O Vôo Da Águia - Jiddu Krishnamurti





“(...) Vamos examinar a questão da meditação. Sendo um assunto bastante complexo, antes de começarmos a examiná-la temos de compreender claramente esta nossa busca, este desejo de experiência, de descobrir uma realidade. Devemos compreender a significação do buscar, esse desejo de verdade, esse tatear intelectual por uma coisa nova, independente do tempo, não criada por nossas exigências e necessidades, nossas compulsões e desespero. Pode achar-se a verdade mediante busca? Ela é reconhecível quando a achamos? Se a achamos, podemos dizer: ‘Eis a verdade’, ‘Eis o real’? Tem a busca algum significado? A maioria dos indivíduos religiosos fala sem cessar sobre a busca da Verdade; e nós perguntamos se se pode buscar a Verdade. Na ideia de buscar, de achar, não está também contida a ideia de reconhecimento, a ideia de que, achando uma coisa, devo ser capaz de reconhecê-la? E o reconhecimento não supõe conhecimento prévio? A Verdade é reconhecível — no sentido de ter sido antes experimentada, de modo que possamos dizer: ‘Ei-la’? Assim, que valor tem a busca? Ou, se o buscar não tem valor algum, o que vale é apenas a observação constante, o constante escutar? (que não é a mesma coisa que buscar). Na observação constante não há movimento do passado. ‘Observar’ significa ‘ver claramente’. Para vermos com clareza, necessitamos de liberdade — precisamos estar livres do ressentimento, da inimizade, do preconceito, da animosidade, livres de todas as memórias que armazenamos como saber e que impedem o ver. Quando existe essa capacidade, essa liberdade com observação constante, não só das coisas exteriores, mas também das coisas interiores, de tudo o que se está passando, que necessidade há, então, de buscar — se o fato — o que é — está à vossa frente para ser observado? Mas, no mesmo instante em que queremos alterar ‘o que é’, começa a deformação. No observar livremente, sem deformação, sem avaliação, sem nenhum desejo de prazer, no simples observar, verifica-se uma extraordinária transformação do que é. (...)”


in: pag. 37

Título do original: The Flight of the Eagle (1971)
Tradução: Hugo Veloso
Instituição Cultural Krishnamurti
Rio de Janeiro
1976

Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais.


O Vôo da Águia é a reprodução autêntica das palestras realizadas por Jiddu Krishnamurti em Londres (A Liberdade, Fragmentação e Libertação), Amsterdã (Pode O Homem Mudar?, Por Que Não Podemos Viver Em Paz? e O Todo Da Vida), Paris (O Medo e A Realidade Transcendental) e Saanen (Sobre A Violência, Sobre A Mudança Radical, A Arte De Ver e Sobre A Penetração No Desconhecido) no ano de 1969. Na essencialidade primordial de cada palestra, dentro do cerne de cada discurso e das respostas dadas aos interrogantes, a liberdade é o tema maior a ser discutido. Tema que nunca é exaustivo demais por se tratar de uma busca corretíssima que deveria ser a principal forma de estar-e-ser-no-mundo de todo e qualquer ser humano. Mas, algum de nós realmente busca uma soberana liberdade ou nos concentramos em diversas outras estâncias além de nós mesmos que nos carregam em direção a outras preocupações e tarefas que, grande maioria das vezes, atrofiam o desejo de libertação de todas as amarras?


Muito circunspecto e sutil, Krishnamurti assim se expressa às página 17 e 18:

“(...) Fazer a pergunta certa é muito mais importante do que receber a resposta. A solução de um problema está na compreensão do problema; a solução não se encontra fora do problema, porém nele próprio. Não podemos ver claramente o problema, se o que nos interessa é só a resposta, a solução. Em geral, temos tanta ânsia de conhecer a solução, que nem olhamos o problema. Temos de olhá-lo com energia, intensidade e paixão — e não com a  indolência, a preguiça que quase todos temos: preferiríamos que outrem o resolvesse por nós. Ninguém pode resolver qualquer dos nossos problemas — políticos, religiosos ou psicológicos. Necessitamos de um alto grau de vitalidade, paixão, intensidade, para olhar, observar o problema. E então, observando-o, nele encontramos, perfeitamente clara, a solução. (...)“

A solução advém da plena análise de um problema que nos afete e não da busca rápida por uma resposta fácil a partir de uma miríade de perguntas. Voltando ao primeiro parágrafo deste texti, convém examinarmos bem a pergunta ao fim do mesmo com os olhos de um observador profundamente atento a cada pormenor de um objeto a ser observado. Um ser verdadeiramente livre é o que não se deixa influenciar pelos fatos danosos e impressionáveis da humana realidade, mas é muito difícil, principalmente hoje em dia, assim ser. A atualidade de Krishnamurti é peculiar, porque os mesmos problemas enfrentados por aqueles que querem ser neste mundo verdadeiramente autênticos e libertos de todas as humanas mesquinharias abortantes de maiores internos movimentos no ano de 1969, ainda são enfrentados por todos que se preocupam com os mesmos neste ano de 2016. Nada mudou, apenas estamos muito mais tecnologicamente avançados do que há 46 anos atrás; e, mesmo que através de um smartphone, por exemplo, tenhamos o mundo inteiro na palma das mãos, não temos o controle completo sobre o conhecimento real acerca de nós mesmos.

