CREDO QUIA RATIO EST - A Racionalizada Fé De Espinosa - Introdução




Um mecanicismo ditador de uma determinativa conduta dos parâmetros reguladores da fé não fazem parte da transmissão das palavras divinas aos que, fervorosamente, acreditam no poder de Deus. Não há mecanismo capaz de decifrar o poderio de uma verdadeira fé e nem outro que possibilite medir a extensão exata da latitude e da longitude definidoras dos caminhos através dos quais a fé movimenta-se. Deus age a favor dos que não pensam na marca delimitadora que a Humanidade moldou para a tudo tentar decifrar e medir como se a profunda realidade da humana vida se complete e desenvolva através de cálculos matemáticos simples ou complexos atentando-se aos mais comuns fins. Deus não funciona como uma máquina e nem possui as humanas emoções que pertencem à massa vulgar de pele, ossos e órgãos que nós, seres humanos, somos diante do espelho do mundo que nos reflete verdadeiramente em todas as nossas condições, desde as mais superficiais até as mais profundas. Deus não é uma matematização concebível através das mais variadas fórmulas ao modo perfeccionista dos grandes matemáticos da História e nem se pode alcançar-lhe através dos termo de uma equação, por mais avançada que esta seja, ou por meio de conceitos doutrinários milenares simplistas, ultrapassados e anacrônicos para estes novos tempos da História da Humanidade. Concentrar-se neste ponto de pensamento faz jus a toda contraposição válida contra os que problematicamente constroem uma "verdadeira visão de Deus" dotada apenas do mais cego e tolo fanatismo, do tipo que aceita toda doutrina religiosa como infalível e senhora de uma profundíssima verdade que a tudo propõe soluções e expõe explicações que contestadas pelos "hereges" não pode ser. Os "hereges", neste caso, são os que racionalmente limitam-se a ter como ponto de partida um exame crítico de toda uma realidade, sem tirarem conclusões apressadas e dogmáticas acerca de uma específica problemática. Bem diferentes dos que se atrelam aos dogmatismos, exercendo os mais diversos papéis contundemente inclusivos mais na quase loucura completa do que propriamente na fé. Mal sabem seres de tal pensamento que as mais profundíssimas verdades não se encontram expostas pelas ruas, pelas vitrines das lojas, pelos museus ou em quaisquer formas de entrtenimento possíveis de serem tachadas como "profundas". A Profundidade e A Verdade são senhoras encontráveis nos âmbitos mais inacessíveis do coração daqueles que se encaram como compreensíveis de suas limitações e, ao mesmo tempo, realizadores da superação dessas mesmas limitações através de sua fé em Deus. Não se trata de uma idéia de superação aplicável a sentimentos de soberba ou orgulho, como que para sentir-se "acima dos demais" ou "melhor do que os outros", "imperatrizes e imperadores das mais absolutas, supremas e infalíveis existenciais verdades". Em verdade, o sentimento da superação de si mesmo é genuinamente humilde, intrinsecamente ausentando-se de qualquer busca de alguma mundana glória ou mundano tipo de poder, é o sentimento daqueles com uma fé abençoada pela Razão, é o alimento da eterna filosofia de Baruch de Espinosa em toda a sua suprema exatidão.

