A Racionalização Espinosista Do Divino A Partir De Três Capítulos Do Tratado Teológico-Político



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais.

Para todo tipo de matéria estudada, do ponto de vista da mais autêntica filosofia e do modo mais autêntico de filosofar, sem deixar perder-se o contexto exato do que seja o verdadeiro método filósofico de atentar-se a um problema nitidamente aberto a um crítico-analítico olhar, é necessário uma contundente forma de exame de cada horizonte notado pelo pensamento antes da execução da pruimeira linha do contexto a ser desenvolvido no resultado final da análise. Ao não fugir da problemática e ao não ceder aos impulsos de apenas corroborar o que está escrito na Bíblia, Espinosa faz uso de uma extensa e plena racionalização da linguagem divina, um método que assusta a todo supersticioso, seja o da época na qual ele viveu ou nesta nossa atua época na qual o fundamentalismo religioso investe com todas as suas forças contra os homens e mulheres que livremente pensam em determinadas denominações religiosas cujas raízes fundadoras encontram-se no Livro.

 Diferente do que se pode obter lendo literalmente as Escrituras ditas como “sagradas” há séculos, as mentalidades para as quais Espinosa desenvolveu o Tratado Teológico-Político são as que preferem o cuidadoso aspecto examinativo crítico-analítico (o olhar acima citado, olhar este que passa pelos ditames da Razão em todas as suas particularidades) do que a simples e pura aceitação do que é aceito sem discorrer-se acerca da sua validade, da sua autenticidade ou do seu sentido real tanto para uma consciência que estude o que se denomina “verdade bíblica” quanto para um grupo religioso que formalize reuniões (cultos ou missas, dependendo da denominação religiosa) nas quais tais “verdades” sejam amplamente tratadas. Para aqueles que optam, por si mesmos, a vasculhar cada linha das Escrituras com a propriedade de um estudioso sem preconceitos, o que Espinosa trata em seu livro é de extrema, eficaz e importantíssima utilidade; para os que aceitam apenas o que as autoridades religiosas revestidas de “poder”, “sabedoria” e “glória”, encarnados nas mais diversas hierarquias (padres, pastores, missionários, etc.), o mesmo livro é digno de ser rasgado ou queimado durante qualquer uma das reuniões religiosas acima citadas. Contra as superstições do segundo grupo, as observações de Espinosa acerca dos profetas, das profecias e dos milagres são as positivas palavras de um dos maiores apóstolos da inteligência e da racionalidade.

Em uma comparação dos conteúdos dos capítulos primeiro, segundo e sexto do tratado espinosista, é possível verificar uma síntese de todos os objetivos do autor quanto ao desenvolvimento do mesmo em face do planejamento realizador de um texto totalmente anti-supersticioso. Um detalhe que chama a atenção nos três capítulos é o de uma condução das denominadas profecias e milagres para o terreno do universo fantástico, altas fantasias sugestionadas a mentes altamente propensas a imaginar as mais absurdas experiências que podem ser tangíveis (um exemplo: a multiplicação dos pães e dos peixes) ou intangíveis (um exemplo: o mundo criado em sete dias). Tangível ao modo da materialidade e intangível ao modo da imaterialidade; neste segundo terreno, o terreno do Divino, o que pode ser destacado é sempre uma tradução razoável de suas essenciais linguagem e não a mais pura literal explanação de sua inteira Verdade. Para bem da verdade que se refere ao humano, com todas as limitações implicadas no contexto do humanamente ser, tais narrativas possuem muito de crenças vulgares incrementadas no meio popular através de contos que foram transmitidos oralmente ou textualmente aos que desenvolveram os textos bíblicos. E como é bem difícil crer que os verdadeiros autores dos textos bíblicos nos quais somos apresentados a relatos que, possivelmente, são fantasiosos, viram pessoalmente ocorrer os mesmos, a consciência das mentes mais esclarecidas nos séculos que receberam tais textos e neste atual vigésimo primeiro século terão a certeza mais do que absoluta da inveracidade de todos eles. Não parte daqui nenhum preconceito contra religiões e a religiosidade, em geral, fundamentadas na atmosfera bíblica, mas uma racionalizada atitude mental e existencial contra o ridículo de algumas “realidades” tratadas em determinados livros bíblicos. Espinosa não chega a ridicularizar um profeta, uma profecia ou um milagre, sendo incisivamente sério em suas análises, o que chega a ser um tanto quanto admirável de sua parte. Tal atitude pode ser louvável, no entanto, ao mesmo tempo que assim seja há nos três capítulos aqui tratados uma abordagem mais visível do quanto de ridículo se encontra no fato de seres determinados pelo finitismo elaborarem concepções de imagens (visuais ou textuais) que apenas abarcadas podem ser pelo Infinito ou (apenas uma hipótese) por alguém ou determinado grupo de seres humanos especialmente dotados que imersos estejam na infinitude.

