qual ela deve encontrar o universal, então a faculdade do juízo é simplesmente reflexiva.”      
      
Determinante ou reflexiva, a faculdade do juízo, dividida em juízos analíticos e sintéticos, é parte conjunta, parte inseparável, parte totalmente alta, dos alicerces da razão pura e da razão prática. Os pensamentos e os conceitos advindos dos juízos, alicerçadas pelas intuições sensíveis, estas importantes bases no ato do conhecer porque determinam as conceituações dos objetos sentidos sensivelmente, são senhores de toda importância no ato do conhecer, pois

“Para conhecer um objeto requer-se-á pois eu possa provar a sua possibilidade (seja pelo testemunho da experiência a partir da realidade, seja a priori pela razão). Mas posso pensar o que quiser desde que não me contradiga, isto é, quando o meu conceito for apenas um pensamento possível, embora eu não possa garantir se no conjunto de todas as possibilidades lhe corresponde ou não um objeto. Mas para atribuir validade objetiva (possibilidade real, pois a primeira era apenas lógica) a um tal conceito requer-se-á algo mais. Este mais, contudo, não necessita ser procurado justamente nas fontes teóricas do conhecimento, também pode residir nas práticas”.

Os alicerces da razão pura e da razão prática, construtivamente fazendo do homem que em seu conhecer quer amadurecer um  profundo buscador, erguem a solidez e a estatura inderrubáveis de uma consciência determinada a assegurar-se da sua condição como conhecedora soberana ativa de algo, preenchedora soberana ativa de pensamentos e fundamentadora soberana ativa de conceitos. Aquelas quatro questões acima, sendo exemplos sólidos e inegáveis de como criticamente amadurecer na busca de conhecimentos, manifestam na mente abarrotada pela solidez e pela estatura inderrubáveis da crítica de sua própria funcionalidade como contendora dos conhecimentos adquiridos e, igualmente, servem a todo o propósito destinado ao curso desta aurora. Nesta está o contexto concreto do único poder manifesto pela união da vontade de conhecer com o poder de conhecer, único poder administrador da ascensão do crescimento que praticamente vem a determinar a amplitude da força e da forma de como se transporta para o posicionamento em condições que validem-no o conhecer de seu amadurecimento. Um homem voltado para o engrandecimento através de seu amadurecimento, em tratando-se de sua intelectualidade, é homem iluminadamente seguidor de seu tenaz objetivo de estar completamente absorto no conhecer que amadurece através do poderio de sua existencialidade destinada a engrandecer-se com conhecimentos todos úteis para si e para os demais. Nenhum homem amadurece em matéria de possibilidades de conhecer mais de tudo pelo qual interessa-se como um egoísta a construir apenas para si um império onde reine autocraticamente como imperador, conhecedor completo de tudo que domina em sua intelectualidade. Amadurecer o conhecer é preparar o transmitir do que se conhece para aqueles que pouco conhecem ou são intelectivamente impossibilitados de conhecer algo a mais que os aprimore como indivíduos racionais.
      
Aquelas quatro questões manifestam-se de modo prático, pois o amadurecimento é todo prático em seus princípios práticos.


“Princípios práticos são proposições que encerram uma determinação universal da vontade, subordinando-se a essa determinação diversas regras práticas. São subjetivos, ou máximas, quando a condição é considerada pelo sujeito como verdadeira só para a sua vontade; são, por outro lado, objetivos ou leis práticas quando a condição é conhecida como objetiva, isto é, válida para a vontade de todo ser natural.”


O homem prático que quer amadurecer praticamente como homem que quer conhecer algo e a tudo que percebe, deve adotar aquelas quatro questões como práticas diretrizes objetivas de sua caminhada intelectiva, utilizando-as em sua consciência e respondendo-as na prática como seu modo de pensar sobre o conhecer. As respostas mais próximas, carregadas de objetividade prática, podem ser as que abaixo seguem:


A) O Que Posso Saber?

Tudo e nada. Tudo que o meu entendimento possa assimilar positivamente. Nada que eu assimile positivamente pode ser compreendido como preparação para um saber absoluto. Tudo e nada, em meu ser, é o conteúdo do que eu posso saber. O conteúdo é fomentado pela dúvida, minha única certeza do que posso saber porque é uma certeza fora das ilusões fenomenais.


