Determinando A Eternidade Da Violência No Homo violens - Autêntico Estado Do Ser Homo Violens


"Em Filosofia, os termos 'autenticidade' e 'autêntico' são aplicados por alguns pensadores especialmente, não exclusivamente, à existência humana, e a outras realidades apenas na medida em que sejam função dessa existência. Diz-se então que determinado ser humano é autêntico quando é, ou chega a ser, o que verdadeira e radicalmente é, quando não está alienado. Entretanto, em certas ocasiões, pode-se considerar que a alienação é um dos traços essenciais da existência humana, de sorte que neste caso o estar alienado, e ainda de maneira mais radical o não ser em si mesmo, é uma das características do ser autêntico."



José Ferrater Mora (1912-1991) descreve, em seu Dicionário de Filosofia (1941), dessa maneira, a objetividade da utilização, em Filosofia, dos termos "autenticidade" e "autêntico". Para podermos continuar a traçar a face do Homo violens, verificando agora a sua autenticidade ou inautenticidade, que, filosoficamente, no entanto, não deixa de ser autêntica em um mundo que há muito já abandonou a esfera do autêntico, e, por isso mesmo, também é um mundo autêntico por representar a atual condição humana, vejamos como Mora conduz a delineação das concepções filosóficas do termo "alienação":



"(...)Para Hegel, a 'consciência infeliz' é a 'alma alienada' ou 'alma alheada', isto é, 'a consciência de si como natureza dividida' (ou 'escondida') de que fala na Fenomenologia Do Espírito. Hegel supõe que a consciência pode se experimentar como separada da realidade à qual pertence; sendo essa realidade consciência de realidade, a mencionada separação é separação de si mesma. Surge então um sentimento de dilaceração e desunião, um sentimento de afastamento, alienação, alheamento e despossessão.(...)Hegel indica que, como não pode persistir indefinidamente no estado de desunião e dilaceração, a consciência tem de proceder a uma reconciliação (Versöhnung), que é uma reunião (Vereinigung) e uma apropriação (Aneignung). Esta última é, a rigor, uma reapropriação.

A alienação em sentido hegeliano é uma forma de alteração, mas usamos este último termo num sentido um pouco diferente. O termo 'alienação' pode ser usado, num sentido muito geral, como todo estado no qual uma realidade se encontra fora de si (ausser sich) em contraposição ao ser em si (bei sich). Este último designa o estado de liberdade em sentido positivo, isto é, não como libertação para si mesmo, ou seja, como auto-realização.

O conceito hegeliano de alienação influenciou Marx (...)Deram-se várias interpretações à noção de alienação em Marx. Duas delas sobressaem: a 'subjetiva' (ou 'subjetivista') e a 'objetiva' (ou 'objetivista'). De acordo com a primeira, a alienação deve ser entendida principalmente como alienação do homem individual, o ser humano aliena-se, ou se alheia, de si mesmo. De acordo com a segunda, a alienação deve ser entendida principalmente como alienação do ser humano, especificamente do trabalhador, em relação a seus produtos em virtude dos mecanismos que governam a sociedade e foram produzidos, e se desenvolveram, ou de modo autônomo ou em benefício de uma classe dada, ou ainda ambas as coisa ao mesmo tempo. Salvo quando se exacerbam os aspectos 'humanistas' e 'existenciais' (ou 'preexistenciais') de Marx, a interpretação mais usual, e a que melhor se ajusta aos estudos de Marx, é a segunda.(...)Podem-se mencionar (ou reiterar) outros conceitos de alienação; por exemplo, o psicológico, o existencial e um de caráter mais 'geral'. Do ponto de vista psicológico, a alienação aparece como uma 'separação', ou sentimento de separação, do homem em relação a seu trabalho; congruentemente, a solução do problema psicológico da alienação é buscada por meios também psicológicos. Da perspectiva existencial, a alienação é muito semelhante a todas as formas de viver inautênticas, mas seria excessivo considerar o conceito de alienação tal como abordado por Sartre, Merleau-Ponty, Kosik, etc. como idêntico ao de inautenticidade. De um ponto de vista mais 'geral', a alienação aparece como resultado de diversos fatores, entre os quais podem ser arrolados o econômico e o psicológico, mas não se reduz a nenhum deles. Neste sentido, Gilbert Sismondon falou da alienação no trabalho como causa principal do processo de alienação e os outros fatores – incluindo o 'existencial' – como modalidades da alienação. Em estudos sociológicos do comportamento de grupos, emprega-se o conceito de alienação sobretudo para designar o grau de desarraigamento de um grupo em relação a outro. Exemplos a esse respeito são a alienação dos jovens em relação aos adultos, bem como a de um grupo oprimido, minoritário ou majoritário, em relação a um grupo opressor, que pode ser também minoritário ou majoritário.(...)"



