Do Viver E Do Morrer À Luz Filosófica Oriental


"O mito aqui aludido é o da transmigração das almas. Ele ensina que todos os sofrimentos infligidos em vida pelo homem a outros seres têm de ser expiados numa vida posterior neste mundo e precisamente pelos mesmos sofrimentos. Tal ensinamento vai tão longe que, quem apenas mata um animal, nascerá no tempo infinito exatamente como este animal, sofrendo a mesma morte. Ensina que o procedimento mau acarreta uma vida futura sobre este mundo em seres sofrentes e menosprezados. Assim, uma pessoa nascerá de novo em castas inferiores, ou como mulher, animal, pária, chandala, leproso, crocodilo e assim por diante. Todos os tormentos, ameaças do mito, são comprovados com intuições do mundo real, em seres sofredores que não sabem porque são culpados pelo seu tormento; tornando-se aqui dispensável a ajuda de qualquer outro inferno. Por outro lado, entretanto, promete como recompensa o renascimento em figuras mais excelentes e mais nobres, como brâmanes, sábios, santos. A recompensa suprema, que espera os atos meritórios e a plena resignação, e que também espera a mulher que em sete vidas sucessivas morreu na pira funeral do esposo, e a pessoa cuja boca nunca pronunciou uma mentira – a recompensa suprema, ia dizer, o mito só pode expressar negativamente na linguagem deste mundo, por meio da promessa tantas vezes renovada de não voltar a nascer: non adsumes iterum existentiam apparentem ("Não assumireis de novo a existência aparente"); ou como dizem os budistas, que não admitem nem vedas nem castas, exprimem-se: 'Tu deves atingir o nirvana, ou seja, um estado no qual não existem quatro coisas, a saber, nascimento, velhice, doença e morte'."



Arthur Schopenhauer (1788-1860) é o filósofo ocidental que mais aproximou-se do Espírito Transcendental Da Filosofia Oriental. Para falar de vida e de morte à luz do Pensamento Oriental, devemos ter em mente, em nossa mente profundamente investigativa e compreensiva do que estudamos, o Pensamento Universal. Por que negar que o assunto é universal, mesmo em meio a um mundo totalmente materialista? Devemos pensar universalmente, sempre universalmente, unindo-nos a todos os laços intelectivos que são O Pensamento Humano. Schopenhauer fala de uma "plena resignação" diante dos acontecimentos que sucedem-se na vida encarnada que se desviem do curso vital e normalmente estabelecido pelos nossos objetivos, sonhos e metas. A resignação é na vida encarnada uma orientação seguida por poucos privilegiados no raciocinar do que significa a "recompensa suprema". O exemplo maior de um ser humano em não ser um resignado que sabe aprender o que é saber ganhar e saber perder, encontra-se no Livro De Jó. Antes de toda a desgraça que acometeu a , vejamos como é descrita a sua vida no capítulo 1 do livro:



"1 Havia um varão na terra de Hus, por nome Jó, e era este um varão sincero, e reto, e que temia a Deus e se retirava do mal. 2 E nasceram-lhe sete filhos, e três filhas. 3 E possuía sete mil ovelhas, três mil camelos, e quinhentas juntas de bois, quinhentas jumentas, e família numerosíssima: e este varão era grande entre todos os orientais. 4 E seus filhos iam, e se banqueteavam em suas casas, cada um em seu dia. E mandavam convidar as suas três irmãs para virem comer e beber com eles. 5 E tendo decorrido o turno de dias de banquete,mandava Jó chamar a seus filhos, e os purificava, e levantando-se de madrugada oferecia holocaustos por cada um deles. Porque dizia: Talvez que os meus filhos tenham pecado, e que tenham ofendido a Deus nos seus corações. Assim o fazia Jó todos os dias."



Após perder toda a sua família, todos os seus bens e adquirir a lepra, Jó assim exprime-se contra a sua sorte no capítulo 2:



"3 Pereça o dia em que eu fui nado, e a noite em que se disse: Foi concebido um homem.