Filósofo da supremacia monista da divina realidade, em Espinosa encontramos a realização da mais racional fé casando-se com a personificação do decreto definidor do verdadeiro momento no qual um filósofo encontra-se com a justa exposição da imortalização de seu pensamento como um todo. Negando as fantasmagorias cabalísticas cujas teorias facilmente deslocam-se para o reinado da fantasia ou das mesquinhas obtenções de objetos materiais efêmeros (o propósito da denominada "Kabbalah Pop" que gera livros como "A Kabbalah do Dinheiro", " A Kabbalah do Amor", "A Kabbalah do Sexo" e tantas outras deformações da Kabbalah Tradicional a fim de torná-la "degustável" aos olhos profanos, ou, melhor dizendo, olhos cobiçosos, invejosos e luxuriosos de uma mui grande parcela da Humanidade); negando as doutrinas do Judaísmo, todas sempre prontas a teceram a visão de um Deus vingativo, rancoroso e punidor, como visto no Antigo Testamento desde o Livro de Gênesis; negando todo tipo de doutrina fanática fora de sua original religião que contivesse as mesmas idéias ou piores acerca de Deus, tornando Este mais ainda inserido no campo de um tirânico opressor de tudo e de todos que Dele emanam; afastando-se da Bíblia a tal ponto que foi o único que conseguiu validar a exata dimensão da vestimenta orientadora de ações da mesma, não caindo no espírito da letra morta e, sim, navegando no mar do espírito da letra viva; afirmando tanto a imanência quanto a transcendência de Deus, a mais mentalmente aceitável percepção intuitiva Dele da parte dos que racionalizam a sua fé em perfeita harmonia com as vozes de seu coração; e encontrando O Verdadeiro Deus ou Natureza no Verbo de seu próprio coração: eis Espinosa, um homem que possuiu uma Verdadeira Fé, um homem que encontrou A Verdadeira Filosofia, O Filósofo que amou A Unidade sendo-lhe um dos infnitos atributos através das quais Ela manifesta-se sem, no entanto, Ser cada um de tais atributos. Todo autêntico filósofo deve buscar dentro de sua alma o que se encontra além, muito além, das capacidades cognitivas e intelectivas humanas, uma busca pelo Início para alcançar O Fim e conduzir-se pelo Meio na justa exalação de uma suave conduta no decorrer dos anos de sua existência, seja esta pública ou incógnita, nos bancos acadêmicos ou na mais humilde choupana no meio de uma floresta. Não se pode considerar um filósofo ou um admirador da Filosofia todo aquele que nega a Espinosa um posicionamento de destaque dentro de toda a tradição filosófica do mundo; sim, do mundo, pois a sua obra, em sua parte divinamente inspirada, é universal, não é uma relíquia apenas do Ocidente, é uma aliança perfeita do pensamento oriental com o pensamento ocidental, uma transmutação de tudo o que se conhecia por Deus após a fusão de ditos divinos conhecimentos. Conhecimentos estes presentes de modo aberto ou oculto nos livros considerados sagrados por todas as religiões do mundo, como os Vedas, o Tao Te King, o Alcorão, a anteriormente citada Bíblia (inspiradora das religiões Católica e Protestante) e todos os demais, possuidores de uma parcela da Verdade que, no entanto, bem interpretadas, são a própria Verdade. Um filósofo, inconscientemente, pode tornar sagrada a sua filosofia; foi o que ocorreu com Espinosa, mas o sagrado por ele alcançado pertence à Religião da Razão, uma religião de poucos raros adeptos inteiramente sadios detentores de uma clara livre visão acerca de toda condição e não-condição. Por mais misterioso que seja, lemos na Ética e nos quinze capítulos do Tratado Teológico-Político que trata do metodicamente genial exame da Bíblia, dois livros do maior dos raros adeptos da Religião da Razão, um resumo de todo conhecimento divino revelado ao limitado pensamento humano sob um novo prisma, prisma este abençoado pela supracitada Razão em todas as suas conjunturas e estaturas, elementaridades e substancialidades.