Diante das fontes consultadas, pode-se fazer um possível alinhamento dentro da perspectiva de uma autenticidade do Homo violens. Permite-se agora um dimensionamento, uma plano de imanência específico para o situar o autêntico estado do ser homo violens. Alienar-se das correntes dos fatos, distanciar-se da grande corrente de fatores a determinarem a vida humana é uma forma de violência comum a toda a comunidade humana e a milhares de indivíduos. Os choques apenas ocorrem quando determinada tragédia ou desgraça atinge a tais pessoas. Quando uma grande tragédia ou desgraça atinge aos que não fazem parte de seu grande grupo de relacionamentos, às vezes uma comoção inicial é manifestada, mas esvai-se por causa de outras atenções, a fatos mais diretamente ligados à existência própria e não à existência em comum com o restante da Humanidade. Sobre tal plano, o personagem conceitual homo violens passa a ser um ser real, plenamente convicto de que o girar em torno de si mesmo é a principal lei universal, a única lei que lhe é válida, a maior das leis às quais segue.


Em absoluto, não se pode dizer que toda a Humanidade tenha adquirido um tal nível de egoismo desumanizante e desequilibrante da convivência entre os pares. Não se pode generalizar em tais terrenos de especulação que aqui podem servir de base ao desenvolvimento da idéia do Homo violens. Porém, vejamos, o Homo violens não é uma idéia e sobre ele não cabem especulações diretamente proporcionantes de uma suposição acerca de suas aparência e essência. Não se trata de fantasia romanesca ou hollywoodiana (a grande manipuladora do Homo violens através de seus filmes a proclamarem as atitudes mais desumanizantes possíveis) falar que o Homo violens reside no interior de cada ser humano, em graus e perspectivas diferenciados. O fato perturbador de tal consideração absorve o pensamento inteiro, amplifica a grande preocupação, por parte daqueles que se preocupam verdadeiramente com os destinos humanos, com a visão de até onde será possível chegar a desumanização. Aguardar mudanças possíveis não advoga em nenhum patamar de racionalidade a proposta, da parte dos que verdadeiramente se preocupam com a condição humana, de um repensar as diretrizes dos humanos comportamentos. Falar sobre desumanização, no entanto, em um mundo onde os indivíduos apenas ouvem o que querem, é, também, verdadeiramente, falar ao vazio dos abismos do nada audível.


Hegel toca no ponto em que a desunião e a dilaceração não podem ser eternamente as bases de uma atitude do indíviduo humano no mundo. Para ele chegaria o momento da reconciliação, da reunião, que é uma apropriação, do indivíduo com o meio no qual vive e transita livremente. Talvez, sob um ângulo mais realista da observação de tal teoria hegeliana, possamos adentrar em uma contestação a partir da observação do humano comportamento contemporâneo. Desunir-se é um ponto comum da vivência e da convivência contemporânea, por mais que os papéis dos indivíduos dentro da sociedade sejam os de uma vivência e convivência em prol de uma unidade evolutiva de seus patamares que, no entanto, mantenha íntegros aqueles que dela participam. Assim seria uma sociedade ideal, mas a humana tendência da desunião, da separatividade, é em si mesma uma violência das mais visíveis àqueles que compreendem os movimentos das coisas observáveis contemporâneas. A dilaceração vem a partir dessa desunião a caracterizar a sociedade contemporânea em um todo de disparidades, injustiças e incapacidade com relação a uma re-união de esforços em prol de um aprimoramento possível que se venha a idealizar teoricamente.


Desse ponto surge a contestação a Hegel. Um indivíduo pode pertencer ao mundo, mas o seu mundo, o seu em si, é o ponto capital de onde se situa para, então, fazer parte das coisas que o rodeiam. Não há re-conciliação no sentido de se fazer com que um indivíduo autenticamente alienado, em seu mundo próprio de interesses e necessidades, venha a pensar que é "irmão daqueles que o rodeiam". A contemporaneidade já não aceita utopias como essa, pois a desumanização é explosivamente a característica de cada ponto máximo da sociedade mundial. O monstro da alienação é um Leviatã moderno, é um Estado Maior das forças que caracterizam a Desumanidade, substituta da Humanidade. Tanto Hegel quanto Marx, e todos os que buscaram utopicamente tentativas teóricas de aplicações possíveis de soluçõe para os males sociais, não se transferiram para a Verdadeira Consciência Humana, a qual é violenta no sentido de conduzir à força um indivíduo a querer apenas em si pensar. Pode-se aqui aplicar a vontade de poder preconizada por Nietzsche? Não, pois o poder da Humanidade contemporânea é falho, é uma aberrante modificação do Verdadeiro Poder, que é o poder de evoluir, de humanizar-se no sentido de ampla conexão com todos os indivíduos em redor, e não em desumanizar-se, em desconectar-se na autenticidade de uma alienação de todo o resto da Humanidade.


