Sobre As Auroras Do Conhecimento - O Início Do Conhecer



John Locke



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

A curiosidade não pode simplesmente ser a responsável pelo querer inicial do conhecer, aquela vontade extrema que abarrota o ser daquele que interessa-se em algo conhecer. Curiosidade é sempre detalhe menor, que não deve e nem pode ser considerado como a capitular exigência primordial do que aguçadamente leva o indivíduo ao ato de querer conhecer. Exige-se saber o que é de verossímil no iniciar de todo conhecimento e não o ater-se à simplicidade da simples curiosidade que habilita o fenômeno do conhecer.  No Dicionário De Filosofia E Ciências Culturais (1963), Mário Ferreira dos Santos (1907-1968) diz o seguinte acerca do surgimento da disciplina filosófica que discorre acerca do conhecimento:

“Em nossa cultura, é Locke considerado, historicamente, o fundador dessa disciplina, com sua obra ‘An Essay concerning human understanding’ em 1690, onde pôs em discussão o problema do conhecimento. Leibniz, posteriormente, procurou refutar as idéias de Locke em seu ‘Nouveax essais sur l’entendement humain’.”

Os temas gnosiológicos sempre estiveram “presentes desde os gregos, sobretudo no período crítico dos sofistas, e em todos os momentos dramáticos da Filosofia”, conforme Ferreira dos Santos observa. Mas, especificamente o conceber de uma determinada disciplina para o conhecer iniciou-se a partir do filósofo inglês John Locke (1632-1704), o qual rejeitou as idéias inatas em Ensaio Sobre O Entendimento Humano (1690), defendendo a tese de que a fonte de nossos conhecimentos seria a experiência, a sensação auxiliada pela reflexão. Locke foi contestado pelo filósofo e matemático alemão Gottfried Wilhelm Von Leibniz (1646-1716) em Novos Ensaios Sobre O Entendimento Humano (1704), no qual ele ergue a seguinte questão:

“Se, como afirma Locke, há idéias que se originam da reflexão e não da sensação, por que não as chamar pelo nome de inatas?”

Concentrando-se nesse debate entre Locke e Leibniz pode-se desenvolver a concepção da teorização do que inicialmente origina o conhecer, a primeira Aurora Do Conhecimento, a qual exige para manifestar-se muito mais do que a pequenez da curiosidade.
      
Locke polemiza ao dizer que a

“existência de certos princípios, quer especulativos, quer práticos (pois de ambos se fala), universalmente aceites por toda a Humanidade, é algo que geralmente se considera ao abrigo da contestação”.

Trata-se de contestar o existir de tais princípios no homem como que dispostos em sua alma quando esta foi criada. O filósofo da tradição filosófica inglesa é totalmente contrário à crença de que tais princípios sejam impressos na alma; o seguinte ele disse acerca dos princípios especulativos inatos no homem:

“Tomemos estas duas proposições que, mais do que quaisquer outras, são tidas por inatas: ‘o que é, é’; e ‘é impossível que a mesma coisa seja e não seja’. A sua reputação de máximas universais é tal que parecerá absurdo pôr isso em dúvida. Todavia, eu tomo a liberdade de afirmar que tais proposições estão bem longe de um assentimento universal, pois são desconhecidas de grande parte da Humanidade.”

Os que não estão capacitados a conhecerem as proposições acima utilizadas como exemplos por Locke são aqueles que encontram-se na idade infantil e na debilidade mental. Julga ele ainda desta maneira os princípios práticos inatos, “as regras morais”, como ele denominou-os:

“a ignorância e o limitado conhecimento que delas tem muitos homens são prova bastante de que não são inatas, e de que seu conhecimento não é possível sem esforço”.

O esforço aqui por ele considerado é o do homem que vai em busca do conhecer para si o que sejam as regras morais, as normas de vivência e convivência com os demais que rodeiam-no. Conhecendo e compreendendo para si tais regras, tais normas, que ditam-lhe o orientar-se e encontrar-se, o guiar-se e o ajustar-se, no mundo no qual vive, o homem adquire a idéia, quase uma suprema idéia, do que elas lhe dizem ou não em face do panorama total da realidade de sua existência em seu meio de vida. Aos olhos do homem assim inteirado do seu papel, ele pode então mover o mais racional aspecto do seu olhar, se o quiser realizar, para os princípios especulativos; a estes não desvendará totalmente, nem poderá desvendar algum, mas poderá possuir dos mesmos uma idéia do que queiram ou não dizer-lhe.