Mas, deixemos os mistérios para todos aqueles que em pleno século vinte e um ainda se deixam levar pela óbvia esquizofrenia de algumas autoridades religiosas ou crêem em assuntos como Tarô, Alquimia, Numerologia, Astrologia, Ocultismo, Espiritismo e demais bárbaras sintonias com o charlatanismo gerador de tantas danosas escravidões mentais, emocionais e sexuais. Este século vinte e um não necessita mais de fantasias moldadas por mentes viciadas em lendas bíblicas, testemunhos religiosos que fogem da ordem natural, o veneno das superstições, as pseudorevelações elevadas de Eliphas Levi, as grotescas invencionices "mágicas" de Aleyster Crowley ou qualquer tipo de absurdo erguido como uma "grande verdade" que não passa, na grande maioria das vezes, de alucinações provocadas por estados alterados da mente ocasionados por um sistema nervoso desequilibrado ou o uso excessivo das mais diversas drogas que excitam a psique a tal ponto que qualquer viciado envolvido com a magia pensará ver o próprio Deus ao olhar para uma minhoca. Todos os séculos jamais necessitaram de ataques contra a Razão como esses e muitos outros, ataques proporcionados pela ignorância de determinadas mentes acerca do que é justo e perfeitamente real para o viver cotidiano, por uma fé direcionada para o mais baixo possível que possa ser imaginado ou tocado imaginativamente e pela capacidade do ser humano em se deixar escravizar por qualquer um que venha a afirmar que possui todas as soluções para os mais altos problemas existenciais fumando um cachimbo, batendo um tambor, incorporando "espíritos", jogando cartas para "revelar o que futuramente ocorrerá e o que está a ocorrer ocultamente", revelando o "futuro" através da "vidência", riscando pentagramas no chão ou evocando e invocando a própria irracionalidade na forma de fantasmas gerados pela supraexcitação dos mecanismos mentais mais básicos. Examinemos rapidamente aquilo que chamam de "vidência" e os seus resultados positivos e negativos, a fim de afirmar categoricamente o ridículo da crença neste tipo de "poder natural": um "vidente" atende a um cliente que busca saber o que ocorrerá no porvir consigo e com aqueles que lhe são queridos, com os seus amigos e inimigos; o "vidente" afirma que tudo dará certo no emprego dele, os filhos se formarão em faculdades, os amigos lhe serão extremamente leais e os inimigos não lhe derrubarão; passados vinte ou trinta anos, suponhamos que tudo tenha dado como dito pelo "vidente", gerando o reconhecimento da parte do cliente de que aquele "realmente é um vidente"; suponhamos que tudo tenha dado de um modo diferente do dito pelo "vidente" após o mesmo período de tempo, gerando o descontamento do cliente, a sua descrença em tudo que se refira ao assunto, "charlatães, todos eles!", revoltadamente exclamará aos mais íntimos; o ridículo está nas duas posições, tanto na do reconhecimento pelos positivos resultados da "sessão de vidência" quanto na do descontentamento pelos negativos resultados, como demonstrarei a seguir. Se realmente Deus concede a alguns entes humanos a capacidade intuitiva de visualizar o que está oculto no passado, no presente e no futuro, os mesmos visualizam, em relação ao último, apenas uma possibilidade contingente dentro de variados e intermináveis campos de realizações possíveis das visões; o "vidente", assim, veria apenas uma linha dentre as várias linhas temporais futuras, que, pelas escolhas e caminhadas do cliente, pode ser confirmada ou modificada em sua totalidade por fatores culturais, emocionais ou inevitáveis, como a doença e a morte; ridículo é o cliente agindo e aguardando pelos positivos resultados, já que a ansiedade pela efetiva concretização do que ele ouviu do "vidente" consome-lhe todo maior lampejo de racionalidade; e ridícula é a ação quando o contrário ocorre no futuro não-aguardado, quando os negativos resultados materializam-se, transformando a esperança de anos em revolta e ódio. São dois tipos de escravidão muito comuns, principalmente nos países como o Brasil onde os "videntes" e os clientes destes são vários, cada um exercendo o seu papel; o do "vidente", enganador e a enganar-se quanto a suas reais capacidades intuitivas, é o do feitor do cliente, chicoteando-o com promessas de grandes realizações, riquezas e amores; o do cliente, patético e dependente totalmente de auxílio externo para sobreviver no mundo, é o do mais perfeito escravo abaixo de tudo que se concebe como escravo. Nesta sumamente humilhante condição existencial, a racionalidade, há muito, já disse adeus à mente e os mais irracionais movimentos, então, tomam conta de toda a gama de atitudes do homem ou da mulher. Ser racional e possuir uma fé amparada na racionalidade não é um atributo apenas dos mais altamente intelectualizados porque até nos indivíduos de poucos estudos e muito baixo intelecto tal dádiva natural surge espontaneamente, livrando-os das patéticas caminhadas em direção aos envolvimentos com as mais ridículas práticas ditas como "espiritualizadas". Ser altamente intelectualizado e não crer em nada ou crer erradamente em ismos que encaminham, cada um, para o abismo do desengano e do ridículo encontro com a perdição cognitiva, significa que nem sempre a excessiva rotina de estudos e de leituras em busca de "respostas" leva a um positivo encontro com Algo que possa ser definido como distante das mais diversas mundanas tolices. A fé, A Verdadeira Fé, não possibilita o alcance do Todo face a face, ou seja, a visão nítida da Verdade tal como vemos a chuva cair das nuvens do firmamento ou as ondas do mar baterem vigorosamente contra as areias das praias. A fé, A Verdadeira Fé, A Fé, por outro lado, mostra a cada um que se depara com ela, sem pré-requisitos ou intenções ambiciosas, a claridade de todos os elementos possíveis de serem traduzidos em humana racional linguagem que objetiva e subjetivamente a mente percebe. Esta é a razão principal do porquê de muitos ouvirem vozes em sua mente direcionando-os para os melhores e mais frutíferos caminhos: a mente contraiu um permanente matrimônio com a Razão e perscruta todos os horizontes do Conhecimento Humano com a habilidade da mais leve brisa a batizar os recônditos mais inalcançáveis de uma terra prontíssima para ser desbravada.

