Tudo o que existe


Ética, Parte I.


Proposição 15. Tudo o que existe, existe em Deus, e sem Deus, nada pode existir nem ser concebido.



O Creado se faz presente nas atribuições ordenantes das várias vestes do Creador, Aquele Que É O Que É. Oriundo de Si é o manifestar e o não-manifestar, a semente da aurora das extensões e das expansões. Ele, O Espaço, é o feminno que inspira e o masculino que aspira, Entidade das Entidades, Essencialidades das Essencialidades. Seu Verbo conjugado diversas vezes é uma orquestra especialmente dotada das mais diversas notas distantes das mais humanas formas. Sendo humanos, como podemos antecipar qualquer aspecto do Verbo dentro de nós? Antecipar ao modo de moldarmos uma explicação para as manifestações e as não-manifestações dentro de nós do que caracteriza cada propriedade verbalizante da nossa existência? Seriamos iguais a Deus e não somos caso fossemos capazes da proeza de desvelarmos em nós inteiramente o Verbo em todas as suas máximas Conjugações. Digamos que um ser ou um grupo de seres seja capa de Conjugar o Verbo conforme as suas limitações várias, já que apenas Deus, em sua infinitude, teria em si os caminhos conjugantes de Seu próprio Verbo. Dito ser ou grupo de seres seria capaz de Crear, semelhante ao Absoluto E Supremo, o Único Creador, que de Si mesmo manifesta cada uma das coisas fenomenicamente por nós observáveis. Não existe outro a conceber e, se existisse, seria um engodo fantasioso de mentes que se propusessem a seguir tal concebedor. Não há diversas origens para todos os tipos de coisas observáveis em nós e por nós, há apenas Deus a nos conceber e a ativar em nós a intuição, o terceiro gênero de conhecimento conforme Espinosa, de que existimos Nele sem sermos o que Ele É quando logicamente somos dotados de uma mente propensa a alcançar qualquer maior expansão.

Se somos manifestações divinas podemos ser Deus? Não, nós, seres humanos, não somos Deus, estamos imersos na Natureza como atributos de Deus, pequenas manifestações sensíveis da Grande Manifestação Onisciente, Onipresente E Onipotente. Se fôssemos Deus, teriamos a Onisciência, a Onipresença e a Onipotência e seriamos pequenas infinitudes dentro da própria Infinitude Suprema; logicamente sendo absurda tal idéia ou suposição, passamos infinitamente longe da Onisciência. Sensivelmente, podemos sentir a presença divina em cada ato que se apresenta ao nosso olhar tão limitado e pousadamente isentos de qualquer irrealismo exalamos de nós mesmos o divino. Sentir o divino é o mais simples dos humanos caminhos, o mais desconhecido dos humanos sentidos e o mais sincero modo de descobrirmos em nós a centelha divina que é A Presença. A Presença que foi sentida em toda a sua pureza apenas por Jesus, este sim imerso em Deus e que aos que sabem realmente ler revelou uma possante verdade:



"Vós sois dos domínios de baixo; eu sou dos domínios de cima. Vós sois deste mundo; eu não sou deste mundo."1



Sendo daqui deste mundo, não podemos afirmar levianamente que somos Deus e Espinosa, em divina inspiração, jamais abordaria uma mentira como esta ao modo de uma verdade a mais plausível e incontestável. A acusação de panteísmo da parte dos que incompreenderam a proposição 15 da Parte I da Ética nasce mesmo da crônica ignorância de algumas correntes religiosas, cujos membros, alguns, sem nenhuma forma de análise da Ética como um todo, conseguiu esclarecimentos mais profundos acerca daquela. Acerca deles, do tipo de crente em Deus ignorante que muito erra acerca das explicações da existência e presença do próprio Deus neste mundo, Espinosa fala o seguinte no TTP:



"Certamente que, se eles tivessem uma centelha que fosse da luz divina, não andariam tão cheios de soberba idiota e aprenderiam a honrar a Deus e distinguir-se-iam uns dos outros pelo amor, da mesma forma que agora se distinguem pelo ódio. Nem perseguiriam com tanta animosidade os que não partilham das suas opiniões; pelo contrário, sentiriam piedade deles (se é, de fato, a salvação alheia e não a própria fortuna que os preocupa). Além disso, se realmente tivessem alguma luz divina, ela se veria pela sua doutrina."2



