Dança Com Lobos



Título original: Dances With Wolves

Ano: 1990

Direção: Kevin Costner

Roteiro : Michael Blake

Elenco:

Kevin Costner
Mary McDonnell
Graham Greene
Rodney A. Grant

Música: John Barry

Idiomas:   
Inglês
Sioux
Pawnee

Ano: 1990

Duração: 180 min.



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!

No contato de uma cultura com outra, há sempre o choque, a surpresa, o abalo que, grande, tende a unir as duas. Em Dança Com Lobos, esse contato é desenvolvido sem os velhos clichês de sempre da maioria dos filmes que são feitos tratando do tema em questão.

Como muitos pensam que Kevin Costner realizou uma obra comercial, os clichês podem parecer muitos. Contudo, o filme não é comercial, é ocultamente uma obra de arte gritando ao mundo uma mentira sobre si mesma, contida no fato de ter sido divulgada de modo comercial à época. Esta mentira também diz respeito ao fato de ser também mais um filme “Western” sobre o relacionamento entre indígenas e brancos nos Estados Unidos durante a Guerra de Secessão ou antes ou depois da mesma. A época não importa, pois os conflitos ainda existem e nem milhões de anos apagarão da História o que foi feito com os nativos daquele país.

Costner desmistifica totalmente o fato de que os brancos massacraram os índios apenas tendo como desculpa ou inspiração o progresso. A ignorância sobre os povos indígenas, sua cultura até mais civilizada que a dos “homens civilizados” e um conhecimento mais profundo de si mesmos, levaram os colonizadores expansionistas a serem os ceifadores de milhões de vidas. Os Estados Unidos, a única superpotência mundial, foi construído sobre o sangue indígena e, também, o que juntamente não será esquecido, o africano.

Dança Com Lobos não é um “Western”, que em suas piores produções adquiriram a natureza de um filminho barato de pistoleiro contra homens-da-lei ou de índios contra brancos. É um drama denso, uma epopéia clássica narrando a busca de todos os homens por uma identidade, sem exceção de cor ou de raça, na figura de um personagem que pode ser visto como um modelo arquetípico de todo aquele que se encontra perdido dentro da sociedade. John Dunbar (Costner) é, então, o protótipo do homem perdido, de humildade quase inocente e bons sentimentos, prisioneiro de um mundo desconhecido no qual foi jogado. É um homem vivendo de metáforas muitas, respirando onomatopéias demais, caminhando sobre os substantivos abstratos da “civilização” tal qual uma máquina insensível, um cadáver completo no corpo, na mente e na alma. Um homem que necessita aprender a dançar. Um homem que necessita aprender a uivar. Um homem que necessita aprender a ser verdadeiramente natural a fim de verdadeiramente viver.

Ele finalmente nasce ao encontrar-se com a maneira natural do viver, o retorno ao homem selvagem (no sentido de um ser verdadeiramente livre), mais feliz do que o de hoje, como bem definido por Jean Jacques Rousseau. O encontro dele com o lobo, sua dança em redor do fogo, simbolizam a saída dele da toca do automatismo existencial e sua entrada no curso vital da natureza em plenitude. Nesse encontro, vê que há almas boas e más entre os índios, assim como entre os brancos, e percebe que os dois mundos são os mesmos apesar de estarem divididos há milênios.

Dunbar, em um trabalho de composição magistral de Costner no auge de sua carreira como ator, regenera-se como ser humano, mais sincero e verdadeiro para si mesmo e para o mundo, onde finalmente consegue sentir-se bem adaptado. Fazendo verdadeiras amizades pela primeira vez em sua existência (o que li nas entrelinhas analisando a construção de tais contatos), com Pássaro Esperneante e Cabelo Ao Vento, encontra a certeza de que os índios são tão humanos quanto ele. E abraçando o verdadeiro amor com De Pé Em Punho, sua situação no mundo alcança a plenitude e a concretude necessárias para sua definitiva afirmação de estar no mundo.

E sua relação com o lobo o auxilia a compreender ainda mais que não é maior ou melhor do que outros homens e todos os animais pelo fato de ser um homem branco, que a História, do ponto de vista dos conquistadores, compõe como a etnia dominante planetária. Tornando-se também amigo de Duas Meias e, ao mesmo tempo, de Cisco, ele retorna à inocência perdida da Humanidade. Passando a conviver com os Sioux, em todos os sentidos, encontra a si mesmo como dificilmente um ser humano encontra-se enquanto continuar a agir, pensar e viver como uma máquina produzida em série. Deixando o mecanicismo dos condicionamentos no passado; despindo-se dos conceitos e preconceitos e pré-conceitos que herdou de seus antepassados; e não querendo mais saber do ontem que viveu como um cego entre muitos outros cegos, ele se torna Dança Com Lobos, atingindo uma rara felicidade que poucos homens em uma vida inteira conseguem obter. E nem mesmo os eventos posteriores a esse estágio alcançado tiram de dentro de sua alma o natural modo de saber-se pleno como um verdadeiro ser ciente da sua verdade interna.

A magnitude do filme é extraordinária em sua essência filosófica transcendentalista da busca do Homem por uma identidade. Para aqueles que assim vêem-no, ele é uma bênção que jamais será esquecida. O inverno ao final do filme marca a maturidade do Homem, após passar pelo verão dos enganos, a primavera dos sonhos e o outono das ilusões. Todos devíamos buscá-lo.

Mas, nos preocupamos em buscar?

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!

















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