Nosso amigo Espinosa, em sua solitária busca autenticamente natural pela Verdade encontrável em sua mente e não em qualquer outra mente, teve assim o seu encontro com a Verdadeira Fé. E um altíssimo tributo foi pago após esse encontro através da sua excomunhão da comunidade judaica, das perseguições que sofreu, da punhalada que quase tirou-lhe a vida e da sua condição de pária em meados do século dezesseis na Europa. Mas, poucos foram aqueles que compreenderam-no e puderam sentir intuitivamente que ele havia alcançado um patamar acima do que comumente se conhece e reconhece como pensamento, poucos como os raros amigos que manteve após publicamente expor as suas revolucionárias idéias e os amantes de suas idéias pelos séculos que o acolheram em seus corações com a mais íntima afinidade. Espinosa pode ser considerado como um guerreiro cujas armas foram os textos de seus livros e ainda são, já que sua imortalidade é um dado afirmador de sua continuidade como pensador e inspirador de muitos. A sua Fé inspira a concepção deste livro, que se concentrará no exame crítico-analítico de passagens das acima citadas obras espinosistas, Ética e Tratado Teológico-Político, nas quais aquela racionalmente brilha qual espetacular estrela no mais admirável horizonte galáctico; quando for oportuno, serão feitas citações de outras fontes, a fim de corroborar a tese central defendida nesta obra. As partes nas quais se expõe a visão racional de Deus a confirmarem a racional fé do príncipe dos filósofos em toda a sua extensão serão amplamente analisadas. Porque, até o momento, não houve um maior atentamento para com esta fé de Espinosa no Verdadeiro Deus, já que todos os estudos mais profundos acerca de sua filosofia se basearam em seu inexistente panteísmo, nas teorias políticas, na sua pequena teoria do conhecimento e no exame das paixões, em sua grande maoria. Possivelmente, este livro ficará entre a Filosofia e a Teologia, duas ciências teóricas que possibilitam racionais práticas subjetivas e objetivas quando despidas de sofismas deformantes de suas reais utilidades que, quando intuitivas ao extremo, abrem a mente para a Realidade Única, ampla e inteligentemente. Filosoficamente, o tema a que este livro se propõe explorará as facetas racionais de uma fé silenciosamente eficaz; teologicamente, o mesmo tema explorará a fé filosófica mais sublime de todas na busca do Verdadeiro que se encontra dentro das mais eternas perspectivas de puras razões. O campo, a meu ver, de estudos espinosistas, é muito rico e realmente abre espaço para ousadias e interpretações as mais variadas, sem escaparem, claro, dos domínios iluminados da Razão. Este livro será destinado não exclusivamente apenas aos filósofos e nem aos teólogos, mas a todos que possuem fé na Razão e buscam Aquele Algo Maior presente em cada milímetro de suas vidas e das coisas em redor, Aquele Algo Maior pulsante a todo instante ao ritmo de uma melodia ímpar iluminante do coração à proporção de sua proximidade cada vez que buscada vai sendo com sinceridade, Aquele Algo Maior substancialmente em tudo e todos presente. É um livro de ousadias interpretativas de um filosófico observador Daquele Algo Maior, o primeiro de uma filosofia que tem como essência principal o que Este É. Pois, como observou muito bem Espinosa, uma filosofia que não tenha a Deus como foco principal de seu desenvolvimento não pode ser chamada como tal. E Deus ou Natureza está neste atributo Seu que através das páginas a seguir ao mundo se manifestará.

Credo quia ratio est: creio porque é racional.

Credo quia ratio est: creio porque é real.

Credo quia ratio est: creio porque é A Razão.

Credo quia ratio est: creio porque é O Real.

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