B) O Que Devo Saber?

Algo, tudo e nada. Algo que me seja aproveitável na compreensão da fenomenalidade captada pelos meus sentidos e interpretada pela minha razão. Tudo o que esta razão compreenda pratica e teoricamente do estado de coisas ativo em meu intelecto. Nada deste intelecto que possa manter-me seguro quanto ao desenvolver dos juízos acerca das acidentalidades perceptíveis em meu redor. Os juízos são duvidosos, esta é a única certeza do que devo saber porque é uma certeza que leva a melhor examinar os fenômenos.


C) O Que É Lícito Esperar?
     
Muito, algo, tudo e nada. Muito do que a percepção da realidade possa dizer ao meu ser. Algo de real que o meu subjetivismo possa apreender objetivamente lançando ao alcance da fenomenalidade. Tudo de subjetivo que a minha compreensão da objetividade me revele no âmbito racionalizante do meu eu. Nada de apreensível pelo meu intelecto que possa complementar todas as minhas indagações subjetivas acerca das dúvidas nascidas da observação da objetividade nos meandros da fenomenalidade. A observação é a filha das dúvidas e a mãe das respostas geradas por uma certeza concreta. A observação merece um controle racionalizado da fluidez elementar do que é lícito esperar porque os fenômenos podem confundi-la e levá-la à erraticidade, fazendo do observador um investigador que nunca alcança a meta final do seu investigar.


D) O Que É O Homem?


Pouco, muito, algo, tudo e nada. Pouco, O Homem objetivamente conhecido, subjetivamente conhecido, até agora, é um fenômeno de um algo sempre desconhecido, um mistério existencial distante de ser revelado pela atual condição intelectiva humana. Muito, O Homem que através dos fenômenos revelados em cada homem em particular revela-se. Algo, O Homem conforme as suas potencialidades evolutivas em tudo o que aprimora com os conhecimentos que desenvolve a partir da observação da fenomenalidade. Tudo, O Homem expresso em sua construtiva tendência ininterrupta de aprimorar-se acompanhando os aspectos da fenomenalidade que o circunda. Nada, O Homem em todas as infinitas indagações acerca do que seja da parte de muitos investigadores gera mais dúvidas sobre o que manifesta de si na fenomenalidade. A minha dúvida sobre o que é O Homem é o fundamento do meu amadurecimento porque reconheço que sempre estou limitado pelos fenômenos que percebo em mim e externamente, às vezes profundamente, às vezes superficialmente.



Em Kant chega-se ao mais elevado momento da Teoria Do Conhecimento. A filosofia kantiana, aqui neste estudo, não é sugestionada como um manual para todo aquele que quer obter a madura seguridade em todos os conhecimentos que adquire. A filosofia kantiana não é método a ser imposto, não é auto-ajuda a ser imposta e está fora de modismos intelectuais, o que a leva a ser verdadeiramente interpretada pelos que exercem ao máximo as suas capacidades críticas adquiridas a partir de suas investigações, seus pensamentos e suas realizações no campo do Conhecimento Humano. A filosofia kantiana é uma visão de vida, é a visão de uma vida intelectiva, visão de que na crítica de todo conhecimento possível seja encontrável o elemento da verdade contida no objeto observado a partir de um fenômeno. As quatro questões respondidas por aquele que adota tal modo de vida espontaneamente, o homem que quer amadurecer o seu conhecer, repetidas continuamente a cada investigação, repetidas com uma visão amadurecida sempre inovadora e renovadora, são as bases das mais sérias capacidades intelectuais. Através delas verdadeiramente compreende-se o estudo efetuado por Kant acerca dos Fenômenos, o que apenas percebemos dos objetos que nos rodeiam, e do Númeno, a coisa em si, os objetos em si mesmos isentos das capas de suas manifestações que são os fenômenos, a característica que jamais saberemos captar deles. Através delas verdadeiramente compreende-se o que levou Kant da negação do conhecimento da coisa em si à afirmação desta como evento através da liberdade, a qual “era também por isto mesmo a vontade, pois livre é somente o ser que é capaz de agir por vontade”, como diz Raimundo de Farias Brito (1862-1917) ao examinar a aceitação da coisa em si por parte de Kant. Através delas verdadeiramente compreende-se que a coisa em si, conforme Arthur Schopenhauer (1788-1860) afirma, deve sempre ser em Kant interpretada como a Vontade, pois sempre que ele fala na coisa em si deve estar pensando nesta como a vontade. 


