Vitor Pinto, Uma Criança





Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais.

Vejam só isto: uma criança branca é assassinada no colo da mãe, que o amamentava, por um indígena, sem nenhum motivo, na beira da praia do Leblon. A indignação é geral, a Globo, a Band, a Record, o SBT e todos os grandes veículos midiáticos do país se voltam contra tal ato cruel, bárbaro, na véspera de Ano-Novo! O funeral do garoto reúne milhares e seu enterro, quase um milhão de pessoas! Choros, lágrimas, revolta e, até o dia de hoje, passeatas nas ruas de todo o país pedindo a inclusão da Pena de Morte no Código Penal Brasileiro! O Fantástico entrevista os pais do garoto, o New York Times entrevista os pais do garoto, a grande mídia mundial entrevista os pais do garoto! A Senhora Presidente Dilma Roussef recebe os pais do garoto no Palácio do Planalto, um encontro gravado por todas as emissoras de televisão do país, cujas imagens correm o mundo! E até mesmo o Papa Francisco se comove, recebendo os pais do garoto no Vaticano, um encontro igualmente divulgado com ênfase pela grande mídia! Enquanto isso, o criminoso seria caçado, “matem o índio!”, “ linchem o índio!”, “pena de morte para o índio!”, é o que seria ouvido nas ruas, nos locais de trabalho, nas casas e nos botecos! O assassino seria aprisionado, o assassinado seria julgado, o assassino seria condenado… E, com ele, os ainda restantes índios de todo o país, que passariam a ser mais discriminados, violentados e desprezados por causa do ato covarde de apenas um deles.

Isso aconteceria se Vítor, o menininho de dois anos degolado por um homem com transtornos mentais que vivia pelas ruas, fosse branco, rico e morasse no bairro do Leblon, aqui no Rio de Janeiro. Mas, Vítor era um indígena e este povo aqui no nosso tão belo e bom país nem é considerado como "gente de verdade". "Gente de verdade" sequer se importou com o que houve; "gente de verdade" das grandes mídias, claro, sempre amigas das tragédias do lado mais favorecido da nossa amada pátria varonil; “gente de verdade”, que de quatro em quatro anos é eleita pelo povo para roubar o mesmo, nem mesmo se ligou no fato; “gente de verdade”, os tais “ defensorrs dos Direitos Humanos”, sequer foram dar qualquer tipo de apoio aos pais; “gente de verdade”, agora sabendo deste crime horroroso apenas pela Internet, como este que vos escreve soube nesta semana, alguns entre a “gente de verdade”, melhor dizendo, estão comovidos; “gente de verdade”, a grande maioria, nem sequer está ligando, apenas assim dizendo:




“Ah, era apenas um índio sujo, não vai fazer falta!”


“Crianças morrem todo dia, porque esse indiozinho seria melhor que as outras?”


“Essa gente, para mim, não presta, nem gente é, tem que morrer!”


“Ah, o que me importa a morte de uma merda de filho de índio?”


“Índio tem que morrer mesmo, é que nem preto, não vale nada!”


“Foda-se a morte desse moleque, é menos um índio imundo para ser sustentado pelo Governo!”




Esse é o tom de “gente de verdade” acerca do menino Vítor, que, para eles e para a grande mídia, é apenas “mais uma vítima da violência sem nenhum motivo para receber a nossa atenção”. Não é apenas Vítor, um menino indígena, a fazer parte do que a grande mídia considera como “ser humano demasiadamente insignificante para receber a nossa atenção em sua morte”. Índios, negros, pobres, os mais desafortunados e miseráveis do país: apenas “pessoas demasiadamente insignificantes para receberem a nossa atenção”. Em outras ocasiões, até hoje José Luiz Datena, Marcelo Rezende e outros tantos hipócritas mais preocupados com a audiência do que com a verdadeira dor daqueles que sofrem crimes horrendos, estariam “chocados”, “estarrecidos”, “indignados”; mas, hipócritas como são e,massas de manobra da grande mídia preconceituosa e elitista, sequer mencionaram o caso (se mencionaram, foi rapidamente). Claro, Vitor não era importante, não era rico, não morava no Leblon. E nem era branco.


O assassino do menino não foi motivado por motivos raciais, mas, sim, por transtornos mentais graves e profundos. Este meu texto-manifesto aqui não quer racializar o ocorrido, mas apenas enfocar o grande descaso da grande mídia com o caso por causa do garoto se tratar de um descendente de um povo que os colonizadores portugueses quase exterminaram em sua totalidade. É um problema histórico que há quinhentos e dezesseis anos vem a ser o símbolo da podridão institucional e social do Brasil, que tenta ser mascarada de toda maneira a cada Governo. Muito está sendo escrito pela Internet, agora, sobre o caso, nos canais midiáticos independentes, cada um que ler este texto pode pesquisar e ler o conteúdo dos artigos e das reportagens. Registrada aqui ficam as minhas palavras, uma dentre poucas, bem poucas.


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais.


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