Jessica Jones: O Codinome Dela Não É Mulher-Maravilha




JESSICA JONES


Série criada por Melissa Rosenberg



Produtores: Melissa Rosenberg e Jeph Loeb



Baseada na HQ Alias, de Brian Michael Bendis (roteiro) e  Michael Gaydos (arte).




ELENCO



  • Krysten Ritter
    Jessica Jones

  • David Tennant
    Homem‑Púrpura

  • Mike Colter
    Luke Cage

  • Rachael Taylor
    Felina

  • Carrie‑Anne Moss

  • Eka Darville



  • SINOPSE




    Desde que sua curta vida como super-heroína acabou de forma trágica, Jessica Jones (Krysten Ritter) vem reconstruindo sua carreira e passou a levar a vida como detetive particular no bairro de Hell's Kitchen, em Nova York, na sua própria agência de investigações, a Alias Investigations. Traumatizada por eventos anteriores de sua vida, ela sofre de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, e tenta fazer com que seus super-poderes passem despercebidos pelos seus clientes. Mas, mesmo tentando fugir do passado, seus demônios particulares vão voltar a perseguí-la, na figura de Zebediah Kilgrave (David Tennant), um obsessivo vilão que fará de tudo para chamar a atenção de Jessica.





    Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


    Jessica Jones, produção do ano de 2015 da Netflix é uma série que enfoca a temática do abuso e a luta de uma heroína que não se julga uma heroína em busca de vingança contra um inimigo formidável capaz de controlar mentes fazendo com que todos forçosamente lhe obedeçam. Mas, reduzir a série baseada em Alias, história em quadrinhos da Marvel da linha Max, voltada para adultos, ao enfoque do abuso é simplista demais. Amplificando o leque de possibilidades interpretativas, a Cozinha do Inferno por onde Jessica (Krysten Ritter) e Kilgrave (David Tennant) travam uma grandiosa guerra ultraviolenta e sanguinária é um retrato perfeito da contemporaneidade: um cinzento mundo, uma cinzenta cidade e cinzentos seres humanos capazes de barbaridades e atos caridosos na mesma proporcionalidade.


    Em Jessica Jones, não há heroísmo babaca de fantasiados coloridos voando por todos os lados; piadinhas tolas e inúteis de Vingadores pasteurizados; mocinhas a serem salvas; mocinhas maravilhosamente dotadas de um senso elevadíssimo de cumprimento do dever a favor dos mais fracos e oprimidos; mocinhos em busca de Graals de reconhecimento e ovações espúrias; vilões caricatos com excesso de absurdos existencialistas; um mundo puro, onde o Bem é o Bem e o Mal é Mal. A série transborda fidelidade com este nosso mundo aqui, o mundo no qual eu aqui estou neste momento escrevendo este artigo que está sendo lido por você agora horas depois de ter sido escrito. O que nos aproxima é uma rede ciberneticamente diversificada, de intensos tons, muitos sons e cores que muitas vezes dão vontade de nelas nos inserirmos por completo. No entanto, saudavelmente nos desbaratamos deste mundo virtual, realizando um deslizamento para fora da barca que nos leva a diversos portos deste mundo digital. Porém, sempre retornamos porque já somos parte daqui, uma realidade que fala por si mesma uma linguagem direcionada a cada particularidade. O nosso retrato aqui é o nosso retrato no mundo fora daqui e em Jessica Jones o retrato deste nos coloca diante de nós mesmos.


    Temos medo de encarar a nossa propensão à crueldade que nos mastiga a mente na obscuridade e quer saltar a todo momento para a superfície? Jessica, magistralmente interpretada por uma atriz de verdade (ignorada magistralmente pelo Globo de Ouro; mas, como dar credibilidade a uma premiação que consagra a Lady Gaga como Melhor Atriz do ano de 2015?), encontra-se no limite entre a lâmina da faca no pu do inimigo e na própria jugular. Uma mulher comum que bebe, não tem receios em mostrar ao mundo seus poderes, trabalhando como detetive; deslocada de todo e qualquer ambiente, antissocial, grosseira, sarcástica, deprimida, isolada e solitária que não é, como sugeri acima, uma simplista que se deixa dominar pelo abuso sofrido nas mãos de um psicopata e nem mesmo é uma heroína bonitinha coloridinha e feliz, como igualmente frisei acima. Cagando e andando para qualquer tipo de feminismo ou super-heroísmo, sua meta é exclusivamente executar sei inimigo. Infelizmente, uma insana carnificina promovida por Kilgrave a faz mudar de objetivo logo no início da série; e uma reviravolta na reta final a faz retornar ao objetivo inicial.