“Suponhamos então que a mente seja, como se diz, um papel branco, vazio de todos os caracteres, sem quaisquer idéias. Como chega a recebê-las? De onde obtém esta prodigiosa abundância de idéias, que a ativa e ilimitada fantasia do homem nele pintou, com uma variedade quase infinita? De onde tira todos os materiais da razão e do conhecimento? A isto respondo com uma só palavra: da EXPERIÊNCIA. Aí está o fundamento de todo o nosso conhecimento; em última instância daí deriva todo ele. São as observações que fazemos sobre os objetos exteriores e sensíveis ou sobre as operações internas da nossa mente, de que nos apercebemos e sobre as quais nós próprios refletimos, que fornecem à nossa mente a matéria de todos os seus pensamentos. Estas são as duas fontes de conhecimento, de onde brotam todas as idéias que temos ou podemos naturalmente ter.”

Locke advoga que o reinado da experiência é o único meio maior de obtenção de conhecimento, o qual vem a preencher uma mente que ele supôs como vazia, uma tabula rasa. A suposição carece um pouco de uma percepção mais crítica do que contém, já que nada poderia preencher uma mente vazia de um ser que jamais tenha pensado em saber que possuísse uma mente, uma mente que fosse capaz de estimular o raciocinar, uma mente que fosse capaz de fomentar o mais alto pensar. Supondo agora a possibilidade de crer-se na suposição de uma mente vazia, podemos sem nenhum esforço intelectivo maior deduzir que mesmo os mais altos conhecimentos, adquiridos em estudos elevadamente ininterruptos, não a tornariam apta a ser uma mente verdadeira. Contra essa suposição utilizada por Locke, Leibniz responde:

“Essa tabula rasa de que tanto se fala é, na minha opinião, uma mera ficção que a natureza de modo algum suporta e se funda nas noções incompletas dos filósofos, como o vazio, os átomos e o repouso absoluto ou respectivo de duas partes de um todo entre elas, ou como a matéria-prima que se conhece sem nenhumas formas.”

Aqui vai uma referência clara à total impossibilidade de nada haver na mente, a qual preenche-se apenas de um saber através neles; conhecer que experimenta. Para experimentar algo primeiramente é necessário conhecer, com a mente plena de informações e formações sobre a natureza desse algo, por mínimas que sejam, para estabelecer-se o conhecimento. Leibniz chama de mera ficção a da “tabula rasa” na mente, justamente porque não é possível estabelecer qualquer conhecido fator de inicio de um conhecimento, todo conhecer apropriadamente estabelecedor do conhecimento de algo, com aquilo que pode contê-lo despreparado para recebê-lo. Há sempre uma base que auxilia o estabelecer do conhecimento em uma mente. Tal base preenche a mente e sem ela tudo que se recebesse não teria nenhuma maneira de ser fixado, pois fluiria, escaparia, ao mais leve intento de tentar utilizar-se dos dados colhidos.
      
A noção da tabula rasa reforça em Locke a teoria que este defende, a de que nada é inato no homem e que apenas a experiência vem a ser a geradora do nascer de toda faculdade de conhecer. Leibniz, contrário a tal pensamento, além de criticar a suposição da tabula rasa, assim manifesta-se acerca dos princípios especulativos negados como inatos por Locke:

“Para responder ainda àquilo que dizeis contra a aprovação geral que se dá aos dois grandes princípios especulativos, que são, não obstante, dos melhor estabelecidos, posso dizer-vos que, ainda quando eles não fossem de modo algum conhecidos, não deixariam de ser inatos, porque os reconhecemos a partir do momento em que ouvimos falar neles mas acrescentarei ainda que no fundo toda a gente os conhece e que nos servimos a todo o momento do princípio de contradição (por exemplo) sem o olhar distintamente, e não há bárbaro nenhum que, numa questão que ache séria, não fique chocado com a conduta de um mentiroso que se contradiz.”

No conhecer inato, crido por Leibniz, há no homem o estabelecimento de dados específicos que em contato com outros dados específicos objetivamente observados formam um especifico conhecimento. As noções inatas são reais conforme este tipo de interação e não consiste em uma fantasia como a tabula rasa. A favor das noções inatas no homem, Leibniz diz ainda que

“nós temos uma infinitude de pensamentos dos quais nem sempre nos apercebemos, nem mesmo quando temos necessidade deles. Cabe à memória guardá-los e à reminiscência representá-los, como ela faz muitas vezes em caso de necessidade, mas nem sempre. Isso chama-se muito bem recordar (subvenire), pois a reminiscência exige alguma ajuda. E é muito preciso que nessa multidão dos nossos conhecimentos sejamos determinados por alguma coisa a retomar um em vez de outro, posto que é impossível pensar distintamente, ao mesmo tempo, em tudo o que sabemos.”