“(...) A morte é inevitável, todo organismo tem fim. Mas, nós temos medo de largar o passado. Somos o passado, somos o tempo, o sofrimento, o desespero, tendo ocasionalmente um vislumbre da beleza, um florescer da bondade, de profunda ternura, mas só como coisa passageira, não duradoura. E, porque tememos a morte, dizemos: ‘Viverei de novo?’ — quer dizer, continuar a batalha, o conflito, a aflição, possuir coisas, acumular experiência. Todo o Oriente crê na reencarnação. O que sois, desejais ver reencarnado; mas vós sois tudo isso que aí está: confusão, desordem, caos. E, também, já que reencarnação significa nascer para outra vida, o que agora fazeis, o que hoje fazeis, é que tem importância, e não a maneira como ireis viver a outra vida — se ela existe. Se ides nascer de novo, o importante é como viver hoje, porque é hoje que ides lançar a semente da beleza ou da dor. Mas, aqueles mesmos que crêem ardentemente na reencarnação não sabem comportar-se; se lhes interessasse o seu comportamento, não se estariam preocupando com o amanhã, porque a bondade reside na atenção ao hoje. (...)”


in: pags.82-83

A atenção ao hoje: há alguma? A atenção ao hoje: é realmente discutida dentro de cada um de nós? A atenção ao hoje: atenção ao autêntico hoje, O Agora, verdadeiramente existe sem limites ou travas? A atenção ao hoje parece se confundir, falando destes nossos atualíssimos dias de hiperconectividade, com a atenção ao que qualquer um publica ou escreve em um blog, uma rede social ou site; e fala, em um vlog qualquer do YouTube. Atento-me ao fato de que até mesmo este texto aqui a resenhar O Vôo Da Águia de Jiddu Krishnamurti deva ser desconsiderado, o que está aqui contido é uma opinião pessoal despida de qualquer tipo de autoridade. Igualmente, o que grassa por toda e qualquer rede social ou blog ou site deve ser descartado como possuidor de alguma autoridade. Isto significa morrer para o que está fora de si, sem medo, assim como este não deve envolver a questão da morte, como dito na citação acima. Morrer concentrando-se ao fato de que é no hoje que se transita por uma necessidade de atenção plena ao desordeiro, caótico e decadente estado do mundo externo, o qual é apenas um espelho do mundo interno de cada um de nós. Nada pode ser ignorado, somos os construtores deste mundo contemporaneamente desgraçado, pois o que ele é hoje representa o que trazemos dentro de cada um de nós. Por isso, a atenção ao hoje é da mais alta razão para nos atermos aos extremos problemas que nos levem a uma solução precisa dos mesmos. Porém, não basta apenas ficarmos no campo analítico…

“(...) No processo da análise está implicado o tempo; preciso de muitos dias ou de muitos anos para analisar-me. E, ao cabo de todos esses anos — continuo com medo. A análise, portanto, não é a maneira correta de proceder. Ela requer muito tempo e, com a casa a arder, não podeis ficar sentado a analisar ou ir pedir a um especialista: ‘Por favor, diga-me tudo o que preciso saber a respeito de mim mesmo’ — tendes de agir. A análise é uma forma de fuga, de preguiça, de incapacidade (um neurótico poderá ter razão em tratar-se com um analista, porém, ainda assim, não ficará inteiramente livre de sua neurose. Mas, esta é outra questão). (...)”

Agir é a chave. Agir é o válido caminho. Agir é o único caminho. Agir é a via da objetiva mudança interior que se expandirá pelo exterior. No entanto, este somente se modificará quando aprendermos a realmente agir no agora e, não, “quando der tempo”, “ quando eu conseguir aquilo”, “quando eu conseguir isso”, as esfarrapadas desculpas que sempre damos como os crônicos preguiçosos que somos quando há a necessidade de darmos uma guinada em direção à mudança. Agir em direção a um objetivo, sem a sujeição mais do que indigna ao agir apenas para agradar um grupo político, religioso e qualquer outro que mais ajuda no embotamento da mente e na extinção de toda naturalidade do que avança na direção do alcance da suprema quase inalcançável liberdade.

“(...) Estávamos indagando a maneira de nos livrarmos da coleção de animais que temos dentro de nós mesmos. Estamos examinando esta matéria porque percebemos — eu, pelo menos, o percebo — que necessitamos penetrar no desconhecido. Afinal de contas, todo bom matemático ou físico tem de investigar o desconhecido, e o próprio artista talvez tenha de fazê-lo, se não se deixa arrebatar por suas emoções e imaginação. E nós, a gente comum, com os nossos cotidianos problemas, temos igualmente de viver com uma compreensão mais profunda. Nós também temos de penetrar no desconhecido. A mente que está sempre tentando expulsar animais por ela própria inventados, dragões, serpentes, macacos, com as perturbações e contradições que causam, essa mente nenhuma possibilidade tem de penetrar no desconhecido. Sendo, como somos, simples gente comum, não dotados de brilhantes intelectos ou ampla visão, mas vivendo nossa insignificante, feia e monótona vida de cada dia, interessa-nos descobrir como poderemos transformá-la imediatamente. É o que estamos investigando. (...)”

E você, penetra no desconhecido que há dentro do abismo do teu Ser?


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!





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