O poder da violência crescente de todas as formas, como vistas na primeira parte deste estudo, é o mote de toda ação humana contemporânea. Vale mais no hoje, longe da época de Hegel, da época de Marx e da época de Nietzsche, a conduta do desumano estado do ser Homo violens. Os resultados são visivelmente percebidos nos jornais, nas redes de televisão, nas emissoras de rádio e na Internet. Não se pode, contemporaneamente, negar as formas todas da violência viventes e sobreviventes socialmente. Não se pode, contemporaneamente, pensar que as maravilhas de um amanhã perfeito podem ser realizadas enquanto a desumanização estiver em permanente alimentação devido ao alienante estado autêntico do Homo violens no útero da sociedade. O nascimento de todas as misérias, desgraças e tragédias contemporâneas é fruto de uma sociedade que contemporaneamente está a aceitar como normal a desumanização. Ao invés de políticas inférteis contra a violência mais direta de todas, a violência física, produto mais gritante de todas as demais violências humanas que arraigadas estão no Eu de cada indivíduo, a solução, que não passa também de uma utopia, é o ser humano aceitar, definitiva e verdadeiramente, a sua própria natureza. Esta que origina todo ato violento, é assim observada por Roland Corbisier (1914-2005) em Raízes Da Violência (1991):



"A primeira raiz, a raiz primordial da violência, está no próprio homem, no que poderíamos chamar de 'natureza humana'. Sim, porque o homem propriamente dito, enquanto ser humano, começa onde o animal acaba, mas nem por isso deixa de ser também animal, embora racional. Essa definição clássica do ser humano deve, porém, ser bem entendida. Quando assim definimos o homem, indicando a racionalidade como diferença específica, que o distingue no gênero animal, não queremos dizer que o homem seja sempre racional, e sempre se comporte racionalmente, de acordo com a razão. Queremos apenas dizer que, dotado também de razão, o homem pode comportar-se racionalmente, e que tal comportamento não é necessário, mas, ao contrário, depende de sua liberdade. Que é o homem? Um ser harmonioso, coerente, equilibrado, ou, ao inverso, um ser contraditório, incoerente, desequilibrado?


Nenhum de nós fabricou sua própria natureza. Quando tomamos consciência de nós mesmos, o que pode ocorrer mais cedo ou mais tarde, ou até mesmo não ocorrer, verificamos que, além de sermos sempre situados e datados, temos um 'temperamento', determinada estrutura fisiológica e psicológica, e graus de inteligência, sensibilidade e vontade. Poderemos, inclusive, não estar satisfeitos com o temperamento com que nascemos e que não nos é dado substituir por outro. Mas, o que importa salientar, no momento, é que o homem não é apenas razão, porque, se fosse razão pura, comportar-se-ia sempre racionalmente, e a História Da Humanidade não seria o que tem sido, história de crimes, massacres, torturas, guerras, etc. Ora, dizer que o homem não é apenas razão corresponde a dizer que sua 'natureza' inclui elementos não racionais embora, em tese, redutíveis à razão. A irracionalidade é a região 'colérica' do ser humano, o que nele subsiste da animalidade, que nos animais é pura, porque os animais não são livres, mas determinados, e por isso se acham, não acima, mas aquém do bem e do mal."



A natureza humana, o reduto da Desumanidade. A natureza humana, a origem das manifestações da Desumanidade. A natureza humana, o ponto de iniciação de todo desumano ato. Afirmando isso, os seres humanos, autênticos portadores do Homo violens em si, seriam íntegros desumanos ao invés de parcialmente aceitarem-se como "propensos a um ato violento em circunstâncias especiais". O sonho deve ser derrubado, o sonho de que apenas determinados indivíduos podem matar, estuprar e corromper os demais indivíduos que como vítimas escolhe. A aceitação de tal pensamento é um ato de Desumanidade, pois perfeitamente leva a esquecer que os atos daquele indivíduo em questão são oriundos da própria natureza humana. Desumano também é ver-se que a violência diária, a mais direta, esta da qual se fala acima no trecho de Corbisier, cotidianemante é aceita como rotineira e normal. Contraditório é o ser desumano. Incoerente é o ser desumano. Desequilibrado é o ser desumano.


Mas, se a autenticidade é verificada no Homo violens, a harmonia, a coerência e o equilíbrio autenticamente fazem parte do ser desumano. Contudo, tudo é negado pela maioria desumana. E ainda fala-se em Direitos Humanos. Quais Direitos Humanos em um mundo de Não-Direitos Humanos?





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