O filósofo da tradição filosófica alemã atenta para o fator do recordar dados colhidos de alguma maneira em um determinado tempo de contato com o mundo objetivo circuncidante, dados que permanecem na memória, cujas reminiscências são bases seguras do conhecer no mundo subjetivo concentrador de informações as mais importantes. Por isso, neste ponto, pode-se derrubar a suposição da tabula rasa, pois de alguma coisa de que se tenha tido certo conhecimento em alguma época da vida, pode-se ter mais completo conhecimento quando o pensamento é guiado no acolher conscientemente o observar do que se conheceu como que superficialmente.
      
Muito preciso em sua refutação das idéias de Locke, Leibniz toca desta forma no que refere-se aos princípios práticos inatos dizendo que

“há regras morais que de modo algum são princípios inatos, mas isso não impede que sejam verdades inatas, porquanto uma verdade derivativa será inata sempre que a possamos tirar do nosso espírito. Mas há verdades inatas que encontramos em nós de duas maneiras: luz e instinto.”

A luz é a “luz natural” nas verdades que são demonstradas pelas idéias, e o instinto, “apenas porque isso nos agrada”, leva a todos os “atos de humanidade”, os atos com base segura nas leis morais. Instinto pressupõe ato movido por determinadas sensações, negativas ou positivas, que dependem muito do homem que comporta-o, refletindo sobre as conseqüências do ater-se ao domínio do mesmo em seu modo de viver. Ao estender suas observações sobre a geração das idéias no homem através da experiência, Locke definiu que a sensação é como

“a grande fonte da maior parte das idéias que temos, posto que estas dependem totalmente dos nossos sentidos e por eles são comunicadas ao entendimento”;

e quanto à reflexão, definiu que

“por seu intermédio a mente só recebe as idéias que adquire ao refletir sobre as próprias operações internas”.

Dessas definições de Locke acerca da sensação e da reflexão partiu aquela indagação de Leibniz no primeiro parágrafo desta seção do estudo aqui realizado a divergir sobre o conhecimento. Leibniz diz que

“creio que nós não estamos nunca sem pensamentos e também nunca sem sensação. Distingo unicamente entre as idéias e os pensamentos; efetivamente, nós temos sempre todas as idéias puras ou distintas independentemente dos sentidos; mas os pensamentos respondem sempre a alguma sensação.”

Não há pensamento que queira conhecer desprovido da sensação que apenas o ser que conhece, que ama o conhecer algo, experimenta. Singelamente, a primeira aurora é isto, um misto da racionalidade experimentando o conhecer com o conhecimento sendo absorvido através da sensação de estar conhecendo-se algo. Não houve nenhuma comparação entre Locke e Leibniz nesta seção; nenhum tipo de exibição de um confronto intelectivo entre Locke e Leibniz nesta seção; a Filosofia não é um palco para comparações e confrontos apequenantes, mas é o sério mundo do estabelecimento de um ponto de ligação entre pensamentos intelectivos doutrinários que externamente parecem não ter nada em comum. Há como encontrar, internamente analisando, pormenorizadamente, a essência de pontos capitais dos pensamentos filosóficos, uma linha que interligue-os, independentemente do sistema ou da escola ao qual pertençam. Os sistemas de Locke e Leibniz divergem, mas podemos encontrar no que possuem de convergentes, para o estabelecimento de um consenso, algo que defina O Início Do Conhecer.
      
