Poesia E Loucura: Um Exame Da Arte Poética A Partir De Uma Poesia Inominável - Parte II




Imito o vôo máximo

Dos nobres pássaros

Quando em meu rápido

Momentâneo pensamento

De pequeníssimo rato

Acho que sou algo.

Imito aqueles vôos,

Vôos dos nobres pássaros,

Fazendo das tristezas aladas

Que pousam em mim

As riquezas prezadas

Pelo bater gritante

Das minhas asas.

Imito os vôos,

Uma música,

Uma voz,

Roads,

Beth Gibbons,

Estou em um vôo,

Estou estou estou estou estou

Recolhendo meus muitos

Cadáveres momentos sonoros

Voando voando voando voando

Pelos pequenos campos,

Pelos grandes tempos,

Pelos médios templos.

Imito o vôo,

Sou imitação do meu

Próprio vôo,

Não tenho aqui neste

Maldito mundo

Um ninho verdadeiro...

Imito...

O vôo...


02 de junho de 2006


Quem ouviu, alguma vez, a voz de uma Musa jamais esquece-se da sensação, a mais imortal, que se fixa n'alma... Beth Gibbons, vocalista do Portishead, cantando Roads, foi o fundo musical para a criação do poema acima... Sonhos em estradas altas... Sonhos em estradas baixas... Sonhos em todas as demais estradas... O sonho para o pouso mais seguro, no entanto, fica distante, bem distante, muito distante... Voar... Voar... Voar... Voar como pássaro já morto... Voar como nuvem inexistente... Voar como destinado à queda sempre... Em um mundo de vôos que nunca encontram um ninho verdadeiro, os poetas e as poetisas encontram-se muito perdidos, ouvindo sons estranhos aos sons que nos momentos criativos costumam ouvir. A sanidade sonora jamais fez bem aos filhos da Deusa Poesia, a dor da loucura, a loucura da dor e todas as mais loucas dores fazem parte do enredo criativo poético. Sem essas características, um poeta não seria um poeta e uma poetisa não seria uma poetisa; estariam eles no mesmo enxame, no mesmo rebanho, dos não-poetas e das não-poetisas. Os não-poetas e as não-poetisas encontram um ninho verdadeiro, sempre, porque acomodam-se, são parte do rebanho, são ovelhas seguras de que o melhor terreno para elas já está preparado. Eles encontram-se em suas alegrias e festividades pré-fabricadas, não se incomodam com nada, não percebem as sutilezas em redor e nem tocam nas paredes de casas verdadeiramente férteis... Ser um poeta ou uma poetisa em um mundo como este é ser um pássaro sem ninho, os poetas e as poetisas jamais serão do rebanho, jamais serão ovelhas, jamais serão do gado porque é o incômodo mais íntimo que os leva a poetizar. Poetizo incomodado com tudo que percebo, vejo e sinto; se você é um poeta ou uma poetisa, deve, incomodado, escrever, escrever, escrever seguidamente, seguidamente, seguidamente... Voamos, nós, filhos da Deusa Poesia, acima do rebanho... Voamos, nós, filhos da Deusa Poesia, acima das ovelhas deste rebanho... Voamos, nós, filhos da Deusa Poesia, acima do gado comum de qualquer esquina que se felicita com as mais tolas coisas consideradas, cegamente, como grandes coisas... Temos a Deusa Tristeza como uma irmã da Deusa Loucura que nos motiva a continuar poetizando, sem encontrarmos nunca o nosso ninho mais afável em meio a tantos ninhos estranhamente dotados de pássaros que já receberam, há muito, o seu quinhão no solo, no ar e no mar terrestres. Seguimos as Vozes Das Musas... Musas como Beth Gibbons... Musas como Afrodite... Musas como Safo... Musas como Florbela... Musas como Eva... Musas como Lilith... Musas como Maria... Musas como Talia... Musas como Hermione... Musas como todas as Musas Da Criação... Musas como A Unidade... A Unidade, um ninho que nós, os filhos da Deusa Poesia, enlouquecidamente buscamos... A Unidade, um ninho desejado... A Unidade, um ninho muito desejado... A Unidade, O Ninho Verdadeiro De Toda Poetisa E De Todo Poeta!


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