4 Converta-se aquele dia em trevas. Deus desde o alto céu não olhe para ele, nem ele seja esclarecido pela luz.

5 Escureçam-no as trevas, e a sombra da morte, cerque-o uma negra escuridão, e seja envolto em amargura.

6 Um tenebroso redemoinho ocupe aquela noite, não se conte entre os dias do ano, nem se numere entre os meses.

7 Seja aquela uma noite solitária, e não digna de louvor.

8 Amaldiçoem-na aqueles que amaldiçoam o dia, e os que estão prontos para suscitar o Leviatã;

9 Escureçam-se as estrelas pela sua negridão: ela espere a luz e não a veja, nem o nascimento da aurora quando raia;

10 Porque ela não fechou as portas do ventre que me trouxe, nem apartou de meus olhos os males.

11 Por que não morri eu dentro do ventre de minha mãe, por que não pereci tanto que sai dele?

12 Por que fui recebido entre os joelhos? Por que me alimentaram com o leite dos peitos?

13 Porque agora dormindo estaria em silêncio, e descansaria no meu sono;

14 Juntamente com os reis e conselheiros da terra, que fabricam para si solidões.

15 Ou com os princípes, que possuem o ouro, e que enchem as suas casas de prata;

16 Ou como aborto que se oculto não existiria, ou como os que depois de concebidos não viram a luz.

17 Ali os ímpios cessaram de tumultos, e ali acharam descanso os cansados de forças.

18 E os encarcerados em outro tempo estão já sem moléstia, nem ouviram a voz do exator.

19 O pequeno e o grande ali estão e o escravo está livre de seu senhor.

20 Por que foi concedida luz ao miserável e vida aos que estão em amargura de ânimo?

21 Os que esperam a morte que não vem, e a procuram com afinco, como um tesouro;

22 E que ficam transportados de alegria quando acham o sepulcro.

23 A um homem que não sabe o caminho, e a quem Deus cercou de trevas?

24 Suspiro antes de comer, e os meus gemidos são bem, como águas que inundam;

25 Porquanto o temor, que temia, me veio, e me aconteceu o que receava.

26 Porventura não dissimulei? Não me calei? Não estive sossegado? E veio sobre mim indignação."



Jó nada aprendeu com o que lhe ocorrera inicialmente. Jó nadou nos braços da não-resignação inicialmente. Jó caiu, mas não sabia inicialmente se realmente havia caído. Jó revoltou-se, mas não sabia inicialmente que a sua revolta era apenas uma gota d'água incauta de uma nuvem incauta a cair sobre os oceanos existenciais. Diante da morte, da desencarnação de seus entes queridos à eliminação de sua vontade de viver, Jó resumiu-se a inicialmente praguejar contra a sua sorte.



"O maior dos males, o que de pior em geral pode nos ameaçar, é a morte; a maior angústia é a angústia da morte. Nada nos arrebata tão irresistivelmente à mais viva participação quanto o perigo de vida de um outro: nada é mais horrível do que uma execução. O apego sem limites à vida que aqui aparece não pode, todavia, ser originado do conhecimento e da ponderação: diante destes parece antes tolo; pois o valor objetivo da vida é bastante incerto, e resulta pelo menos duvidoso se a ela seria preferível o não-ser, e mesmo se a experiência e a ponderação tiverem a última palavra, o não-ser tem de triunfar. Se se batesse nos túmulos para perguntar aos mortos se querem ressuscitar, eles sacudiriam a cabeça negando".



Schopenhauer, em Metafísica Da Morte, define o que Jó inicialmente fez desde antes de perder tudo o que tinha: apegou-se ao demasiadamente perecível. Nada humano ou de posse do humano poder de tudo ao seu humano alcance poder obter é imperecível. Tudo vai perecendo, tudo vai desaparecendo, o túmulo, a definição do todo deste mundo que é perecível, é a dinâmica final do eterno perecer de tudo que é material.


Jó inicialmente desconsiderava o eterno perecer de tudo que é material. Aos poucos, após os diálogos travados com os seus amigos Elifaz, Baldad e Sofar, Jó foi percebendo essa Verdade, foi compreendendo o que o seu Deus havia determinado em sua existência como sucessão de acontecimentos. Ao final do livro, no capítulo 42, Jó, resignado enfim, compreendendo o fim das coisas antigas que possuía, era já um novo homem a isto dizer, direcionando-se ao seu Deus:



" 2 Sei que tudo podes, e que nenhum pensamento te é oculto.