Para cada profeta bíblico, a linguagem divina possuirá uma determinada chave interpretativa da auto-afirmação de suas proféticas propriedades internas. Para cada profecia bíblica, existirá sempre uma conectividade com determinada interpretação a priori ou a posteriori afirmada como a mais correta. Para cada milagre, haverá sempre a adjudicação de uma determinação da divina natureza para a sua consequente afirmação como autenticamente definidora da sua veraz face. Em cada caso, “a mão de Deus” sempre estará a ser a capacitadora de toda explicação que, nem sempre, é a explicação que se direciona para os ditames sempre corretos da racionalidade. Para Espinosa, Deus não age contrariando a natureza e como se pode crer em uma Entidade infinitamente dotada, imanente em tudo e transcendente a tudo, que privilegiasse determinados homens (os profetas), determinado povo (o judeu) e determinados indivíduos (os que recebessem o “toque divino” dos milagres) em detrimento de todo o restante da Humanidade, sendo esta constituida de milhares e milhares de sofredores, doentes e injustiçados, crentes ou descrentes? Se Espinosa não é tão contundente na ridicularização das infantis mentalidades crentes nas fantasias bíblicas mais absurdas, como descrito no parágrafo anterior, ele parece conduzir seus leitores a conclusões próprias retiradas do conteúdo inteiro de seu tratado. Particularmente, em relação aos capítulos que ora estão sendo examinados, em uma visão generalista afirmo preremptoriamente que a indagação acima se faz bem nítida aos que se conduzem a analisar os pontos em comum dos mesmos. Não é uma indagação conflitante com os objetos tratados pelo autor em todo o seu livro e até pode-se dizer que a principal questão de todo o livro é saber se Deus age em prol da afirmação de sua natureza mesma ou da afirmação de naturezas individuais propensas aos mais diversos erros e conflitos. Digo isto porque determinados profetas podem ter agido em prol de determinados grupos políticos dentro do próprio povo judeu para obter favores, pois nenhuma mentalidade esclarecida há de compactuar com o fato de que todos agiam para bem ensinar o povo visando a prática exclusiva do bem e da caridade. Também os milagres, que, como acima dito, são mais propensos ao fantástico, podem ter servido à falsificada visão do Divino que ainda hoje perdura em algumas seitas nascidas das interpretações dos vários textos bíblicos as mais errôneas. Tudo leva a crer que a ignorância dotou certas mentalidades a crerem no que de mais absurdo há na Bíblia, absurdos que negam as leis naturais e a própria luz natural do entendimento e conhecimento humanos, uma obra efetuada por indivíduos que sequer sabem o que Deus é em verdade, no entender de Espinosa e no daqueles que verdadeiramente sabem pensar.

