Tudo o que não existe


"(...)Quem, com efeito, aceitar indiscriminadamente como doutrina universal e absoluta sobre Deus tudo o que vem na Escritura, sem identificar com cuidado o que nela está adaptado à compreensão do vulgo, será impossível não confundir as opiniões deste com a doutrina de Deus e não abusar da autoridade da Escritura, apregoando como ensinamentos divinos o que não passa de invenções e caprichos dos homens.(...)"1



Mais específico do que Espinosa, pode-se encontrar atualmente outro indivíduo, no meio intelectivo, preocupado com a Existência ou não de Deus que tenha tal mentalidade tão aberta e esclarecida acerca de verdades inerentes a diversos tipos de crendices as mais estranhas? Crer cegamente significa embrutecimento da razão, desvencilhamento da noção correta da realidade mais prática, introdução na errância plena interpretativa até mesmo dos menores fatos e total entorpecimento dos sentidos diante do que os olhos imaginam como algo que TALVEZ venha a ser. Noções absolutas amparadas por dogmas, teológicos ou filosóficos, sociais ou políticos, científicos ou religiosos, não estão ambientadas no sentido mais exponencialmente produtor de pensamentos criadores e geradores de concepções que TALVEZ possam determinar uma visão um tanto quanto racional de algo ou muitas coisas que possam fugir da normal ambientação da racionalidade. É possivel ao ser humano desvencilhar-se das amarras de qualquer autoridade, seja esta orientada pela Bíblia, pela Torah, pelo Alcorão ou por qualquer outro livro que se julgue sagrado, quando nada neste mundo pode se dizer sagrado se não possuir em si uma autêntica marca do Divino. E como se poderá saber que, neste mundo, algo tenha em si a marca do Divino? Com muito mais do que o coração, com muito mais do que o espírito, poderemos estar cientes do que tenha divinamente em si as características que jamais serão encontradas em coisas humanamente erguidas sob os mais frágeis valores, fatos e acontecimentos. É fácil crer em um "Deus" que seja "bom", "fiel", "amigo", "amoroso"; mas, sabemos realmente os verdadeiros significados da Bondade, da Fidelidade, da Amizade e do Amor em si mesmos? Quando, um dia, talvez (já que afirmar sobre coisas além sempre corre o risco de cair em terrenos os mais fantasiosos), saibamos verdadeiramente os significados de todas as coisas que moldamos com a mente e os lábios como essenciais à nossa moral e ao nosso instinto de sobrevivência, poderemos Conhecer Deus. Antes, no entanto, desse possível grande dia no amanhã que está por vir, podemos fazer um simples exercício determnativo de Tudo o que não existe acerca do que se pensa de Deus e de suas Manifestações ou Atributos. Em alguns pequenos pensamentos a seguir, poderemos exercer breves meditações, longas ou profundas, dependendo do que você, leitor, venha a atribuir, em sua mente, acerca do que os mesmos possam significar.



1º. Religiões tratam apenas de metade da Verdade, já que esta Revela-Se a cada um de uma maneira diversificada. Querer que todos ou um determinado grupo de indivíduos siga uma receita religiosa qualquer, que talvez tenha funcionado com determinadas pessoas suscetíveis a lavagens cerebrais, é parte de Tudo o que não existe.


2º. Seja lá o que o Divino for para cada um, o mesmo não se importa com o fato de que um dos que nele crêem frequente ou não uma igreja ou um templo qualquer de qualquer religião. Deus está até mesmo entre os piores assassinos e não pode ser contido em cubículos que mais são erguidos por vaidade do que por causa de uma verdadeira fé. Igrejas e templos não salvam ninguém e, se alguém verdadeiramente foi salvo de algo é porque psiquicamente acreditou na melhoria em algum setor de sua vida. Querer obrigar alguém a seguir preceitos humanos puros dentro de religiões cujas inspirações nos fundadores delas foram divinas é parte de Tudo o que não existe.