Se a luz divina, na época de Espinosa ou nesta época contemporânea, pousasse sobre as mentes de determinados membros de determinados segmentos religiosos oriundos das palavras contidas no Antigo e no Novo Testamento, certamente ditas mentes encontrariam a nulidade da crença de que nós somos Deus. "Tudo o que existe" é tudo que a mente divina imagina como parte de toda a Criação e, manifestando seus infinitos atributos, o Creador, para quem não há limites e empecilhos, faz jorrar a Sua substancialidade por toda a parte. Como seria se todos nós, mentes limitadas, fossemos como Ele, manifestando nossos próprios humanos atributos infinitamente? Caoticamente confuso o mundo se tornaria, seres limitados gerando infinitamente coisas infinitamente limitadas e propensas ao império da efemeridade. É ridículo, até, pensar em tal tipo de obscurecente imaginação, tanto por sua incapacidade de ser levada a sério quanto pela sua ineficiência em tentar ser levada a sério. Mas, por um momento, sigamos o pensamento ignorante passo-a-passo em relação ao Panteísmo, uma aberração tida como "real" da parte de alguns críticos, até mesmo nada religiosos, do espinosismo. Vamos imaginar que somos Deus, que somos infinitos como Ele, mesmo possuindo nossos defeitos vários e a maior tendência para a prática de atos vis do que honrosos e desprovidos de intenções genuinamente egoistas. Dentro de nossas capacidades infinitas, perceberíamos que tudo no mundo e em outros possíveis mundos melhores ou piores do que o nosso mundo merece passar por uma reforma geral. Entes infinitos, claramente, não necessitam de agrupamentos para chegar a um consenso após discussões e análises dos diversos parâmetros de um mesmo problema, e cada criatura Onisciente, Onipresente e Onipotente quereria solucionar cada problema à sua maneira traçando o seu próprio Plano Diretor. Um, se sentindo melhor do que o outro, manifestaria seus atributos por um infinidade de mundos de um modo infinitamente incalculável; outro, vendo que ainda há imperfeição em determinados pontos dos mundos infinitamente tocados por aquele, faria a seu modo as modificações necessárias para o alcance da perfeição, que é o objetivo de cada Ente infinito no contexto desta metafísica especulação; mais um, vendo que tanto o primeiro quanto o segundo Ente infinito não foram eficientes na aniquilação da imperfeição pelos mundos, se encarregaria da manifestação de seus próprios infinitos atributos na busca da Perfeição, esta Senhora tão buscada e sonhada por tudo que, nesta metafísica especulação, infinito é; e, infinitamente, os Entes infinitos que são Deus, nesta metafísica especulação, infinitamente se alternariam ou, ao mesmo tempo, manifestariam seus infinitos atributos pela Criação.