3 Quem é este que falto de ciência encobre o conselho? Por isso eu tenho falado nesciamente, e o que sem comparação excedia a minha ciência.

4 Ouve, e eu falarei. Perguntar-te-ei, e responde-me.

5 Eu te ouvi por ouvido de orelha, mas agora tu vê o meu olho.

6 Por isso me repreendo a mim mesmo, e faço penitência no pó e na cinza."



A compreensão a Jó assim chegou. Todo o Livro de Jó ampara-se na inescapável Lei Do Karma, já que a revolta do personagem, a representar todo ser humano que não se resigna diante do sofrimento e nada aprende com o sofrimento, centraliza-se no porquê de todos os males ocorrerem com um homem justo. No início deste texto, a citação de Schopenhauer toca na Lei Do Karma, a da recompensa pelos bens e pelos males executados em uma existência a terem as suas consequências na existência posterior. Assim explica o Karma Sogyal Rinpoche () em O Livro Tibetano Do Viver E Do Morrer:



"Dizemos no Tibete: 'a ação negativa tem uma qualidade boa: ela pode ser purificada'. Assim, sempre há esperança. Mesmo os assassinos e os malfeitores mais cruéis podem mudar e superar o condicionamento que os conduziu aos seus crimes. Nossa condição presente, se a usarmos com habilidade e sabedoria, pode servir de inspiração para nos libertar do cativeiro do sofrimento.

Tudo o que acontece conosco agora reflete nosso carma passado. Se sabemos disso e o sabemos realmente, sempre que sofrimento e dificuldades nos atingem não os vemos mais como falhas ou catástrofes, nem os vemos de modo algum como punição. Não nos culpamos mais, nem permitimos odiar a nós mesmos. Vemos que a dor que atravessamos é a culminância dos efeitos, a fruição de um carma passado. Os tibetanos costumam dizer que o sofrimento é 'uma vassoura que varre todo o nosso carma negativo'. Podemos até ser-lhe gratos porque um carma está chegando ao fim. Sabemos que a 'boa sorte', um fruto do bom carma, pode logo passar se não a usarmos bem, e a 'má sorte', o resultado do carma negativo, pode estar dando a nós uma maravilhosa oportunidade de evoluir."



Este evoluir compreende o que de mais rico há no universo deste mundo em sua grande parte materialista: O Caminho Espiritual.



"Todos os mestres espirituais da Humanidade nos disseram a mesma coisa, que a finalidade da vida na Terra é obter a união com a nossa natureza fundamental e iluminada. A 'tarefa' que o 'rei' nos designou, enviando-nos a este país estranho e obscuro, consiste em realizar e encarnar o nosso verdadeiro ser. Só há um modo de fazer isso: é empreender a jornada espiritual, com todo ardor, inteligência, coragem e decisão para a transformação que pudermos reunir. Como disse a Morte para Nachiketas no Katha Upanixade:


Há o caminho da sabedoria e o caminho da ignorância. Eles são muito distantes um do outro e levam a diferentes direções... Vivendo em meio à ignorância, pensando que são sábios e instruídos, os tolos vão a esmo, daqui para lá, como cegos guiados por cegos. O que existe além da vida não brilha para os que são infantis, descuidados ou iludidos pela riqueza."



Após a eliminação cármica de todas as recompensas, boas ou más, é hora de uma consciência livre para ser o que é iniciar o percorrer do Caminho Espiritual. Rinpoche, na bela passagem acima de seu supracitado livro, alude ao que significa adentrar no Caminho Espiritual. A "jornada espiritual" inicia-se com o desapego a tudo que a Lei Do Karma, nos nascimentos e nos renascimentos, veio a estabelecer na Alma Eterna. Desapego total a tudo inicia. Desapego total a um outro tudo, um tudo mais elevado, inicia um todo de descobrimentos interiores. A vida desaparece, viver é morrer. A morte desaparece, morrer é viver. A Vida Verdadeira É A Morte Verdadeira, A Morte para tudo que perece materialmente, A Morte para todo milionésimo de segundo de perecimento material. Viver A Vida Verdadeira É Estar No Caminho Espiritual. Para Viver A Vida Verdadeira, muito trabalho interior, A Vida Interior, deve contribuir, deve fazer o papel de Iniciadora Maior antes mesmo de todo milionésimo de segundo. Meditação e renúncia são dois caminhos do Caminho Espiritual que saõ iniciações na Iniciação Maior: A Iniciação Interna. Apenas A Vontade De Evoluir merece o indicar do Caminho Espiritual aos que desejam o sair-deste-mundo.