As evidências são bem claras quanto ao predomínio do falso e irreal no conteúdo das profecias e dos milagres. Retornando a um ponto observado bem acima, quanto aos verdadeiros autores dos livros bíblicos que mais contém profecias, indaguemos: e se tais livros foram escritos tempos depois da ocorrência de determinados fatos e estes fatos foram postos nos lábios de profetas que, possivelmente, sequer trataram do assunto, posto que os mesmos seriam iguais a Deus se lhes fosse proporcionado o dom de visualizar as coisas futuras? Quanto aos milagres, também indaguemos: e se alguns não foram, simplesmente, fenômenos naturais que a Medicina, a Física, a Química, a Biologia e as mais diversas ciências atuais podem explicar ou todos, sem nenhuma exceção, foram inventados exatamente para adicionar uma cega credulidade a já cega religiosidade dos ignorantes daquele tempo e dos tempos posteriores? Isto é o que Espinosa não diz nos capítulos aqui tratados e em todo o livro: a mentira pode ter sido a mãe da maioria dos fatos tidos como divinos, seja por motivos de dominação da parcela ignorante do povo, seja por motivos que encontram na Política a sua explicação. Os dons divinos não seriam assim desperdiçados a todo momento e a todo instante em prol de interesses que claramente são egoístas, irracionais e preconceituosos, como se a Divina Providência se encarregasse de exponencialmente direcionar todos os recursos da natureza de tudo que há na Terra para prover de capacidades sobre-humanas um indivíduo que realizasse obras proféticas ou miraculosas que o fariam igualar-se a Ela. Falar assim em termos quase bíblicos é necessário, posto que o próprio Espinosa fala ao modo bíblíco e falar de outro modo acerca de profetas, profecias e milagres, quer sejam estas puras mentiras ou relativas verdades muitíssimo mal-interpretadas pelo vulgo, é inescapavelmente necessário. Ele não foge da sincera e singela racionalidade em nenhum momento, não é uma alma vulgar a propor um vulgar exame de assuntos que dizem respeito a um exame filosófico sério. Na compreensão atual dos profetas, das profecias e dos milagres, à luz de toda a espinosista maneira de filosofar, há que se duvidar da dita presença divina em toda a complexidade que esta apresenta no que de sério e nada fantasioso há na Bíblia. Está fora do propósito filosófico explicar o Divino em toda a sua primorosa realidade e realização dentro das limitações impostas pela humana mentalidade, mentalidade esta muito pequena se comparada ao que se encontra nas esferas mais impossibilitadas de serem tocadas pelos humanos pensamentos e pelo próprio Pensamento Humano. Tudo o que se diz de Deus no conteúdo bíblico estudado por Espinosa para a escrita dos capítulos tratados neste texto é uma aproximação incorreta do Inefável feita por mentes atadas ao fatalismo, ao determinismo e à idéia de “predestinação divina”. Mentes que muito bem poderiam ser relatoras dos mais fantásticos livros ficcionais e não dos mais profundos conteúdos que nem mesmo a Filosofia ou a própria Religião podem explicar com a mais correta convicção de estar a tratar de verdades isentas de contaminações com o que é meramente fantasioso. Afirmar isto não é ser anti- religioso e nem anti-filosófico, pois é de praxe até mesmo alguns estudantes de Filosofia arrogantemente pensarem que a mesma é capaz de alcançar o que vai para muito além do entendimento humano. Afirmar a limitação da Filosofia para assuntos da divina natureza é ser filosoficamente autêntico e este texto a examinar três capítulos do tratado espinosista buscou a autenticidade desde a sua primeira linha. O que está a ser dito agora pode ser até contrário ao crido por Espinosa e tratado em sua obra filosófica; porém, creio que cegamente concordar quando ele diz que somente a Religião pode explicar fatos encerrados na esfera divina é precipitado e nada condiz com mentes que guiadas são pelo poder de indagar. Sendo contundente no mais extremo possível do extremismo, uma última afirmação faço: profetas, profecias e milagres são assuntos que deveriam ser tratados sendo dos mesmos retirados qualquer aproximação com a Filosofia, com a Religião e, até mesmo, com a Bíblia, porque o alcance de suas reais proporções estão mais para o terreno literário de livros nos quais os delírios mais fantásticos são aceitos como as mais altas concepções de mais altos pensadores pela Humanidade.

Moisés seria um excelente personagem de Tolkien e a ressurreição de Lázaro caberia bem em um livro de Stephen King. Estas são apenas duas amostras do que afirmo, com toda a propriedade, acima, alicerçado na possível inautenticidade de tudo que foi analisado por Espinosa e que apresenta-se na Bíblia. Além de ser no livro um ferrenho inimigo da superstição, ele pode ser visto como um pensador que procurou dar aos seus leitores, no mesmo livro, uma opinião própria acerca do que pode ser verdadeiro ou mentiroso na Escritura. E, o que é mais comum nos capítulos primeiro, segundo e sexto do Tratado Teológico-Político (os quais, sem dúvida nenhuma, são os capítulos centrais da parte do livro na qual Espinosa trata da análise racionalizada da Bíbilia) é, exatamente, essa preocupação em tornar a leitura algo instigante e inspirador de opiniões próprias e, não apenas, uma leitura fatigante e irrisória que leve todo aquele que lê à mais tediosa das experiências de estudo, contemplação e análise. E, através dos tempos, cada opinião sobre os objetivos deste livro de Espinosa enriquecerão ainda mais a sua já rica essência e qualidade, sem deixar de, como neste texto, apontar seus eventuais defeitos e limitações, mais particularmente, em relação aos capítulos supracitados. Opiniões que, assim como para Espinosa, terão sempre como mãe esta grande divina propriedade criadora dentro do espírito de todo aquele que verdadeiramente sabe pensar: A RAZÃO.

Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais.

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