Involução, estagnação ou destruição de tudo na Criação inteira seria o óbvio resultado de tal disputa pela Perfeição se todos nós fossemos Deus. A Perfeição pertence apenas a Um Ser por este motivo, já que outro Ser possuindo as mesmas características do Um ou vários Seres possuidores de tais características tornaria a Existencialidade um túnel que se direcionaria ao fim determinado de cada coisa objetiva e subjetiva na Criação. Nós não somos Deus por este motivo: somos manifestações bem pequenas dos atributos mais altos de Deus, Entes finitos propensos à eterna finitude relacionada e própria à materialidade. Se Deus tivesse dado a qualquer um de nós tudo Aquilo Que Ele É não seria Deus e, sim, apenas mais um Ser finito, imperfeito e falho como qualquer um de nós que, sendo o primeiro dos Entes infinitos de uma possível realidade povoada apenas por Deuses Oniscientes, Onipresentes E Onipotentes, daria a seus filhos igualmente infinitos as mesmas infinitas capacidades que possuiria em Si mesmo. A Divindade Suprema é Sábia, de uma Sabedoria isenta de irrealizações e apresentável em toda fértil forma de aplicação da sua essência ou ato de Ser, É Perfeição, um de Seus nomes muito amplamente divulgados através das maravilhas perceptíveis pelo nosso humano olhar dentro da própria natureza que nos rodeia. O Panteísmo, em Espinosa, como dito acima, é uma aberração crida por mentes que realmente estão fora de qualquer compreensão possível de "Tudo o que existe", mentes ainda não-iluminadas pela luz interior de uma consciente realização intelectual racionalmente isenta de errôneos percalços infectados pelos mais diversos perceptíveis abortos determinados pelas naturezas de pensamentos anti-filosóficos e anti-teológicos. Falar a favor de uma filosofia como esta, no entanto, não é meramente seguir-lhe cegamente os passos; igualmente, falar de uma teologia concernente a conceitos mais supersticiosos do que coerentes com a razão não é bem próprio de uma análise como está. Até aqui, a linguagem foi bem longe, alçando vôos quebradiços por condicionadas concepções mais parecidas com místicos devaneios do que com "Tudo o que existe", ou seja, com todas as coisas perceptíveis ao nosso mero humano entendimento limitadíssimo. Falar de um Deus transcendente e de um Deus imanente não basta, apenas, para que tudo se afigure possível de ser belo enredo do alcance de algum tipo de concórdia para toda a problemática a envolver dito Deus. Partindo da filosofia espinosista, lhes pergunto sinceramente: somos movidos pela vaidade quando nos aprofundamos acerca de Deus ou pela sincera fé racional tão inquestionável no autor que inspira estas palavras e as vossas palavras? Se nós somos filosoficamente limitados até hoje, a culpa principal está no fato de que não exercemos, ainda, a plenitude de nossa liberdade intelectiva, liberdade esta tão apregoada ao final do TTP e que constitui a essencial maneira de nos livrarmos das venenosas amarras do senso comum. Se nós somos teologicamente ridículos até hoje, considerando a Divindade Suprema como nosso amiguinho fiel ou nossa babá, é porque não nos livramos das limitações impostas pelas religiões monoteístas que sufocaram as tão interessantes religiões politeístas. Pelo menos, estas reconheciam nos diversos Deuses, a meu ver, todos os tipos de manifestações do que cada uma considerava como "Pai dos Deuses", sendo quase infindas as diversas interpretações possíveis aos que realmente sabiam no que estavam a acreditar e não apenas fanaticamente adorar como fazia o vulgo (e como fazem os adoradores cristãos do tempo contemporâneo). Abro mão, aqui, pela primeira e não única vez nesta obra, da linguagem mística-transcendentalista e lhes convido a navegarmos em mares que estejam disponíveis aos nossos pés, descendo lá de cima e nos situando aqui no reino de baixo tão cheio de contradições e arraigados erros motivados pelas nossas limitações todas.

