A Escravidão Incessante Proporcionada Pelos Afetos



Imaginado um círculo perfeito e grandioso sobre um deserto, pensativamente pode-se conceber o que advém das conseqüências do movimentar dele por uma ação externa. O círculo move-se no sentido horário executando uma ação de ritmo lento, exercendo uma noção construtiva de alcance positivo das orientações do movimento em si. O círculo move-se no sentido anti-horário executando uma ação de ritmo rápido, exercendo uma noção desconstrutiva de alcance negativo das desorientações do movimento em si. As afecções, para Spinoza, movem-se no íntimo do ser humano como o círculo acima citado, determinando um afeto proporcionado por um meio externo a agir internamente. Como um deserto, um vazio estéril de sensações naturalmente espontâneas, os afetos são naturalmente moldados devido a uma reação do indivíduo a algo que ele interpreta como “bom” ou “mau” para si.

Mas, o que é o “bom” para um e o que é o “bom” para um outro? O que é “mau” para um e “mau” para um outro? Spinoza concentra as suas definições em um mecanicismo determinista inescapável, uma prisão da qual nenhum ente pensante é capaz de livrar-se: a prisão do “bom” e do “mau”. O esquema abaixo separa os “afetos bons” dos “afetos maus”.


Afetos bons Afetos maus


Alegria Desejo ( ? ) Tristeza

Admiração Desprezo

Amor Ódio

Inclinação Aversão

Adoração Irrisão

Esperança Medo

Segurança Desespero

Contentamento Remorso

Favor Comiseração

Estima Indignação

Misericórdia Desestima

Glória ( ? ) Inveja

Gratidão Humildade ( ? )

Benevolência Arrependimento ( ? )

Audácia Orgulho ( ? )

Pusilanimidade Pudor

Consternação Frustração

Modéstia Emulação

Ambição ( ? ) Cólera

Vingança

Crueldade

Temor

Luxúria

Embriaguez

Avareza

Lubricidade


Em seis denominações de afetos foram postas interrogações, nascidas do afeto da dúvida neste filósofo pela presença deles na afetividade positiva ou na afetividade negativa. Uma análise detalhada faz-se necessária conforme as formas dos contornos da dúvida deste filósofo.


A) Desejo: O QUE É O DESEJO?


É um impulso de construtividade positiva de uma realização carregada de sentido maior naquele que o proclame em si constantemente. É um impulso de destrutividade, que pode ser denominada construtividade negativa porque o destruído é construído através de um construto determinado, de uma realização carregada de sentido maior naquele que o proclame em si constantemente. Desejos construtivos e desejos não-construtivos são O DESEJO, algo dos afetos, tanto os considerados “bons” como os considerados “maus”. Portanto, se os afetos são advindos do DESEJO concernente a um alcance determinado a um resultado para aquele que o alimenta sem defini-lo como “bom” ou como “mau”, os afetos seriam melhor classificados como MODOS DO DESEJO, sem nenhuma exceção de nenhum deles. Sob esta interpretação, pode-se denominar o DESEJO como A ÚNICA AFECÇÃO EXISTENTE, a qual determina toda afetividade em suas variações e naturezas.


B) Glória: O QUE É A GLÓRIA?


O desejo de ser louvado revela o desejo egoísta de sentir-se como o centro de qualquer coisa na qual haja um interesse maior. É uma alegria coroada de imensa pobreza porque imaginar-se sendo louvado por outros ao invés de realizar-se como um ente digno de louvor por suas ações, um ente que procure o seu valor desinteressadamente, é construir um mundo suposicionado por uma possível ou não visão externa. A GLÓRIA, no conceito dado por Spinoza, é negativa, passando à categoria do MODO DO DESEJO, sendo um modo neutro, isto é, não é nem construtivo e nem não-construtivo. O DESEJO DE GLÓRIA é um afeto inerte, posicionado em uma neutralidade puramente concreta e completa, pois é um desejo de ser idolatricamente visto pelos outros, um desejo de vazio sentido por não ter um significado majoritariamente produtivo para o que cerca o ente. Há extremo egoísmo naquele que encontra-se possuído pelo DESEJO DE GLÓRIA.


C) Ambição: O QUE É A AMBIÇÃO?


Convencionalmente, o ente ambicioso é visto como elemento danoso para a sociedade, perigosamente valorado como um egoístico indivíduo atado a um ato volitivo de planejamentos referentes ao limite máximo de um ato julgado como primordial para o seu desenvolvimento. O ente ambicioso, desejoso do imoderado ato volitivo de ser ambicioso, voluntariamente é um cego joguete do DESEJO DA AMBIÇÃO. Porém, há ambições de nobre conteúdo e valor sinceramente moldador de uma estruturação dinamicamente estimável para um objetivo voltado para algo que beneficie a sociedade. Há ambições que não podem figurar entre os afetos “maus”, entre os humanamente moldados valores morais que rotulam o DESEJO DA AMBIÇÃO como unitariamente negativo. Sejam como forem, negativas ou positivas, “boas” ou “más”, as ambições são todas a AMBIÇÃO, interpretada por cada ente humano conforme o seu nível de discernimento, conhecimento e compreensão.


D) Humildade: O QUE É A HUMILDADE?


Uma autodesvaloração propiciadora de um sentido essencialmente abnegado e desinteressado a todo ato que pratica-se, formadora de uma afirmadora atitude de força interior. A HUMILDADE, para aqueles que conservam-na por uma aptidão natural de relevante exaltação de valores pessoais altruísticos, é uma força considerável ao poder dos que sabem valer-se amplamente de suas qualidades. Spinoza definiu-a como


tristeza nascida do fato de o homem contemplar a sua impotência ou a sua fraqueza”


Mas, tais impotência e fraqueza advém do DESEJO DA AMBIÇÃO quando desreguladamente alimentada e não de algo no qual vale a alegria sublime do não dar-se valor alto, do não dizer-se alto demais existencialmente. O DESEJO DA HUMILDADE é um estado de leveza soberana para o espírito dotado de certeza bastante considerável da sua segurança interna, é uma potência invulnerável, uma força indestrutível.