Referindo-se à liberdade Kant diz:                                    
“A liberdade e a consciência desta, como faculdade de seguir a lei moral com uma disposição preponderante de ânimo, é independência das inclinações, pelo menos como causas matrizes determinantes (embora não afetivas ― afficiereden) do nosso desejo; mas enquanto tenho consciência dessa independência na observância das minhas máximas morais, constitui ela o único repositório de um contentamento imutável, necessariamente ligado a si e não fundamentada sobre qualquer sentimento particular, podendo esta satisfação classificar-se como intelectual.”


E a satisfação ainda pode referir-se ao que de maravilhoso a intelectualidade amadurecendo oferece ao homem que compreende que as quatro questões dão-lhe a felicidade da harmonia com a posição verdadeira do seu conhecer. Outras verdadeiras compreensões surgem a partir do examinar amadurecido da filosofia kantiana com a consciência atendendo aos efeitos das quatro questões como ensinamentos que isentam cada conhecimento de todo erro. Guiadas a todo pensamento filosófico, a toda ciência, as quatro questões à frente de tudo observado amparariam melhor a sobriedade de tudo descoberto com maturidade. Ao lado da maturidade caminha a legalidade da lei moral a amparar a graça alcançada por uma atitude intelectiva que vise ao bem comum. Retomando o que foi dito acima, nenhum homem pode ser bastante egoísta a ponto de querer tornar-se mais apuradamente aprofundado nas questões intelectivas apenas para satisfazer as suas inclinações pessoais. Há sempre um motivo moral que percorre a atitude amadurecida de um homem que encarrega-se de aprender mais sobre as coisas que lhe interessam, um motivo altruísta fora de todo desejo egoísta. O sinal perfeito do amadurecimento de um homem que intelectualmente quer elevar-se reside em sua atitude moral frente ao que realizar com todo um conteúdo extenso de conhecimentos. Se a natureza moral de um homem rico em conhecimentos não o leva a querer positivamente expandi-los a fim de auxiliar a sociedade na qual vive, tal homem não pode ser denominado como racional. Todo homem amadurecido intelectualmente deseja para si e para os que lhe cercam, conhecidos e desconhecidos, o expandir do sumo bem, uma supremacia de benévolas expansibilidades das positividades vigentes no mundo. Os filósofos verdadeiros possuem todo esse altruísmo, toda essa vontade de utilizarem os seus conhecimentos para o bem comum altamente satisfeitos com o que seus estudos lhes proporcionaram de produtivo e realizador.
       
Este pensamento pode ser atestado pelas palavras do próprio Kant. Retomando a idéia do sumo bem, a qual era tratada pelos antigos filósofos gregos como uma meta a ser alcançada pelo homem, Kant trata de abordar o significado da palavra Filosofia:


“Seria conveniente que deixássemos a essa palavra a sua antiga significação como doutrina do sumo bem enquanto a razão procura elevá-la até a ciência. Por um lado, com efeito, a condição restritiva que conduz em si mesma seria correlata à expressão grega (que significa amor à sabedoria) e, ao mesmo tempo, suficiente para compreender sob o nome de Filosofia, o amor à ciência e, por conseguinte, a todo o conhecimento especulativo da razão, enquanto o serve tanto para aquele conceito, como também para o fundamento prático de determinação, sem contudo perder de vista o fim principal pelo qual somente pode ser denominada doutrina da sabedoria. Por outro lado, não seria também nocivo atemorizar a presunção daquele que se atrevesse a pretender o título de filósofo, apresentando-lhe logo, na própria definição, a medida de sua estimativa real, o que rebaixaria em muito as suas pretensões; é que ser um mestre da sabedoria deve significar sempre um pouco mais do que a condição de discípulo que ainda não chegou bastante longe para dirigir-se a si mesmo e, muito menos, aos outros, com a esperança segura de conseguir um fim tão elevado; significaria um mestre no conhecimento da sabedoria, o que indica mais do que um homem modesto possa atribuir-se a si mesmo, continuando sempre a Filosofia, como a própria sabedoria, na posição de um ideal que objetivamente, só na razão, é completamente representado, mas, para o indivíduo, constitui apenas o objeto do seu esforço constante. Proclamar que está na posse disso tudo e inculcar-se o nome filósofo é situação a que só tem direito aquele que também pode apresentar como exemplo em sua pessoa o efeito indefectível do mesmo (o domínio de si próprio e o interesse indubitável que, preferentemente, vem a tomar no bem comum); é isso, também, que os antigos exigiam para que se pudesse merecer aquele nome honroso.”