Deus foi sempre compreendido de um modo muito temoroso da parte dos que trataram de definir-lhe conforme suas limitações tão vastas. É até risível tentar citar o quanto, ainda, de absurdos são ditos acerca de Algo que, realmente, não necessita ser explicado porque é exatamente O Inexplicável. Mas, nós, seres humanos, somos teimosos, vivemos tentando saber mais acerca de Deus, acerca de Sua Essência e acerca de Sua Existência enquanto que as nossas próprias essência e existência, em seu todo, ainda nos são completamente desconhecidas. Saindo do altar da nossa humana arrogância, nasceu mesmo a pergunta acima, sobre se buscamos Deus por pura vaidade ou por causa de uma fé racional. Muitos dizem com relação à fé que esta não pode ser racional; mas, por exemplo, é racional crer que o mundo foi criado em sete dias? É racional crer que um Ser definido como bom seria capaz de incitar o massacre de diversas tribos, como fizeram os judeus no caminho até a "Terra Santa"? É racional crer que Deus seja uma pessoa, a qual se possa dar a qualidade de fidelidade? É racional crer que Deus seja uma pessoa, a ponto de dar a tão falada qualidade tão humanamente condicionada interpretativamente como bondade? Deus não é uma pessoa. Deus não é bom. Deus não é mau. Deus não é fiel. Deus não é infiel. Deus É, simplesmente, sem a necessidade de estar dentro dos limites tão humanos da tão humana intelectualidade. Deus, apenas uma das infinitas Manifestações da Grande Unidade Creadora, um dos infinitos atributos da Unidade, chega a ser apenas a humana interpretação de uma Revelação que perdeu muito de sua originalidade conforme foi sendo estudada através dos tempos por homens de diversas índoles e personalidades. A Unidade é muito mais do que o mero nome "Deus" ou qualquer outro possa conter, é "Tudo o que existe" e foi o que Espinosa apresentou na Ética, se esquecermos aquele nome e nos conectarmos com o que transparece, de modo oculto, na linguagem geometricamente velada por trás dos axiomas, dos postulados, das demonstrações, dos escólios e dos apêndices das cinco partes da obra. Convém saber se Espinosa fala ou não da Unidade? Sim, convém, pois A Unidade é exatamente tudo aquilo que, sob o nome "Deus", está presente naquela obra máxima da Filosofia Universal. Convém especular assim tão alto, indo contra toda uma tradição interpretativa da filosofia espinosista? Sim, convém, já que este livro não é de estagnação, é de evolução, mas uma evolução que molda evoluções em pensamentos voltados para a divina coragem de ir bem mais além do que o próprio autor da Ética foi. Convém ser assim tão pretensioso falando de uma "Unidade" que mais se refere aos místicos mais silenciosos do que aos religiosos tão escandalosos do mundo contemporâneo que em sua maioria são fanáticos fundamentalistas? Sim, convém, já que a liberdade de pensamento, a realização desta liberdade e a ação realizadora de uma tão sincera afirmação como a feita acima é exclusivamente senhora de uma propriedade que, mesmo contestada, não pode ser apagada. Então, o que se esteve buscando até hoje? Uma parcela, apenas, de Algo Bem Maior. O que é Aquilo que se chama Deus? Infinitamente, uma parcela, de Algo Muito Mais Infinito. Que É essa Unidade? Tudo o que pode existir. Tudo que está existindo. Tudo que ainda existe. Tudo que vai existir. "Tudo o que existe". O que é esse "Tudo o que existe"? Pode -se ter a noção de "Tudo o que existe"? Pode-se chegar ao alcance de "Tudo o que existe"? Pode-se notar toda a amplitude de "Tudo o que existe"? Sim, pode, se todos nós fôssemos Um. Mas, somos Muitos. Somos Múltiplos. Somos separados Daquilo que se Revela a muitos como Deus e se multiplica em diversas outras Manifestações. Então, do que estamos, afinal falando? De uma coisa que nunca conheceremos? De uma coisa que se esconde porque não podemos conhecê-la? De uma coisa que, por si mesma, é tão absurda e fora do nosso limitado alcance tanto espiritual quanto intelectual? Estamos falando de "Tudo o que existe". Nunca conheceremos A Unidade se não nos sentirmos Um com "Tudo o que existe". A Unidade não se esconde, Ela é "Tudo o que existe". A Unidade é absurda enquanto continuarmos a pensar em termos humanamente limitadores e, se deixarmos de lado, apenas por um momento, a pecha de limitados seres, poderemos alcançar, de diversificadas maneiras, "Tudo o que existe". A linguagem mística-transcendentalista disse, acima, que largaria, mas ela retorna mais cedo do que eu esperava, é algo bem natural, nada tendo de forçosamente senhor de alguma necessidade de ser misticamente transcendentalista por imanente vaidade pessoal. O que isso significa? Estou escrevendo sem ter a noção do que escrevo? Estou exercendo um ridículo papel de pseudofilósofo? Estou atuando no ridículo papel de pseudoteólogo? Isso significa "Tudo o que existe". Escrevo sobre "Tudo o que existe" e por isso tenho uma noção do que faz ultrapassar todos os humanos limites, pelo menos, através da escrita. Isto não é uma filosofia. Isto não é uma teologia. Isto é "Tudo o que existe".


1João 8: 23

2TTP, Prefácio, pag. 10

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