A Suprema Realização - Jiddu Krishnamurti





“(...) Não sei se já observastes o poente, ou a serena dignidade de uma árvore, ou os contornos de uma ave a voar. O observar exige quietude; exige da mente a capacidade de estar em silêncio, de não ficar incessantemente a tagarelar entre si. Para observar, necessita-se de um certo silêncio. E não se pode ter silêncio, se a mente, no ato de observar, está a ‘projetar’ suas próprias idéias, esperanças, temores. Assim, para podermos observar a estrutura social em que vivemos, e promover uma radical transformação nessa sociedade, devemos primeiramente observar o que é, e não o que desejamos que a sociedade seja.


Porque a sociedade em que vivemos, nós mesmos a criamos e por ela somos responsáveis — cada um de nós. Ela não se tornou existente pela ação de forças fictícias, espirituais. Nasceu de nossa avidez, de nossa ambição, de nossos gostos, aversões, e inimizades pessoais, de nossas frustrações, de nossa busca de poder e de satisfação. Nós criamos as religiões, as crenças, os dogmas, premidos pelo medo. É nessa sociedade que estamos vivendo. E o indivíduo, ou foge dessa sociedade (de que ele faz parte) porque é incapaz de compreendê-la ou de transformá-la; ou se deixa absorver de tal maneira em suas próprias tribulações, que perde todo o interesse nessa exigência fundamental da mente humana de que ela (a sociedade) se transforme. (...)”


in: pag. 94


Título do original: Talks by Krishnamurti in India (1965)
Tradução: Hugo Veloso
Direitos cedidos de tradução para a Língua Portuguesa pela Instituição Cultural Krishnamurti
Editora Cultrix Ltda.
São Paulo
1974
262 pags.


Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais!


A Suprema Realização é a compilação essencial de palestras realizadas pela Índia no ano de 1965 que resumem, de modo amplo e essencial, todo o pensamento filosófico existencialista de Jiddu Krishnamurti. Realizadas de modo a obterem mais perguntas do que respostas prontas pelo próprio pensador indiano em Madrasta (Só a Mente Lúcida Vê o Real; O Medo; O Movimento do Desejo; Desejo, Prazer, Amor; O Poder do Amor; A Virtude do Silêncio; A Mente Religiosa), Bombaim (Onde Está a Bem-Aventurança; Uma Diferente Maneira de Viver; Do Ato de Observar; Prazer, Sexo, Amor; Tempo, Sofrimento, Morte; Meditação; Vida Criadora), Nova Delhi (Urge Transformar-nos; Mutação Interior; Mente não Contraditória; Medo, Morte, Criação) e Varanasi (O Único Problema; Das Relações Humanas; Morrer Para o Passado), o livro gira em torno do mais fundamental dos humanos enredos posicionantes de nosso existir na Terra: podemos silenciar nosso Eu Interior, nos incondicionando de nossos próprios julgamentos, a fim de transpormos as barreiras limitadoras geradas pela separação que há entre o observador e a coisa observada?


“(...) A meditação, pois, não é oração, não é repetição de palavras. Uma das coisas mais extraordinárias são as idéias fantásticas que a palavra mantra sugere às pessoas. Pronunciais uma palavra — não importa qual seja — ou uma série de palavras, dando-lhes um especial significado, e ficais a repeti-las. Que sucede ao repetirdes vezes sobre vezes uma série de palavras, em inglês, em sânscrito, em latim ou noutra língua qualquer? Vossa mente se torna gradualmente quieta, gradualmente embotada; e pensais então ter posto, afinal, a vossa mente em silêncio. (...)”


in: pag. 155


Verdadeiramente meditar: alguém no ano de 1965 sabia a isto realizar? Verdadeiramente meditar: alguém, neste ano de 2016, 51 anos após as palavras acima terem sido pronunciadas, sabe a isto realizar?


“ (...) Quereis, pois, mais, mais, sempre mais! Esse mais pode se obter por meio de drogas que vos põem num estado de extraordinária sensibilidade. Nesse estado tendes uma experiência inédita, conforme vosso temperamento, vossas idiossincrasias, vosso condicionamento. Se sois sacerdote, podeis ter uma estupenda experiência; e essa breve experiência poderá alterar todo o curso de vossa vida. Contudo, continuareis a viver em busca de experiências. É o que está fazendo a maioria de nós. Quando deliberadamente vos sentais para meditar, é isso o que quereis. E a mente que está a lutar, em busca de mais experiência, mais excitações, mais sensações — essa mente não está em silêncio; por conseguinte, só tem experiência dentro do estreito âmbito de seu condicionamento e de seu conhecimento. (...)”


in: pag. 75


Não há silêncio em atitudes e comportamentos pré-programados. A mente se embota cada vez mais na efemeridade, o observar é desfocado, o observador é desvirtuado e a coisa observada desfeita é em sua naturalidade mais essencial. O condicionamento é o principal aríete atacante da mente que força uma posição para manter-se silenciosa. Assim, a integralidade se torna cada vez mais distante. E o que é a integralidade, a completude, a verdade advinda do silêncio? Um estado possível? Um plano bem desenhado? Um palco bem ocupado?