    Kilgrave, interpretado por um brilhantíssimo ator (outro veementemente ignorado pelo Globo de Ouro), é o vilão que nós estávamos há muito precisando e merecendo, sem sombra de dúvidas. Diferente de robôs com senso de humor ridículo ou invasores alienígenas sem um propósito definido, é o perfeito ser devotado totalmente à satisfação de seus desejos, taras, manias e vontades. Confesso que ele é o vilão mais desprezível, asqueroso, odiável e repugnante que já conheci, uma entidade que se destaca por um apelo tremendo ao grotesco gosto por dominar, invadir, assumir e apossar-se de tudo e todos. Dominando mentes, ele se sente onipresente, onipotente e onisciente, um Deus ao qual todos devem obedecer sem pestanejar, sem fraquejar e nem esmorecer. Seu melhor esporte é manipular mulheres, obrigá-las a ser-lhe fiéis, invadindo-lhes a intimidade com um típico comportamento de um estuprador em série. No entanto, do ponto de vista de Kilgrave, o que ele faz é justificável, ele tem o direito de fazê-lo porque seu dom não pode ser desperdiçado com mediocridades, quinquilharias e apetrechos de última categoria. Seu grotesco senso de glamour, aliado a uma crônica arrogância, desprezo pela vida humana, misoginia e misantropia fazem dele o arquétipo mais incômodo de todos: o do psicopata que pode ser seu vizinho, amigo, parente, cônjuge ou até mesmo você (“A loucura é como a gravidade, basta um empurrãozinho…”). E o maior de todos os tesouros para Kilgrave é Jessica, a qual ama de um modo distorcido, quebradiço e extremamente doentio.


    A guerra travada pelos dois, ao final dos treze capítulos da primeira temporada, deixa no ar uma sensação de amargura, tristeza e vazio. As tensas explosões de densidade psicológica da série não são para qualquer tipo de público. O mérito de toda a grandiosidade desta série também deve ser dado aos roteiristas, produtores e o diretor, que exploraram ao máximo a fidelidade ao nosso mundo tão típica de obras voltadas para pessoas bem parecidas conosco. As tramas secundárias e seus personagens também passam muitíssimo bem sua mensagem, colocando cada situação como complemento da história em si mesma, não sendo meros ganchos narrativos para o preenchimento de vazios no roteiro. Este, cuja complexidade assustou muitos e gerou a revolta de uma miriafe de haters na Internet tem a qualidade que muitas produções, incluindo as do Cinema, deveria levar em conta. Há começo, meio, fim e recomeço bem determinados a cada episódio, atuando em  para comna a lógica mais do que coerente com o sombrio e sufocante clima de cada um daqueles.


    Esta série é um marco porque, assim como a do Demolidor, conseguiu a atenção e o reconhecimento de todos aqueles que querem e desejam verdadeira fidelidade nas adaptações de obras da Nona Arte em mídias audiovisuais. Se a guerra de Jessica contra Kilgrave ainda não lhe chamou a atenção, sugiro que dê uma chance à série, abrindo sua mente para assisti-la e, não, sendo influenciado por cada crítica negativa lida por aí sobre a mesma. Jessica Jones não é a Mulher-Maravilha, toda perfeitinha, infalível e divina; no entanto, é uma mulher calejada, persistente, obstinada e que, mesmo cansada e entediada em um mundo no qual não consegue se adaptar, encontra sempre uma inacreditável força e ânimo para deter um monstro que não deveria existir no mundo dela, no nosso mundo e em todo e qualquer mundo. E ela consegue detê-lo, ao custo de uma longa fila de cadáveres e do endurecimento cada vez maior de sua alma.

    Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!














    2 Loucas Pedras Lançadas:

    G@rrit disse...

    Òtima crítica de uma òtima série, parabéns!

    Muito obrigado pelo comentário e pela leitura, Rodrigo. Esta é uma das maiores e melhores séries que já assisti.