Para todo conhecer, primordialmente, o esforço do homem que quer sempre ser mais do que a maioria humana é, o esforço de querer conhecer mais do que as suas condições internas estabelecem, molda o principiar do conhecer. Inato é o desejo de conhecer, sentimento maior de mentes dotadas da preenchedora necessidade de aprofundar-se no conhecer. Inato advém ao esforço do homem que quer conhecer os mais altos caminhos, caminhos onde cada passo cognoscitivo dado é uma torrente de sensações pulsantes de preenchimento. Preenchimento este que a experiência, a correta utilização dos meios da experiência, o correto aproveitar dos meios da experiência, dota a mente do poder de sentir que está sendo preenchida de conhecimentos. Conhecimentos inatos são fontes do espírito, espírito que descobre-se, espírito que desliza na objetividade, espírito que reconhece o que colhe através da experiência que lhe reafirma o que em si possui. Nos princípios especulativos inatos, o homem passa da idéia de reconhecê-los através do contato experimentado com elas externamente à certeza de conhecê-los internamente, como, por exemplo, a idéia da existência de um Ser Absoluto, de um Deus Criador, que lhe é transmitida, experimentada objetivamente como parte de si mesmo e recordada subjetivamente como já presente em sua mente. Nos princípios práticos inatos, o homem nunca é ensinado a ser bom ou mau, mas com a experiência de convivência com o mundo, ele reconhece o que é o bem e o que é o mal, como que fossem idéias inatas, escolhendo, conforme a sua moral adquirida com a experiência de viver a sua vida objetiva, ser bom ou ser mau subjetiva e objetivamente. Conhecimento com experiência, sempre não dando como supremo o reconhecimento de uma idéia inata, mas investigando se esta é mesmo inata no espírito como consciência que conhece e reconhece, amplifica a todo fundamentar do Início Do Conhecer. Investigar sabendo o que é o inato e o que é o adquirido a partir da experiência, investigação que atente aos pormenores que diferenciam os dois estados do conhecer, é o propício ato daquele que pretende verdadeiramente obter conhecimentos verdadeiros. E de tais conhecimentos verdadeiros advém o entendimento da expressividade condutora do conhecer. Entendimento, o compreender de um algo em suas perspectivas de essencialidade existencial plena, em suas respostas a um olhar que atenta-se puramente ao compreender, constitui o caminho que ampara toda base inicial do conhecer. Tanto como neste, a investigação do que é saber compreender, compreender sabendo que o todo de um dado percebido em seu existir fenomenal no campo possível de toda e qualquer compreensão, a investigação do que é saber compreender, a investigação do que é o entendimento, assume a mesma profunda importância.
      
Conhecer algo sem compreendê-lo, ter uma noção de um algo percebido como existencialmente possível de ser conhecido e, ao mesmo tempo, desconhecer a linha mestra de expressividade fenomênica desse algo na mente que o percebe, é como direcionar ao vácuo de espaços inertes nos quais nunca haverá uma experiência inteligível uma tentativa de percepção de uma essência que neles apresente-se. Em espaços inertes da mente não pode haver entendimento, compreensão, pois todo processo do entender, do compreender, do verdadeiramente saber o que é entender, o que é compreender, admite a experiência antecedida por um conteúdo inato que o admita manifestante no ser que entende, no ser que compreende. O preenchimento da mente investigativa que sabe o que é o investigar e o que é o saber com o entendimento, o ato de compreender próprio daquele que sabe o que é conhecer, o ato inserido no Início Do Conhecer, apenas cresce conforme as características da vontade de conhecer do individuo que sabe possuí-la. Este possuir é uma suave posse, uma alimentadora posse de posses maiores que pertencem ao poder de conhecer inerente ao ser humano, um poder expressivo da capacidade humana de, com o conhecimento, engrandecer-se, expandir-se, elevar-se sempre no âmbito da realidade que lhe cabe compreender. Enquanto tal posse assim pode ser compreendida, isenta das qualidades de uma posse que possa ser identificada como uma arma a ser utilizada abusiva e agressivamente, o homem ciente da suavidade dessa possessão, da alimentadora força dessa possessão, tem que admitir a sua limitação como ser dado a conhecer e a compreender. Admitir assim a sua limitação é o sinal de que o seu poder de conhecer, a sua vontade de conhecer, engrandece-se com a sua humildade. A humildade é uma face do Início Do Conhecer no interior humano daquele que em si não admite ser possível compreender toda a força motora da realidade universal. Por mais que milhões de livros e o triplo de doutrinas divergissem sobre o que move a realidade universal, fora das superstições e das religiões, dentro da Filosofia, dentro de uma visão materialista do fato de ser parte da realidade, jamais haveria um consenso final. Tais conhecimentos seriam inúteis, confusos, nada diriam, nada seriam. Portanto, sem qualquer pieguismo atroz ou moralismo decadente, a humildade sempre deve caminhar ao lado do poder e da vontade de conhecer. A humildade do ser que conhece é sempre início porque o conhecer é infindável, sempre seguindo a senda do início, sempre caminhante na interioridade humana que arde sinceramente pelo poder e pela vontade de conhecer.    
      
Exprime-se como uma alta aurora cognoscitiva, aurora maior intelectiva, aurora de puro querer conhecer, a faculdade que inicia todo aprendizado nos diversos campos do Pensamento Humano. É apenas aurora interminável a primeira Aurora Do Conhecimento, pois para que este se construa definitivamente ininterrupto, se complete a cada querer que guie a sua elevação, o seu desenvolvimento deve amparar-se em mais do que acumulações de informações de várias fontes de conhecimento.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!




Gottfried Wilhelm Von Leibniz




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