Jennifer Michael Hecht (1965- ), em Dúvida – Uma História, explica-nos o que os Upanishads, milenarmente, vêm a dizer em seus textos sobre a meditação e a renúncia em tudo para aqueles que Sabem ler verdadeiramente:



"Que vem a ser essa renúncia? Aqui talvez seja suficiente dizer que algumas práticas rigorosas de solidão, tranqüilidade e silêncio parecem levar os seres humanos a um tipo diferente de realidade – a uma idéia básica diferente sobre eles próprios e o universo. Por uma infinidade de testemunhos, as pessoas que praticam essas técnicas parecem mais sábias, mais calmas e até mais felizes. As preocupações da vida diária não significam muito no grande esquema das coisas, e, não obstante, quase todos nós passamos o nosso tempo de vigília pensando nelas; a solidão, a tranqüilidade e o silêncio nos levam a pensar de um modo diferente. Mas isso não é fácil. A metáfora hinduísta clássica para a agitação da mente humana é a de um macaco, mas um macaco embriagado pelo vinho e picado por uma vespa. Mesmo a prática de cinco minutos de meditação – nos quais a mente se mantém concentrada numa palavra ou numa imagem, por exemplo – é tão difícil quanto serenar esse macaco durante um lapso de tempo similar. Isso requer muita prática (...)

Em essência, segundo a concepção hinduísta de meditação, quando alcançamos o silêncio e a tranqüilidade, temos um vislumbre do nosso verdadeiro eu, do nosso atmã, o 'eu' que dirige todo o resto da sensação. Se meditarmos mais longamente, esse eu verdadeiro emergirá com mais plenitude. Para estar em paz, devemos eliminar tudo quanto não constitui o verdadeiro eu interior. Esse 'tudo' inclui o nosso próprio corpo em particular, porque ele é a fonte de muito desejo vão, perturbador e excessivo. Isso não é apenas uma idéia na qual devemos acreditar; não nos tornamos sábios, tolerantes e tranqüilos por força de vontade. É um processo transformador: a meditação e a renúncia têm um efeito de tamanha magnitude sobre o adepto que ele se torna de fato uma pessoa diferente."



Tal "pessoa diferente" está preparada para iniciar-se no Caminho Espiritual. Após viver a sua morte e morrer em sua vida, uma pessoa diferente da maioria que em redor de si caminha, pode iniciar-se no Caminho Espiritual. Vivendo e morrendo, sendo diferente no continuar vivendo e morrendo, na Vida Verdadeira, na Morte Verdadeira, dita pessoa já está no Caminho Espiritual.


Bibliografia


Bíblia Sagrada. Tradução do Padre Antônio Pereira de Figueiredo; Notas E Completo Dicionário Por Monsenhor José Alberto L. De Castro Pinto; Rio de Janeiro: Barsa, 1974.


Hecht, Jennifer Michael. Dúvida – Uma História. Tradução De Antônio de Pádua Danesi; Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.


Rinpoche, Sogyal. O Livro Tibetano Do Viver E Do Morrer. Tradução De Luiz Carlos Lisboa; Revisão Técnica Por Arnaldo Bassoli, Lamara Bassoli e Manoel Vidal; São Paulo: Talento: Palas Athena, 1999.


Schopenhauer, Arthur. O Mundo Como Vontade E Como Representação. Tradução, Apresentação E Notas Por Jair Barbosa; São Paulo: UNESP, 2005.

_____________________. Metafísica Do Amor, Metafísica Da Morte. Tradução De Jair Barbosa; Revisão Técnica Por Maria Lúcia Mello Oliveira Cacciola; Coleção Clássicos; São Paulo: Martins Fontes, 2000.


Links:


Jennifer Michael Hecht


Sogyal Rinpoche


Arthur Schopenhauer






0 Loucas Pedras Lançadas: