Shiri




"(...) Oito anos após o término da guerra [SEGUNDA GUERRA MUNDIAL], era ainda difícil sondar os objetivos da política estrangeira russa. Sustentavam muitos observadores que o alvo visado pelos Sovietes era nada menos que a conquista do mundo. Em defesa da sua tese, podiam citar a famosa asserção de Lênin: 'é inconcebível que a república soviética continue por muito tempo a existir lado a lado com os impérios imperialistas"1. Podiam também citar Stálin, para quem a frase final do socialismo na Rússia não poderia ser atingida enquanto não se estabelecessem governos proletários em pelo menos vários outros países2. Podiam, outrossim, apontar a declaração do ditador russo, feita em 1926: 'o poder soviético, e só poder soviético, é capaz de arrancar o exército ao comando burguês e transformá-lo, de um instrumento de opressão do povo, num instrumento para libertar o povo do jugo da burguesia, tanto interior quanto exterior"3.

O deflagrar da guerra na Coréia, em 25 de junho de 1950, pareceu confirmar esse modo de ver. Para a maioria dos ocidentais, tratava-se de evidente extensão da guerra fria sob a forma de conflito armado. A luta começou de súbito, quando tropas procedentes da parte setentrional do país, dominada pelos russos, atravessaram o paralelo 38º para atacar a república não-comunista da Coréia Meridional. Por instigação dos Estados Unidos, o Conselho de Segurança das Nações Unidas condenou a invasão como uma 'agressão armada' em franco menosprezo aos interesses e à autoridade das Nações Unidas e intimou os coreanos do norte a que cesassem as hostilidades e retirassem as suas tropas. Os invasores não atenderam à injunção. Dois dias após o ataque, o presidente Truman anunciou que estava enviando auxílio armado aos coreanos do sul. A 7 de julho o Conselho de Segurança autorizou os Estados Unidos a criarem um comando único para as forças das Nações Unidas na Coréia. Pouco tempo depois as tropas norte-americanas entraram em ação, numa vã tentativa de sustar a invasão vermelha. Fracas pelo número e desprovidas de equipamento pesado, foram pouco a pouco encantoadas numa pequena área em redor do porto de Prusan, próximo à extremidade da península. Ali reuniram forças para uma contra-ofensiva. Tão bem sucedidos foram dessa vez os seus esforços que repeliram os coreanos do norte para além do paralelo 38º, tomaram-lhes a capital, Pyongyang, e puseram-se a avançar rapidamente em direção ao rio Yalu. Nos fins de outubro o general Douglas MacArthur, comandante das Nações Unidas, anunciou que a guerra se aproximava do fim e que a vitória completa das Nações Unidas era apenas questão de dias.

Estes sonhos foram rudemente desfeitos quando os exércitos de MacArthur encontraram pela frente gigantescas forças da China comunista que tinham vindo em socorro dos coreanos do norte. Dentro em pouco os opositores da agressão estavam novamente recuando para p sul. Ao findar o ano de 1950 haviam perdido mais de metade do território conquistado durante a contra-ofensiva. A partir de então os dois contendores se alternaram nas retiradas e ofensivas, mas na primavera de 1951 a guerra havia alcançado um ponto morto, com a linha de batalha quase estabilizada um pouco ao norte do paralelo 38º. Em junho desse ano os comunistas fizeram nascer esperanças de uma conclusão próxima do conflito, ao proporem negociações para um armistício. Durante mais de um ano os delegados de ambas as partes lutaram por chegar a um acordo. A principal pedra de tropeço era a repatriação dos prisioneiros. Exigiam os comunistas que todos os prisioneiros fossem devolvidos imediatamente aos seus países de origem, sem que os seus desejos fossem levados em conta. O governo dos Estados Unidos insistia em que a repatriação fosse voluntária, alegando que seria um crime internacional forçar comunistas convertidos a voltar para a Coréia do Norte ou a China, onde seriam certamente fuzilados como traidores. Em outubro de 1952, ao cabo de mais de cem sessões, os representantes dos Estados Unidos suspenderam as negociações do armistício.

As esperanças da terminação da guerra e de uma reconciliação entre Oriente e Ocidente reviveram de súbito em março de 1953, quando Josef Stálin, ditador da União Soviética pelo espaço de 29 anos, sucumbiu a um ataque cerebral e foi ocupar o seu lugar ao lado de Lênin num mausóleu de mármore junto às muralhas do Kremlin. Foi sucedido dentro de 24 horas por Jorg Malenkov, figura dominante nos quadros do partido. Gordo, oleoso, astuto e fleumático, Malenkov mostrou o desejo de modificar certas orientações políticas do seu antecessor. Talvez receasse pela estabilidade do novo regime e julgasse necessário aplacar os descontentes, ou talvez percebesse com mais nitidez do que Stálin que a Guerra da Coréia poderia envolver a Rússia, como aliada da China, num conflito mortal com os Estados Unidos. Fosse como fosse, pouco após a sua elevação ao poder anunciou extensas reduções nos preços dos bens ao consumidor e cancelou as acusações feitas contra quinze médicos judeus de terem tramado a morte de várias autoridades soviéticas. Mais significativa ainda foi a sua declaração, num discurso pronunciado em Moscou, de que não havia, entre a Rússia e qualquer outro país, nenhuma disputa ou questão que não pudesse ser resolvida 'por acordo mútuo dos países interessados'. Em harmonia com essa declaração, endossou a proposta do Ministro do Exterior da China no sentido de que todos os prisioneiros da guerra da Coréia, que 'insistissem na repatriação' fossem devolvidos imediatamente e que outros fossem 'confiados' a uma nação neutra. Pouco depois a Rússia surpreendeu o mundo ao apoiar, com os seus satélites, uma resolução das Nações Unidas que exprimia a esperança de uma rápida terminação do conflito coreano. Esses indícios de uma aparente mudança de política frutificaram por fim num armistício assinado pelos representantes da China, da Coréia do Norte e dos Estados Unidos em julho de 1953. A organização de uma conferência para redigir o acordo oficial de paz foi deixada à determinação da Assembléia Geral das Nações Unidas. (...)"


Edward McNall Burns4



Inomináveis Saudações a todos vós, leitores virtuais.


Para compreender em toda a sua potencialidade essencial o enredo de Shiri, é necessário realizar uma pequena viagem temporal em direção ao passado que ocasionou a separação das Coréias. A Coréia "fez parte do Império Japonês entre 1905 e 1945; a Coréia do Norte converteu-se na 'República Democrática do Povo' (comunista) em 1948. Nesse mesmo ano, a Coréia do Sul estabeleceu um governo constitucional. O norte e o sul se enfrentaram em uma guerra entre os anos de 1950 e 1953, na qual intervieram as Nações Unidas e as forças chinesas e que terminou sem definição"5 No contexto histórico, todos os mais importantes filmes do mundo devem ser posicionados, a fim de uma busca de seus mais profundos sentidos e o alcance de todos os sentimentos verdadeiramente evocados. Mais do que uma história com ação, Shiri possui, entre os vários tiros e as várias mortes encontramos uma forte presença da História Coreana Contemporânea em seus efeitos diretos no mesmo povo dividido em dois Estados que até hoje continuam em um tenso conflito, ainda que as armas não sejam em ação postas. É uma história que fez sucesso na Coréia do Sul à época de seu lançamento, no ano de 1999, tocando em pontos da consciência dos sul-coreanos. Toda a mais recente história de um povo se concentra na essência deste filme, cuja densidade alimenta a sede de qualquer interessado em História. Aliando Política e Terrorismo, ainda parte para a abordagem acerca de ideais, lealdade, amizade, comprometimento, missão existencial e amor, sim, o amor entre os protagonistas que, ao fim da obra, por força dos respectivos lados nos quais estão, tornam-se antagonistas. Os dois personagens principais, Lee e Hee, são figuras metafóricas que representam os coreanos do norte e do sul, irmãos raciais obrigados a viver e sobreviver determinados e condicionados pelos movimentos políticos dos respectivos regimes de seus países. Para quem não conhece este grande filme, farei, a seguir, um resumo da sinopse do mesmo.


Lee Bang-hee é a mais perigosa e letal terrorista norte-coreana, realizadora dos mais sofisticados e eficientes atentados na Coréia do Sul. Caçada há cinco anos por Yu Jong-won (Han suk-kyu) e Lee Jang-gil (Song hang-ho), é uma figura que aterroriza as forças policiais e militares sul-coreanas. Quando uma perigosa nova arma é desenvolvida por cientisats sul-coreanos e roubada pelo grupo terrorista à qual Hyun pertence, a corrida para prendê-la e a todo este acelera-se ainda mais. Como deter a maior dos terroristas já enfrentados pelo país? Como impedir um atentado que pode iniciar uma guerra fratricida entre as duas Coréias?


A base da história é a que acima foi exposta, mas Shiri vai muito mais fundo e vai ao âmago da problemática toda que envolve a separação da Coréia em dois países que até hoje não chegaram a um definitivo acordo de paz. Muito mais do que um joguinho de bandido e mocinho tão comuns a séries e filmes produzidos nos Estados Unidos como CSI, Law & Order, Duro de Matar e Máquina Mortífera, a produção sul-coreana pode ser vista como uma produção de sentido histórico ambientada em um tenso panorama político-social. O mesmo país, dividido em dois, encara-se em uma trágica concepção de riscos e descontroles de ambas as partes, como em um jogo de xadrez entre desequilibrados que se encaixam em um falso equilíbrio. Desequilibrados exatamente porque o sangue coreano é o mesmo de ambas as partes e é irracional a medida através da qual o contato entre os dois lados determina-se atuante há décadas. O filme expõe as s desequilibradas fraturas expostas, feridas profundas e hematomas d'alma coreana, consequências da não-resolução do caso do separatismo ocorrido no passado devido aos conflitos entre o Socialismo e o Capitalismo na conquista de melhores posicionamentos do mundo.