3º. Pecado? Condenação? Inferno? Pecado é um nome mais bonito para a fraqueza, a humana fraqueza. Condenação é outro nome mais bonito ainda para a consciência pesada de determinadas pessoas. Inferno é um nome muito mais bonito ainda para aquilo que persegue a um indivíduo após este fazer de sua própria vida um encadeamento de fatos terrivelmente caóticos. É da responsabilidade de cada um livrar-se de seus erros e nenhum outro fator externo, como igrejas e templos religiosos vários, fará com que tais erros desapareçam. Crer que se encontrará no líder religioso de uma comunidade religiosa a solução para a reabilitação existencial é parte de Tudo o que não existe.


4º. Deus não é nossa babá, não nos carrega ao colo e nos livra dos males. Nossos esforços pessoais é que devem nos livrar de cada um dos males que imaginamos ser aniquiladores para nós e para os que nos cercam. Sentir isso habilmente movimenta melhor a mente, o coração; pensamentos e sentimentos aprimoram-se, o desespero foge. A verdadeira proteção contra todo o mal está em não darmos nenhum crédito às fantasias acerca de muitos males que possam nos atingir, males que, inúmeras vezes, sobrevivem apenas em nossas mentes. Crer na proteção divina individual em detrimento de todos os demais seres e coisas neste mundo é parte de Tudo o que não existe.


5º. Impessoalidade de Deus é uma chave mais segura de contato com Sua Divina Imagem em determinados atributos do que a crendice em uma "mão" que a tudo envolva no que se refere a determinado grupo humano. Deus não é pessoal, um Deus pessoal é parte de Tudo o que não existe.


6º. Orações, apenas, nada adiantam. Orações, apenas, são paliativos fáceis. Orações, apenas, são muletas. Orações, apenas, viciam e maltratam o íntimo da personalidade de cada indivíduo, já que todos nós temos que ser ativos e não passivos em face a todos os eventos que transformam a nossa realidade e a realidade do mundo. Ficar ajoelhado orando, sempre orando em pensamento ou confiante apenas em palavras decoradas repetitivas é parte de Tudo o que não existe.


7º. Acreditar em Deus é ser livre? Todo mundo é livre para não acreditar em Deus? Não acreditar em Deus é ser livre? Todo mundo é livre para não acreditar em Deus? E se todo mundo for apenas condicionado a crer que é livre para poder não acreditar em Deus? Liberdade, como Espinosa tratou na Ética, é apenas um privilégio de Deus; nós, humanos que aqui estamos cientes das nossas fraquezas e limitações diversas (quando os olhos estão totalmente abertos), somos condicionados por tudo, do alto ao baixo de todas as percepções que temos do mundo e das coisas do mundo. Liberdade, a nossa pura liberdade, quando somos totalmente condicionados desde o berço em relação a tudo e a todos, é parte de Tudo o que não existe.


8º. Livros podem ser queimados de um modo bem fácil. A Bíblia pode ser queimada. A Torah pode ser queimada. O Alcorão pode ser queimado. Qualquer suposto "livro sagrado" pode ser queimado e Deus continuará Sendo, Existindo e Se Manifestando através de seus infinitos atributos. Não há como ser dogmático diante da evolução, todas as coisas modificam-se e toda modificação é feita com a participação de Deus. O que está escrito sobre Deus nos "livros sagrados" é puramente obra humana, obra de humanos escravizados pelas religiões e seus amontoados de crenças e valores que passam bem longe dos divinos terrenos. Em mentes que caminham para a liberdade através do intelecto, a autoridade de qualquer "livro sagrado" é nula; em mentes escravizadas que simpatizam com arcaismos e dogmas, puros desvios do Verbo, dita autoridade é tudo. Para os peregrinos na busca de Deus ou Liberdade, os "livros sagrados" são parte de Tudo o que não existe.


9º. Veneração de imagens que não falam, não riem, não choram; venerações de santos ou espíritos que sequer estão dentro da Divina Verdade; festas religiosas que apenas promovem a humana vaidade; obrigação de ir aos cultos e ritos religiosos: tudo isto é parte de Tudo o que não existe.


10º. O direito religioso refere-se apenas aos âmbitos da organização religiosa a ao qual o mesmo pertence. Querer levar e elevar preceitos religiosos, que, muitas vezes, são meras humanas invencionices interepretativas a partir da Palavra Divina, a defesas de discussões contra homossexuais e demais grupos sociais fora de uma religião, é a mais torpe forma de criminalidade que se possa cometer contra tudo que fora pregado por Jesus acerca de Deus, o qual É Amor. Amor, um dos atributos divinos, e não o ódio que determinados religiosos fomentam contra os que ele dizem estar no 'mundo", como se eles mesmos estivessem "fora do mundo"... Toda essa tola maneira de ser religiosos, tola e insensata, é parte de Tudo o que não existe.


11º. O conteúdo das idéias e das concepções morais acerca do comportamento humano, baseado em conceituações a partir de interpretações livros da Bíblia, é um conteúdo de terceira categoria, inútil e infantilmente debilitado. Não se constrói uma maneira de visão comportamental humana a partir de religiosas visões e nem as religiosas visões servem para a concreta análise da existencialidade cotidiana já que estão sempre na atmosfera da histeria e do fanatismo em muitos casos mais fundamentalistas. Querer enquadrar o comportamento humano do ponto de vista religioso a partir de uma moral suficientemente alijada por este ponto de vista é parte de Tudo o que não existe.


12º. A idéia de Deus e Deus em idéias são duas coisas que se diferenciam em pontos fundamentais. Na idéia de um Deus que seja "Pai" e "Criador" há a visível humana tendência para a dependência psicológica total, moldando uma entidade superior que seja a resposta para toda e qualquer elementar efervescência ou degenerescência existencial. Deus em idéias tais como "formador de todos os homens e de todas as coisas" há o erro no que, em si mesmo, já é um paradoxo: se Ele É, ou seja, se tudo se encontra no que Ele seja, porque haveria de formar algo se, simplesmente, tudo, a natureza, se apresenta imersa em seu atributo de manifestação mais aparente ao humano olhar interno? No total, as duas concepções sequer chegam perto do que Deus, o Verdadeiro Deus, seja, já que se tratam de especulações que perderam seu sentido filosófico e teológico maior, vindo a cair no ridículo do senso comum. As duas concepções são partes de Tudo o que não existe.


13º. O que é Deus, afinal? A pergunta correta seria: O que não é Deus, afinal? E uma pergunta mais sábia ainda: POR QUE QUERER SABER O QUE DEUS SEJA, AFINAL? Mas, as duas perguntas caem no erro da permanência no humano estado de apequenamento diante da não-busca pela Verdade no sentido de eternidade, tal como Espinosa descreve na Ética. Sem um determinado sentido de eternidade nas pessoais buscas por Deus, nada passa a valer dentro da ótica de qualquer indagação, mesmo a mais profunda, acerca Dele. Toda pergunta fora da ótica exclusivamente iluminadora da Eternidade é parte de Tudo o que não existe.


14º. O que nós pensamos ser, afinal, crendo que possamos definir O Infinito por meio de um conjunto de palavras limitadíssimo? A principal idéia mais venenosa dentro da Teologia e, também, da Filosofia, é a da utilização da humana linguagem para falar da divina linguagem. Como não há indivíduos com um direto contato com a divina linguagem para que possam verdadeiramente falar de Deus, o que se escreveu sobre este, até agora, é pura quimera. Se formos crer em Espinosa, Deus ou natureza se assemelha a tudo e a nada, não podendo ser descrito por meras aproximações e nem distancionamentos da esfera das humanas concepções. A Ética mesma é uma obra condicionada pelas pessoais visões de seu autor e apresenta quase uma divina linguagem em seus pormenores e recantos ocultos visíveis aos mais argutos olhares. Portanto, ao falarmos de Deus na humana linguagem, estaremos sempre bem fora da Verdade e dentro de uma tentativa inútil de irmos além do que de humano nos cerca viciantemente. Tentar no Humano falar do Divino é parte de Tudo o que não existe.