Importantíssimo tocar neste assunto acerca do que seja a Filosofia e do que seja um Filósofo, praticamente, porque aquela disciplina e este estudioso dela são os que inicialmente colaboram para todo conhecimento. Nenhuma outra disciplina ou uma ciência podem sobreviver sem estarem fundamentalmente abarcadas em um corolário filosófico. A Filosofia é a mais amadurecida das disciplinas intelectivas humanas e, sem nenhuma dúvida nesta afirmação, a ciência maior que gera toda ciência maior. O verdadeiro filósofo é o gerador amadurecido de todo conhecimento, é o portador de toda sabedoria elevadíssima, a qual todos os homens interessados em alcançar buscam incansavelmente, distantes do medo de falharem no processo da busca. Todo amadurecimento intelectual advém de uma filosofia maior adotada com vistas ao sumo bem tornada no mundo subjetivo uma filosofia cuja moral particular se multiplique em obras construtivas no mundo objetivo, obras de filósofos e de não-filósofos. Seja a filosofia kantiana ou outra filosofia maior a adotada, ela sempre trará a seguridade e a sobriedade determinantes da condição intelectual madura.
      
Para esta terceira Aurora Do Conhecimento ser realmente a definidora do homem amadurecido no assentamento do conhecer na seguridade e na sobriedade, antes mesmo da atenção crítica aos desvelamentos, desdobramentos e desenvolvimentos dos conceitos dos Fenômenos e do Númeno na consciência intelectivamente amadurecida, também amparada naquelas quatro questões os conceitos de reflexão sobre como se chega às conceituações de tais objetos e dos demais objetos observáveis no mundo devem ser visados. Antes até mesmo do início de uma seguida sucessão de observações críticas, os conceitos de reflexão devem ser estudados, analisados e submetidos a um olhar criticamente preparado para exprimir-se pelo Amadurecimento Do Conhecer.


“A reflexão (reflexio) não tem nada a ver com os objetos mesmos, para obter diretamente conceitos deles, mas é o estado da mente em que nos dispomos inicialmente a descobrir as condições subjetivas sob as quais podemos chegar a conceitos. É a consciência da relação de representações dadas às nossas diversas fontes de conhecimento, mediante a qual unicamente pode ser determinada corretamente a sua relação entre si. Antes de todo o posterior tratamento das nossas representações, a primeira pergunta é a seguinte: a que poder de conhecimento pertencem todas elas em conjunto? Aquilo, ante o qual elas são conectadas ou comparadas, é o entendimento ou são os sentidos? Vários juízos são admitidos pelo hábito ou ligados por inclinação; visto, porém, que esses juízos não são precedidos por nenhuma reflexão ou pelo menos não seguem criticamente a ela, devem ser considerados como tendo obtido a sua origem no entendimento. Nem todos os juízos necessitam uma investigação, isto é, uma atenção sobre os fundamentos da verdade, pois, se são imediatamente certos ― por exemplo, entre dois pontos pode haver somente uma linha reta ― não pode ser indicada a seu respeito nenhuma característica mais imediata da verdade além da que elas mesmas expressam. Entretanto, todos os juízos, antes, todas as comparações necessitam uma reflexão, isto é, uma distinção da capacidade de conhecimento à qual pertençam os conceitos dados”.