E) Arrependimento: O QUE É O ARREPENDIMENTO?


Uma sensação detentora de acúmulos consideráveis de inícios maiores de reflexões nos quais o ente humano repensa as suas atitudes inconseqüentes com relação ao seu relacionamento com o mundo que o cerca. O DESEJO DO ARREPENDIMENTO não é uma tristeza no sentido desta tristeza remeter o ente humano a uma despersonalização de sua vontade, sempre esta prevalecendo toda soberana. ARREPENDIMENTO é antes de tudo uma alegria daquele que deseja, alcançando-o através das reflexões, internamente modificar-se quanto às suas visões, remodelar-se internamente quanto às suas opiniões, comportamento e personalidade. O sujeito arrependido goza mais, posteriormente, da alegria de saber-se fora de uma linha externa e interna de atuação no mundo que o degradava do que da tristeza advinda do saber-se extremamente culpado por atos injustos que se tenha cometido. Entretanto, nem todos os arrependidos moldam em si uma força toda necessária para fazerem prevalecer as qualidades positivas proporcionadas pelo aprendizado indicado no DESEJO DO ARREPENDIMENTO. Tais arrependidos afogam-se tanto com as dores crescentes nascidas do fator de arrependerem-se de todos os seus atos errôneos, que nada de positivamente útil aprendem, tornando-se entidades melancólicas, enfraquecidas, isentas de forças dignas que a reconstruam em um novo caminho de agir. O arrependido positivo diferencia-se deste arrependido negativo precisamente por crer em um novo agir de suas personalidade e individualidade no meio social pelo qual transita como um cidadão entre cidadãos.


F) Orgulho: O QUE É O ORGULHO?


Superior exercício de autoexaltação das qualidades externas e internas, dinamicamente dotado de polaridades tanto negativas como positivas. Spinoza diz que o ORGULHO é


por amor ter uma opinião mais vantajosa do que o que seria justo acerca de si mesmo”; “o orgulho é um efeito ou propriedade do amor próprio (philautra), podendo, portanto, definir-se: é o amor de si mesmo ou o contentamento íntimo na medida em que afeta o homem de tal maneira que ele tem, acerca de si mesmo, uma opinião mais vantajosa do que seria justo”


(Ética, Livro III, pág. 314)


O DESEJO DO ORGULHO calcado todo no amor-próprio excessivamente negativizador da personalidade e do comportamento é um DESEJO do mais pobre aspecto existencial possível, nisto Spinoza corretamente observa esse afeto. O DESEJO DO ORGULHO calcado todo em uma exercitação de pensamentos autodignificantes, autoexaltantes e automanifestantes de qualidades aptas para o progresso do mundo externo ao íntimo que de si mesmo orgulha-se é um MODO DO DESEJO qualificadamente fecundante de nobres naturezas construtivas. Já não se trata mais do amor-próprio que desestrutura o viver interno e externo; trata-se, nesse caso, do orgulho, O ORGULHO, de coisas verdadeiras que verdadeiramente realizem obras verdadeiras para o desenvolvimento de um determinado algo objetivizado. O DESEJO DO ORGULHO que prima pelo construtivismo plural de fontes internas de grandes forças externas construtivas é um afeto de profunda valia para aquele que o produz, acumula, executa, exercita e faz reluzir no plano objetivo da coletividade humana. Uma individualidade harmoniosamente orgulhosa é uma unidade produtora de harmoniosas criadoras harmônicas reveladas em pensamentos e atos.



Conclusão


Neste estudo, este filósofo não pretende moralmente corrigir criticamente o pensamento de Spinoza e impor o seu didaticamente corretor do daquele. Este filósofo não define aqui o que é o “bom” DESEJO “bom” e o “mau” DESEJO “mau”; a “boa” GLÓRIA “boa” e a “má” GLÓRIA “má”; a “boa” AMBIÇÃO “boa” e a “má” AMBIÇÃO “má”; a “boa” HUMILDADE “boa” e a “má” HUMILDADE “má”; o “bom” ARREPENDIMENTO “bom” e o”mau” ARREPENDIMENTO “mau”; o “bom” ORGULHO “bom” e o “mau” ORGULHO “mau”. Não é “bom” ou “mau” o motivo que levou este filósofo a examinar pequenas contradições do pensamento espinosista; talvez o afeto da PERFEIÇÃO que a este filósofo acomete o tenha inebriado demasiadamente. Mas, aludindo ao estudo efetuado, está claramente baseado em raciocínio interligado ao movimento básico circular dos afetos a base referencial dos temas abordados. Spinoza interpretou como um inescapável círculo viciante o movimentar dos afetos no ser humano, um movimentar de aberto conflito ao mesmo tempo escravizador, libertador e limitador. Não surgiu aqui uma moral julgadora do papel delineador e definidor dos afetos em Spinoza; para um esclarecimento sob outro ângulo de perspectiva interpretativa filosófica, o labor pensante nas diretrizes pensadas pelo genial filósofo de Amsterdam. Tratou-se apenas de fazer neste estudo uma melhor e mais profunda observação de que os afetos condicionam todos os seres humanos em seus devidos comportamentos, dotando-os de particularidades únicas que os diferenciam.

Ou, como todos os humanos afetam-se e são afetados de todas as maneiras, neste ponto podem estar integralmente igualados.


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