E, até mesmo este que vos escreve se submete à mera humana linguagem para falar de Deus. É inescapável, tendo em vista que o Divino se revelou em verdade a muitos poucos seres que caminharam por este mundo. Um pouco do Divino há em Espinosa, nas mas brilhantes assertivas acerca de Deus; no entanto, é muito pouco para tentar definir O Indefinível, o que é algo que JAMAIS nenhum ser humano conseguirá fora Dele. Jesus de Nazaré, no contato de mente a mente com Deus, como escreveu Espinosa no TTP, talvez seja o único Grande Ser que caminhou neste mundo, encarnado, dominando as humanas paixões e afetos, que conseguiu uma fiel apresentação e representação, em humanas palavras, acerca de Deus. Após ele e atualmente o que se vê são as mais vãs tentativas de explicação e detalhamento do Divino, gerando aberrações como os diversos fundamentalismos vigentes pelo mundo inteiro nas seitas que se originam, a cada dia, como doenças venéreas, a partir do Protestantismo original. Revelações a todo o momento nestas seitas e em certas correntes religiosas cujas raízes encontram-se no Cristianismo são alucinações bem próprias de mentes que se condicionam a tentar partir do Humano para o Divino; e o Humano sempre se arrisca a interpretar o Divino convertendo-o, a seu próprio modo, toda a essência Deste. Até mesmo esta explanação é parte de Tudo o que não existe, já que eu mesmo sou um ser humano tentando falar do Divino a partir de palavras finitas, palavras que se findam no exato momento da conclusão de uma linha de pensamento. Uma meta determinada a que se pode aludir aqui é a de ser sempre honesto e é com a honestidade e a sinceridade de um ser humano a combater a própria crônica arrogância que alimento a certeza de estar apenas humanamente agindo aqui por mera pessoal concepção que tenho acerca do Divino. Uma séria debilidade mental atinge determinados líderes reiligiosos que se julgam diretamente "apóstolos de Deus" e defendem as maiores aberrações criminalmente puníveis baseadas mais em seus preconceitos do que na pureza do Verbo; como não tenho mentalmente, que eu saiba, uma debilidade mental qualquer, estou agindo no âmbito do Humano pisando de leve no âmbito do Divino e TALVEZ falando de algo que seja a Este bem próprio, próximo e verdadeiro. Com Espinosa fora assim, tanto quanto fora com Santo Agostinho, Tomás de Aquino, São Francisco de Assis, John Milton, William Blake, Blaise Pascal e todos os grandes pensadores desta Humanidade que se arriscaram, como humanos, nos divinais terrenos. Quanto mais se chega perto de Deus, mais fundo o abismo entre Ele e seus atributos fora Dele se faz; sinto tal distanciamento como um arremesso de mim mesmo em direção a uma interminável estrada... Todos que tocaram de alguma forma em Deus sentiram isso; no entanto, a fé racional de Espinosa é um ponto a favor do mesmo, já que no que os que acima citei tiveram extremamente de emocional, ele teve de extremamente racional, moldando humanamente o Divino em termos que a Razão pudesse tornar de fácil compreensão aos que querem dimensionar seus estudos através da mesma. Falar do Divino fora da Razão ou não mesclar Razão e Emoção ao falar do Divino, em alguns casos (como os poetas, por exemplo), é fundamentalmente um organizado ramo de Tudo o que não existe.

1TTP, cap. XIV, pag. 173



2 Loucas Pedras Lançadas:

Passando pra prestigiar seu trabalho.

E concordo: não se pode confundir vontade divina com vontade terrena.

terza-rima.blogspot.com

Não se pode confundir, mesmo, e nem embaralhar o que é Sagrado e o que é Profano. De toda maneira, a separação evita as mais diversas loucuras imagináveis.