A crítica das reflexões acerca das representações captadas pela mente e que levam ao absorver e compreender dos conhecimentos é uma tarefa que merece a atenção do investigador de si mesmo quanto ao iniciar próprio de suas reflexões. Pode-se denominar de pré-crítica da crítica da reflexão, da razão pura, da razão prática, da capacidade de emitir juízos e da capacidade das intuições sensíveis, a orientação do iniciar de qualquer estudo realizado com o intuito fixo de aperfeiçoar as capacidades intelectivas. A pré-crítica trataria de questionar se o ato de conhecer, voltando ao iniciar e ao desenvolver deste através do engrandecimento das posses intelectuais, conforme esta teoria neste estudo desenvolvida das Auroras Do Conhecimento, se tornaria maduro ao tomar contato com qualquer conceito representado por uma visão moral da objetividade inerente ao amadurecer. Se os conceitos podem ter a sua origem mediata ou imediatamente na consciência, as investigações sobre o que antecede a sua formação obtém as respostas do que sejam essas antecedências mediata ou imediatamente na consciência mesma atribuindo-se um papel de julgadora das suas condições de formadora conceitual. Nessas respostas há a confirmação da influência exercida pela moral nas fontes do amadurecimento e na sua verificação como incentivadora do objetivo do amadurecer intelectual.
      
Todo conceito amadurecido, anteriormente investigado em uma reflexão atenta aos pormenores de seu surgir na consciência, é conceito merecedor de figurar entre as grandes obras intelectuais humanas e de ser transmitido a todos aqueles que interessem-se em recebê-lo. É prolongadamente mais complexo do que simples o processo da reflexão porque é processo que absolutamente relaciona todos os dados, os meios, os pormenores e os pontos dispostos a mais na investigação do que as representações podem, realizadas como conceitos, repassar à consciência que assim afirma-se destes firme profunda conhecedora e afirmadora. Reflexão dedicada ao amadurecer intelectualmente, amadurecer crítico, não significa meditação condicionante da mente a fim de robotizar os pensamentos no ato intelectivo das investigações. Nenhuma crítica é robotizante criadora de máquinas pensantes de carne e osso, frias em todos os seus atos direcionados ao conhecimento. Transparece na filosofia kantiana a vivacidade de pulsantes descobertas a cada investigar da vivência do conhecer. Kant não automatiza o seu pensamento, mas, metodicamente crítico na acepção mais fiel ao que este termo quer dizer, pluraliza os dados intelectivos que transformou em conceitos de um modo original, modo que não nega ser em seu todo puramente crítica. Viver a crítica em si mesma, fazer da crítica cada passo dos passos nas vias do conhecer, manipular criticamente o que a percepção capta e o que as sensações interpretam como dados, é amadurecer. Não é um misto de paixão volúvel pelo conhecer e superficiais atos volitivos pelo conhecer, fora da crítica, fora das conseqüências positivas da crítica, que anima o fértil amadurecimento intelectual. Paixão volúvel alguma pelo conhecer não leva ao Amadurecimento Do Conhecer, toda paixão dessa natureza carece de verdadeiro envolvimento com o conhecer. Superficiais atos volitivos pelo conhecer não levam ao Amadurecimento Do Conhecer, toda volição dessa natureza carece de verdadeiro ardor pelo conhecer. A crítica deve ser apaixonada verdadeiramente pelo seu poder de ser crítica construtiva de verdades intelectivas e destrutiva de mentiras intelectivas. A crítica deve ser uma volição verdadeiramente pelo seu poder de ser crítica qualificadora de realizações intelectivas e desqualificadora de irrealizações intelectivas. A crítica é a vontade de conhecer, o poder de conhecer, unidos no único poder que eleva o conhecer. A crítica amadurece intelectualmente. A crítica é O Amadurecimento Do Conhecer.
      
Sem a faculdade da crítica o buscador, colhedor e transmissor de conhecimentos não pode continuar a conhecer, não pode conceder-se o direito de conhecer, não pode querer ter o dever de fazer como conhecer maior o seu conhecer, não pode ser afirmativo em todas as afirmativas do seu leso conhecer. E é exatamente A Continuidade Do Conhecer, a quarta aurora, aquela que vem a fazer do conteúdo crítico da racionalidade o propulsor de mais determinadas buscas, colheitas e transmissões de conhecimentos, propulsor do direito, do dever e da afirmação do conhecer.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!



Immanuel Kant




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