O monstro sobrevive ao tempo, ao fim da Guerra Fria, ao fim do Socialismo como uma boa via de condições estabelecedoras da fundamentação de uma mais justa condição de vida para todas as classes menos favorecidas e é bem capaz de sobreviver ao atual colapso do Capitalismo se não houver bom senso da parte dos governantes das duas Coréias. Não há a divisão simplória entre sul-coreanos e norte-coreanos, apenas; nem entre bons e maus; corretos e errados; heróis e vilões. Ambos os lados, em desequilíbrio, são forças que se neutralizam e isso, a meu ver. Sob a perspectiva de qualquer crítico cinematográfico as fortes tendências políticas do filme talvez sejam favoráveis ao "lado correto", no caso, o sul-coreano; no entanto, sob a perspectiva deste Inominável Ser que aqui vos escreve, nenhum dos lados é o correto e nem o errado, já que a lógica principal do conflito descrito no filme é a da busca da manutenção de uma determinada forma de força ou poder. A Coréia do Norte se mantém no poder de ser a ocasionadora dos eventos que aceleram o crescimento da Coréia do Sul como uma grande potência econômica; por manipulação política, os dirigentes das duas Coréias moldam para o mundo ocidental receptivo a toda e qualquer visão simplificadora de um grande problema social, político e econômico, visões que afirmam, confirmam e rejeitam os mais diretos e viáveis explicativos caminhos em conflito naqueles países.


O Terrorismo Militarizado advindo da Coréia do Norte e mostrado no filme é uma consequência natural das manipulações políticas dos dois lados. O Terrorismo Político da Coréia do Sul é a demonização do norte, tendo em vista a orientação precisa da exploração do governo norte-coreano como fundamentador de todos os males do sul. O diretor do filme não toma partido explícito de nenhum lado, apesar de, aparentemente, o final do filme tender para a Coréia do Sul. Não há um vencedor direto e nem indireto de todo o banho de sangue presente nas cenas de maior impacto do filme, apenas perdedores e uma falta de sentido total na guerra que há, fria, no mundo real, entre o sul e o norte, desde o fim da Guerra da Coréia cujos motivos e acontecimentos principais foram relatados no texto citado acima que iniciou este post. Por si mesmo, aquele texto fala das origens do problema coreano de difícil resolução, ainda mais se tratando de uma política que incrementa ainda mais dados conflituosos dentro de toda a perspectiva de contatos entre os dois Governos. Shiri não possui uma conclusão feliz ou a tentativa do alcance de qualquer pensamento maior de resolução do que se arrasta há décadas, causando sofrimentos em todo o povo coreano, o qual não se divide entre nortistas e sulistas e, sim, apenas em um povo.


Os olhares dos personagens nas cenas mais tensas do filme revelam a dor que apresenta-se silenciosamente em toda a nação coreana. É um filme emotivo sem ser piegas e dramático sem cair na fácil apelação para o aprofundamento em mares de lágrimas. Dando o seu recado de modo simples e especificamente orientado para reflexões as mais vastas, Shiri é um filme totalmente diferente do estereótipo comum dos filmes de ação. Para quem procura mais do que sangue sendo pela tela derramado, é um filme que fica marcado como um dos grandes eventos cinematográficos do Cinema Coreano, o qual vem se tornando, com o passar dos anos, plenamente rico em produções de conteúdo inegavelmente sublime. A Arte Cinematográfica é capaz da realização de milagres; quem sabe, um dia, algum filme inspirado por este venha, de vez, a iniciar uma profunda reflexão em toda a Coréia acerca do erro em manter-se dividida e em uma constante caldeira de tensões?


Saudações Inomináveis a todos vós, leitores virtuais.


DADOS


Direção Kang Je-gyu
Produção
Byeon Moo-Rim,
Lee Kwan-Hak
Roteiro
Kang Je-gyu
Elenco
Han Suk-kyu,
Choi Min-sik,
Kim Yoon-jin,
Song Kang-ho
Música
Lee Dong-Joon
Cinematografia Kim Seong-Bok
Edição
Park Gok-ji
Distribuido por
United States:
Samuel Goldwyn Films (theatrical)
Destination Films (all media)
Lançamento
February 13, 1999 (Kr)
2002 (North America)
Duração
125 minutes
País
South Korea
Linguagem Korean
Lucro
US$ 8,500,000 (est.)



1Collected Works, vol. XXIV, p. 122.

2Problems of Leninism, p. 64.

3Leninism, vol I, pp.120-121.

4História da Civilização Ocidental, vol. II, pp. 977-79

5Atlas da História Universal – The Times, p. 289



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