“(...) Também, a impossibilidade de encontrar a segurança causa sofrimento. O homem vive em companhia do sofrimento, há muito, muito tempo. Sabeis o que é sofrimento: a perda de um ente amado; a perda de nosso prestígio, nossa posição; a não consecução de uma boa situação na vida, como outros a alcançaram; a falta de beleza, nas feições, nos gestos, nas palavras; nunca vemos a beleza do poente, de uma nuvem; nunca sentimos a aragem noturna acariciar-nos o rosto. Não somos sensíveis, e por isso vivemos desta maneira, a cultivar o sofrimento, sem nunca entrarmos em contato com ele. Temos idéias a seu respeito, chamamo-lo de karma, coisa ligada ao passado, consequência disto ou daquilo. Falar em karma é o cúmulo da ignorância, pois toda causa pode ser alterada imediatamente; toda causa e seu efeito podem ser despedaçados. Estar sempre a dizer: ‘Sou infeliz porque fiz algo no passado’ — é uma enorme infantilidade! Porque causa e efeito estão intimamente ligados entre si; o que foi causa se torna efeito e este, por sua vez, se torna causa. Essa cadeia pode quebrar-se! E, para quebrá-la, precisamos entrar em contato com ela, em vez de ficarmos a viver só de palavras… (...)”


in: pag. 62


A cadeia, no entanto, é quebrada? A cadeia que afeta a consciência do observar? A cadeia que aborta a essência do observador? A cadeia que devasta a verdade da coisa observada?


“(...) Se uma pessoa percebe a estrutura total de sua própria mente, se compreende o significado dessa estrutura, não apenas verbalmente, mas também não-verbalmente, não só psicológica, porém objetivamente, essa pessoa deve então perguntar a si própria: Existe uma ação, ação total, que jamais seja contraditória? Mas, não basta fazer a pergunta: é também necessário achar a ação não contraditória, trabalhar diligentemente para descobri-la. Isso é muito mais árduo do que trabalhar nove horas por dia num escritório. Exige intensa investigação. Pois temos de achar uma ação que nunca seja contraditória, em todo o curso de nossa vida e não ocasionalmente, em certos momentos em que a ação parece fluir livremente, sem encontrar nenhuma resistência ou contradição; temos de achá-la, aquela ação fecunda, completa, aquele movimento livre de contradição, do começo ao fim. O descobri-la requer muito percebimento, muita atenção. (...)”


in: pag. 200


Fazemos tal busca pela completude sem sermos a observação, o observador ou a coisa observada? Temos uma pausa neste contemporâneo mundo tecnologicamente desenvolvido e envolvido na virtualidade digital para darmos uma chance a tão necessária interior busca? Somos capazes de nos desligarmos da ultravelocidade de informações e ações atuais para darmos atenção ao nosso encontro mais sincero: o encontro conosco mesmos?


Não há uma resposta para você aí, O Observador. Não há uma regra para o Objeto de sua Observação. Não há no Objeto, O Observado, uma explicação que possa adjudicar a mobilização de completas traduções Dele mesmo. Enquanto a mente não aprender a dialogar com a verdade silenciosa, de inspiradora quietude e aprimoramento, a suprema realização do Ser sempre estará distante. De modo não-linear, este livro pode ser lido; se for para uma experimentação de leitura, leia de trás para a frente, acompanhando a certeza de que Krishnamurti jamais se contradiz, perde e confunde em seu pensamento. O caminho da leitura também pode ser feito de modo tradicional, singularmente sendo tão pluralizante de positivas fecundações na mente como o modo de recomendação de leitura citado acima por este Inominável Ser que vos fala. Fecundações de perguntas, leitores virtuais, Krishnamurti não é um pensador de respostas prontas, é um fomentador de intermináveis e necessárias indagações. Muitos que se diluem na correria dos contemporâneos dias deveriam ter este livro, assim como toda a obra dele em suas mais básicas fontes de leituras. Se A Suprema Realização não é um livro de auto-ajuda, o mesmo pode ser o salto quântico de qualidade no modo de pensar e indagar dos que mais atualmente correm sem nunca parar.


Ao lado de A Outra Margem do Caminho, este é uma das mais importantes e clássicas transcrições de palestras do pensador indiano que continua atualíssimo. Uma leitura que não é para ser observada, levianamente comentada ou considerada como algo que deverá servir para discussões fúteis sobre a existência humana. O livro é simples em sua complexidade e complexo em sua natureza, tornando a leitura uma viagem para dentro da alma completa. Quando digo “alma”, neste contexto, me refiro ao mais desconhecido recôndito da mente humana: o campo do silêncio. O livro não ensina a adentrar em tal campo, a responsabilidade por tal busca é toda sua, leitor ou leitora; o que se apresenta nas páginas é concretamente um guia sem começo, meio e fim, sendo penetrante, contínuo e permanente se objetiva e subjetivamente aplicado.


Mas, nos interessamos em iniciar tal busca?


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais!


“(...) O ato de escutar está sempre no presente. E se traduzis o que escutais segundo vosso próprio entender, vossa própria tradição, vossa própria cultura — se a tendes — com isso impedis o escutar.


No escutar inicia-se um movimento extraordinário; escuta-se, não só o orador, mas também todas as coisas: os corvos, o ônibus, a aragem entre as folhas. É um ato total e não um ato fragmentário. E, se fôssemos capazes de assim escutar, no decorrer de toda a vida e não apenas de alguns minutos, escutar cada som — e não apenas o de uma voz familiar — ‘escutar’ cada movimento do pensamento, a vida se tornaria um ato infinito de aprender. (...)”


in: pag. 67





0 Loucas Pedras Lançadas: